Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Coisas de família

18 de dezembro de 2008, às 10:57h por Samarone Lima

Minha mãe teve cinco filhos, depois de muitos anos separou, mas nunca está só. Ontem mesmo, quando cheguei a Fortaleza, liguei para casa, ela estava se preparando para levar meu irmão ao aeroporto. Ele iria para Brasília

“Pois venha logo, que a senhora embarca um filho e pega o outro, que acabei de chegar”.

Ela fez a troca dos filhos e voltou toda contente do aeroporto, mas continua achando que o Fiat só vai até a terceira marcha.

Chegamos em casa, no Monte Castelo, a mesma casa imensa, com muro de pedra que parece uma fortaleza. Morar em Fortaleza e numa fortaleza é uma redundância e um péssimo trocadilho, mas eu não poderia perder essa.

Já foram embora do casarão o Tonho (casou), a Mônica (casou), o Samarone (foi para o Recife em 1987) e o Paulo Henrique (foi fazer mestrado, doutorado, e agora está de volta, por uma temporada). Meu pai foi para outra casa e minha avó  Zeneuda morreu.

Na casa imensa estão, agora, a Dona Ermira e a Patrícia, fora o Toquinho, o cachorro de Patrícia, que nos dois primeiros dias, fica fazendo “rrrrrrrrr” para o meu lado, até que pego a coleira e o levo para passear. O Atlas, meu cachorro de estimação da adolescência, morreu em 1983, creio, e foi péssimo.

Minha mãe tem mania de guardar coisas. Os guarda-roupas estão cheios de coisas dos anos 80. Evito futucar, com medo de cair um Atari novinho na minha cabeça, ou dois discos recém-lançados  do Julio Iglesias e Gilliard.

Por mais que a gente não queira, as coisas familiares se misturam. Minhas irmãs adoram cachorros, e a Mônica come cebola pacas, como eu. O Tonho é de longe o mais animado dos filhos, com uma piadinha na ponta da língua. Acabou de ser contratado para dirigir os carros da Coca Cola, vai ser um motorista cheio de gás, perdão pelo segundo trocadilho na mesma crônica. Tem três filhos.

A julgar pela minha família, demos uma boa contribuição para a queda da taxa de natalidade do povo brasileiro: o Tonho teve três filhos, a Mônica está grávida, os outros três filhos não produziram nada.  Resultado: Cinco filhos, e apenas três netos.

Meu pai casou de novo e teve outros dois filhos. Esse sim, contribuiu bastante para o aumento da população brasileira e deu trabalho ao IBGE: 7 filhos.

Estranhei quando minha mãe foi me buscar no aeroporto. O lado direito do carro estava sem ferrugem nenhuma, quando da vez passada, a porta parecia esfarelar-se. Perguntei o que tinha acontecido. Minha mãe, com um sorrisinho no canto da boca, disse que o vizinho tinha batido justamente do lado da ferrugem.

“Foi uma sorte, meu filho. Ele fez o serviço todinho”.

Sempre dormi no gabinete, onde estavam os livros, mas a cada viagem, fui surrupiando um pequeno lote. Agora tem uns bagulhos de auto-ajuda e uma coleção de Jorge Amado que não me anima mesmo, então fui dormir no quarto da Mônica, que agora mora na Parquelândia, o mesmo bairro de tia Beta.

Não fui ver ainda tia Beta, que já deve estar preparando meu bolo mole, o agrado de sempre. Uma vez levei um bolo mole de ônibus de Fortaleza para Recife, e chegou inteiro.

Terei que ver meu afilhado, Lucas, mas o temor é que se repita a cena do seu batizado. Bastou eu chegar, que o menino caiu num choro sofrido, e não largou dos braços da mãe. O culpado era eu, minha barba e excesso de cabelos.

