Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O primeiro dia

11 de novembro de 2008, às 11:50h por Samarone Lima

Coisa ruim mesmo é esse tal de primeiro dia em um novo trabalho. Todo mundo sabe onde estão as coisas, todos sabem que é preciso usar o zero para discar, todos sabem onde está o copo descartável, onde esconderam a garrafa do cafezinho, onde mora o bebedouro há doze anos. O banheiro não está no subsolo e é óbvio que o elevador está bem ali, é só olhar.

Não sei quantos primeiros dias já tive na vida. Dá cansaço até de contar, porque já trabalhei em dezenas de redações, projetos, setores, assessorias, sonhos, frias. Hoje, enfrentei mais um. A goleada foi sonora.

Quando cheguei, minha nova chefe vinha descendo a escada. Vou sair e volto em dez minutos, me espere na minha sala, foi o que ela disse.

Fui para a sala dela. A secretária me olhou desconfiada, mas me deixou entrar. Um calor dos diabos. No primeiro dia de trabalho, o ar-condicionado da empresa invariavelmente está quebrado, e nesse dia, faz muito calor. Resolvi esperar do lado de fora, onde corria mais vento. Até o sofá está ocupado, no primeiro dia do cara. Três caras, do nada, sentados ali, para me provocar.

Havia o chefe da minha chefe, que conheci em Porto Alegre. O vi de raspão, entrando na sala da presidência. A presidente, por sinal, passou por mim, me deu um abraço e disse “que bom que você chegou”.

Todos desapareceram de repente, numa estranha combinação feita logo cedo. Nessas horas, parece até que o sujeito só tem um bolso, para não esconder as duas mãos. Imediatamente, minha mochila começou a pesar 122 quilos.

Fiquei esperando, voltei para a sala da minha chefe. Eu sou o homem que mais teve chefes mulheres do Brasil. Melhor aguentar o calor (sem trema, claro), que ficar desamparado no meio de um corredor, com uma mochila pesada, que dá escoliose. Fiquei lendo um poeta português, o Herberto Helder, que me acalmou.

Li um bocado de poemas, mas não dá para ficar de fulozô, no primeiro dia de trabalho, lendo poesia. Resolvi fazer algo. Fazia tempo que eu não tinha um primeiro dia tão assim, impedido, cheio de prosopopéias e artimanhas.

Busquei meu chefe, que é chefe da minha chefe. Continuava em reunião. Fui para a sala dele. A secretária, muito simpática e solícita, me ofereceu uma cadeira. Olhei de esguelha para o computador, já pensando em uma cronicazinha, mas um sujeito chegou e começou a usá-lo, sem me consultar.

Fiquei batendo os dedinhos numa mesa, impaciente. Perambulei umas quadras, dentro do prédio, encontrei o cafezinho e a água. Procurei uma amiga, a Beth, que trabalha por lá, mas tive problemas com os andares. Disseram que ela trabalhava no segundo andar, quando cheguei lá, era no primeiro. Quando voltei ao primeiro, era no segundo. Mas será o benedito! Fiquei por ali, para ver no que dava. Nessas horas, sempre aparece um amigo com. Nada. Uma legião de desconhecidos.

A julgar pelo movimento das pessoas, terei que trabalhar muito – e rápido. Todo mundo passava por mim e fazia “zapt!”, “fiu!”, esses barulhos dos objetos quando são mais rápidos que o vento, e que passam tirando fino na gente. Fui me esquivando como dava. 

Voltei à sala da minha chefe pela terceira vez, cabisbaixo, como quem leva uma buchuda no dominó, numa manhã de domingo. Uma santa mulher me disse que ela, minha chefe, tinha saído para uma emergência, e que iria demorar. Sugeriu que eu voltasse depois, porque tempo é ouro.

Me despedi dos desconhecidos, que não devem ter entendido nada. Pesquei mais um cafezinho, que deixou boa impressão. Nem amargo nem doce.

Amanhã voltarei para o segundo dia. Hoje, me senti como aquele atacante, que mesmo desmarcado, está sempre impedido.

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Recife

8 de novembro de 2008, às 2:08h por Samarone Lima

Não é querendo causar inveja a ninguém, mas estou de volta ao Recife.

