Geração 65: aquela coisa toda
Samarone Lima
“Geração 65: aquela coisa toda”, de Luci Alcântara, fez sua estréia oficial ontem, no lendário Cinema da Fundação, no Derby. O documentário resgata a trajetória de um grupo de poetas daquele período, que foi descoberto numa peripécia do acaso, pelo poeta e crítico César Leal. São 90 minutos delicados e dedicados à poesia, o amor à poesia. Uma geração de homens que se encontravam para compartilhar belezas. Vidas poéticas, num período de repressão. A criatura sai da sala de cinema respirando flores, recitando poemas, sentindo o coração cheio de borboremas. O certo seria ter uma banquinha à saída do cinema, com as obras dos poetas, para a gente já ir lendo no ônibus.
No filme, se destaca um poeta e tanto, Jaci Bezerra. O homem tem jeito contido, manso, modesto, mas cheio de força. Quando recita um poema seu, a beleza jorra de verdade. Pesquei algo dele na internet:
Este livro é o livro dos remorsos
Inventário de um tempo hoje disperso:
Nele sou uma cor, e me despeço,
Sou também uma luz, e, nele, endosso
A sede de ternura e a minha fome
De ser só o que sou, nele me expurgo;
Eu, neste libro, não me evado ou fujo,
E aceito a cinza hostil que me consome.
Há muito quis fazer este inventário,
Mas me faltou o ócio da manhã,
Além do ócio, o sal, a palha, a lã
E o alfabeto mofado dos diários.
Ao escrevê-lo eu sou pedra e chama,
Memória de um momento perturbado,
Nele me oferto inteiro e tatuado,
Rendido à solidão que me reclama.
Escrevo uma canção para quem ama
E entre angústia e tormento se procura,
Vida que se renova e se tortura,
Insônia que me invade e que me inflama.
Aqui, contabilizo o Deve e o Haver,
O momento fraterno e a omissão;
Aqui, serenamente, o coração
Deixa o que fui e sou acontecer.
(In: O Livro das Incandecências”, lançado em 1985, pelas Edições Pirata e Alternativa Apoio Cultural).
O homem é um poeta e tanto. Ao seu lado, Alberto da Cunha Melo, Carlos Targino, Marco Polo e outros que mexeram com a vida cultural do Recife. Todos merecem a atenção, e nisso a Luci foi uma sábia diretora - deixou todos bailarem na mesma festa, sem mergulhar na vida particular de cada um, nos encontros e desencontros de qualquer geração.
O que é bom no filme é o seguinte: a pessoa sai da sala de cinema louco por poesia. Quer ir à livraria mais próxima e procurar pela Geração de 65 de Pernambuco. Quer ler os poetas todos, de norte a sul, botar debaixo do braço, lamentar não tê-los conhecido antes. Dá tempo redescobrir. Geração 65: aquela coisa toda é mesmo uma coisa daquelas. Matei minha fome provisória e eterna de poesia.
Eu mesmo, um obcecado por poesia, conhecia mais a fundo somente o Alberto da Cunha Melo, que vem sendo a leitura do meu amigo Gustavo, em Brasília. Fora isso, ele, o Alberto, tem um poema sobre o bar Princesa Isabel, numa moldura. Era lá que ele bebia, e que encosto de vez em quando, para rabiscar minhas prosopopéias.
Ao final da exibição, palmas normais, contidas. Não sei que diabos os pernambucanos têm, que não soltam uivos, gritos, palmas de 15 minutos, quando uma coisa é boa. Agora, se for para vaiar, prepare o ouvido, que é uma esculhambação. A vaia de um pernambucano destrói carreiras.
A Luci Alcântara fez um trabalho lindo, durante um ano inteiro, pensou em desistir, mas foi até o fim. É um documentário que vai circular pelo país, e que merecia aplausos mais calorosos. Fiquei frustrado com os aplausos burocráticos. Temos que celebrar de forma mais selvagem as coisas muito boas.
Depois da estréia, fomos convidados para um coquetel no Bar Central. Falei do Jaci Bezerra, que me encantou, e a Andréia Mota cismou de me apresentar ao camarada. Fui lá, a contragosto e a favorgosto. Ele me recebeu bem, pude apertar sua mão e dizer que sua poesia é muito boa. Ele foi gentilíssimo, me deu até o email, que sua esposa abre e imprime. Tentarei visitá-lo qualquer dia desses, para um breve colóquio.
Da Geração de 65, fica o sentimento de homens que viveram com e para a poesia. Creio que viveram uma vida melhor.
O mundo fica melhor com os poetas, e com gente como a Luci, que faz documentários sobre os poetas.
Para completar: www.65aquelacoisatoda.com
Encerro com o poema “Condições nem tanto objetivas”, de Alberto da Cunha Melo:
Tudo isso aconteceu
enquanto os sóbrios
chegavam cedo em casa
para alcançar os filhos acordados.
Tudo isso aconteceu
enquanto os mansos
apertavam nas mãos
o cascalho de ferro
para não matar
os que matavam em paz.
Tudo isso aconteceu
enquanto os justos
consultavam “O Eclesiástico”
para dividir a castigo
em partes iguais.
Tudo isso aconteceu
enquanto o amor, o trabalho
e outras desculpas verdadeiras
se tornavam a ponte
para que isso acontecesse.
Postado em Crônicas |




26 de novembro de 2008, às 16:39h
OI NOBRE SAMA,
NAVEGANDO NA NET, ENCONTREI UMA PÉROLA QUE SEI, VOCÊ ADORARIA SE HOSPEDAR POR LÁ.
HOTEL LIVRARIA
Localizado em Nova Iorque, esse inusitado hotel tem cada andar dedicado a uma área. Por exemplo: o quinto andar é das Ciências. O projeto do Library Hotel é do arquiteto Steven B. Jacobs, em parceria com o designer de interiores Andi Pepper. Para respirar esse ar intelectual é preciso desembolsar a partir de US$ 275 por dia.
VAIS FAZER A RESERVA QUANDO??? HE,HE,HE. BOAS LEITURAS!!!
ABRAÇÃO FRATERNO!!!
GEYSON MONTE
26 de novembro de 2008, às 22:49h
Oi Samarone, esqueceram de Don Antônio Gomes, grande poeta e teatrólogo recifense que foi contar seus contos e poesias junto aos anjos em dezembro do ano passado. Ele merecia uma homenagem nesse filme…
28 de novembro de 2008, às 11:26h
poemas =)
deu vontade de assistir.
beijo,sama!