Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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O menino

28 de janeiro de 2009, às 10:09h por Samarone Lima

Lembro que era janeiro de 1999 e que o albergue onde eu estava hospedado, há mais de um mês, parecia uma grande sauna, com gente de várias partes do mundo reclamando do calor em várias línguas. Haviam uns apagões de algumas horas, imprevisíveis, que me levavam ao desespero. Tinha que terminar um relatório de pesquisa do mestrado, e faltavam poucos dias. Resumindo: era um inferno.

Ser hóspede há muito tempo facilitava um pouco as coisas. A faxineira, por exemplo, era uma boliviana boa praça, rostinho redondo, e me ofereceu sua pequena casa para que continuasse minhas leituras. Ficava a dois quarteirões do albergue, e tinha dezenas de fotos de mulheres peladas. A boliviana gostava tanto de garotas, que morava com uma argentina.

Lembro que os donos do albergue eram uma mistura de francês com argentina ou vice-versa, e que tinham um filho de sete anos, mais francês que o Platini. O menino só falava de futebol, e eu falava francês igual do menino, graças ao curso da Funefor.

Não sei qual era o dia da semana que abri o Página 12 e vi a notícia do jogo mais esperado da semana. Era o Vélez Sarsfield contra o Racing, não lembro, só lembro que depois o Racing quebrou, e foi uma comoção no país. Olhei a nota no jornal, vi horário, local, e disse ao dono do albergue:

“Vou a esse jogo hoje à noite”.

O menino, chamado Laurent, pescou algo e perguntou ao pai. O pai, que não tinha pedagogia nenhuma, muito menos bom senso, disse ao menino que eu iria ao estádio. Isso na metade da manhã. O menino começou a me perguntar desesperado se eu podia levá-lo ao estádio. Em bom francês, a pergunta fica assim:

“Tu peux m’emmener au stade?”

Olhei para o pai, que ficou de conversar com a mãe, mas eu sabia que não tinha mais jeito. Aos 30 anos, sem filhos, depois de assistir jogos nos principais estádios do Brasil e da América Latina, teria que levar um menino francês, de sete anos, a um jogo na periferia de Buenos Aires. O Chilavert era o goleiro.

O menino passou o resto do dia dando saltos, sorrindo, chutando uma bola na parede, torrando a paciência dos gringos do albergue. Recebi dinheiro para passagens, ingressos, um mar de recomendações, conselhos e apelos, mas faltava aos pais o tino pedagógico para saber que não se manda um filho de sete anos, com um cearense cabeludo pouco confiável, para um jogo da Libertadores. Isso em Buenos Aires.

Fui com o Laurent. Pegamos dois ônibus, ele foi me perguntando tudo sobre Buenos Aires, mas nem com um guia eu teria respondido. Não lembro mais onde fica o estádio do Vélez, sei que a torcida argentina era igual à de hoje e de tempos imemoriais – um bando de loucos que não para de pular e gritar um segundo.

Ficamos na torcida visitante, do Racing, a minoria, porque não queria ver o francesinho virar baguete. A torcida do Vélez tinha a séria intenção de derrubar o estádio, usando a técnica de pulos ritmados, usando milhares de pessoas.

Quando o Vélez fez um gol, o francês vibrou. O estádio tremeu, e tremi, com medo da represália. Expliquei que o menino era francês, ficou por aquilo mesmo. Pouco tempo depois, o Racing (se não foi o Racing, fica sendo) empatou, e o menino vibrou muito. Tudo resolvido.

O Chilavert no estádio era imenso, e fechou o gol. O Vélez fez um gol no final, creio, mas o menino estava distraído e ficou achando lindo a torcida comemorando.

Terminado o jogo, saí do estádio, segurando a mão daquele menino simpático e perguntador, em meio aos milhares de torcedores. Ah, meu Deus, como eu queria ter uma superbonder, para grudar aquela menino na minha mão… Parecia meu filho. Comeu cachorro quente com refrigerante, estava eufórico com a torcida, perguntou quando era o próximo jogo. Menos, Laurent, bem menos.

Voltamos para casa, digo, para o albergue, e Laurent parou de fazer perguntas. Passou a dar aulas sobre futebol. Parecia mais um comentarista infantil de alguma mesa redonda.

Quando chegamos, os pais correram desesperados para os abraços, para saber se ele estava bem.

“Foi um jogo maravilhoso”, respondeu ele.

