Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Qual foi a última vez que você sentiu vontade de fugir com o circo?

24 de março de 2009, às 19:08h por Samarone Lima

O Cirque du Soleil vem ao Recife, mas não irei. Não, de forma irredutivel e sonora. Me recuso a pagar valores num ingresso que vão de R$ 230,00 a R$ 490,00. Imagino que o sujeito que vai pagar o preço mais baixo, ficará junto do refletor, pendurado de forma comovente pelos pés, mesmo com medo de altura, que é o meu caso. A criatura capaz de pagar R$ 490,00 para ver um espetáculo, no Recife de hoje, gosta mesmo de um circo.

Mas nem é essa a questão, porque de “circo” mesmo, o circo que gosto e aprendi a amar, o”du Soleil” , de tão moderno, não me dá nada, ou muito pouco, do circo que trago no sangue.

Lembro dos circos miseráveis que vi pelo interior do Brasil, nas muitas andanças do meu pai. Em Imperatriz, no Maranhão, passou uma turba tão pobre, o circo era tão miserável, que faltava a parte de cima da lona. Mas posso sentir seu cheiro, posso ver seus palhaços esgarçados, as equilibristas gorduchas, algum globo da morte com motocas franzinas, soltando toda a fumaça da minha infância.

Sempre adorei circos. O circo do futebol, o circo do Carnaval, o circo de botar minhas coisas nas caixas e buscar outro cenário. O palhaço continua a povoar meu imaginário, e daí minha paixão pelas pessoas que brincam, que riem, que celebram, versus os sérios, os políticos que transpiram “seriedade e competência”. Minha mãe é uma pessoa que vive rindo. Meu irmão, o Antônio, seguiu o rumo. Os dois vivem felizes, com seus problemas e alegrias. Eu mesmo, sou um palhaço sem carteira assinada, mas com o nariz vermelho na algibeira do instante.

Estava aqui a pensar nessas coisas bestas, quando recebi o email de um amigo, falando dos recentes shows da banda Radiohead, que ele me ensinou a gostar, quando eu exercia a frenética e desnecessária carreira de dono de bar.

“Fiquei com vontade de fugir com o Circo, feito menino sonhador numa cidade do interior que é pouca, mas é bela, quando vê aquela magia pela primeira vez”.

Achei linda a confissão.  Primeiro, porque ele foi comigo a uma loja, em 2001, para comprar alguns discos que serviriam como boas vindas do bar. Foi quando escutei a banda pela primeira vez. Depois, porque ele arrumou suas malas e foi com o seu circo para o Rio de Janeiro, tentar a sorte no atribulado mundo do Jornalismo. Terceiro, porque é bem moço, e fiquei pensando no menino sonhador de uma cidade do interior, que todos somos – mais ou menos, dependendo da época. Ele é como um menino do interior, que acaba de ver a magia pela primeira vez.

Pouco depois, a pergunta que me iluminou esta tardinha:

“Qual foi a última vez que você sentiu vontade de fugir com o Circo?”

Glub. Chega deu aquela cosquinha no coração.

Meu problema foi que sempre senti vontade de fugir com o circo. Mais que isso, eu sempre fugi com o circo. Em cada cidade, fui deixando minhas lascas. Um sapato de palhaço, um nariz vermelho, uma roupa quadriculada, a flor na lapela.

Passei por muitas vidas, platéias, fiz minhas peripécias, ri, chorei, me emocionei, mas estava chegando um momento em que os leões estavam ficando banguelas, a equilibrista vivia a cair, o apresentador já não conseguia falar o “respeitável público”, sem ter acessos de tosse. Às vezes, de tanto querer prorrogar a magia, nos tornamos mais arremedo de nosso papel.

Meu segredo, por esses tempos, está sendo outro: Deixar o circo seguir, com seus equilibristas, domadores, palhaços, e começar a celebrar outra magia, que ainda não sei o nome.   

E no novo espetáculo, ficar feito o menino sonhador numa cidade do interior, quando vê aquela magia pela primeira vez.

Para Zeca, esse menino.

