Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Numa fria: cronista no meio da avalanche

3 de novembro de 2008, às 12:58h por Samarone Lima

Desde Porto Alegre, bah.

Amigos leitores, algum dia escreverei a série “numa fria”. Ontem, pude viver mais uma, e passo a vos contar.

Às 18h45, eu já estava livre dos afazeres jornalísticos. Cisquei à vontade pela Feira do Livro de Porto Alegre, mandei material para o site da Continente, enfim. Caminharia para uma noite bucólica em Porto Alegre, em meio aos livros e vinhos. Eis que meu amigo Rafael me convida para assistir Grêmio X Ipatinga, no Estádio Olímpico. Eu, de sandálias de couro, calça e uma camisa marrom, aceitei na hora. Rafael queria me levar para conhecer a “avalanche”, torcida meio louca do Grêmio, que aparece sempre na TV, tentando um suicídio coletivo, após cada gol.

Fomos à casa de Rafa, ele pegou sua camisa e caminhamos para o estádio. Primeiro choque – a geral, que fica detrás do gol, custa trinta pilas (escrevo do jeito que os gaúchos falam). Pegamos um latão de cerveja, botamos no copo, mas o policial proibe nossa entrada. Temos que beber um copção na base do gut gut. É horrível.

Entramos no estádio com dez minutos de jogo. Todos estão vestidos de Grêmio, eu com minha camisa marrom, pareço um pardal. Como a avalanche está lotada, ficamos num lugar intermediário, a avalanche-light, onde tem algumas crianças, barrigudinhos, profissionais liberais e até alguns com reumatismo. Aqui, pelo menos, não vou ser esmagado, penso. Preciso aprender a andar de tênis, para ocasiões como esta.

A torcida grita pacas e não vendem cerveja.

O Grêmio joga a pior partida de sua história, e sou testemunha. Nada funciona. Lá pelas tantas, o juiz dá uma força, o tricolor gaúcho empata. A avalanche ligt desliza suave, vou junto. Não atropelei ninguém, minha sandália não quebrou, todos estão vivos.

No segundo tempo, Rafa resolve fazer uma jornada rumo a outro amigo nosso, o Chime. Por celular, ele descobre que Chimi está no olho do furacão, exatamente onde estão os loucos, que não param de gritar e pular um minuto. Pensei ainda em dizer “aqui está ótimo, está dando sorte”, mas é tarde. Rafa atravessa as arquibancadas com uma habilidade incrível, vou tropeçando em gaúchos, pedindo desculpas, porque se Rafa sumir, vou ficar numa fria sozinho . Em cinco minutos, estamos no meio da confusão. Só tem gente jovem, disposta, cheia de energia. Tudo o que eles mais querem na vida é um gol do Grêmio.

No intervalo, os baseados vão e voltam com uma facilidade incrível. Havia mais maconha que gente, na torcida tricolor. Teve uma hora que o sujeito estava com dois fininhos na mão, oferecendo ao povo, mas estava todo mundo meio chapado. Chimi, que trouxe cachaça num saquinho dentro da cueca, já estava bem feliz da vida. Queria beber uma dose, mas a turma já tinha papado tudo. Os gremistas estavam chamando urubu de meu louro e ainda faltava o segundo tempo inteiro, longuíssimos 45 minutos, pelo menos para mim.

O Grêmio volta.  Vai atacar para o nosso lado. Sou alertado que se alguém “estufar a gorduchina”, tenho que acompanhar a avalanche, que é descer correndo vários lances de arquibancada, acompanhado de milhares de outras pessoas. Tudo o que eu mais queria para uma noite de domingo.

A torcida canta o tempo inteiro “dá-lhe/dá-lhe/tricolor”. Aproveito para pegar um bigu e fico lembrando das arquibancadas do Arruda, do Santa Cruz, meus amigos, os gols, enfim.

Cada ataque do Grêmio, minha preocupação aumenta. Se sair um gol aqui, estou ferrado, meu óculos vão cair no fosso, a sandália, comprada em Afogados da Ingazeira, vai virar lembrança. Voltarei a pé, do Arruda, digo, do Olímpico, para a casa de Rafa.

O time do Grêmio, meus amigos, resolve piorar no segundo tempo. Nada de gol. Milhares de chapados seguem gritando. Daqui a pouco, começam a pular. Finjo algo, dobrando os joelhos. Me safo bem. Ainda faltam 15 longos minutos para o fim. Os caras ao meu lado são fortes, muita gente frequenta academia, estão loucos para correr arquibancada abaixo, caso o time faça outro gol. Prometo a mim mesmo que sobreviverei dessa, e que tentarei fazer programas mais lúdicos, como visitar o Memorial do Rio Grande do Sul, o Mercado Público, o Bar Naval, os sebos, coisas desse tipo.