Os pais me agradeceram muito, disseram que eu era muito cuidadoso, que o Laurent tinha gostado muito de mim. Também pudera.

O restante dos dias no albergue, não mais que três, significaram apenas um movimento do meu amiguinho francês – bastava ele me ver, que se aproximava e perguntava quando seria o próximo jogo, se eu poderia levá-lo novamente. Eu não era mais um homem, um ser humano, era a personificação do futebol.

Não haveria a segunda vez. Os pais de Laurent não gostavam de futebol, tinham medo da violência, e eu iria embora para o interior da Argentina.

Lembro até hoje de seu olhar triste, muito triste, quando fui embora. Meses depois, sua mãe me mandou um email.

“O Lauren disse que foi o dia mais feliz da vida dele”.

Todo menino que foi ao estádio pela primeira vez, aos sete anos, sente a mesma coisa.

(Texto para uma coletânea sobre futebol, a ser publicado este ano, pela Editora Casa das Musas)

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Convergências

24 de janeiro de 2009, às 17:06h por Samarone Lima

Chego em Casa, no Cabo, falo com tia Flocely, Rosa, Renato, Shrek (primo de Renato) e Bam Bam (nosso amado vira-lata). Vou ao primeiro andar. Uma carta num envelope verde.A remetente eu não conheço pessoalmente – Ana Eliza. Mora na Barra, em Salvador.

Uma carta num envelope verde, em plena tarde de quarta-feira, é como um sol num dia nublado.

Surpresa. A carta foi iniciada dia 31 de outubro de 2008, e concluída na Cidade de Todos os Santos, a 9 de janeiro de 2009. A letrinha linda de dar inveja. Carta de frente e verso, com duas cores de caneta diferentes.

“O que dizer a você?”, pergunta Ana Eliza, depois de falar coisas de sua vida, uma cirurgia recente, enfim.

Diz que na carta queria me oferecer alguma alegria, “mínima e desnecessária”.

Amiga, na primeira página da carta, seu objetivo foi atingido.

Diz que tem sempre o livro “Estuário” por perto. Fez dele sua leitura diária, “lendo-as como quem tece junto com você o fio da história”. Ah, minha amiga, você tem alguns traços de poeta, como outros baianos que já conheci nessas minhas andanças…

Descubro que a carta viajou com ela até Belo Horizonte. Iria postar em Minas Gerais uma carta iniciada na Bahia, para um cearense que se enraizou em Pernambuco. Ana Eliza acabou ficando três meses com a carta.

Ela torce para que a carta chegue num dia de sol, num momento em que eu pensava no títudo da próxima crônica. “Quem sabe chegue junto com a manchete de que na Faixa de Gaza reina a paz, que israelenses e palestinos conversam amenidades e planejam a reconstrução dos dias”.

Ah, querida, como eu queria que seu desejo fosse realidade…

Estou aqui no Cabo novamente, e reencontro a prima Fabiana, que veio com tia Antonieta e a filha Thais, para o abraço em tia Flocely, que hoje marcou seus 82 anos.

Em meio às muitas conversas sobre a família, Fabiana me conta que estava  na praia de São Bento, depois de Maragori, e encontrou a Dora, uma amiga. Lá pelas tantas, alguém falou em Poço da Panela, e o assunto migrou para o Estuário.

Dora foi lá dentro e pegou um livro. Minha prima, que nem sabia dessa novidade, virou minha leitora. Ligou para Luís Júnior, meu outro primo, que mora em Brasília. Falou do livro. Ele também não sabia de nada, de formas que vou me organizar para divulgar meus livros pelo menos com a família. Pra variar, eu não tinha nenhum exemplar de Estuário comigo. De qualquer forma, valeu, Dora.

Há pouco, Thaís me mostrou seu Orkut, e vi fotos da família. As primas estão todas grandes. Fabiana pegou o endereço de estuário.com e meu email. Parece que todos agora vão ler, inclusive minha mãe, que recentemente inaugurou seu primeiro email.

Tia Antonieta tirou um lote de fotos, cantamos parabéns, teve torta de limão e refrigerante. Na falta de velas, improvisamos com palitos de fósforo. Na hora de assoprar, tia engastou, mas deu tudo certo.

Bam Bam é um animal cheio de artimanhas. Quando tem muita gente, ele fica amuado, sem querer muito papo. Hoje, foi até ao primeiro andar, ficar um pedaço comigo.

Ah, Das Neves também chegou por aqui. Contou suas lorotas, arejou o ambiente e deu no pé.