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Apontamentos sobre o fantástico mundo das reuniões

20 de março de 2009, às 15:46h por Samarone Lima

Há tempos não me reúno tanto. São projetos, encaminhamentos, pendências. Sou informado de reuniões em todos os horários, lugares e dias. Por email, telefone, por sinais de fumaça, por emissários, radio-amador, bihetes em papel de embrulhar pão. O efeito cascata, neste ramo, existe de fato. Uma reunião leva sempre a outras.

Parece que reunião se incorporou ao caráter do brasileiro de uma forma tão arraigada, que o senso do tempo foi também esquecido. Atrasos de 30, 40 minutos, por metade dos “reunintes”, são tratados como a naturalidade de um sabiá cantando na janela. Precavido, levo sempre meu livrinho na algibeira. Fico lá, me lambuzando com palavras, enquanto o povo dá sua meia hora clássica de atraso. Num caderninho, estou somando os atrasos. Por mês, são horas.

São os dois momentos mais temidos por mim em qualquer reunião – a hora de começar e a de terminar. Geralmente não começa na hora certa, e costumas terminar muito depois do tempo necessário.

Há reuniões que terminam de uma forma dramática – discute-se para saber a data da reunião seguinte, bem como o horário. Esta semana, queriam marcar uma reunião na sexta-feira, às 16h. Comecei a suar frio. Não vingou.

Até que não está tão ruim, eu é que reclamo. Já trabalhei num lugar que se reunia para discutir o tema da reunião seguinte, e ficar em silêncio um pouco era quase uma ofensa.

Bom mesmo em reunião é o dono da palavra. Aquele sujeito que fala sem parar, tem sempre argumentos e se repete o tempo inteiro. Ele nunca falta às reuniões, nunca está rouco, nunca tem uma tendinite nas cordas vocais, que deve ter outro nome. Sempre tem essa criatura que quer discutir não só o ponto em questão, mas a conjuntura, o famoso “pensar nisso levando em conta outros aspectos”. Tradução – mais 15 minutos indo para o ralo.

Sinto falta dos pragmáticos nessas horas. Este ano, somente em duas reuniões tive esta sorte. “Vamos encaminhar as coisas, para a gente terminar com um resultado concreto”, disse ela, e meus olhos já estavam lacrimejando de alegria. “Não gosto de ficar alongando reunião”, disse outra criatura, e a frase parecia ter saída de um livro de boas maneiras, uma etiqueta da inteligência. As duas reuniões duraram pouco mais de uma hora, tempo máximo para resolver qualquer pendência.

O celular, sem pudores, se tornou participante ativo das reuniões. Outro dia, a pessoa que estava falando na reunião, conduzindo um tema, muito séria e convicta, atendeu seu celular e começou a conversar com a outra pessoa. Terminado o papo, retornou do ponto onde tinha parado, como se nada tivesse acontecido. Me lembrei daquela história de Pedro Bó.

Há frases-padrão em reuniões.

“Precisa ser processual”;

“São elos de ligação”;

“Lógica de consciência”;

“Movimento de retorno”;

“Precisamos pensar o marco legal”;

“É preciso ponderar outros fatores”.

Como tenho participado de muitas reuniões, e a tendência é ser incluído em comissões, grupos de discussão, fóruns, estou desenvolvendo uma série de teorias sobre reuniões, que não levarão ninguém a lugar nenhum.

Uma das minhas teorias é de que nunca se deve marcar reuniões para horários quebrados (9h30, 10h30 etc). São as que mais atrasam. Outra teoria é que se no começo, o grupo já discutir sobre a duração da reunião, que horas vai terminar, elas são mais curtas e eficientes. A terceira teoria é que se uma reunião é marcada às 15h, vai terminar depois das 17h, muito mais por vício, que pelo conteúdo da reunião.

Como não sou ranzinza nem nada, registro algumas pequenas vitórias. Reuniões com o amigo Homero Fonseca, para discutir coisas da Bienal Internacional do Livro, são um exemplo. Agendamos sempre num café, e falamos de 12 ou 13 outros temas, geralmente coisas boas e divertidas, antes da reunião formal, e tudo caminha rápido. Sempre aparece um amigo simpático, durante o papo, que conta uma lorota e dá no pé.

