Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Sobre 2009

29 de dezembro de 2008, às 13:16h por Samarone Lima
Caminhando no pôr do sol, em algum lugar da China - Foto: miaofu

Caminhando no pôr do sol, em algum lugar da China - Foto: miaofu

Aos meus leitores, votos sinceros de um 2009 bom, calmo e com menos trabalho. Todo mundo ao meu redor trabalhou demais em 2008. Como já dizia o velho e bom Cesare Pavese, “trabalhar cansa”.

Vou me aquietar um pouco, deixar o Estuário na sombra por uns dias.

Como gosto muito de livros, sugiro o maravilhoso “A Montanha da Alma”, do chinês Gao Xingjian. É uma história simples, de um homem que descobre que está com um câncer no pulmão, e resolve caminhar por toda a China.

“A vida, afinal, não é mais do que um nó de ressentimentos inextrincáveis, teria ela por acaso outro significado? Mas terminá-la assim era verdadeiramente prematuro. Percebi que nunca tinha vivido convenientemente e que, se pudesse ter uma outra existência, eu mudaria com toda a certeza meu modo de vida, mas era preciso que acontecesse um milagre”

E os milagres começaram a acontecer.

Alguns pequenos milagres a todos os meus leitores e não-leitores, em 2009.

De mais imediato, que parem com a matança dos meus irmãos palestinos.

Samarone Lima

ps. terminei esta semana a revisão final do meu livro sobre Cuba. Quem quiser ler, mande um pedido com o email. Mando como anexo.

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Presentes. Poeta.

25 de dezembro de 2008, às 17:31h por Samarone Lima

Os presentes que gosto de ganhar na vida são três: cadernos, canetas e livros.

Este fim de ano, a safra foi magra.

Que importa isso?

Acabei de descobrir o poeta colombiano Jotamario Arbeláez.

Danem-se os cadernos, as canetas e os livros. Fico com o poeta.

POEMA DE INVERNO

Choveu em toda a minha infância.
As mulheres altas da família
moviam-se entre os arames
recolhendo a roupa. E reduzindo-se
na direção da pátio
a água que ondeava os quartos
Acolhíamos as goteiras do teto
colocando baldes e vasilhas
que esvaziávamos no sifão quando transbordavam
Andávamos descalços arregaçando as calças,
os sapatos de todos colocados na prateleira
Mamãe corria com um plástico para a sala
a cobrir a enciclopédia.
Atravessava os telhados a luz dos raios.
A sombra do aguaceiro
colocava minha avó um toco de vela
e suas rezas não deixavam que se apagasse.
Faltava luz a noite inteira.
Tive o privilégio de um impermeável de borracha
costurado por meu pai
para poder ir à escola
sem molhar os cadernos.
Gastava os sapatos tão logo os usava.
Um dia o sol saiu.
Já meu pai havia morto.

(Tradução de Antonio Miranda)

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Sugestão tendenciosa para o amigo secreto

24 de dezembro de 2008, às 10:48h por Samarone Lima

estuario-livro.jpg

Caros leitores, acabo de receber o último lote de Estuário, uma edição da Bagaço.

Os 10 exemplares restantes estão na mercearia-bar-bodega-consultório psicógico de Seu Vital, no Poço da Panela.

Preço do exemplar: R$ 25,00.

Ideal para você que tem pela frente o décimo amigo secreto do ano, e não tem mais tempo nem preparo físico para ir a um shopping.

Quem quiser, pode levar com autógrafo de Seu Vital, já que ele é citado 133 vezes no livro, segundo contagem rigorosa de sua filha, Rosilda.

Agora é arregaçar as mangas e selecionar textos para Estuário, volume II. A capa eu já tenho, uma linda foto de Clarissa Garcia. Só me falta mesmo a paciência para debulhar os textos menos ruins.

Bom Natal para todos.

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Aventuras e esquecimentos de Dona Ermira (volume II e final)

23 de dezembro de 2008, às 11:49h por Samarone Lima

Pois bem, onde estávamos?

Sim, Dona Ermira recebeu um telefonema. Sua madrinha distante (quase todas as madrinhas são distantes), mãe da tia de um sobrinho, casada com o irmão da nora da tia-avó, tinha morrido, e o enterro seria à tarde, no cemitério Parque da Paz, ou Morada da Paz, algo assim.

Dona Ermira ligou para Beta, que é sua irmã e, por tabela, minha tia. Foram juntas ao cemitério. Dona Ermira, que não via a madrinha desde os anos 1950, imediatamente ficou triste e pesarosa, lembrando como ela era uma pessoa boa. Tia Beta concordou, que tia Beta não é muito de brigar por besteiras.

No cemitério, uns três enterros de uma vez. Dona Ermira encontrou uma sobrinha distante, filha da tia da irmã da madrinha, mas não lembrou o nome e ficou por isso mesmo. Conversaram um pouco, e de repente, foi saindo o cortejo fúnebre.

Dona Ermira, lógico, acompanhou. Tia Beta foi também, mas estranhou o fato de a sobrinha ter ficado para trás.