Chego no aeroporto, saio no saguão, me safo dos taxistas do aeroporto. Desde pequeno, aprendi que a gente deve pagar o valor certo pelas coisas, e taxista de aeroporto acha que a distância dele é mais cara que a dos outros. Em cinco minutos, encontrei um malandrinho, de óculos capenga, que fica na moita. O carro estava no estacionamento, que custa uma fortuna. Faltavam cinco minutos para a hora dele vencer, e iria pagar mais R$ 2,50, esses roubos da Infraero.

No caminho, ele me conta sua vida. Taxista que não conta sua vida, deveria circular na bandeira zero. O infeliz é rubronegro, mas admite que o Santa vem com tudo, em 2009, e já está preocupado.

Poucas horas depois, estou na abertura do Festival Literário de Porto de Galinhas (Fliporto), tocando um documentário. Câmera, entrevistas etc. Encontro o poeta Thiago de Mello e o grande Pepetela. O primeiro não pode dar uma entrevista porque vai dar um recital. O segundo, um homem sério, fala pouco e sai de mansinho. O maracatu do Daruê Malungo deixou os gringos todos doidos.

Só mais tarde, tenho tempo de aterrisar em algum canto e tomar a primeira cerveja no Recife.

Estou quieto, no meu canto, no balcão, confabulando com o vento e analisando umas prosopopéias e dissonâncias, quando um sujeito com uma cara de malvado chega e dá R$ 2,00 ao balconista.

“Me dá um cigarro aí, siminino”.

Um Derby, o mais popular dos populares, o Fusca da nicotina.

O sujeito acende com um isqueiro pendurado num cordão. Olha com uma cara de mau, de zangado. Ele completa:

“Óia, me dá o troco de pirulito, visse?”

E súbito, o homem vira um menino.

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Quero voltar para Pasárgada

5 de novembro de 2008, às 9:30h por Samarone Lima

Está bem, já foi o suficiente. Estou longe de casa há tantos dias, já passei por tantas cidades, que me veio um cansaço, uma falta, uma saudade. Ah, quero o Recife. Quero voltar.

Tudo bem, estou na Feira do Livro de Porto Alegre, tem palestras, conferências, milhares de livros, já encontrei o segundo volume do meu Dom Quixote, mas fico pensando nas pessoas que quero bem, nos que fazem parte do meu mundo. Sinto falta, saudades.

Como estarão meus comparsas do Princesa Isabel? Qual o novo tira-gosto de Seu Vital? Como estará a temperatura no Recife, nesta manhã indefinida e indecifrável de Porto Alegre?

No stand de Pernambuco, onde encontro meus comparsas e falamos à vontade nosso linguajar, há documentários sobre o Carnaval, cirandas, essas coisas que maltratam o sujeito, quando ele está longe. Pior: ao lado, montaram uma “Tenda de Pasárgada”. Isso não se faz, gaúchos, isso não se faz.

Cansaço, saudades.

Quero voltar para Pasárgada, nem que seja num semi-leito.

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O pintor e sua biblioteca

3 de novembro de 2008, às 14:42h por Samarone Lima

Aqui na tv a cabo do Hotel Everest, em Porto Alegre, o senhor Aderian Boult ataca de Mozart. Piano concerto número 20 em D menor (allegro). Quase sem escalas, saio das pedras do reino para a 54a Feira do Livro de Porto Alegre. Tudo vai se desdobrando. Ontem, a aula-espetáculo de Ariano Suassuna, no teatro Sancho Pança, amoleceu tudo que era de gaúcho. Mais de mil pessoas se espremeram a assistiram uma aula que chegou perto da perfeição. Ao final, uma ovação, daquelas que a gente escuta só de vez em quando na vida, quando algo é muito bom.

Pra variar, saio catando meus personagens. Na fila, encontrei o senhor Roberto Sampaio, ao lado da filha Bruna. Roberto é um pintor de parede, e no dia anterior, estava na exposição sobre Gilberto Freyre e as “iluminogravuras” de Ariano, no Santander Cultural, um negócio chique pacas. Ele conseguiu o convite e foi com a filha, com a missão exclusiva de pegar um autógrafo, quem sabe dar um abraço no velho mestre.

Dei uma forcinha, ele tirou foto com a filha e o escritor. Depois, ficou sem conseguir falar direito.