Um caso a ser estudado pela ciência é Marcus Galindo, meu velho amigo. Ele participa de três reuniões simultâneas, enquanto orienta a quarta pelo celular, e escreve ata da quinta. Outro dia ele saiu de uma, almoçou se reunindo comigo e foi para a outra, já pensando na outra, à tardinha.

“Me espera aqui, bicho, que vai ser rapidinho”, disse, entrando em mais uma reunião.

Fiquei na sala dele, que tinha ar-condicionado, e poltrona, lendo meu poeta do momento ou algum romance nas intocas. Duas horas depois ele saiu, avexado. Iria para uma reunião no centro do Recife. Eu já tinha dado um baita de um cochilo.

Aí eu dei sorte, porque peguei carona. Tinha outra reunião à tardinha, eu, que graças à falta de um documento, foi cancelada.

Então fui me reunir com meus amigos do bar. A pauta era extensa e sem hora para acabar. Todos deveriam falar muito, porque o mundo está dando muito trabalho, os bancos estão quebrando e o Obama está numa baita enrascada. O único movimento de retorno que nos interessava era o do garçom. Nosso elo de ligação era a amizade, o afeto, com a mesa no centro de tudo. Ponderamos outros fatores, como o tira-gosto e a campanha do Santa Cruz no Estadual.

Graças a Deus, foi uma reunião longa, a pauta repleta e já marcamos a próxima. Não lembro se chegamos a alguma conclusão. Creio que não, diante da gravidade clubística. Registrei inúmeras questões de ordem, companheiros, e nenhum agravante que desabone os envolvidos. A conta foi regiamente paga, sem espaço para penduras.

Tenho dito.

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A pessoa é para o que nasce

16 de março de 2009, às 12:08h por Samarone Lima

Acho que é o nome de um documentário, ou é frase do consumo popular. A frase me ocorreu agora, nesta manhã de segunda-feira, onde a inspiração passou longe, está a quilômetros, e meu prazo para nova coluna acaba daqui a pouco. Sim, porque não sou desses blogueiros que escrevem somente nos momentos de inspiração, e quando a gente volta, está a mesma postagem há dez dias. É meu compromisso com meus parcos leitores, postar algo a cada três dias, chova ou faça chuva, que o Santa Cruz ganhe ou empate. Nem falemos de derrotas, que a situaçaõ está feia.

Vinha pensando na frase desde que fui à UFPE, semana passada, ver a defesa de mestrado da Emília. Terminado o evento (elogiadíssimo, seu trabalho), fiquei defronte ao Centro de Artes, esperando um papa-figo, amigo meu, professor. Iríamos almoçar juntos e tagarelar sobre projetos envolvendo bibliotecas. Fiquei olhando o povo passar, olhei as cinco árvores que sempre estiveram ali, desde que cheguei pela primeira vez, naquela primavera de 1988. A citação da primavera é uma homenagem ao John Fante, porque sou uma criatura nostálgica.

Pois bem, fique olhando o povo. Lembrei dos velhos amigos. Oswaldo, Tany, a turma toda do Núcleo de Estudos Indigenístas (NEI), e os grandes mestres que tive – Adair Palácio, João Dênis, Ricardo Aquino, fora os amigos que fui cultivando, como Luzilá, Lourival Holanda etc. Perdão, estou misturando os tempos, porque Lourival só fui conhecer mesmo quando voltei ao Recife, depois de um tempo fora.

Fiz uma rápida visita ao Departamento de Teoria da Arte. o velho Roberto me recebeu. Me reconheceu da janela, eu caminhando, depois de tantos anos. Perguntei por Carminha e Davi, estavam almoçando. Puxa, durante quatro anos, fizeram parte da minha vida. João Dênys não estava, fica para a próxima.

