Aleatórias
Samarone Lima
Talvez eu seja o sujeito no Brasil que mais programa seu dia, e que mais descumpre o que programou, ao longo do mesmo dia. Fora isso, sou esquecido, com tendência à desatenção generalizada. À beira dos 40 anos, sei que a cura está cada vez mais longe. Acabo de chegar de uma viagem, e descubro que perdi o pen-drive, com dezenas de arquivos. Deve estar no hotel onde me hospedei. Paciência. A vida segue, mesmo sem as tecnologias. Se alguém encontrar um pen-drive branco, que perdi em Garanhuns, favor entrar em contato com a produção.
Outro dia, numa viagem com Iramarai, derramei toda a água em cima da roupa e dos livros da mochila, os pen-drives ficaram ensopados, pensei que tinha perdido tudo. Assoprei, como quem tira cisco no olho da outra pessoa, “fff”, “fff” e os pen-drives ficaram jóias.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de caminhar. Sempre tem novidade nas ruas do Recife, ou nas ruas do mundo. Para gente distraída como eu, é como entrar num daqueles parques de antigamente, com roda-gigante, pula-pula e pipoqueiro. Outro dia, fiquei em dúvida se pegara a rua da Moeda ou a Marquês de Olinda, e nessa errância, encontrei o Pedro Saldanha, filósofo da nova geração, intelectual orgânico, crítico do marxismo ortodoxo, com sua vocação para escapar da marcação sem ficar impedido. Ele morava em Brasília, pelo que constava em ata, e estava num café, bucolicamente, conversando suas lorotas.
Semana passada, passei por Brasília, pensei em dar um pulinho na casa dele. Pedro está de volta ao Recife desde julho, e eu não sabia.
Mas acho bom isso. Me acostumei com o improvável, o imprevisto. Tento me divertir com essa sofreguidão do mundo, esse desespero das pessoas quando abre um sinal de trânsito, a indelicadeza mórbida de não fazer uma bondade, o dia inteiro. Tento entender a falta de gentileza que é o simples gesto de baixar um vidro para receber um anúncio, de uma pessoa que está trabalhando num sol de arrancar o couro. Não sei o que custa baixar o vidro para esses meninos que tentam lavar os vidros nos sinais, mesmo para dizer “velho, estou sem nada”.
Tenho achado que o mundo é dos gestos. Não é o Obama que me comove, é Rosa, que levanta o astral de minha tia-avó, quando ela está querendo ficar muito triste. É um professor da rede pública, que tenta fazer o seu, apesar desse mundo perverso, dessa grosseria generalizada nas salas de aula, como fala a nossa genial Grão de Bico. É a santa torcida do meu time, que vai ao estádio acompanhar as obras de recuperação do estádio, enquanto o campeonato não chega.
Um ex-aluno disse que graças a uma psicóloga da escola que trabalhamos, ele olhou pela primeira vez na vida para os olhos de outra pessoa. Ele estava com 18 anos. Ela, Ana Luiza, talvez nem saiba, que provocou isso numa criatura - a descoberta dos olhos alheios, de quem andava olhando maia para as calçadas que para as estrelas. Meu mundo é por aqui, por essas frestas, essas ranhuras, esses orvalhos ao meio dia, num mundo que vai se fechando em pequenas bolhas.
Distraídos, esquecidos, improváveis, errantes, saibam que não estão sós. Ontem, esqueci uma bolsa em cima da mureta da casa de tia, no Cabo. Dentro, o notebook que não é meu, dois cadernos de anotações quase cheios de inutilidades, e recortes de jornal, com as matérias mais bestas que encontro nos jornais. Numa delas, um juiz perdoava um jumento que tinha invadido uma pista de um aeroporto.
Rosa, sempre ela, encontrou a bolsa e me ligou, num celular que nunca funciona. Perguntou onde eu estava com a cabeça.
Ah, Rosa, essas perguntas difíceis…
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17 de novembro de 2008, às 18:30h
por falar nisso: não perdeste minha câmara fotográfica, não?
17 de novembro de 2008, às 21:30h
Se não fosse Rosa na tua vida, hein???