Visitas previstas até sábado: Zé Vicente, o velho, tio Ademar (irmão de Zé Vicente), tia Teresa de Lisieux (irmã dos dois), tia Beta (irmã da minha mãe), Andréia e Veruska (primas), Lucas (afilhado), fora os amigos do bairro: Ângelo Roncalli e Neto, o velho Netão, que foi maratonista comigo na adolescência.

Minha mãe já me informou que vai fazer meu crediário amanhã, e não protestei.

Pela primeira vez, em vinte anos, ela disse que meu cabelo está bom, depois de fazer um teste com os próprios dedos, amassando um pouco.

Uma salva de palmas para Eliete, minha querida cabeleireira do Alto José do Pinho.

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www.naoprecisomorrer.com

15 de dezembro de 2008, às 12:27h por Samarone Lima

Gigi

Calma, meus singelos leitores, o título de hoje não é um desejo de eternidade deste velho cronista, apenas a adesão a um movimento de cidadãos do Recife, para acabar com a matança de animais de rua, após serem capturados pela popular “Carrocinha”.

No dia 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos dos Animais), os Ativistas pelos Direitos dos Animais fizeram uma manifestação contra a carrocinha e iniciaram a campanha, para a coleta de assinaturas. Acabei de assinar: 3.807 pessoas já apóiam o movimento. O novo prefeito, João da Costa, vai começar o mandato recebendo uma petição, carta e milhares de assinaturas, para mudar esta política. Se for uma criatura com o mínimo de sensibilidade, vai mudar esta prática.

Fui acessar o site da campanha (www.naoprecisomorrer.com), e fiquei estarrecido com as informações. Todos, absolutamente todos os cães e gatos recolhidos pela carrocinha, que não forem adotados em três dias, são exterminados. Segundo os responsáveis pela campanha, os profissionais ligados ao Cento de Vigilância Ambiental (CVA) – órgão municipal responsável pelo controle dos cães e gatos, chamam isso de “eutanásia”.

Como trabalho com as palavras, extermínio de todos os animais é bem diferente de eutanásia.

Eutanásia (página 847 do Aurélio)- “Morte serena, sem sofrimento; Prática, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável”.

Vejam então como acontece a “eutanásia”, segundo o pessoal do movimento:

“Os cães e gatos, ditos tão caros ao ser humano, são sujeitados a um tratamento eticamente inadmissível a partir do momento em que são capturados até a sua execução. Mesmo que todos os procedimentos sejam feitos sem maiores abusos ou perversidade, o animal é arrastado, à força, da rua para o veículo, do veículo para as jaulas e das jaulas para a execução. Ao longo de todo este período, eles ficam confinados com vários animais que lhe são desconhecidos, podendo ocasionar sérias brigas, transmissão de doenças e disputa desleal pela comida, levando à fome. Como se não bastasse, os cães recém-ingressos no canil do CVA – o “corredor da morte” – assistem aos seus semelhantes serem agoniadamente arrastados para a execução”.

Não é preciso muita imaginação para saber o grau de sofrimento e insensatez que é matar dezenas, centenas de animais, todos os meses.

Os responsáveis pelo movimento informam que a Organização Mundial de Saúde já emitiu parecer, informando que não há “qualquer evidência” de que a eliminação de cães tenha impacto significativo na propagação da raiva ou na densidade populacional canina, visto que as cadelas e as gatas são animais pluríparos, de gestação curta (ao redor de 60 dias) e maturidade sexual precoce (seis meses de idade). Dessa forma, é sabido que a rápida reposição reprodutiva pode ser tão alta quanto a mais elevada taxa de remoção e eliminação.

Segundo experiência do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, a identificação, esterilização e vacinação custariam menos.

Ou seja, o que se faz no Recife é mais cruel, mais estúpido e mais caro.

“Ficam feridos, assim, os princípios da eficiência e da moralidade, ambos previstos no artigo 37 da Constituição Federal de 1988 como norteadores da administração pública”, diz a campanha.