Fiz o curso de Educação Artistica quase inteiro, e só depois de muito tempo, descobri que eu só vivia com a turma de Letras. Não podia ver um seminário, encontro, palestra, que estava lá, assistindo, intrometidíssimo. Essa minha paixão com as letras virou um caso de amor da vida inteira, só vai acabar quando eu morrer. Mas dizem os budistas que voltamos em outras vidas, na próxima já me candidato a sobreviver escrevendo ou tomando conta de uma biblioteca. Acho bibliotecário uma das profissões mais nobres da humanidade.

Lembrei que uma época inventei de fazer um jornal, o “Correio Cultural” (que originalidade, heim?), com meu amigo Waldemir Leite. Eu era meio maluco. Tímido de doer, distribuía os jornais nas salas, falava que era da Casa do Estudante Universitário (CEU)e pedia uma ajuda. A turma colaborava, e assim eu pagava o jornal. O grande Tarcísio Pereira, lógico, dava uma ajuda, porque a Livro 7 ajudava todos os necessitados culturais de Pernambuco.

Não sei mais nem o que estava falando.

Ah, sim, “a pessoa é para o que nasce”.

Acho que o retorno demorado à UFPE, a contemplação dos novos alunos, me fez lembrar que nasci para isso mesmo. Para ver o povo, escutar, cheirar, sentir e escrever. Só não me formei em Educação Artística por causa de três disciplinas, que se chocavam com o horário do meu estágio no Diário de Pernambuco. Tive que seguir meu rumo, e digamos que sobreviver escrevendo me parecia mais lógico do que ensinando ou mergulhado no mundo do teatro. Eu como ator seria realmente de dar pena. Subir ao palco sempre me pareceu o grau máximo de despojamento de um ser humano, e não sou tão despojado assim.

Fiz imensos círculos imaginários só para dizer que estou sem inspiração mas acho que nasci para isso mesmo – escrever.

Isso no dia em que recebi a orelha linda do meu quarto livro – “Viagem ao Crepúsculo”, sobre a vida dos cubanos, 50 anos depois da vitória da Revolução. O Sérgio Buarque me deu uma grande alegria com suas impressões sobre o livro. Pela orelha, eu compraria o livro na hora.

Vou dar uma voltinha, em busca de algum assunto.

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Os 10 mais vendidos e minhas 10 inúteis sugestões literárias

9 de março de 2009, às 10:59h por Samarone Lima

Li, na Folha de São Paulo de ontem, a lista dos 10 livros mais vendidos no Brasil. Entre a perplexidade e a desolação, vejamos o que os brasileiros estão levando para casa:

1. A Cabana. William P. Young. Sextante. 

2. Eclipse. Stephenie Meyer. Intrínseca.

3. Crepúsculo. Stephenie Meyer. Intrínseca.

4. Lua Nova. Mesma autora. Mesma editora. Tá com a gota.

5. O vendedor de sonhos. Augusto Cury. Academia da Inteligência.

6. O Caçador de pipas. Khaled Hossein. Nova Fronteira.

7. O leitor. Bernhard Schlink. Record.

8. O menino do Pijama listrado. John Boyne. Companhia das Letras.

9. A  menina que roubava livros. Intrínseca.

10. A cidade ilhada. Milton Hatoum. Companhia das Letras.

Francamente, estamos em plena derrocada cultural. Daqui a alguns anos, os pesquisadores vão se debruçar sobre este período de trevas literárias. Surgirá alguma tese de doutorado intitulada: “Miséria cultural – o que os brasileiros liam no início do Século XXI”.

Não vou nem pesquisar as dez músicas mais ouvidas, muito menos os dez filmes mais assistidos.

Resumindo, a boa literatura está longe de ser a mais consumida. Desses dez, eu só arriscaria “O leitor”, porque gostei um pouco do filme, e o livro do Hatoum, pela confiança em seus trabalhos anteriores.

Como a segunda-feira é um dia chato pacas para o sujeito ter algum assunto, falta inspiração até a tardinha, resolvi publicar uma pequena lista de 10 sugestões para meus 22 leitores, principalmente os que não têm tempo de ficar procurando coisas boas nas livrarias. Fora isso, desses 22, sei que 11 confiam no meu bom gosto literário. Vamos lá.

