O silêncio
Samarone Lima
Ando cada vez mais preocupado com o silêncio. Ele está sendo caçado, como um artilheiro, pelo zagueiro violento da várzea.
Parece que ficou determinado – é proibido fazer silêncio, em qualquer contexto, em qualquer lugar.
Vá a um restaurante. Chique, mediano, proletário. Está lá, a TV, o som altíssimo. Não podemos mais ficar na companhia das reles conversas. Nos consultórios, nos hospitais, clínicas, é rigorosamente proibido fazer silêncio.
Minha tia morreu recentemente. No velório, parecia que algo estava escrito – não farás silêncio. Rezarás o tempo inteiro, cântarás.
No cemitério, quase gritei por um minuto de silêncio. Rezas, cânticos, mais rezas.
Ai meu Deus, que saudades do minuto de silêncio em homenagem a alguém, antes de um jogo de futebol…
Na missa de Sétimo Dia, o padre atrasou. Foram 39 minutos de tormenta. Rezaram tanto, que a alma de minha tia quase passou do céu.
Amor demais? Não. O silêncio incomodava os cristãos, parecia doer.
Fui a um restaurante outro dia. Tinha três ambientes. Num deles, forró na TV 39 polegadas. No outro, a onipresente Ivete sangalo. No terceiro, U2.
Se eu fosse dono, criaria o quarto ambiente: O do silêncio.
Não sei o que as pessoas têm tanto para falar ao celular. Alguns amigos começam a andar com dois celulares, um para cada promoção de um plano, de uma operadora. Outros atendem uma ligação, no meio de uma conversa, e tratam da vida inteira, enquanto o besta aqui fica chupando pirulito.
Minha definição clássica é esta - estou conversando com uma pessoa, ela atende três ligações ao celular e fica conversando na minha presença, vou embora.
“Boto dez reais por mês, ganho dez reais de crédito por dia, e posso falar à vontade”, me diz um amigo.
Grande besteira. Então chame seu celular para ser seu amigo.
Meu Deus, chegará um dia em que o silêncio será comprado a ouro.
Busco o silêncio. Ainda não é desesperadamente.
Pelo ruído da carruagem, um dia será.
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