CEU
Samarone Lima
A Casa do Estudante Universitário da UFPE é chamada de “CEU”, sem acento. Quando morei lá, passei por dias infernais, quando a reitoria cortava verba para o Restaurante Universitário, e a gente tinha que fazer passeata, esperar horas por uma audiência, numa fome dos diabos. Mas naqueles quatro anos de CEU, vivi dias felizes, aprendi muito com meus companheiros. Alguns se tornaram mesmo umas “formigas aladas”, como diz o Joaquim Cardoso em um de seus poemas.
Foram quatro anos dedicados à leitura, aulas, estágios, no jogo da sobrevivência. Ali, botei as estacas da minha jornada. Na minha época, tinha todo tipo de gente, credos, vícios, normal em um lugar que abrigava quase 200 homens, todos jovens, grande parte gente do interior do Nordeste. Se consumia maconha, alguns tomavam porres danados, um camarada tinha surtos psicóticos e ficava 15 dias zanzando, com uma lata de cola. Tinha a “ala gay”. Nessa diversidade, vivíamos, estudávamos, nos aporrinhávamos, brigávamos. Eu, quando me zangava, escrevia artigos devastadores, rebatidos em tréplicas que faziam o mural pegar fogo.
Vejo agora nos jornais do Recife alto estarrecedor. O atuais residentes da CEU estão envolvidos numa guerra interna envolvendo homossexuais, que concorreram às eleições em uma das chapas e perderam. Após a eleição, os muito machos ficaram meio irados, e o clima ficou esquisito.
Li as notícias e fiquei perplexo. Acusações mútuas, investigação no Departamento de Assuntos Estudantis (DAE), ameaças. A defesa dos muito machos diz que os gays usam roupa de mulher e pintaram o orelhão de rosa. Chega a ser patético.
Tudo o que posso dizer a esses rapazes é que correm o risco de perder um dos melhores momentos da vida. Gays e machões podem fazer coisas lindas dentro de uma universidade pública. Podem fazer juntos uma horta, podem plantar mais árvores ao redor da CEU, como fez um camarada da minha época, que esqueci o nome agora, e que chorou de emoção, quando voltou anos depois, e viu as árvores enormes, dando sombra.
Podem fazer como Xico Sá e Ronaldo Correia de Brito, que aproveitaram os anos de CEU e saíram de lá para encantar as pessoas, com suas prosas e modas. Podem sair das páginas policiais e tentar fazer algum trabalho voluntário, no Engenho do Meio. Ao invés de gritos histéricos, poderiam procurar a Ivana Fechine, professora da Comunicação, que faz um trabalho fantástico com jovens do Coque, e se oferecer para trabalhar como voluntário.
Tive brigas políticas as mais radicais com um bloco adversário, que eram resolvidas em assembléias que pegavam fogo, que cresciam com textos colocados no mural. Nunca chegamos ao absurdo das ameaças e ofensas pessoais, como acontece agora. Acho que todos cresceram de alguma forma. Anos depois, nos encontramos, demos mãos, admitimos uma certa admiração pela firmeza em defender nossos pontos de vista.
Aos declaradamente gays e machos-machos, espero que se lembrem que são seres humanos, vivendo na mesma casa. Deixem de besteiras, chamem uma assembléia, conversem, discutam, mas não voltem às páginas policiais. A CEU não merece se transformar num inferno. A vida já está muito dura, meus irmãos.
Samarone Lima, ex-apartamento 314.
Aos companheiros daqueles tempos: Erik Nunes (Moral), Negão 70, Naninho, Dragão, Canoa, Gêgê, Tourão, Geovane, Manoel Rocha, Pérsio Pé Duro, Tijolinho e tantos outros grandes sujeitos.
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27 de novembro de 2008, às 22:21h
Lamentável!!!
27 de novembro de 2008, às 23:33h
Importante o teu depoimento e essa chamada para as formas de convivência.A vida de estudante já não é fácil e esse sentimento de divisas,grupos fechados, só piora.