1. Não te deixarei morrer, David Crockett, de Miguel Sousa Tavares. Editora Nova Fronteira. R$ 24,50.

Um livro de crônicas insuportavelmente lindo, forte, denso. Um grande amor que o ensinou a olhar para as coisas. Olhar para o filho dormindo, vigiar sua infância, sabendo que um dia ele será um adulto. A descrição de uma “quinta”, na cidade onde mora. A poesia de ser pai.  Como é bom estar vivo. Quero ser um velho desse jeito. Perto dos textos dele, fiquei até com vergonha de publicar em Estuário, com raríssimas excessões. A esperança é saber que o livro é apenas o sumo do sumo, só o melhor mesmo, que ele não é besta nem nada.

2. O longo adeus.Raymond Chandler. L&PM de bolso. Custa uns R$ 16,00.

Um belo romance policial – uma de minhas novas paixões. Prepare-se, porque o detetive Philip Marlowe, um sentimental e perdedor, vai entrar na sua vida e ficará até a última página. “Este beijo não vai deixar cicatriz nenhuma”. “Tiras nunca dizem adeus”. “Sou um lobo solitário”. É por aí que o samba toca.

Gostei tanto, que comprei, do Dashiell Hammet, “A mulher do bandido”.

3. Sonhos de Bunker Hill. John Fante. L& PM de bolso. Custa uns R$ 12,00

Todos os livros de John Fante devem ser lidos e relidos até a exaustão. “Dividíamos a escuridão juntos”. A prima de longos cabelos ruivos. “Ouvindo o calmo desespero”. “Quem eu conhecia? Nem a mim mesmo”.

Com Fante, a gente sempre espera por alguma primavera, ao lando de Bandini.

Outra opção: “Pergunte ao Pó”, do mesmo autor. O filme é uma lástima.

4. Bartleby, o escriturário. Herman Melville. P&PM de bolso. Custa R$ 8,00.

Estou apenas na página 25, o suficiente para saber que o livro é intensamente belo e pungente. Lembremos que o camarada também é o autor de Moby Dicky, as 50 primeira páginas de abertura de um romance mais fabulosas da literatura.

5. Entre dois Palácios. Nagib Mahfuz. Volume I da “Trilogia do Cairo”. Edições Best Bolso.

Não sei o preço, pois o ganhei de presente do Gustavo, em Salvador.

Um dos gigantes da literatura mundial, como diria César Maia. Estou na metade, cancelando todos os compromissos sociais, para chegar ao segundo volume – “O Palácio do desejo”.

6. Rumi. Poesia completa.

Tudo dele, o grande poeta Sufi, o maior. Cuidado para não ficar dependente, viciado. No meu caso, já é tarde. Rumi se torna uma espécie de oração diária, pão para os que têm fome de poesia.

7. Juan Guelman. Poesia completa.

O argentino maravilhoso que vive no México. Quando viajar a Buenos Aires, esqueça o tango, a Casa Rosada, tudo. Vá pras as livrarias, comprar tudo de Guelman. Em minhas missões de guerrilha, tenho avançado. Atualmente, tenho seis livros dele. Cinco em espanhol, um em português.

8. Os Sete Loucos & Os lança-chamas, de Robert Arlt.

O mais louco dos argentinos. O mais libertário. Borges? Bioy Casares? Ah, meu Deus, os gênios sempre são sempre outros, geralmente os que caíram na graça do mundo editorial. “Criaremos nossa literatura não conversando continuamente sobre literatura, mas escrevendo em orgulhosa solidão livros que contenham a violência de um “cross” na mandíbula”. “Indubitavelmente, não estava regulando bem”. “Estou faminto de revoluções sociais. Sabe o que é ter fome de revolução? Gostaria de atear fogo pelos quatro cantos do mundo”.