O Ipatinga quase faz um gol no final, o que seria comovente para minha experiência de vida. Termina o jogo, uma parte da torcida vaia o time. É a turma das sociais. A turma da geral cobeça a dizer palavrões contra as sociais. “A gente nunca vaia, em hipótese alguma”, explica Rafa. Presencio um conflito social no Olímpico. Os torcedores de classe média, sócios do clube, são esculachados pela galera da geral. São palavrões mesmo, que não vale a pena citar, porque algumas senhoras frequentam este espaço.

Saímos do estádio, compramos dois latões, vamos bebericando. Agora sim, estou relaxado. Escapei de virar um baita sanduba. Está todo mundo cabisbaixo pacas. Os gremistas estão sofrendo pra burro, na fossa mesmo. O Palmeiras ganhou no finalzinho do Santos, o São Paulo ganhou do Internacional, o tricolor gaúcho caiu para a terceira colocação no Campeonato Brasileiro, depois de meses na liderança.

Acho um exagero também ficar tão zangado porque o time ganhou somente de um a zero. Comento com Rafa, ele me responde:

“O jogo foi empate, Samarone. O Ipatinga fez um gol antes de a gente entrar”.

Ôx, e eu sou algum médium, para ver coisas em outro canto?

Mudei de assunto para evitar conflitos de maior intensidade. Voltamos para casa, para assistir todas as mesas-redondas sobre futebol, e senti latejando no peito uma saudade imensa do meu Santa Cruz.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

8 Comentários

  1. bandeira Disse:

    BEM FEITO, VC DEVERIA IR A UM JOGO DO INTERNECIONAL !

  2. Confrade quintessente Disse:

    me desculpe,imagino que o texto que vou te mandar não tem relação direta,digo,não é um comentário ao que o senhor escreveu,mas gostaria de te mandar mesmo assim,saber tua opnião…
    agradeço antecipadamente e me desculpo por causar algum incomodo.
    AOS DISCOS INTERCALARES:PULSAÇÃO TALÂMICA
    (para ser lido ao som de “Good bye Lênin”-Yann Tiersen)

    Ungüento da Madre-gota-além-Indico
    Micro volume importantíssimo
    ,Tão comumente limitado pelo fogo,
    Elemento formador de nó (SS)

    Metonímia de infindos gumes
    Cultivadora de solos,não de sementes
    Base para matização
    Syrinx

    Geralmente não entendemos teu potencial
    Fazendo-te luvas
    Com doces toques esfolamos
    Fazendo-te ferro nos blindamos
    Fazendo-te espelho,individualmente,nos adoramos
    Fazendo-te lagrimas a muitos afogamos
    Fazendo-te palavras
    Em vítimas ,cinicamente,nos tornamos

    Pano tão mal utilizado
    Podia ser rede larga,receptiva,aconchegante
    Beira mar,brisa no fim do dia
    Conversa com amigos em uma livraria
    Mas retalhada vira uma boa venda
    Seda chamativa e hipnótica
    Baratinha,baratinha…

    A cada virada,Satrupa
    Um divino rosto a te devassar
    É a evidência do
    [nunca contentar-se de contente]
    Afetuosa busca ou
    Desejo “inconsciente” de violar?

    Limite tênue
    Busca que necessita ser bem elaborada
    Pedra ancestral,mercúrio dos filósofos
    Tua grandeza é que tem que ser procurada

    Simplesmente te usamos e mal!!!
    Lambuzados com tuas cinzas nos esfregamos
    Muitas vezes só bufamos
    Pois gemer é [arte de cama]
    Conseqüência de gozo,musica visceral,contemplação
    Cansei de “ais” retóricos,seqüência de roteiro
    De transformar meu narcísico umbigo em Afrodite
    Direção para o mundo inteiro
    Sentir apenas a eloqüência de minha dor

    Quero então é teu mais alto grito
    Tua verdadeira forma
    Contato agregador
    Força maior que a de Hiroshima,bomba-h
    Obus decifrador
    Tirar,permitidamente,minha sede com teu sorriso
    Te quero,agora sim
    E sem pudor!!!!

    texto incompleto,eu acho…

  3. Thaís Disse:

    Sama, adoro os teus relatos! São sempre os melhores :)

    Ah! Cadê você no quemerospoemas?

    Dá uma tristeza entrar lá e não ver atualização..

    beijo!

  4. Romero Disse:

    não é por nada, mas você deve ter levado algumas dedadas…

  5. joão áquila Disse:

    e ainda falam das trasmissões da TV…

  6. Anonimus Disse:

    Rapaz, ainda bem que esse gol não saiu. Que sorte!
    E o nosso Santinha está se reestruturando, vamos torcer!

  7. Suyene Carvalho Disse:

    Samarone, adoro vc, mas como torci pra o Grêmio ter feito outro gol enquanto lia essa crônica, kkkkkkkk.

  8. Beto Silva Disse:

    On jogo não foi Grêmio X Figueirense, por acaso?
    Não muda o enredo, mas alguns personagens. Neste caso secundários.

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