
Na Sexta-Feira Gorda, às 13h, eu estava segurando uma das alças do caixão de minha tia Flocely, que morreu na noite anterior.
Meu sentimento era apenas um – ela finalmente descansou, foi para algum lugar onde estão os antepassados – que ela vinha falando tanto nos últimos meses. Partiu para algum encontro maior.
Na quinta-feira de manhã, eu já pressentira algo. Os informes médicos eram cada vez piores. A hemodiálise não funcionava, perdera sangue, tivera o primeiro ataque cardíaco. Entubada, sedada, já não interagia como nas visitas anteriores.
Na sexta-feira de manhã, a penúltima visita. Na minha hora de conversar com ela, estava uma pessoa frágil, de 82 anos, cheia de hematomas, sofrendo terrivelmente. Em seu ouvido, segredei:
“Tia, a senhora já pode descansar. Vá em paz”.
Beijei sua testa e fui embora.
À noite, na derradeira visita, não havia mais a meia hora disponível. O médico Paulo Rodrigues saiu da UTI e atendeu uma família, aflita pela não-liberação de um marcapasso pelo Sassepe. Foi uma longa conversa sobre as burocracias do sistema de saúde, que escutei com calma. Secretamente, eu já sabia que a tia já não estava com a gente.
Depois de vinte minutos, ele explicou cuidadosamente que ela tivera o segundo ataque. Tentara reanimar minutos antes, mas “ela não voltou”.
As metáforas humanas para a morte.
“Ela não voltou”.
Escutei tudo, agradeci sua atenção e fui para a parte mais dolorosa de tudo – avisar a Rosa, a fiel escudeira de tia, a mulher que a acompanhou com carinho e amor durante 18 anos. Rosa escutou e começou a chorar. Depois, avisar a Renato, filho de Rosa, praticamente um filho de tia. Me tornei o porta-voz da dor. Ligação para minha mãe, minha tia, primos, enfim.
O velório foi em casa. Bam Bam, seu amado vira-lata, rodou o caixão várias vezes, tentando entender o que se passava, depois ficou debaixo do sofá. Não disse uma latida, não reclamou uma vez sequer daquele entra e sai de pessoas que ele há tempos não via. Ficou triste, cabisbaixo, sorumbático. Bam Bam, na sexta-feira de Carnaval, era o mais triste dos cães.
Durante toda a manhã, chegaram amigos e alguns parentes. Aos 82 anos, chegava ao fim a vida de uma grande mulher.
Ela foi enterrada no jazigo da família, junto com sua mãe e o irmão, o tio Paulo, uma criatura adorável.
Ao final, quando minha prima escrevia o nome de tia no cimento fresco, consegui chorar, antes de aplaudi-la.
Não, não estou irremediavelmente triste, arrasado. Eu não queria vê-la sofrendo. A medicina fez tantos avanços, que é capaz de prolongar uma vida, a base de remédios e máquinas, por meses. Temi que tia se tornasse uma dessas vítimas indefesas. Eu mesmo já combinei com alguns amigos, que se eu for pego por uma UTI dessas da vida, se estiver sofrendo, inconsciente, eles devem sabotar as máquinas e me deixar partir.
Agradeço aos meus leitores que me deixaram mensagens amorosas e de esperança nesses dias de tormenta.
Agradeço também os médicos do Hospital São Salvador, que fizeram o possível e o impossível para que a tia voltasse para casa.
Tenham certeza que a dona Maria Flocely Ulisse da Silva, a Tia Flocely, finalmente descansou. Sua agonia terminou.
Isso, por mais contraditório que pareça, me deixa feliz.
O encontro
Conheci tia Flocely há muitos anos, quando ela foi de férias a Fortaleza. Ela e seu marido Carlinhos. Eu tinha uns 13 anos, e me recuperava do trauma da Copa de 82, quando perdemos para a Itália, que levarei ainda muitos anos para acreditar que foi verdade. Não imaginava que iria amar tanto aquela senhora de cabelos branquinhos, que iria morar com ela no Cabo por duas temporadas.
A primeira foi entre 1992 e 1994. Eu, um morta-fome da Casa do Estudante Universitário, já não aguentava os quatro anos de CEU. Um dia, minha mãe veio de Fortaleza, e me levou para ver a Tia Flocely.
Chegamos à rua Hercilia Cavalcante, 65, no Centro do Cabo. A tia voltar a morar na casa grande, depois de cuidar de seu marido, Carlinhos, que vivera os últimos sete anos com graves problemas mentais. Neste período, ela morou numa casinha pequena, ao lado.