E todos acharam Dona Flocely ótima.

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Monte Sinai

21 de janeiro de 2009, às 15:45h por Samarone Lima

Todo mundo que perde o último ônibus da noite sabe como sofre. Meu caso, ontem.

Sem chaves, sem rumo, sigo para o Princesa Isabel, meu adorável bar no centro. Descubro o hotel Monte Sinai, ao lado.

É para lá que vou.

É um hotel vagabundíssimo, no centro do Recife. Um matadouro, na verdade.

Trinta mangos a diária. Ventilador no teto. Uma tv mais ou menos. Aproveito para ver a posse do Obama. A posse no Monte Sinai.

Vi a queda das Torres Gêmeas na redação do Diário de Pernambuco, e a derrota na Copa de 82 no Monte Castelo. Toda tragédia tem que ter um lugar.

Pego o quarto número um. Mudo os canais, vejo um canal de sexo selvagem e barato. Sinceramente.

Durmo, acordo, durmo, acordo. Só dá Obama. A mulher dele usa luvas verdes, me informam, e isso é o máximo. O Exército de Israel sai vitorioso da Faixa de Gaza. Vitorioso na destruição para mim é o grande derrotado.

Acordo numa ressaca triste. Ligo para a moça da recepção. Pergunto se tem pasta para escovar os dentes. Não.

Minutos depois, ela liga.

“Senhor, arranjei uma pastinha”.

Dentes escovados, pergunto quanto foi a diária.

“O senhor já pagou ontem, senhor”.

Às vezes, esse negócio de senhor enche o saco.

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Mínimas

19 de janeiro de 2009, às 11:11h por Samarone Lima

Vou ao encontro do meu amigo Inácio França, para ir ao jogo do Santa, no Arruda. Passo defronte a uma casa abandonada, na Avenida Norte, vejo um cachorro vira-lata, e sempre faço “chip chip chip” quando vejo um desses.

“Chip chip chip”, fiz, mas o vira-lata sequer esboçou um sorriso.

Mais à frente, um homem, possivelmente dono do animal, me avisou:

“Ele não gosta que chamem ele não, visse?”

Bem, no Recife já temos fiscal de vira-latas.

**

Ônibus Centro do Cabo. Atrás de mim, vão dois homens, falando sobre construção. Pelo teor das palavras (pedra, cimento, base, lage), devem ser pedreiros.

“Você sabe que uma coluna fota da viga não tem função nenhuma, não é?”

Eu, que não sabia, agora sei.

**

Essa quem me contou foi a Michele, esposa de Douglas, e vice-versa.

Uma crente muito crente começou a escutar uma orquestra de frevo, há alguns dias. Ficou quieta, sentindo aquilo por dentro, e depois confessou:

“Olha, não quero gostar não, mas essa música está dando uma dorzinha no meu peito”.

**

Vou à livraria Cultura, sou atendido pelo educadíssimo Felipe, com sua longa barba. Bastou  perguntar algo sobre o poeta Rumi, para ele me abrir várias possibilidades de leituras.

Olho umas coisas no setor das religiões, pego meu caderninho de pesquisas literárias, e me dirijo a Felipe. Quando vou perguntar pelo livro “A linguagem dos pássaros”, ele me olha e diz:

“Um livro que você vai gostar é ‘A linguagem dos pássaros’ ”

**

Um poeta de boca cheia jamais diz palavras vazias. Não sei de onde tirei isso.

**

“Manhã de frio

se eu fosse menino escrevia

meu nome no vidro”

(do ótimo livro “Oeste”, de Paulo Franchetti)

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Mal-traçadas linhas

14 de janeiro de 2009, às 17:34h por Samarone Lima

Ter muitos cadernos, dezenas deles, é fruto das obsessões de quem escreve. Nos últimos dias, resolvi olhar o que andava acontecendo comigo em outros tempos. Nessas horas, dá até um susto. A quantidade de coisas que tomo notas, ao longo dos dias, semanas e meses, é um absurdo. Vivo escrevendo, não sei nem como tenho tempo para fazer outras coisas.

Descubro que 2003 foi um ano ruim, e perto do final do ano, estava com uma infecção no dedo do pé, o que me deixou num clima moribundo. Fui salvo pelo acompanhamento sistemático da médica do Poço da Panela, a Bebeth. Cinco anos depois, em 2008, ela seria minha chefe no Programa Mãe Coruja Pernambucana.

