Numa fria: cronista no meio da avalanche
Samarone Lima
Desde Porto Alegre, bah.
Amigos leitores, algum dia escreverei a série “numa fria”. Ontem, pude viver mais uma, e passo a vos contar.
Às 18h45, eu já estava livre dos afazeres jornalísticos. Cisquei à vontade pela Feira do Livro de Porto Alegre, mandei material para o site da Continente, enfim. Caminharia para uma noite bucólica em Porto Alegre, em meio aos livros e vinhos. Eis que meu amigo Rafael me convida para assistir Grêmio X Ipatinga, no Estádio Olímpico. Eu, de sandálias de couro, calça e uma camisa marrom, aceitei na hora. Rafael queria me levar para conhecer a “avalanche”, torcida meio louca do Grêmio, que aparece sempre na TV, tentando um suicídio coletivo, após cada gol.
Fomos à casa de Rafa, ele pegou sua camisa e caminhamos para o estádio. Primeiro choque – a geral, que fica detrás do gol, custa trinta pilas (escrevo do jeito que os gaúchos falam). Pegamos um latão de cerveja, botamos no copo, mas o policial proibe nossa entrada. Temos que beber um copção na base do gut gut. É horrível.
Entramos no estádio com dez minutos de jogo. Todos estão vestidos de Grêmio, eu com minha camisa marrom, pareço um pardal. Como a avalanche está lotada, ficamos num lugar intermediário, a avalanche-light, onde tem algumas crianças, barrigudinhos, profissionais liberais e até alguns com reumatismo. Aqui, pelo menos, não vou ser esmagado, penso. Preciso aprender a andar de tênis, para ocasiões como esta.
A torcida grita pacas e não vendem cerveja.
O Grêmio joga a pior partida de sua história, e sou testemunha. Nada funciona. Lá pelas tantas, o juiz dá uma força, o tricolor gaúcho empata. A avalanche ligt desliza suave, vou junto. Não atropelei ninguém, minha sandália não quebrou, todos estão vivos.
No segundo tempo, Rafa resolve fazer uma jornada rumo a outro amigo nosso, o Chime. Por celular, ele descobre que Chimi está no olho do furacão, exatamente onde estão os loucos, que não param de gritar e pular um minuto. Pensei ainda em dizer “aqui está ótimo, está dando sorte”, mas é tarde. Rafa atravessa as arquibancadas com uma habilidade incrível, vou tropeçando em gaúchos, pedindo desculpas, porque se Rafa sumir, vou ficar numa fria sozinho . Em cinco minutos, estamos no meio da confusão. Só tem gente jovem, disposta, cheia de energia. Tudo o que eles mais querem na vida é um gol do Grêmio.
No intervalo, os baseados vão e voltam com uma facilidade incrível. Havia mais maconha que gente, na torcida tricolor. Teve uma hora que o sujeito estava com dois fininhos na mão, oferecendo ao povo, mas estava todo mundo meio chapado. Chimi, que trouxe cachaça num saquinho dentro da cueca, já estava bem feliz da vida. Queria beber uma dose, mas a turma já tinha papado tudo. Os gremistas estavam chamando urubu de meu louro e ainda faltava o segundo tempo inteiro, longuíssimos 45 minutos, pelo menos para mim.
O Grêmio volta. Vai atacar para o nosso lado. Sou alertado que se alguém “estufar a gorduchina”, tenho que acompanhar a avalanche, que é descer correndo vários lances de arquibancada, acompanhado de milhares de outras pessoas. Tudo o que eu mais queria para uma noite de domingo.
A torcida canta o tempo inteiro “dá-lhe/dá-lhe/tricolor”. Aproveito para pegar um bigu e fico lembrando das arquibancadas do Arruda, do Santa Cruz, meus amigos, os gols, enfim.
Cada ataque do Grêmio, minha preocupação aumenta. Se sair um gol aqui, estou ferrado, meu óculos vão cair no fosso, a sandália, comprada em Afogados da Ingazeira, vai virar lembrança. Voltarei a pé, do Arruda, digo, do Olímpico, para a casa de Rafa.
O time do Grêmio, meus amigos, resolve piorar no segundo tempo. Nada de gol. Milhares de chapados seguem gritando. Daqui a pouco, começam a pular. Finjo algo, dobrando os joelhos. Me safo bem. Ainda faltam 15 longos minutos para o fim. Os caras ao meu lado são fortes, muita gente frequenta academia, estão loucos para correr arquibancada abaixo, caso o time faça outro gol. Prometo a mim mesmo que sobreviverei dessa, e que tentarei fazer programas mais lúdicos, como visitar o Memorial do Rio Grande do Sul, o Mercado Público, o Bar Naval, os sebos, coisas desse tipo.