Na aula de ontem, ele ficou pertinho do palco, com a filha ao lado, os olhos marejados. Depois da emoção, me contou de sua vida. Aos 11 anos, após discutir com um amigo argentino, que sabia tudo de Monteiro Lobato e ele não tinha lido nada, Roberto foi à desforra, e começou a ler tudo. Como não tinha dinheiro, começou a pedir a todo mundo.

Hoje, a Biblioteca Comunitária Amigos do Livro, em Porto Alegre, tem 26 mil exemplares, que ele foi pedindo em todo canto. Funciona os 365 dias do ano, mesmo em natal, ano-novo. A família toma de conta. A outra filha, de nove anos, fica na parte da manhã.

“Construímos nossa biblioteca com a força da comunidade. Um deu meio saco de cimento, outro deu uns tijolos, outro trouxe um pedaço de cano, e fomos nascendo”.

Roberto me lembrou muito o camarada que fez uma biblioteca na comunidade do Bode, que recentemente foi visitada até pelo ministro da Cultura. Esqueci o nome do sujeito agora, mas o magro Valadares, autor da belíssima matéria no JC, pode me ajudar.

Mesmo já sendo um repórter caminhando para o que se diz “da velha guarda”, não me canso de me emocionar com essas criaturas simples, que vão mudando uma casa, uma rua, um pequeno pedaço do mundo, aquele onde vive, onde respira, onde está seu cachorro, seu vizinho, um pé de ipê-rôxo, um jacarandá. O depoimento que ele me deu para o documentário que estou conduzindo é tocante, sincero, de uma paixão arrebatadora pelos livros. Há gente no mundo que descobre o poder dos livros, e quer somente compartilhar isso. Roberto é um desses. O cenário não poderia ser mais apropriado - numa fila para ver uma apresentação de um escritor de 81 anos, numa feira de livros. Parecia mais um passarinho cantando.

Ele certamente não estaria ali, se não fossem os livros. Estaria pintando paredes. Para conseguir chegar a tempo, fez um serviço extra bem rápido, de manhã, e foi de ônibus, para pegar um lugar bom na fila. As mãos dele ainda tinham marcas de tinta branca. Bruna, a filha, olhava com orgulho o pai falando de sua emoçao com os livros.

Vou aqui. Alguém em Porto Alegre precisa trabalhar, nem que seja no Mercado Público.

ps. estou publicando os textos sobre a Feira do Livro de Porto Alegre para a revista Continente (www.revistacontinente.com.br)

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Numa fria: cronista no meio da avalanche

3 de novembro de 2008, às 12:58h por Samarone Lima

Desde Porto Alegre, bah.

Amigos leitores, algum dia escreverei a série “numa fria”. Ontem, pude viver mais uma, e passo a vos contar.

Às 18h45, eu já estava livre dos afazeres jornalísticos. Cisquei à vontade pela Feira do Livro de Porto Alegre, mandei material para o site da Continente, enfim. Caminharia para uma noite bucólica em Porto Alegre, em meio aos livros e vinhos. Eis que meu amigo Rafael me convida para assistir Grêmio X Ipatinga, no Estádio Olímpico. Eu, de sandálias de couro, calça e uma camisa marrom, aceitei na hora. Rafael queria me levar para conhecer a “avalanche”, torcida meio louca do Grêmio, que aparece sempre na TV, tentando um suicídio coletivo, após cada gol.

Fomos à casa de Rafa, ele pegou sua camisa e caminhamos para o estádio. Primeiro choque – a geral, que fica detrás do gol, custa trinta pilas (escrevo do jeito que os gaúchos falam). Pegamos um latão de cerveja, botamos no copo, mas o policial proibe nossa entrada. Temos que beber um copção na base do gut gut. É horrível.

Entramos no estádio com dez minutos de jogo. Todos estão vestidos de Grêmio, eu com minha camisa marrom, pareço um pardal. Como a avalanche está lotada, ficamos num lugar intermediário, a avalanche-light, onde tem algumas crianças, barrigudinhos, profissionais liberais e até alguns com reumatismo. Aqui, pelo menos, não vou ser esmagado, penso. Preciso aprender a andar de tênis, para ocasiões como esta.

A torcida grita pacas e não vendem cerveja.

O Grêmio joga a pior partida de sua história, e sou testemunha. Nada funciona. Lá pelas tantas, o juiz dá uma força, o tricolor gaúcho empata. A avalanche ligt desliza suave, vou junto. Não atropelei ninguém, minha sandália não quebrou, todos estão vivos.