Que bom a tua precupação e alerta. Que tal vc propor uns debates, um movimneto no sentido de ouvir a galera e conhecer mais da situação pra ajudar. Aproveita e convida os antigos colegas da casa( CEU).
Fica a sugestão. Bjo
28 de novembro de 2008, às 0:25h
Gostei do recado.
É importante viver a universidade, pois é um tempo muito único. Depois que a gente sai é que percebe, eu mesmo já estou prestes a sair e começo a sentir uma ponta de nostalgia.
Tomara que essa situação se resolva de melhor forma.
grande abraço
28 de novembro de 2008, às 3:21h
Recado certeiro, camarada!
28 de novembro de 2008, às 11:09h
E o que é mais deprimente é saber,que isto é de conhecimento da nossa Magnifica Reitoria há 6 meses.
28 de novembro de 2008, às 13:49h
Seria tão bom que as pessoas tivessem um mínimo dessa sensibilidade numa situação assim. Mas os machões acham que sensibilidade é coisa feia.
28 de novembro de 2008, às 23:02h
Olha, muito bom o texto, Samarone! Sou estudante do curso de Ciências Sociais da UFPE e tomei conhecimento do caso através de amigos da CEU. Espero que seja realmente possível uma solução sensata entre os 2 grupos, mas temo que “a CEU se torne um inferno”, pelo andar da carruagem.
30 de novembro de 2008, às 0:10h
Grande Samarone,
Não precisei morar no CEU, mas conheci alguns poucos que viveram bons anos na parte final da década de 80 por lá. O medo de um deles era que, à época, tinha muita denúncia de comida estragada… mas não me lembro dele passando mal.
Meu sogro morou no CEU há quase 50 anos, muita gente até se encontra anualmente hoje. Ele me conta inúmeras histórias, gréias, farras, festas (tinha uma tal de Noca, que era a festa de família mais desejada por todos - será que vem daí a expressão Casa de Noca?), um hoje médico que levava 6 cachaceiros em sua lambreta, mas jamais me relatou esse tipo de incidente (claro, o lado rosa era silente via de regra naquela época, falo de grupos se deplorando como inimigos ferrenhos), mas o que restou foram as loucuras e felicidades, não as imbecilidades.
Quando se pensa na modernidade, no avanço das relações, notícias como a que você relatou e de que todos soubemos.
Triste demais. Li sobre o assunto e li versões a respeito. Para mim, de fora, parece que foi uma mistura de imbecilidade de um lado (dos machões) com imbecilidade do outro (o time rosa, assim designado). Ninguém está a fim de discutir política ou cidadania, querem é brincar de discutir, tirar proveito da situação. Não são dois lados, são o mesmo grupo, o dos que não estão nem aí para nada, querem é zoar e pronto. Esses caras nem para tomar uma prestam, tenho certeza.
Na certa, a disputa levará o grupo vencedor para mais próximo de alguns políticos e, por conseguinte, à boquinha desejada, o “se dar bem” fácil.
2 de dezembro de 2008, às 2:02h
Olá Samarone! É um prazer conhecê-lo, pelo menos virtualmente!
Sou residente e atual coordenador de Política e Projetos da CEU-M até 31-12-08. Estou no olho do furacão dessa história junto com alguns colegas não apenas homo, mas também heterossexuais que aceitam os gays com todas as suas diferenças e semelhanças. Nós também lamentamos estarmos em páginas policiais, depondo em delegacia… – Meu Deus, onde chegamos! Mas gostaria de dizer a vc e seus leitores que pra os homossexuais da CEU-M a convivência com alguns heterossexuais homofóbicos se tornou muito difícil nesses últimos dias.
