O menino
Samarone Lima
Lembro que era janeiro de 1999 e que o albergue onde eu estava hospedado, há mais de um mês, parecia uma grande sauna, com gente de várias partes do mundo reclamando do calor em várias línguas. Haviam uns apagões de algumas horas, imprevisíveis, que me levavam ao desespero. Tinha que terminar um relatório de pesquisa do mestrado, e faltavam poucos dias. Resumindo: era um inferno.
Ser hóspede há muito tempo facilitava um pouco as coisas. A faxineira, por exemplo, era uma boliviana boa praça, rostinho redondo, e me ofereceu sua pequena casa para que continuasse minhas leituras. Ficava a dois quarteirões do albergue, e tinha dezenas de fotos de mulheres peladas. A boliviana gostava tanto de garotas, que morava com uma argentina.
Lembro que os donos do albergue eram uma mistura de francês com argentina ou vice-versa, e que tinham um filho de sete anos, mais francês que o Platini. O menino só falava de futebol, e eu falava francês igual do menino, graças ao curso da Funefor.
Não sei qual era o dia da semana que abri o Página 12 e vi a notícia do jogo mais esperado da semana. Era o Vélez Sarsfield contra o Racing, não lembro, só lembro que depois o Racing quebrou, e foi uma comoção no país. Olhei a nota no jornal, vi horário, local, e disse ao dono do albergue:
“Vou a esse jogo hoje à noite”.
O menino, chamado Laurent, pescou algo e perguntou ao pai. O pai, que não tinha pedagogia nenhuma, muito menos bom senso, disse ao menino que eu iria ao estádio. Isso na metade da manhã. O menino começou a me perguntar desesperado se eu podia levá-lo ao estádio. Em bom francês, a pergunta fica assim:
“Tu peux m’emmener au stade?”
Olhei para o pai, que ficou de conversar com a mãe, mas eu sabia que não tinha mais jeito. Aos 30 anos, sem filhos, depois de assistir jogos nos principais estádios do Brasil e da América Latina, teria que levar um menino francês, de sete anos, a um jogo na periferia de Buenos Aires. O Chilavert era o goleiro.
O menino passou o resto do dia dando saltos, sorrindo, chutando uma bola na parede, torrando a paciência dos gringos do albergue. Recebi dinheiro para passagens, ingressos, um mar de recomendações, conselhos e apelos, mas faltava aos pais o tino pedagógico para saber que não se manda um filho de sete anos, com um cearense cabeludo pouco confiável, para um jogo da Libertadores. Isso em Buenos Aires.
Fui com o Laurent. Pegamos dois ônibus, ele foi me perguntando tudo sobre Buenos Aires, mas nem com um guia eu teria respondido. Não lembro mais onde fica o estádio do Vélez, sei que a torcida argentina era igual à de hoje e de tempos imemoriais – um bando de loucos que não para de pular e gritar um segundo.
Ficamos na torcida visitante, do Racing, a minoria, porque não queria ver o francesinho virar baguete. A torcida do Vélez tinha a séria intenção de derrubar o estádio, usando a técnica de pulos ritmados, usando milhares de pessoas.
Quando o Vélez fez um gol, o francês vibrou. O estádio tremeu, e tremi, com medo da represália. Expliquei que o menino era francês, ficou por aquilo mesmo. Pouco tempo depois, o Racing (se não foi o Racing, fica sendo) empatou, e o menino vibrou muito. Tudo resolvido.
O Chilavert no estádio era imenso, e fechou o gol. O Vélez fez um gol no final, creio, mas o menino estava distraído e ficou achando lindo a torcida comemorando.
Terminado o jogo, saí do estádio, segurando a mão daquele menino simpático e perguntador, em meio aos milhares de torcedores. Ah, meu Deus, como eu queria ter uma superbonder, para grudar aquela menino na minha mão… Parecia meu filho. Comeu cachorro quente com refrigerante, estava eufórico com a torcida, perguntou quando era o próximo jogo. Menos, Laurent, bem menos.
Voltamos para casa, digo, para o albergue, e Laurent parou de fazer perguntas. Passou a dar aulas sobre futebol. Parecia mais um comentarista infantil de alguma mesa redonda.
Quando chegamos, os pais correram desesperados para os abraços, para saber se ele estava bem.
“Foi um jogo maravilhoso”, respondeu ele.
Os pais me agradeceram muito, disseram que eu era muito cuidadoso, que o Laurent tinha gostado muito de mim. Também pudera.
O restante dos dias no albergue, não mais que três, significaram apenas um movimento do meu amiguinho francês – bastava ele me ver, que se aproximava e perguntava quando seria o próximo jogo, se eu poderia levá-lo novamente. Eu não era mais um homem, um ser humano, era a personificação do futebol.
Não haveria a segunda vez. Os pais de Laurent não gostavam de futebol, tinham medo da violência, e eu iria embora para o interior da Argentina.
Lembro até hoje de seu olhar triste, muito triste, quando fui embora. Meses depois, sua mãe me mandou um email.
“O Lauren disse que foi o dia mais feliz da vida dele”.
Todo menino que foi ao estádio pela primeira vez, aos sete anos, sente a mesma coisa.
(Texto para uma coletânea sobre futebol, a ser publicado este ano, pela Editora Casa das Musas)
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