No segundo tempo, Rafa resolve fazer uma jornada rumo a outro amigo nosso, o Chime. Por celular, ele descobre que Chimi está no olho do furacão, exatamente onde estão os loucos, que não param de gritar e pular um minuto. Pensei ainda em dizer “aqui está ótimo, está dando sorte”, mas é tarde. Rafa atravessa as arquibancadas com uma habilidade incrível, vou tropeçando em gaúchos, pedindo desculpas, porque se Rafa sumir, vou ficar numa fria sozinho . Em cinco minutos, estamos no meio da confusão. Só tem gente jovem, disposta, cheia de energia. Tudo o que eles mais querem na vida é um gol do Grêmio.

No intervalo, os baseados vão e voltam com uma facilidade incrível. Havia mais maconha que gente, na torcida tricolor. Teve uma hora que o sujeito estava com dois fininhos na mão, oferecendo ao povo, mas estava todo mundo meio chapado. Chimi, que trouxe cachaça num saquinho dentro da cueca, já estava bem feliz da vida. Queria beber uma dose, mas a turma já tinha papado tudo. Os gremistas estavam chamando urubu de meu louro e ainda faltava o segundo tempo inteiro, longuíssimos 45 minutos, pelo menos para mim.

O Grêmio volta.  Vai atacar para o nosso lado. Sou alertado que se alguém “estufar a gorduchina”, tenho que acompanhar a avalanche, que é descer correndo vários lances de arquibancada, acompanhado de milhares de outras pessoas. Tudo o que eu mais queria para uma noite de domingo.

A torcida canta o tempo inteiro “dá-lhe/dá-lhe/tricolor”. Aproveito para pegar um bigu e fico lembrando das arquibancadas do Arruda, do Santa Cruz, meus amigos, os gols, enfim.

Cada ataque do Grêmio, minha preocupação aumenta. Se sair um gol aqui, estou ferrado, meu óculos vão cair no fosso, a sandália, comprada em Afogados da Ingazeira, vai virar lembrança. Voltarei a pé, do Arruda, digo, do Olímpico, para a casa de Rafa.

O time do Grêmio, meus amigos, resolve piorar no segundo tempo. Nada de gol. Milhares de chapados seguem gritando. Daqui a pouco, começam a pular. Finjo algo, dobrando os joelhos. Me safo bem. Ainda faltam 15 longos minutos para o fim. Os caras ao meu lado são fortes, muita gente frequenta academia, estão loucos para correr arquibancada abaixo, caso o time faça outro gol. Prometo a mim mesmo que sobreviverei dessa, e que tentarei fazer programas mais lúdicos, como visitar o Memorial do Rio Grande do Sul, o Mercado Público, o Bar Naval, os sebos, coisas desse tipo.

O Ipatinga quase faz um gol no final, o que seria comovente para minha experiência de vida. Termina o jogo, uma parte da torcida vaia o time. É a turma das sociais. A turma da geral cobeça a dizer palavrões contra as sociais. “A gente nunca vaia, em hipótese alguma”, explica Rafa. Presencio um conflito social no Olímpico. Os torcedores de classe média, sócios do clube, são esculachados pela galera da geral. São palavrões mesmo, que não vale a pena citar, porque algumas senhoras frequentam este espaço.

Saímos do estádio, compramos dois latões, vamos bebericando. Agora sim, estou relaxado. Escapei de virar um baita sanduba. Está todo mundo cabisbaixo pacas. Os gremistas estão sofrendo pra burro, na fossa mesmo. O Palmeiras ganhou no finalzinho do Santos, o São Paulo ganhou do Internacional, o tricolor gaúcho caiu para a terceira colocação no Campeonato Brasileiro, depois de meses na liderança.

Acho um exagero também ficar tão zangado porque o time ganhou somente de um a zero. Comento com Rafa, ele me responde:

“O jogo foi empate, Samarone. O Ipatinga fez um gol antes de a gente entrar”.

Ôx, e eu sou algum médium, para ver coisas em outro canto?

Mudei de assunto para evitar conflitos de maior intensidade. Voltamos para casa, para assistir todas as mesas-redondas sobre futebol, e senti latejando no peito uma saudade imensa do meu Santa Cruz.

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