Por fim, para não dizer que a turma está apenas reclamando, vamos às propostas:

“A solução médica e ética para o problema descrito é um conjunto de medidas: (1) a identificação dos animais, a fim de monitorar a população; (2) o controle de natalidade por meio de captura, esterilização, reabilitação e soltura dos animais sadios e/ou inofensivos; (3) o investimento em campanhas de conscientização da guarda responsável dos animais domésticos; e (4) a imunização dos animais antes da sua devolução às ruas”.

Já assinei a petição. Meu número é o 3.807. Aproveitarei para arriscar um palpite no bicho.

Os que assinarem a petição, na prática estarão reivindicado que a prática de “captura e extermínio” seja interrompida de imediato e que as medidas acima descritas sejam adotadas a fim de promover uma utilização mais adequada dos tributos do contribuinte, um controle de saúde pública mais eficaz e, sobretudo, um tratamento mais ético para com os animais de rua.

Claro que alguns leitores vão achar que se preocupar com bicho é besteira.

Pois eu me preocupo com besteiras sim.

Ao ler o material da campanha, lembrei de Gigi e Bam Bam, nossos adoráveis cães de estimação, na casa de tia Flocely, no Cabo de Santo Agostinho. Outro dia, Bam bam escapou pelo portão e ganhou o mundo. Eu, Rosa e Renato saímos feito loucos, atrás dele. Tia Flocely ficou em casa, possivelmente rezando. Conseguimos encontrá-lo, alguns quarteirões depois. E se a carrocinha do Recife estivesse passando por ali, nesses acasos da vida?

Ah, meus amigos, se tivessem feito alguma malvadeza com ele, nosso Bam Bam, eu viraria bicho.

Quem aparece na foto é Gigi, clicada por Renato. Ela cresceu muito, estava num quarto pequeno, e como parecia estar sofrendo, resolvemos doá-la. Está agora em um sítio, correndo feito uma louca, feliz da vida, como devem ser todos, bichos e gentes.

Conheça mais detalhes da campanha: www.naoprecisomorrer.com

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Inflação de confras

11 de dezembro de 2008, às 10:40h por Samarone Lima

Amigos leitores, não sei o que está acontecendo neste apagar das luzes de 2008. Nunca vi tanta confraternização na minha vida. O Pernambucano anda mais afetuoso, mais apegado a uma farra. Eu mesmo estou vivendo uma inflação de confras. Registro já as primeiras baixas do ano: ontem perdi a confra da turma do Mãe Coruja Pernambucana. Sábado, tinha perdido a confra no ateliê de Paulo Bruscky.

A mais difícil mesmo está sendo a que envolve os maravilhosos ex-professores da Kabum! Já trocamos 756 email para ver as datas e local, mas nunca vi gente tão ocupada. Estamos todos feito o Unicef, querendo fazer a humanidade avançar. Seminários, aulas, abertura de exposição (perdão, vernissage), outra confraternização agendada previamente, enfim.

Até agora, a data está oscilando, em nossas movimentadas vidas. Não perco a esperança de reencontrar Ricardo Melo, Ana Luiza, Sirley, Beth, aquela gente toda maravilhosa, linda, com quem convivi durante dois mágicos anos. Deus é pai.

Já participei da confra dos Caducos F.C, meu time dominical do Poço da Panela, com direito a torneio e tudo. Perdemos na final, por 2 x 0, após uma classificação heróica, nos pênaltis. No dia anterior, tinha ido à confra da turma do Blog do Santinha.

Amanhã tem a confra da Turma da Tesoura, no Arruda. Haja fígado! Ah, também estive na confra do Ateliê, semana passada. Estou perdendo as contas. Os meninos bebem direitinho.

Como estou na Fundarpe, suspeito que deve ter confra. Aguardo também a definição dos artistas que fazem parte do espetáculo “Nau”, comandado por Ariano Suassuna. Depois de cinco meses juntos, viajando mais de 20 mil quilômetros, uma confra é algo obrigatória. O Grupo Alma (Amor, Literatura, Movimento e Arte), que trabalhou na Secretaria de Saúde, vai fazer algo nos próximos dias: confraternização.