Com seus óculos escuros de velório, Dona Ermira se aproximou do caixão e tentou acompanhar o rojão. Por sorte, logo chegou à cova. Antes da oração final, ela ficou ao lado do féretro (estava doido para usar esta palavra hoje) e passou a alisar o caixão, dizendo loas e boas sobre a madrinha. Como era uma pessoa boa, como iria deixar saudades, como sentiria sua falta, enfim.

Tia Beta percebeu algo estranho. Não tinha uma alma conhecida. Ninguém que lembrasse os traços da família. Pior: todos olhavam para aquelas duas mulheres como se fossem de outro planeta.

Tia Beta cutucou Dona Ermira.

“Mulher, o enterro não é esse não!”.

“É sim, mulher”, respondeu minha mãe, com uma certeza maciça.

Algumas lágrimas a muito custo, e mais elogios.

“Ermira, não tem ninguém conhecido aqui”, sussurrou Beta.

Pela primeira vez, Dona Ermira levantou os olhos. Viu aquela multidão de estranhos, no enterro de sua madrinha. Que coisa estranha!

Cutucou um senhor grave, de bigode escovinha e paletó de marca.

“De quem é esse enterro mesmo?”

O homem disse o nome da mulher, uma jovem dentista, colhida pelo câncer.

“Eita Beta, não é esse enterro não”, comentou Dona Ermira, já fazendo um zapt nos outros velórios.

Tia Beta ficou passada.

As duas saíram para o enterro da madrinha. Tia Beta não se conteve:

“Mas mulher…”

Dona Ermira deu uma risadinha de leve, voltou para o velório dois e encontrou a sobrinha. Por prudência, ficaram em silêncio. Dona Ermira evitou ficar junto ao caixão. O cortejo segui meia hora depois, tempo de cruzar com as caras amarradas dos que vinham do enterro anterior.

Dona Ermira nem ligou. Na vida, todo mundo se engana uma vez ou outra.

Me contou isso semana passada, dando boas risadas.

Feliz Natal para meus leitores queridos.

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Aventuras e esquecimentos de Dona Ermira (Volume I)

22 de dezembro de 2008, às 4:28h por Samarone Lima

Minha mãe, a Dona Ermira, está cada vez mais rechonchuda. Há uns cinco anos, diz semanalmente que a partir da semana que vem, voltará a caminhar e mudar a alimentação, mas é tudo lêndia.

Em Fortaleza, numa deliciosa cervejada com tio Ademar, tia Teresa, Carlos Henrique, Ingrid (namorada de Carlos Henrique)  e eu, fiquei sabendo de algumas aventuras e esquecimentos dela, da Dona Ermira.

Um dia, ela iria ao shopping, e como o carro da minha irmã, um Celta, estava na boquinha da garagem, deu um grito, dizendo que iria no Celta. Seu Fiat, que estava com ferrugem em todos os quadrantes, ficou. Minha irmã, a contragosto, iria fazer provas na faculdade com ele.

Minha mãe foi ao shopping, estacionou o carro, perambulou, pagou contas, fez algum crediário novo (a época do cheque pré-datado era uma má recordação do passado). Mandou ver. Rodou, rodou, até que cansou e voltou para o estacionamento, e começou a procurar… pelo Fiat!

Estranhou a ausência do carro, acionou a segurança. Explicou que seu Fiat KFD 3085 tinha sumido, e foi uma confusão no shopping. Um gerente da segurança, de paletó e gravata, ficou exasperado, nunca tinha acontecido aquilo em cinco anos. Acionou até reforço, e o estacionamento virou um inferno de seguranças, procurando o tal Fiat que estava na garagem da casa de Dona Ermira.

Cansada, irritada, ela sentou numa cadeira e resolveu descansar. Eis que viu, cintilando, bem pertinho de onde estava, o Celta da Mônica, sua filha.

Súbito, lhe subiu uma indignação materna. Como assim, por exemplo? A filha não alardeou que hoje de manhã estaria na Unifor, na prova final? Como é que seu carro estava ali, no estacionamento?

Ligou várias vezes, exaltada. A filha não atendia. Julgou que era de propósito, porque sabia que estava fazendo coisa errada. Quando finalmente a Mônica atendeu, mandou ver. Começou com um carão, depois a velha lição de moral. Que era falta de responsabilidade, que o estudo era prioridade. Que ela não era mais nenhuma criança, essas coisas.

“Mãe, não atendi porque estava fazendo prova. A senhora saiu no meu carro, não está lembrada disso?”

Caiu a ficha de Dona Ermira. Os seguranças nunca iriam encontrar seu Fiat, porque ele estava com a filha. O Celta estava ali, na sua frente.

Dona Ermira não teve dúvida. Entrou no Celta, deu graças a Deus pelos vidros fumê, muito escuros, e saiu de fininho.  Não foi reconhecida pelos seguranças, que ainda vasculhavam tudo, à procura de um Fiat KFD 3085.

Já na rua, a caminho de casa, respirou aliviada. Se bem a conheço, deu uma risadinha

Por precaução, passou uns dois ou três meses sem voltar ao shopping.

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