9. Humana, demasiado humana. O melhor livro de Luzilá Gonçalves.

A pessoa ainda pode pegar o autógrafo dela, no Poço da Panela, e alisar o cachorro, que é manso que dói. É a história de Lou-Salomé, Rilke e tem um bestinha no meio, um tal de Nietzsche, que deu com os burros nágua. O cara que tem o nome com “zs” no meio não dá muito certo, mas na filosofia, o bicho é um jardineiro e tanto.

10. O Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrel.

Só para espíritos refinados. A pessoa que já leu “Justine” está meio palmo acima da reles humanidade. É o mais caro de todos. Graças a Deus, vou morrer tendo lido duas vezes os quatro livros, que deveriam ser tratados como patrimônio da humanidade.

11. Como ninguém é de ferro, “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño. Esse vai de brinde. Leia e fique com saudades do Bolaño, que morreu aos 50 anos, maldição. Um dos grandes do nosso tempo.

Ps. se o dinheiro estiver curto, compre apenas o primeiro da lista. Da minha lista, claro. Se estiver sobrando, pegue logo o Quarteto e tente tudo de Guelman pela Internet. E não compre essas porcarias que são best-seller. Fazem mal para o corpo e o espírito.

Tenho dito. Só falta o povo ouvir.

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Uma vida, muitas coisas, e a mijada do menino no quartel

5 de março de 2009, às 16:19h por Samarone Lima

Outro dia, meu amigo Inácio me ligou. Eu estava cuidando do enterro de minha tia. Poucos dias depois, ele me ligou de novo. Eu estava dentro de um quartel do Exército, acompanhando a formatura do filho de uma amiga – cercado de milicos por todos os lados. Justamente na hora da ligação, o corneteiro começou a fazer o canto de formação. Inácio deve ficar pensando – quando vou ligar para esse cara e ele vai estar posto em seu sossego, vendo um filminho e tomando vinho?

Ano passado, andei metido no submundo do cárcere, audiência em fórum, essas coisas. Minha prima fora recolhida À Colônia Penal Feminina do Bompastor. Fui naquele presídio umas dez vezes. No mesmo ano passado, estava no Fórum Joana Bezerra (eu, não a prima), respondendo a dois processos por Calúnia de Difamação. Escapei fedendo.

Entre o final de 2007 e início de 2008, passei um mês em Cuba, evento que vai se transformar em um livro. Por último, nos seis meses do ano passado, acompanhei a “Nau”, aulas-espetáculos de Ariano Suassuna.

Às vezes eu me canso, mas me recupero logo.

Não reclamo dessas aventuras e desventuras. No final, somando tudo, as alegrias e tristezas, pequenas vitórias, derrotas, empates, vejo sempre o que posso levar para a minha vida. Melhor que isso, compartilho com meus leitors.

Para onde vou, tenho que ter uma agenda, um caderninho, e umas três canetas. Anoto o que acho importante, frases, detalhes, depois escrevo. No fundo, escrever para mim é compartilhar, é ter uma coisa e saber que ela não é só minha. A vantagem do Estuário é que tudo o que eu guardava em cadernos, vai sendo colocado no ar. Lê quem quer, e acho isso ótimo.

Nessas minhas andanças, vou descobrindo coisas engraçadas, que revelam também um pouco nosso jeito de ser.

Sabem o nome do 4º Batalhão de Comunicação do Exército?

Batalhão Arraial Novo do Bom Jesus.

Ora, estive lá com Iramarai. Não o quartel, claro. Trata-se de um lugar que o Exército arrasou, dizimou, liquidou – Canudos, na Bahia.

O Exército batiza seu quartel com uma das maiores máculas de nossa história. Os recruta, claro, não sabem.

O que faço num quartel, em plena terça-feira de muita chuva?

É a cerimônia de acolhida de um novo lote recrutas. Uma nova turma de soldados do Exército será formada.

A cerimônia é debaixo de chuva. Os familiares estão lá, com máquinas, celulares. Gente mais simples, mais de classe C e D, porque classe média nem pensa mais em Exército. Estou junto, para tirar fotos de Ricardo, que acabou de completar 18 anos, e passou na seleção.

