Pois bem, onde estávamos?
Sim, Dona Ermira recebeu um telefonema. Sua madrinha distante (quase todas as madrinhas são distantes), mãe da tia de um sobrinho, casada com o irmão da nora da tia-avó, tinha morrido, e o enterro seria à tarde, no cemitério Parque da Paz, ou Morada da Paz, algo assim.
Dona Ermira ligou para Beta, que é sua irmã e, por tabela, minha tia. Foram juntas ao cemitério. Dona Ermira, que não via a madrinha desde os anos 1950, imediatamente ficou triste e pesarosa, lembrando como ela era uma pessoa boa. Tia Beta concordou, que tia Beta não é muito de brigar por besteiras.
No cemitério, uns três enterros de uma vez. Dona Ermira encontrou uma sobrinha distante, filha da tia da irmã da madrinha, mas não lembrou o nome e ficou por isso mesmo. Conversaram um pouco, e de repente, foi saindo o cortejo fúnebre.
Dona Ermira, lógico, acompanhou. Tia Beta foi também, mas estranhou o fato de a sobrinha ter ficado para trás.
Com seus óculos escuros de velório, Dona Ermira se aproximou do caixão e tentou acompanhar o rojão. Por sorte, logo chegou à cova. Antes da oração final, ela ficou ao lado do féretro (estava doido para usar esta palavra hoje) e passou a alisar o caixão, dizendo loas e boas sobre a madrinha. Como era uma pessoa boa, como iria deixar saudades, como sentiria sua falta, enfim.
Tia Beta percebeu algo estranho. Não tinha uma alma conhecida. Ninguém que lembrasse os traços da família. Pior: todos olhavam para aquelas duas mulheres como se fossem de outro planeta.
Tia Beta cutucou Dona Ermira.
“Mulher, o enterro não é esse não!”.
“É sim, mulher”, respondeu minha mãe, com uma certeza maciça.
Algumas lágrimas a muito custo, e mais elogios.
“Ermira, não tem ninguém conhecido aqui”, sussurrou Beta.
Pela primeira vez, Dona Ermira levantou os olhos. Viu aquela multidão de estranhos, no enterro de sua madrinha. Que coisa estranha!
Cutucou um senhor grave, de bigode escovinha e paletó de marca.
“De quem é esse enterro mesmo?”
O homem disse o nome da mulher, uma jovem dentista, colhida pelo câncer.
“Eita Beta, não é esse enterro não”, comentou Dona Ermira, já fazendo um zapt nos outros velórios.
Tia Beta ficou passada.
As duas saíram para o enterro da madrinha. Tia Beta não se conteve:
“Mas mulher…”
Dona Ermira deu uma risadinha de leve, voltou para o velório dois e encontrou a sobrinha. Por prudência, ficaram em silêncio. Dona Ermira evitou ficar junto ao caixão. O cortejo segui meia hora depois, tempo de cruzar com as caras amarradas dos que vinham do enterro anterior.
Dona Ermira nem ligou. Na vida, todo mundo se engana uma vez ou outra.
Me contou isso semana passada, dando boas risadas.
Feliz Natal para meus leitores queridos.