Estou perdendo as contas, mas acho que este ano, algum fenômeno novo está acontecendo. Cada pernambucano está com uma média de três confraternizações por semana, quando a média era uma. Karyna mesmo, amiga desde a época de La Prensa, não vai para um debate amanhã porque tem uma confra. Duvido que ela não tenha outra no sábado e no domingo, fora as duas que ela vai perder porque acontecem no mesmo dia, em bares diferentes.

De todas, a mais aguardada por mim é a que realizamos no Poço da Panela, na venda de Seu Vital. Semana que vem, nos encontraremos, acho que pelo oitavo ano seguido. Uma enorme mesa na rua, todos levam algo para comer e beber. Sentamos juntos, numa imensa alegria. Walter, empresário, Naná, motorista, Luís Maúcha, vulgo Pezão, que faz trabalhos gerais, Moura, vulgo Potó, que é pedreiro, pintor, o que aparecer. 

Não há divisões de classe, de renda, separação de posições. Tudo é compartilhado com bondade, alegria. Rimos muito, lembramos o que fizemos, as presepadas, comemoramos a amizade, a vida, nossa capacidade de caminhar juntos. Celebramos a vida, a amizade, o afeto. Beijos, abraços. As crianças passam de braço em braço, de colo em colo. Lamentaremos os ausente, os que partiram, surgirão discursos sem pé nem cabeça.

Nesta noite, teremos a presença da Sanfona Coral. Se tudo correr bem, Seu Vital terminará a farra dançando com um cabo de vassoura, depois pegará seu realejo e tocará uma melodia improvável. Ele tentará fechar a venda várias vezes, e criaremos mecanismos os mais diversos para esticar a noite. Pediremos 57 saideiras, diremos “é a última, Seu Vital”, com a certeza da boa mentira. Nesta noite, somente a alegria da vida. 

No outro dia, a inevitável frase:

“Que farra ontem, heim?”

 Boa confra aos meus leitores.

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Jardins, pessoas

8 de dezembro de 2008, às 22:12h por Samarone Lima

Outro dia, passando defronte a um prédio da Compesa, reparei que o jardim estava sempre seco. Seco não, esturricado. Achei estranho e irônico. A Compesa é a empresa que cuida das águas de Pernambuco. Passei mais umas duas vezes, as plantas estavam morrendo. Um dia, de manhã, vi um rapaz varrendo e perguntei:

“Amigo, você sabe quem cuida do jardim?”

Ele respondeu e fiz o pequeno pedido:

“Dá para pedir para a pessoa botar uma aguazinha nessas plantas, pelo menos de vez em quando?”

Ele disse que iria ver o que fazia.

Uma semana depois, estou no Princesa Isabel. Um camarada toma uma no balcão, aquela velha e necessária cerveja do balcão. Lá pelas tantas, me acena. Diz que é o cara da Compesa.

“Sou o cara com quem você falou sobre as plantas”.

Estão botando água nas plantas, informou.

Mal sabia eu que, por causa do comentário, quase arranjo uma arenga. O camarada com quem falei estava dando um duro da cebola naquela manhã, varrendo o pátio num sol de rachar o cocoruto, suado, quando fui inventar de parar e perguntar quem cuidava do jardim. Faltou pouco para eu levar uns desaforos.

Desconfio que o Geyson, que trabalha no mesmo prédio, e habitué do Princesa Isabel, tenha botado panos quentes na celeuma, dizendo que tenho minhas manias, sou preocupado com esse negócio de plantas. O fato é que o cara depois entendeu, e parece que vai até ser meu amigo.

Quanto a plantas e animais, minha posição é somente uma: ou você tem para cuidar direito, com carinho, ou melhor não ter. Se a Compesa quer ter seu jardim, acho justo que alguém tome conta.