Enquanto aguardamos a chegada dos 120 rapazes (selecionados de um total de 320), tenho uma surpresa. O som do quartel toca um piano a la Richard Claiderman. A música? “Eu sou aquele amante à moda antiga…”

Uai, os tempos são outros?

Os meninos chegam, numa marcha desconjuntada. Jovens de doer. Espinhas na cara, incertezas sobre o futuro, o Exército como opção para o momento. Tem uns ali que não aguentam nem segurar uma corneta direito. Há um frenesi nas famílias, uma briga quase selvagem por um bom lugar para tirar fotos. Estão ensopados, e meu amigo faz cara de mal.

O homenageado do dia é um tenente. O locutor começa a ler uma longa biografia do nosso herói, que é Furlan, ou Durran, ou Durlan, eu não entendo direito. Sei que o tenente tem mais medalhas no peito esquerdo que o Michel Phelps. O tenente fica defronte à tropa, e pela biografia, o homem ganha fácil do Marechal Rondon.O Furlan está se aposentando, depois de cumprir suas obrigações com a pátria.

“Pelo seu dinamismo e inteligência” é apenas o começo. Em 1999, foi enviado para Corumbá. “Lá, conheceu os mistérios da Amazônia”.

Depois, foi ser auxiliar da ouvidoria do Hospital Central do Exército. Cursos e mais cursos. Medalhas e mais medalhas. Não pude anotar, devido à chuva inclemente.

Em 2008, teve um “novo e inédito desafio”, que foi trabalhar onde estava, no Quartel de Canudos.

“A vocação para a carreira das armas”; “a formação moral irrepreensível”; “bom humor e energia”.

Vou tomando notas, enquanto duas meninas de tomara que caia, mal educadas de doer, me empurram para fotografar um sujeito com cara de camundongo.

Eu já estava cansado da biografia do tenente, maior que a de Dostoievski, que tem quatro volumes. Já tinha tirado fotos pacas, anotado a biografia do tenente, quando o comandante pegou o microfone.

“Batalhão, boa tarde!”

Os futuros soldados pareciam ter pego num fio molhado. Todos arregalaram os olhos e gritaram, a plenos pulmões:

“BOA TARDE, SENHOR COMANDANTE!”

Uma criança ao meu lado começou a chorar, de susto. O comandante (infelizmente, não apurei seu nome), se derramou em elogios ao Durlan, ou Furlan. Disse que ele terminava sua missão. O chamou de “companheiro”.

“Esta farda que é sua segunda pele”.

Ele olha para os recrutas, que estão na mesma posição há uns 40 minutos.

“Temos a obrigação de transformá-los em verdadeiros soldados de Caxias!”

Glub.

Depois, a velha frase:

“Aqui, entrarão meninos, sairão homens”.

Para os parentes, um aviso:

“Fiquem tranquilos com o Exército Brasileiro!”

Para os recrutas:

“Preparem-se para fazer parte do invicto Exército Brasileiro! Preparem-se para a jornada”.

Por último, uma cena e tanto. Um sujeito, auxiliar do comandante, dá um longo grito:

“Páaaaaaaatriiiiiiiaaaaaaaaaa!”

Os 120 rapazes levam um novo choque, desta vez de 220 volts, com o chão molhado. Todos respondem, num só grito:

“BRASIL!”

Ato contínuo, os soldados do amanhã saem marchando, com a música da banda militar. Os primeiros acordes lembram bastante o hino do Santa Cruz. Dá até uma cosquinha no coração.

Olho para o lado. Um menino de uns três anos, no máximo, bota a pitoca pra fora e começa a mijar, no jardim do quartel. Não está nem aí para nada. A mãe dele muito menos. Só sendo muito doente, a pessoa, para impedir um menino de mijar inocentemente no jardim de um quartel.

Do alto da minha prosopopéia, dou vivas ao menino que mija em pleno desfile militar – ainda mais quando o local se chama Arraial Novo do Bom Jesus, melhor, Canudos.

O que nos sobra em força, nos falta em memória.

E a vida segue.

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