Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

janeiro 2009
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivos


Usuários online

Usuários: %GUESTS_SEPERATOR%8 Caranguejos%BOTS_SEPERATOR%1 Escafandrista

De volta ao aconchego

9 de janeiro de 2009, às 13:42h por Samarone Lima
Seu Vital (Foto com pintura de Clarissa Garcia)

Seu Vital (Foto com pintura de Clarissa Garcia)

Sempre que estou sem inspiração, recorro ao velho Poço da Panela. Ah, como aquela velha esquina de Seu Vital me faz bem…

Ontem, depois de um dia cheio de reuniões, encaminhamentos, projetos, eu querendo salvar o mundo com literatura, cheguei lá ao entardecer, A sorte foi tanta, que até um velho amigo da Católica, Gustavo, passou pela parada de ônibus e me deu carona. Gustavo lembrou de uma viagem que fizemos, há muitos anos, para Fortaleza: Ele, eu, Valdemir Leitre e o velho Léo, que agora é da Polícia Federal.

Cinco e pouco da tarde. O dia vai dobrando a esquina. Falo com Seu Vital, que está com a mão direita enfaixada. Uma queda na Visconde de Suassuna. Não entrei nos detalhes. Uma Brahma, que está com toda a pinta de que foi gelada um dia, agora está somente fria.  A mesma Brahma de sempre. A famosa cerveja de Seu Vital, que deve ser patenteada.

Numa mesa, Heitor e Luís Maúcha, vulgo Pezão. Os dois já mamaram um bocado, de formas que puxo uma mesa contígua (gostei dessa). Fico quetinho, puxo meu caderno e penso numas lorotas e verdejâncias para receber a noitinha, que vai chegando.

Dona Severina, sócia de Seu Vital, passa, me conta as novidades. Vai operar o pulso hoje. A essa hora, já deve estar em casa. Um negócio no tendão. Nunca entendi bem de tendões, desde a 5a série.

“Qualquer dia, vai ter um acidente de trânsito aqui no Poço”, vaticina Heitor, diante do movimento. Foram dois carros em pouco mais de vinte minutos, um exagero.

A conversa na mesa ao lado incrementa, com a chegada de dois malandros de primeira. Depois chega outro. Diálogos mansos no Poço:

“Pois eu conheço o Alan… Alan Bique”, diz um, com aquela velha piadinha que todo homem de bar conhece.

“Ele é parecido com o Alan… Alan de Longe…”

Ra ra ra…

Passa um menino com uma bicicleta, vem outro, gorduchino, correndo atrás, gritando “vou te pegar, me devolve minha bicicleta, vou te pegar”.

A luta é desigual, mas o menino é valente. Cinco minutos depois, tomou sua bicicleta de volta.

“São primos”, diz Maúcha.

“Peguei minha biciclete e dei uma pisa nele”, responde o outro.

Calma valente…

Vai escurecendo, o poste demora a acender, fico sem visão de campo para anotar e ponderar.

Daqui a pouco chega Pantera, desce do carro, me dá a mão.

Nessa hora exata, a luz acende.

“Trouxesse a luz, Pantera”.

Ele ri, senta, puxa seu Hollywood e dá uma boa tragada. Ah, que inveja eu não sinto de dar boas tragadas num entardecer…

Pouco depois, começa o barulho das pedras do dominó. Discutimos e chegamos à conclusão que o dominó é uma forma de meditação, seja pelos números, seja pelas batidas das pedras nas mesas.

Tomo duas cervejas, me espreguiço todo, fico na dúvida se tomo ou não um remédio de Vital, então chega Walter Barba, para contar novidades. Depois, Diazepan, com uma caminhoneta nova que parece um tanque.

Fim das anotações e besteirices. Vou para dentro do bar, com Walter. Sou um amante dos balcões.

Nas intocas, Dona Severina me passa um pouco de camarão cozido. O jeito é tomar um bom remédio, que está fortíssimo. Glub glub glub. Cura muitos males e deformações do espírito.