Um abraço
Saudades
17 de novembro de 2008, às 23:02h
Tu prometes nunca esquecer de mim?
18 de novembro de 2008, às 7:22h
OI NOBRE SAMA,
E TU CONSEGUES ESCREVER SONS: “fff” “fff”!!! ÉS UM MESTRE MESMO!!!
ABRAÇO FRATERNO,
GEYSON MONTE
18 de novembro de 2008, às 10:21h
haha
isso me lembrou o dia em que esqueci a chave de casa dentro da geladeira e fiquei procurando, procurando, procurando…
não achei.
quem achou foi o meu irmão, quando foi beber água.
beijo, sama
18 de novembro de 2008, às 11:08h
“Tento me divertir mesmo com essa sofreguidão do mundo, esse desespero das pessoas quando abre um sinal de trânsito, a indelicadeza mórbida de não fazer uma bondade, o dia inteiro.” Destaque para “fazer uma bondade, o dia inteiro”. Uma bondade, o dia inteiro, é a plenitude da bondade.
plac, plac, plac (são aplausos)…
E essa Ana Luiza hein, que mulher!!!!! Amo também, desse jeito que se ama gentes por serem simplesmente quem são…
18 de novembro de 2008, às 13:21h
o que são os perdidos, as perdidas entre tantas obrigações, compromissos, semáforos e carimbos? um pouco de oxigênio, no mínimo.
19 de novembro de 2008, às 2:46h
espero um dia caminhar e dar de cara contigo pra bater um papo, sama!
amo teus textos!
beijos
19 de novembro de 2008, às 2:49h
Que louco por algumas horas pensei isso hoje, pq tanta indelicadeza? to morrendo de medo de ser um novo approach…Talvez indelicadeza seja a namorada da falta de compromisso. possible? Te vejo no carnaval ! Paty
19 de novembro de 2008, às 22:05h
“…a indelicadeza mórbida de não fazer uma bondade, o dia inteiro.” Esse é o meu cronista predileto, somente vc pra resumir tão bem o quão louco e egoísta anda esse mundo. Viva Samarone!!!
20 de novembro de 2008, às 22:51h
Sama!! Ai os esquecidos… sempre bom ser lembrada de que não estamos sozinhos.
Adorei e me deu uma saudade enorme desse amigo! êta que Salvador conclama uma visita!
bjos
21 de novembro de 2008, às 11:53h
Sama, Sama… desse jeito você acaba com o meu coração inventado.
Lindo!
Beijo
21 de novembro de 2008, às 14:11h
Fico feliz que o mundo lhe acolheu, que sua sabedoria foi suficiente para vc não precisar aliciar seus códigos genéticos e forçar um “ligamento”. Fico feliz por que o seu desligamento não tenha sido condenado, e de bobo vc não foi promovido a otário e não precisou fazer concurso público pra forjar um segurança longe das pancadas dos que não acolhem os desligados, dos que tentam ligar-nos a pulso. Não sei, posso ter sido fraco, mas neste código genético já não mexo mais. Um grande abraço meu caro herói
21 de novembro de 2008, às 15:07h
saaaaama, saudades de tu!!!
estás acumulando trabalho? bora marcar uma cerveja, porque a próxima aula demora, ainda
beijos
22 de novembro de 2008, às 15:51h
“Talvez eu seja o sujeito no Brasil que mais programa seu dia, e que mais descumpre o que programou, ao longo do mesmo dia.”
Estou na disputa também! E sou um forte candidato…
saudações
24 de novembro de 2008, às 1:37h
E eu, que nem tenho 30 anos ainda, com uma cabeça que só Deus sabe onde está… E a tendência é piorar.
Pena que Rosa não estava em Garanhuns, não é?
Abraço!
25 de novembro de 2008, às 15:46h
Sama,
Faz tanto tempo que nao tenho noticia de vc. Botei teu nome no google e encontrei esse blog. Fiquei superfeliz!
Que bom que vc continua escrevendo.
beijo,
Vania.
25 de novembro de 2008, às 15:59h
estou emocionada!
mesmo esquecendo de nos encontrar, que bom que você não nos esquece.
adoro você,
ana luíza