O primeiro dia
Samarone Lima
Coisa ruim mesmo é esse tal de primeiro dia em um novo trabalho. Todo mundo sabe onde estão as coisas, todos sabem que é preciso usar o zero para discar, todos sabem onde está o copo descartável, onde esconderam a garrafa do cafezinho, onde mora o bebedouro há doze anos. O banheiro não está no subsolo e é óbvio que o elevador está bem ali, é só olhar.
Não sei quantos primeiros dias já tive na vida. Dá cansaço até de contar, porque já trabalhei em dezenas de redações, projetos, setores, assessorias, sonhos, frias. Hoje, enfrentei mais um. A goleada foi sonora.
Quando cheguei, minha nova chefe vinha descendo a escada. Vou sair e volto em dez minutos, me espere na minha sala, foi o que ela disse.
Fui para a sala dela. A secretária me olhou desconfiada, mas me deixou entrar. Um calor dos diabos. No primeiro dia de trabalho, o ar-condicionado da empresa invariavelmente está quebrado, e nesse dia, faz muito calor. Resolvi esperar do lado de fora, onde corria mais vento. Até o sofá está ocupado, no primeiro dia do cara. Três caras, do nada, sentados ali, para me provocar.
Havia o chefe da minha chefe, que conheci em Porto Alegre. O vi de raspão, entrando na sala da presidência. A presidente, por sinal, passou por mim, me deu um abraço e disse “que bom que você chegou”.
Todos desapareceram de repente, numa estranha combinação feita logo cedo. Nessas horas, parece até que o sujeito só tem um bolso, para não esconder as duas mãos. Imediatamente, minha mochila começou a pesar 122 quilos.
Fiquei esperando, voltei para a sala da minha chefe. Eu sou o homem que mais teve chefes mulheres do Brasil. Melhor aguentar o calor (sem trema, claro), que ficar desamparado no meio de um corredor, com uma mochila pesada, que dá escoliose. Fiquei lendo um poeta português, o Herberto Helder, que me acalmou.
Li um bocado de poemas, mas não dá para ficar de fulozô, no primeiro dia de trabalho, lendo poesia. Resolvi fazer algo. Fazia tempo que eu não tinha um primeiro dia tão assim, impedido, cheio de prosopopéias e artimanhas.
Busquei meu chefe, que é chefe da minha chefe. Continuava em reunião. Fui para a sala dele. A secretária, muito simpática e solícita, me ofereceu uma cadeira. Olhei de esguelha para o computador, já pensando em uma cronicazinha, mas um sujeito chegou e começou a usá-lo, sem me consultar.
Fiquei batendo os dedinhos numa mesa, impaciente. Perambulei umas quadras, dentro do prédio, encontrei o cafezinho e a água. Procurei uma amiga, a Beth, que trabalha por lá, mas tive problemas com os andares. Disseram que ela trabalhava no segundo andar, quando cheguei lá, era no primeiro. Quando voltei ao primeiro, era no segundo. Mas será o benedito! Fiquei por ali, para ver no que dava. Nessas horas, sempre aparece um amigo com. Nada. Uma legião de desconhecidos.
A julgar pelo movimento das pessoas, terei que trabalhar muito – e rápido. Todo mundo passava por mim e fazia “zapt!”, “fiu!”, esses barulhos dos objetos quando são mais rápidos que o vento, e que passam tirando fino na gente. Fui me esquivando como dava.
Voltei à sala da minha chefe pela terceira vez, cabisbaixo, como quem leva uma buchuda no dominó, numa manhã de domingo. Uma santa mulher me disse que ela, minha chefe, tinha saído para uma emergência, e que iria demorar. Sugeriu que eu voltasse depois, porque tempo é ouro.
Me despedi dos desconhecidos, que não devem ter entendido nada. Pesquei mais um cafezinho, que deixou boa impressão. Nem amargo nem doce.
Amanhã voltarei para o segundo dia. Hoje, me senti como aquele atacante, que mesmo desmarcado, está sempre impedido.
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