Pouco depois da morte da minha tia-avó, a amadíssima Flocely, antes do Carnaval, surgiu um rumor na família - conversas paralelas, à boca miúda, especulações que não se confirmavam, expectativas. A palavra se chamava “herança”. Todo mundo sabe o que é isso, e como é complicado.
A expectativa (ou esperança) fazia sentido. Minha tia se aposentou aos 64 anos. Era funcionária aposentada do estado de Pernambuco e do Governo Federal. Foi diretora de escola praticamente a vida inteira, e chegou à velhice com algo não muito comum na massa da população brasileira - casa própria, carro, e uma casinha na Enseada dos Corais. As duas aposentadorias lhe davam um bom sustento.
Depois de se aposentar, tia ficou em seu cantinho, no Cabo. Gostava de ficar em casa. Não viajou, não fez cruzeiros, não foi conhecer a Europa ou América Latina – coisas que poderia tranquilamente ter feito. Ficava feliz quando eu viajava e mandava os cartões postais, que às vezes ela não entendia a letra bem. Não tinha luxos, a não ser um ar-condicionado, e assinava aquela revista Readers Digest. Fora isso, colecionava corujas. Cada viagem que eu fazia, comprava uma nova e diferente para ela.
Tia, que não era besta nem nada, aplicava o dinheiro, mas também ajudava todo mundo. Não há uma pessoa da família, entre irmãos, sobrinhos, filhos dos sobrinhos, amigos e vizinhos, que não tenham recebido sua ajuda, uns mais, outros menos. Empréstimos que se tornavam dinheiro a fundo perdido. Sabia o que estava fazendo. De certa forma, fazia uma partilha antecipada.
Ela morreu aos 82. Sempre tive medo que algo de ruim acontecesse quando eu estivesse longe, mas eu estava perto, bem perto. Pelos meus cálculos, passou 18 anos aposentada. Viveu como quis, alheia aos consumos e novidades. Gostava mesmo de sua casinha, a conversa com as vizinhas, que aos poucos foram morrendo, seus programas na TV, que fatalmente levavam aos cochilos. Gostava do Raul Gil, detestava o Faustão. Torcia pelo Santa Cruz, claro, e nos jogos da Seleção Brasileira contra a Argentina, ficava gritando com os argentinos, chegando aos palavrões mais desaforados.
Um dia levei um DVD de presente, e alguns filmes foram compartilhados. Detestou “Valentim”, filme que adoro, mas detestou também o tal de “Mr Bin”, que eu também detesto. Comprei porque pensei que iria agradar, o que prova que quando a gente quer agradar, no lugar de ser sincero, sempre dá errado. Passei a comprar aquela coleção de filmes religiosos, e ela viu todos – Moisés, Barrabás, Pedro etc.
Pouco depois de tia se aposentar, chegou uma senhora para cuidar dela, chamada de Rosa. Rosa era meio braba, mas convivi pouco com ela, porque depois fui morar em São Paulo. Ela começou a cuidar primeiro da casa, mas, com o tempo, passou a cuidar de tia.
Rosa se afeiçoou àquela senhora de cabelos branquinhos, que praticamente passou a morar na rua Hercilia Cavalcante. Teve um filho, Renato, que desde os três anos, passou a morar na casa de tia. Nunca a chamava de “Floceli”, só de “tia”. Os dois seriam anjos para aquela senhora que não teve filhos. Com a piora da saúde, nos últimos anos, passaram a cuidar da limpeza, alimentação, mantendo os equipamentos da diálise de tia – todos os dias.
Quando tia morreu, fiquei preocupado com Rosa. Foram 18 anos de trabalho initerrupto, sem feriado, folga, licença. Não podia e não queria. Não deixava tia ficar em depressão, puxava assunto, dizia para ela se animar, comprava uma coxinha (que tia adorava), e quando ela cismava de ter fastio, mandava ver nos aviões com comida.
“Tem que comer, Flocely, senão fica fraca”, dizia.
E tia, mesmo sem muita animação, comia.
Três dias depois da morte de tia, uma vizinha chegou com a cópia de um documento. Fora feito por Dona Floceli Ulisses, alguns meses antes de morrer. Rosa me chamou. Era algo sobre “um testamento”.
Fui ao cabo. Li o documento. Rosa e uma sobrinha de tia ficaram como “herdeiras universais”, de tudo o que aquela ex-diretora de escolas acumulara ao longo da vida. A sobrinha por questão de sangue, e Rosa, “por gratidão”.
Minha tia, aos 82 anos, débil, frágil, com seus ossinhos infantis, foi silenciosamente ao cartório do Cabo e fez seu testamento, deixando metade de tudo para Rosa, essa mulher que aprendi a admirar.
Eu, que já amava essa tia desde tempos muito remotos, achei que ela conseguiu deixar sua pequena mensagem mesmo já perto da morte. Lembrou de quem cuidou, de quem a animou, de quem a fez viver mais e melhor, de quem nunca a abandonou.
Lembro que uma vez Rosa me disse, sem muita enrolação:
“Floceli pode ficar sem um tostão, que vou cuidar dela até o fim da minha vida. É minha missão”.
Com o que vai receber, Rosa poderá ter uma vida boa, apesar de ter dito que trocaria tudo o que recebeu, pela presença de tia.
Gratidão. Tia Floceli deu uma dimensão ainda mais humana a esta palavra, pouco antes do fim.