O Ipatinga quase faz um gol no final, o que seria comovente para minha experiência de vida. Termina o jogo, uma parte da torcida vaia o time. É a turma das sociais. A turma da geral cobeça a dizer palavrões contra as sociais. “A gente nunca vaia, em hipótese alguma”, explica Rafa. Presencio um conflito social no Olímpico. Os torcedores de classe média, sócios do clube, são esculachados pela galera da geral. São palavrões mesmo, que não vale a pena citar, porque algumas senhoras frequentam este espaço.
Saímos do estádio, compramos dois latões, vamos bebericando. Agora sim, estou relaxado. Escapei de virar um baita sanduba. Está todo mundo cabisbaixo pacas. Os gremistas estão sofrendo pra burro, na fossa mesmo. O Palmeiras ganhou no finalzinho do Santos, o São Paulo ganhou do Internacional, o tricolor gaúcho caiu para a terceira colocação no Campeonato Brasileiro, depois de meses na liderança.
Acho um exagero também ficar tão zangado porque o time ganhou somente de um a zero. Comento com Rafa, ele me responde:
“O jogo foi empate, Samarone. O Ipatinga fez um gol antes de a gente entrar”.
Ôx, e eu sou algum médium, para ver coisas em outro canto?
Mudei de assunto para evitar conflitos de maior intensidade. Voltamos para casa, para assistir todas as mesas-redondas sobre futebol, e senti latejando no peito uma saudade imensa do meu Santa Cruz.
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8 Comentários »




3 de novembro de 2008, às 15:52h
BEM FEITO, VC DEVERIA IR A UM JOGO DO INTERNECIONAL !
3 de novembro de 2008, às 17:48h
me desculpe,imagino que o texto que vou te mandar não tem relação direta,digo,não é um comentário ao que o senhor escreveu,mas gostaria de te mandar mesmo assim,saber tua opnião…
agradeço antecipadamente e me desculpo por causar algum incomodo.
AOS DISCOS INTERCALARES:PULSAÇÃO TALÂMICA
(para ser lido ao som de “Good bye Lênin”-Yann Tiersen)
Ungüento da Madre-gota-além-Indico
Micro volume importantíssimo
,Tão comumente limitado pelo fogo,
Elemento formador de nó (SS)
Metonímia de infindos gumes
Cultivadora de solos,não de sementes
Base para matização
Syrinx
Geralmente não entendemos teu potencial
Fazendo-te luvas
Com doces toques esfolamos
Fazendo-te ferro nos blindamos
Fazendo-te espelho,individualmente,nos adoramos
Fazendo-te lagrimas a muitos afogamos
Fazendo-te palavras
Em vítimas ,cinicamente,nos tornamos
Pano tão mal utilizado
Podia ser rede larga,receptiva,aconchegante
Beira mar,brisa no fim do dia
Conversa com amigos em uma livraria
Mas retalhada vira uma boa venda
Seda chamativa e hipnótica
Baratinha,baratinha…
A cada virada,Satrupa
Um divino rosto a te devassar
É a evidência do
[nunca contentar-se de contente]
Afetuosa busca ou
Desejo “inconsciente” de violar?
Limite tênue
Busca que necessita ser bem elaborada
Pedra ancestral,mercúrio dos filósofos
Tua grandeza é que tem que ser procurada
Simplesmente te usamos e mal!!!
Lambuzados com tuas cinzas nos esfregamos
Muitas vezes só bufamos
Pois gemer é [arte de cama]
Conseqüência de gozo,musica visceral,contemplação
Cansei de “ais” retóricos,seqüência de roteiro
De transformar meu narcísico umbigo em Afrodite
Direção para o mundo inteiro
Sentir apenas a eloqüência de minha dor
Quero então é teu mais alto grito
Tua verdadeira forma
Contato agregador
Força maior que a de Hiroshima,bomba-h
Obus decifrador
Tirar,permitidamente,minha sede com teu sorriso
Te quero,agora sim
E sem pudor!!!!
texto incompleto,eu acho…
3 de novembro de 2008, às 22:19h
Sama, adoro os teus relatos! São sempre os melhores
Ah! Cadê você no quemerospoemas?
Dá uma tristeza entrar lá e não ver atualização..
beijo!
4 de novembro de 2008, às 0:31h
não é por nada, mas você deve ter levado algumas dedadas…
4 de novembro de 2008, às 10:23h
e ainda falam das trasmissões da TV…
5 de novembro de 2008, às 10:16h
Rapaz, ainda bem que esse gol não saiu. Que sorte!
E o nosso Santinha está se reestruturando, vamos torcer!
9 de novembro de 2008, às 19:29h
Samarone, adoro vc, mas como torci pra o Grêmio ter feito outro gol enquanto lia essa crônica, kkkkkkkk.
13 de novembro de 2008, às 11:38h
On jogo não foi Grêmio X Figueirense, por acaso?
Não muda o enredo, mas alguns personagens. Neste caso secundários.