O fato é que escapei de uma sova e o jardim está sendo cuidado.

Lembrei agora quando fui embora de São Paulo, depois de seis anos. Sem saber o que fazer com meu jardim, os muitos jarros, fui pedir ajuda a Camila, uma criatura maravilhosa, que nunca mais tive notícias. Camila aceitou o jardim inteiro com um sorriso de felicidade. Ficariam em boas mãos e bons olhos. Levei tudo com a ajuda de um carroceiro movido a cavalo e àlcool, em duas viagens cansativas. Jarros e livros são as duas coisas mais pesadas que conheço. Pesam muito, mas deixam a vida mais leve.

As plantas ficaram numa área imensa, a céu aberto, num prédio na Santa Cecília.

Grande parte dos jarros do meu jardim de São Paulo foram recolhidos no lixo, com a participação eventual do vagabundo Gustavo de Castro. Não sei o que faz uma pessoa jogar flores e plantas no lixo. Quem joga jarro de flor no lixo, depois joga livro de poesia, acaba jogando gente. Por fim, se joga.

Vou ver se crio uma associação para adotar plantas e aconselhar empresas sobre jardins.

Para Vileni Garcia, que partiu precocemente, mas deixou suas sementes.

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Dom Quixote e Quilombo

5 de dezembro de 2008, às 22:40h por Samarone Lima

Fiquei sabendo há pouco, no meu novo trabalho, que o Recife teve duas gloriosas livrarias, nos anos 1970/80: Dom Quixote e Quilombo.

Funcionavam no Beco da Fome. Para mim, a metáfora perfeita: fome e livros. Naquela época, tínhamos a lendária Livro 7 e a Síntese, fora a Imperatriz.

Tenho saudades esquisitas, como a de passados que não vivi. Tenho saudades desse Recife que não conheci, porque só cheguei aqui em 1987.

Nunca frequentei a Dom Quixote e a Quilombo, mas pela descrição de Teca, deu para sentir o cheiro das páginas. Deu para ver a capa dos livros, feita por um ilustrador, com a imagem de Dom Quixote. Julgo que tinha Sancho junto, porque um não vive sem o outro.

Olhando bem, passamos por uma devastação cultural sem tamanhos. As livrarias do centro fecharam, deixando uma cicatriz na cidade. Ao centro, restou o comércio, a reles compra e venda de tudo, menos livros.

A única nota boa vem da Poty, que vai se transferir para o local da antiga Síntese. Como acredito nas conspirações divinas e humanas, penso que finalmente teremos uma ótima livraria do lado de cá do Capibaribe. Do lado de lá, está a imensa Cultura, que vai muito bem, obrigado. Mas lá não chegam os cobradores suados, os trabalhadores do comércio, o vendedor de seguros, que está cansado de um dia daqueles. São outros leitores.

Precisamos de livros no Beco da Fome, nos córregos, altos, morros do Recife.

Imagino a pessoa nesses dias quentes de dezembro, comprando presentes para o filho, o sobrinho, o namorado, a esposa. De repente, esbarra em uma baita livraria, resolve entrar. Surpresa, descobre que aquele livro tem a cara de fulano. No setor infantil, aquele livrinho que é a cara da Maria, filha de seu Herculano. Volta pra casa de notinha, naquele trânsito insuportável da Conde da Boa Vista, passando a vista em alguma história. Por acaso, gosta de uma, dá umas risadinhas secretas.

Súbito, olha para os lados. O ônibus está lotado, mas ninguém lê sequer um jornal.

No caminho de casa, descobre que gostou do livro, e quer mais.

Já tive dois bares, dois enganos fatais. Deveria ter tido duas livrarias, isso sim. Uma se chamaria Dom Quixote, outra Quilombo, só a título de homenagem. Uma no Beco da Fome, outra no Poço da Panela, claro, que ninguém é de ferro.

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