O pintor e sua biblioteca
Samarone Lima
Aqui na tv a cabo do Hotel Everest, em Porto Alegre, o senhor Aderian Boult ataca de Mozart. Piano concerto número 20 em D menor (allegro). Quase sem escalas, saio das pedras do reino para a 54a Feira do Livro de Porto Alegre. Tudo vai se desdobrando. Ontem, a aula-espetáculo de Ariano Suassuna, no teatro Sancho Pança, amoleceu tudo que era de gaúcho. Mais de mil pessoas se espremeram a assistiram uma aula que chegou perto da perfeição. Ao final, uma ovação, daquelas que a gente escuta só de vez em quando na vida, quando algo é muito bom.
Pra variar, saio catando meus personagens. Na fila, encontrei o senhor Roberto Sampaio, ao lado da filha Bruna. Roberto é um pintor de parede, e no dia anterior, estava na exposição sobre Gilberto Freyre e as “iluminogravuras” de Ariano, no Santander Cultural, um negócio chique pacas. Ele conseguiu o convite e foi com a filha, com a missão exclusiva de pegar um autógrafo, quem sabe dar um abraço no velho mestre.
Dei uma forcinha, ele tirou foto com a filha e o escritor. Depois, ficou sem conseguir falar direito.
Na aula de ontem, ele ficou pertinho do palco, com a filha ao lado, os olhos marejados. Depois da emoção, me contou de sua vida. Aos 11 anos, após discutir com um amigo argentino, que sabia tudo de Monteiro Lobato e ele não tinha lido nada, Roberto foi à desforra, e começou a ler tudo. Como não tinha dinheiro, começou a pedir a todo mundo.
Hoje, a Biblioteca Comunitária Amigos do Livro, em Porto Alegre, tem 26 mil exemplares, que ele foi pedindo em todo canto. Funciona os 365 dias do ano, mesmo em natal, ano-novo. A família toma de conta. A outra filha, de nove anos, fica na parte da manhã.
“Construímos nossa biblioteca com a força da comunidade. Um deu meio saco de cimento, outro deu uns tijolos, outro trouxe um pedaço de cano, e fomos nascendo”.
Roberto me lembrou muito o camarada que fez uma biblioteca na comunidade do Bode, que recentemente foi visitada até pelo ministro da Cultura. Esqueci o nome do sujeito agora, mas o magro Valadares, autor da belíssima matéria no JC, pode me ajudar.
Mesmo já sendo um repórter caminhando para o que se diz “da velha guarda”, não me canso de me emocionar com essas criaturas simples, que vão mudando uma casa, uma rua, um pequeno pedaço do mundo, aquele onde vive, onde respira, onde está seu cachorro, seu vizinho, um pé de ipê-rôxo, um jacarandá. O depoimento que ele me deu para o documentário que estou conduzindo é tocante, sincero, de uma paixão arrebatadora pelos livros. Há gente no mundo que descobre o poder dos livros, e quer somente compartilhar isso. Roberto é um desses. O cenário não poderia ser mais apropriado - numa fila para ver uma apresentação de um escritor de 81 anos, numa feira de livros. Parecia mais um passarinho cantando.
Ele certamente não estaria ali, se não fossem os livros. Estaria pintando paredes. Para conseguir chegar a tempo, fez um serviço extra bem rápido, de manhã, e foi de ônibus, para pegar um lugar bom na fila. As mãos dele ainda tinham marcas de tinta branca. Bruna, a filha, olhava com orgulho o pai falando de sua emoçao com os livros.
Vou aqui. Alguém em Porto Alegre precisa trabalhar, nem que seja no Mercado Público.
ps. estou publicando os textos sobre a Feira do Livro de Porto Alegre para a revista Continente (www.revistacontinente.com.br)
Postado em Crônicas |
8 Comentários »