A velha e interminável mania de anotar frases e trechos de livros.

“Quem eu conhecia! Nem a mim mesmo” (John Fante, em “Sonhos de Bunker Hill”).

“Eu te amo. Agora dorme” (Lygia Fagundes Teles, em “A noite escura e mais eu”).

No mesmo ano fui a um show do Luís Melodia, no teatro da UFPE, e fui assaltado, junto com a Luciana.

Há cadernos em que anoto apenas frases, descrições de lugares e pessoas, sem data. Num deles, tem apenas isso:

535) Encontrei-o há pouco. Sempre nos encontramos nas ruas do Recife. Ele e sua mulher. Sei que é irmão de uma amiga que não vejo há anos. Me pareceu meio triste, sem força, soturno. Falamos cordialmente, com as perguntas e respostas de sempre. E saí, mais uma vez, sem saber seu nome.

Estava escrevendo um livro sobre a época da ditadura no Brasil, mostrei os originais a um dos entrevistados, marcamos um encontro. Depois de duas horas de conversa, estávamos ainda na página 49. O comentário dele sobre um tema delicado foi devastador:

“Tenho quase certeza de que não falei esse troço aqui”.

Depois, ele me disse outra frase, logo após ser preso pelos caras do Cenimar:

“A única pergunta que me fizeram (na prisão), foi por que eu era contra os norte-americanos. Eu disse que não era”.

1028) “Donde hay una pequeña lampara encendida, no enciendo la mia” (Antônio Porchia, em “Voces”).

Olhando os velhos cadernos, descubro que há alguns anos fiz uma longa entrevista com o Rolando Toro, criador da Biodança, que foi publicada no Diário de Pernambuco. Depois vivenciei uma prática de dois dias, com ele e umas 30 pessoas, que foi um negócio fortíssimo. Era o projeto Minotauro, cheio de labirintos.

Outro caderno, um preto grosso, de 401 páginas:

“Na minha ausência, o Recife ficou mais belo”.

Tinha voltado de São Paulo, depois de seis anos. Fui para uma cerimônia do Santo Daime com um velho amigo, em Aldeia, mas não rolou muita coisa. Fiquei mais amigo do meu amigo.

Primeiro livro que comprei, depois de seis anos fora do Recife:

“O livro da divina consolação e outros textos seletos”, de Mestre Eckhart.

Das minhas leituras de psicanálise (que Emília não saiba):

Lacan: “Luto não satisfeito”.

Freud: “Buraco no real”.

Não registrei o nome do livro. Dizia também que “o grito é o semblante da dor”.

1192) “Esse ai fica bêbado até com levedura de cerveja” (da minha coleção de frases populares)

1086) “Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”. (Antônio Maria)

Como há cadernos sem datas, não sei quando estava relendo apaixonado o “Quarteto de Alexandria”, do amadíssimo Lawrence Durrell.  Ficaram só registros de frases, trechos dos quatro mais lindos romances arquitetados em conjunto, da história da literatura:

1017) “A sede de ser completo deixou-me neste estado de mágoa inútil”.

1019) “Ópio tenho eu na alma”.

1021) Os vizinhos do primeiro andar se tratam aos tapas. Os gritos de “filho da puta” são frequentes. Qualquer dia desses, teremos a notícia de um homicídio (Anotação minha sobre um prédio em São Paulo).

Não sei por qual motivo, em São Paulo eu lembrei com raríssimos detalhes a demora do Cidade Universitária até despontar luminoso na Conde da Boa Vista. Coisa de nordestino.

Teve uma época em que eu lia muito Dylan Thomas:

368) “Exauriu-se o coração que, renunciando ao tumulto da química do sangue, se acautelou contra a fúria que desponta”.

Termino com Adélia Prado:

278) “Não é para entender que nós perdoamos, é para sermos perdoados”.

279) “A poesia, a mais ínfima, é serva da esperança”.

O poema “O que a musa eterna canta”, da Adélia, encerra bem esta anti-crônica de hoje, escrita madrugada adentro:

“Cesse de uma vez meu desejo

de que o poema sirva a todas as fomes.

Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:

“Tenho birra de que me chamem de intelectual,

sou um homem como todos os outros”.

Ah, que sabedoria, como todos os outros,

a quem bastou descobrir:

letras eu quero é para pedir emprego,

agradecer favores,

escrever meu nome completo.

O mais são mal-traçadas linhas”.

Até breve.

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