Conversamos, passamos o dia, adorei a tia. Ela morava só, absolutamente só.
Um dia, minha mãe me ligou.
“Meu filho, vá visitar sua tia. Liguei para ela, e ela disse que falou com o espelho, de tão só que estava se sentindo”.
Fui visitar a tia. Algo nasceu. Na vez seguinte, falei que precisava sair da Casa do Estudante, que estava exausto daquela vida, e tia respondeu baixinho:
“Se você quiser vir morar aqui…”
Perguntei à minha mãe o que ela achava da idéia.
“Pelo amor de Deus, meu filho, isso não vai dar certo, você é bagunçado demais, sua tia é muito organizada, tem o sistema dela…”
Um mês depois, eu estava morando no Cabo. Era 1994.
Foram dois anos maravilhosos. Eu trabalhava no Diário de Pernambuco e pela primeira vez tinha aquilo que costumam chamar e “padrão de vida”. Morava com tia, trabalhava somente à tarde, e terminava o curso de Jornalismo, à noite. Tinha casa, comida e roupa lavada pela primeira vez, desde 1987. Puxa vida, cinco anos de vida dura, estudando e sobrevivendo.
Tia estava uma recém-aposentada sem ter muito o que fazer. Caminhava de manhã e também nadava. Mas estava lendo cada vez menos. Quando eu viajava, pelo jornal, voltava cheio de novidades e ela adorava saber de tudo. Um dia, chegou Rosa para trabalhar. Ela tinha um filhos de dois ou três anos, não lembro – era Renato.
Contrariando as previsões trágicas de minha mãe, nunca tivemos um reles pequeno atrito. Eu e tia Flocely realmente nos acertamos sem precisar de muitas palavras.
A cada seis meses vinha tio Paulo, que nos contava as mesmas histórias de aventura e proezas, e sempre achávamos o máximo. Lamento não tê-las gravado.
Um belo dia, meu chefe no Diário resolveu me tratar como um cachorro, eu pensei – se esse cara me tratar como cachorro e eu roer o osso, vão me tratar como cachorro a vida inteira. Dois dias depois, fui saindo de casa, quando tia me disse:
“Sama, quem muito se abaixa aparece o fundo”.
Fui ao departamento de pessoal e escrevi uma carta, pedindo demissão.
Três dias depois, chegou o telefonema de uma ONG, em São Paulo, me convidando para um posto. Era 1994, e o Brasil sonhava em ser tetracampeão.
Foi a primeira despedida de tia. Nunca imaginei que voltaria a morar naquele mesmo endereço. Rua Hercília Cavalcante, 65.
O reencontro
Reencontrei tia em 2000, quando voltei ao Recife. Rosa e Renato continuavam morando com ela. Consegui uma casinha boa no Poço, e a cada 15 dias, a visitava. No final de 2006, seu quadro geral começou a piorar. Tinha levado uma grande queda da escada, mas por sorte, quebrara apenas os pulsos, nada da bacia, fêmur. O rim entrava em declínio. Foi quando tomei uma decisão – devolvi a casa no bucólico Poço da Panela, e voltei a morar no Cabo.
Foi um processo ainda mais denso de aproximação. Muitas consultas, e o surgimento de alguns anjos, como o maravilhoso nefrologista Rafael Pacífico. Tive muitas longas conversas com tia, que anotei em meus caderninhos. Fomos a muitos médicos, até que um dia ela entrou em hemodiálise. Agradecimentos ao querido Elton, marido de Rosa, que fez o trabalho de morotista, três vezes por semana, do Cabo ao Recife.
Pouco depois, o tratamento passou a ser em casa, a “diálise peritonial”. Fiz curso para usar a máquina, mas foi Renato, filho de Rosa, quem tomou conta de tudo.
Sempre que eu viajava, retornava com notícias, jornais, novidades. Lembro que gravei uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna e botei para ela escutar. Tia dava gargalhadas generosas, com os causos de Ariano.
Tudo se estabilizou, as coisas estavam em paz, quando veio a queda. Foi a derradeira. Em 11 dias, ela sucumbiu.
Bem, é isso. É também a história de um encontro. A irmã de tia, vovó Zeneuda, cuidou de mim no primeiro ano de vida, até que quebrou o braço. Coube a mim retribuir de alguma forma, ajudando a cuidar de tia em seu crepúsculo.
Tudo está bem, a vida segue. Lembro do velho Porchia:
“Hasta las flores, para emanar sus perfumes, han menester morirse un poco”.