Depois de anos de tentativas a vulgarmente chamada “Chapa Rosa” assumiu a diretoria da Casa em janeiro de 2008. Essa chapa, na verdade chamada de “Imagem não é nada, ação é tudo”, não é composta apenas por gays como dá a entender. O próprio apelido do nosso grupo já era uma tentativa de nos minimizar. Vc deve saber que discriminação homofóbica não é algo novo na CEU e muito menos na nossa sociedade. Desde sempre homossexuais foram discriminados em tudo que é lugar e aqui na Casa também. Não foi tão diferente em 1987…, 1997…, 2007 ou 2008. Nós, residentes e ou diretores/coordenadores da Casa gays ou não, sempre informamos a situação a Reitoria, solicitamos medidas socio-educativas, pois discordamos da punição como forma de se superar a intolerância. Sempre evitamos responder com mais violência, verbal ou física como fomos vítima muitas vezes. Evitamos delegacia, imprensa, sempre temendo se expor a mais discriminação. A reitoria – é uma pena – nunca fez nada perante nossa humilhante posição. Os “machões-machões”, como vc fala, infelizmente encaram qualquer manifestação homoafetiva ou de “feminilidade” como agressão a sua masculinidade, à moral etc. Se um morador veste uma saia, sentem-se agredidos; se dois residentes se abraçam ou dançam, também se doem; se outro dá uma “pinta”, idem. Imagino que se talvez algum residente beijar em público um homem aqui dentro da Casa será apedrejado. É complicado no lugar onde vc mora não puder expressar livremente sua identidade, seja ela qual for. Já não basta ter que se reprimir no trabalho, por exemplo? É complicado, difícil, indigno, revoltante…
Depois que perdemos a reeleição, a onda homofóbica aumentou mesmo antes de a chapa vencedora assumir. Já houve de cara: ameaça, agressão física e verbal, logo após o resultado da eleição. As falas dos policiais do filme Tropa de Elite era o que de mais leve se ouvia: “Pede pra sair! Pede pra sair, porra!”. Isso era repetido nos corredores e ecoava ameaçador pela Casa.
Essa onda homofóbica ainda está varrendo a CEU-M, diga-se de passagem. Domingo (24-11) e quinta-feira (27-11) houve mais manifestações verbais homofóbicas e ameaçadoras dentro da casa.
Enquanto homossexual, percebo que este grupo específico dentro da Casa está acuado e cansado de tanta porrada sem que nada se faça pra resolver a situação. Por isso resolvemos, então, parar de empurrar isso com a barriga e partir pra outras vias: imprensa, justiça, o que for… Enfim: dar a cara pra bater. Se a reitoria não fez nada, então, temos que fazer nós mesmos. Partirmos pra briga judicial! Pois agredir uns aos outros não resolveria nada, não é mesmo!?
Iremos até as últimas instâncias pra tentar resolver o problema, apesar de suas raízes culturais históricas. Estamos processando os agressores e faremos o mesmo com a UFPE. A atual administração da universidade tentou emplacar nos meios de comunicação que o ocorrido aqui era um conflito político entre residentes em decorrência da eleição da diretoria. Porém, isto lhe é muito conveniente quando foi omissa a tudo que ocorria na Casa, apesar de ter recebido relatos de homofobia escritos e devidamente protocolados. Fora tudo que foi informado verbalmente às assistentes sociais, a coordenadora e a diretora do DAE. Até a pró-reitora de assuntos acadêmicos sabia, mas só instituiu uma sindicância depois que os fatos ganharam a mídia.
Não dava mais pra esperar pela universidade. Tomara que esta última alternativa funcione. Que a justiça tire a venda dos olhos!
Quanto a seu texto, gostei muito! Muito obrigado por suas sugestões. Não serão esquecidas. Parte delas, inclusive, já povoa nossos pensamentos e também ações.
Aproveito a oportunidade para lhe fazer dois convites: visitar a CEU-M e publicar esse seu artigo no livro da próxima Semana de Arte e Cultura das CEU’s, ano que vem. Se vc aceitar pelo menos o primeiro convite será presenteado com as duas últimas publicações das nossas Semanas de Arte e Cultura.
Convida a galera de tua época pra visitar-nos também!
Uma vez Xepeiro! Sempre Xepeiro!
Forte abraço!