Qual foi a última vez que você sentiu vontade de fugir com o circo?
Samarone Lima
O Cirque du Soleil vem ao Recife, mas não irei. Não, de forma irredutivel e sonora. Me recuso a pagar valores num ingresso que vão de R$ 230,00 a R$ 490,00. Imagino que o sujeito que vai pagar o preço mais baixo, ficará junto do refletor, pendurado de forma comovente pelos pés, mesmo com medo de altura, que é o meu caso. A criatura capaz de pagar R$ 490,00 para ver um espetáculo, no Recife de hoje, gosta mesmo de um circo.
Mas nem é essa a questão, porque de “circo” mesmo, o circo que gosto e aprendi a amar, o”du Soleil” , de tão moderno, não me dá nada, ou muito pouco, do circo que trago no sangue.
Lembro dos circos miseráveis que vi pelo interior do Brasil, nas muitas andanças do meu pai. Em Imperatriz, no Maranhão, passou uma turba tão pobre, o circo era tão miserável, que faltava a parte de cima da lona. Mas posso sentir seu cheiro, posso ver seus palhaços esgarçados, as equilibristas gorduchas, algum globo da morte com motocas franzinas, soltando toda a fumaça da minha infância.
Sempre adorei circos. O circo do futebol, o circo do Carnaval, o circo de botar minhas coisas nas caixas e buscar outro cenário. O palhaço continua a povoar meu imaginário, e daí minha paixão pelas pessoas que brincam, que riem, que celebram, versus os sérios, os políticos que transpiram “seriedade e competência”. Minha mãe é uma pessoa que vive rindo. Meu irmão, o Antônio, seguiu o rumo. Os dois vivem felizes, com seus problemas e alegrias. Eu mesmo, sou um palhaço sem carteira assinada, mas com o nariz vermelho na algibeira do instante.
Estava aqui a pensar nessas coisas bestas, quando recebi o email de um amigo, falando dos recentes shows da banda Radiohead, que ele me ensinou a gostar, quando eu exercia a frenética e desnecessária carreira de dono de bar.
“Fiquei com vontade de fugir com o Circo, feito menino sonhador numa cidade do interior que é pouca, mas é bela, quando vê aquela magia pela primeira vez”.
Achei linda a confissão. Primeiro, porque ele foi comigo a uma loja, em 2001, para comprar alguns discos que serviriam como boas vindas do bar. Foi quando escutei a banda pela primeira vez. Depois, porque ele arrumou suas malas e foi com o seu circo para o Rio de Janeiro, tentar a sorte no atribulado mundo do Jornalismo. Terceiro, porque é bem moço, e fiquei pensando no menino sonhador de uma cidade do interior, que todos somos – mais ou menos, dependendo da época. Ele é como um menino do interior, que acaba de ver a magia pela primeira vez.
Pouco depois, a pergunta que me iluminou esta tardinha:
“Qual foi a última vez que você sentiu vontade de fugir com o Circo?”
Glub. Chega deu aquela cosquinha no coração.
Meu problema foi que sempre senti vontade de fugir com o circo. Mais que isso, eu sempre fugi com o circo. Em cada cidade, fui deixando minhas lascas. Um sapato de palhaço, um nariz vermelho, uma roupa quadriculada, a flor na lapela.
Passei por muitas vidas, platéias, fiz minhas peripécias, ri, chorei, me emocionei, mas estava chegando um momento em que os leões estavam ficando banguelas, a equilibrista vivia a cair, o apresentador já não conseguia falar o “respeitável público”, sem ter acessos de tosse. Às vezes, de tanto querer prorrogar a magia, nos tornamos mais arremedo de nosso papel.
Meu segredo, por esses tempos, está sendo outro: Deixar o circo seguir, com seus equilibristas, domadores, palhaços, e começar a celebrar outra magia, que ainda não sei o nome.
E no novo espetáculo, ficar feito o menino sonhador numa cidade do interior, quando vê aquela magia pela primeira vez.
Para Zeca, esse menino.
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