Coisas de família
Samarone Lima
Minha mãe teve cinco filhos, depois de muitos anos separou, mas nunca está só. Ontem mesmo, quando cheguei a Fortaleza, liguei para casa, ela estava se preparando para levar meu irmão ao aeroporto. Ele iria para Brasília
“Pois venha logo, que a senhora embarca um filho e pega o outro, que acabei de chegar”.
Ela fez a troca dos filhos e voltou toda contente do aeroporto, mas continua achando que o Fiat só vai até a terceira marcha.
Chegamos em casa, no Monte Castelo, a mesma casa imensa, com muro de pedra que parece uma fortaleza. Morar em Fortaleza e numa fortaleza é uma redundância e um péssimo trocadilho, mas eu não poderia perder essa.
Já foram embora do casarão o Tonho (casou), a Mônica (casou), o Samarone (foi para o Recife em 1987) e o Paulo Henrique (foi fazer mestrado, doutorado, e agora está de volta, por uma temporada). Meu pai foi para outra casa e minha avó Zeneuda morreu.
Na casa imensa estão, agora, a Dona Ermira e a Patrícia, fora o Toquinho, o cachorro de Patrícia, que nos dois primeiros dias, fica fazendo “rrrrrrrrr” para o meu lado, até que pego a coleira e o levo para passear. O Atlas, meu cachorro de estimação da adolescência, morreu em 1983, creio, e foi péssimo.
Minha mãe tem mania de guardar coisas. Os guarda-roupas estão cheios de coisas dos anos 80. Evito futucar, com medo de cair um Atari novinho na minha cabeça, ou dois discos recém-lançados do Julio Iglesias e Gilliard.
Por mais que a gente não queira, as coisas familiares se misturam. Minhas irmãs adoram cachorros, e a Mônica come cebola pacas, como eu. O Tonho é de longe o mais animado dos filhos, com uma piadinha na ponta da língua. Acabou de ser contratado para dirigir os carros da Coca Cola, vai ser um motorista cheio de gás, perdão pelo segundo trocadilho na mesma crônica. Tem três filhos.
A julgar pela minha família, demos uma boa contribuição para a queda da taxa de natalidade do povo brasileiro: o Tonho teve três filhos, a Mônica está grávida, os outros três filhos não produziram nada. Resultado: Cinco filhos, e apenas três netos.
Meu pai casou de novo e teve outros dois filhos. Esse sim, contribuiu bastante para o aumento da população brasileira e deu trabalho ao IBGE: 7 filhos.
Estranhei quando minha mãe foi me buscar no aeroporto. O lado direito do carro estava sem ferrugem nenhuma, quando da vez passada, a porta parecia esfarelar-se. Perguntei o que tinha acontecido. Minha mãe, com um sorrisinho no canto da boca, disse que o vizinho tinha batido justamente do lado da ferrugem.
“Foi uma sorte, meu filho. Ele fez o serviço todinho”.
Sempre dormi no gabinete, onde estavam os livros, mas a cada viagem, fui surrupiando um pequeno lote. Agora tem uns bagulhos de auto-ajuda e uma coleção de Jorge Amado que não me anima mesmo, então fui dormir no quarto da Mônica, que agora mora na Parquelândia, o mesmo bairro de tia Beta.
Não fui ver ainda tia Beta, que já deve estar preparando meu bolo mole, o agrado de sempre. Uma vez levei um bolo mole de ônibus de Fortaleza para Recife, e chegou inteiro.
Terei que ver meu afilhado, Lucas, mas o temor é que se repita a cena do seu batizado. Bastou eu chegar, que o menino caiu num choro sofrido, e não largou dos braços da mãe. O culpado era eu, minha barba e excesso de cabelos.
Visitas previstas até sábado: Zé Vicente, o velho, tio Ademar (irmão de Zé Vicente), tia Teresa de Lisieux (irmã dos dois), tia Beta (irmã da minha mãe), Andréia e Veruska (primas), Lucas (afilhado), fora os amigos do bairro: Ângelo Roncalli e Neto, o velho Netão, que foi maratonista comigo na adolescência.
Minha mãe já me informou que vai fazer meu crediário amanhã, e não protestei.
Pela primeira vez, em vinte anos, ela disse que meu cabelo está bom, depois de fazer um teste com os próprios dedos, amassando um pouco.
Uma salva de palmas para Eliete, minha querida cabeleireira do Alto José do Pinho.
Postado em Crônicas |
6 Comentários »