Estou para sair, quando chega Naná. Está mamadinho, rindo até de urubu.

“Diz aí, bicho, qual é a tua”.

Ele voltou à carga, depois de dois meses sem beber. Nesses casos, a sede é maior que a capacidade de absorção. Resolvemos comemorar algo, começamos a conversar lorotas, algumas cervejas depois, já compramos uma casa no Poço, construimos uma biblioteca, tivemos projetos aprovados por vários patrocinadores, plantamos árvores, cuidamos das crianças e o Santa Cruz já foi campeão antes de jogar.

O fato é que saí de Vital lá pelas tantas e bem tonto.

Postado em Crônicas | 10 Comentários »

Carta aos israelenses

7 de janeiro de 2009, às 1:49h por Samarone Lima
Este pai palestino teve três dos seus filhos mortos após ataque do exército israelense - Foto: The Guardian

Este pai palestino teve três dos seus filhos mortos após ataque do exército israelense - Foto: The Guardian

Senhores, basta. É cruel, desumano e covarde o que estão fazendo com o povo palestino. A cada minuto, cada hora, cada manhã, há mais cadáveres na Faixa de Gaza. Vejo imagens de crianças sendo enterradas e já nem sei, ninguém sabe, o número de mortos. A última e sinistra atualização é desesperadora – já são mais de 600 vítimas fatais - um quarto são civis.

São mulheres, donas de casa, faxineiras, costureiras. São trabalhadores, lenhadores, eletricistas. São meninos que tinham sonhos, que ontem estavam chutando uma bola ou catando uma pedra, para jogar de forma patética, como um grito que voa, em um dos mais poderosos exércitos do mundo.

Senhores, nove israelenses morreram, neste mesmo período. Nove. Não há guerra, mas um massacre.

Leio horrorizado que até um barco com quatro toneladas de medicamentos, foi atingido por um barco da Marinha de Israel. Os remédios, que salvariam dezenas de vidas, nunca chegarão aos feridos, que já devem estar mortos.

Há pedidos de cessar-fogo do mundo inteiro. Um povo que já teve suas terras, sua vida, está sendo arrasado. Quero mais que cessar-fogo. Quero o fim da insanidade, da matança, da covardia que está sendo este ataque maciço contra os palestinos.

Lembro agora de todos os escritores, poetas, músicos, oriundos de Israel. Sei que muitos não aceitam a carnificina, e sonho que eles, de alguma forma, lutem contra isso. Lembro do rabino Henry Sobbel, que entrevistei tantas vezes, e de sua felicidade ao receber o prêmio Wladimir Herzog de Direitos Humanos, ao lado do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e do pastor Jaime Wright. Rabino, será que concordas com o recente bombardeio de uma escola da ONU, na Faixa de Gaza? Onde andará meu amado Amóz Oz, com seus romances que me deram tanta alegria? Falou algo? Tem protestado?

Recorro a Robert Fisk, único jornalista confiável que cobre a região, para um pequeno lembrete:

“É por isso que Gaza existe: os palestinos que viviam em Ashkelon e nos campos vizinhos – Askalaan, em árabe – foram expulsos de suas terras em 1948 quando Israel foi criado, e terminaram nas praias de Gaza. Eles ou seus filhos, netos e bisnetos estão entre os 1,5 milhão de palestinos amontoados na fossa fétida de Gaza, onde 80% das famílias vivem em terras que hoje pertencem a Israel”.

“A existência de Gaza serve como lembrete aos israelenses das centenas de milhares de palestinos que perderam seus lares, que fugiram ou foram expulsos por medo de limpeza étnica que Israel conduziu 60 anos atrás, quando levas de refugiados ainda vagueavam pela Europa e um bando de árabes expulsos de suas terras não preocupava o mundo”.

Daqui de muito longe, desarmado e engasgado, mando este pedido, que vocês nunca lerão.

Postado em Crônicas | 11 Comentários »

Artigos posteriores »