Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Por gratidão

21 de abril de 2009, às 11:23h por Samarone Lima

Pouco depois da morte da minha tia-avó, a amadíssima Flocely, antes do Carnaval, surgiu um rumor na família - conversas paralelas, à boca miúda, especulações que não se confirmavam, expectativas. A palavra se chamava “herança”. Todo mundo sabe o que é isso, e como é complicado.

A expectativa (ou esperança) fazia sentido. Minha tia se aposentou aos 64 anos. Era funcionária aposentada do estado de Pernambuco e do Governo Federal. Foi diretora de escola praticamente a vida inteira, e chegou à velhice com algo não muito comum na massa da população brasileira - casa própria, carro, e uma casinha na Enseada dos Corais. As duas aposentadorias lhe davam um bom sustento.

Depois de se aposentar, tia ficou em seu cantinho, no Cabo. Gostava de ficar em casa. Não viajou, não fez cruzeiros, não foi conhecer a Europa ou América Latina – coisas que poderia tranquilamente ter feito. Ficava feliz quando eu viajava e mandava os cartões postais, que às vezes ela não entendia a letra bem. Não tinha luxos, a não ser um ar-condicionado, e assinava aquela revista Readers Digest. Fora isso, colecionava corujas. Cada viagem que eu fazia, comprava uma nova e diferente para ela.

Tia, que não era besta nem nada, aplicava o dinheiro, mas também ajudava todo mundo. Não há uma pessoa da família, entre irmãos, sobrinhos, filhos dos sobrinhos, amigos e vizinhos, que não tenham recebido sua ajuda, uns mais, outros menos. Empréstimos que se tornavam dinheiro a fundo perdido. Sabia o que estava fazendo. De certa forma, fazia uma partilha antecipada.

Ela morreu aos 82. Sempre tive medo que algo de ruim acontecesse quando eu estivesse longe, mas eu estava perto, bem perto. Pelos meus cálculos, passou 18 anos aposentada. Viveu como quis, alheia aos consumos e novidades. Gostava mesmo de sua casinha, a conversa com as vizinhas, que aos poucos foram morrendo, seus programas na TV, que fatalmente levavam aos cochilos. Gostava do Raul Gil, detestava o Faustão. Torcia pelo Santa Cruz, claro, e nos jogos da Seleção Brasileira contra a Argentina, ficava gritando com os argentinos, chegando aos palavrões mais desaforados.

Um dia levei um DVD de presente, e alguns filmes foram compartilhados. Detestou “Valentim”, filme que adoro, mas detestou também o tal de “Mr Bin”, que eu também detesto. Comprei porque pensei que iria agradar, o que prova que quando a gente quer agradar, no lugar de ser sincero, sempre dá errado. Passei a comprar aquela coleção de filmes religiosos, e ela viu todos – Moisés, Barrabás, Pedro etc.

Pouco depois de tia se aposentar, chegou uma senhora para cuidar dela, chamada de Rosa. Rosa era meio braba, mas convivi pouco com ela, porque depois fui morar em São Paulo. Ela começou a cuidar primeiro da casa, mas, com o tempo, passou a cuidar de tia.

Rosa se afeiçoou àquela senhora de cabelos branquinhos, que praticamente passou a morar na rua Hercilia Cavalcante. Teve um filho, Renato, que desde os três anos, passou a morar na casa de tia. Nunca a chamava de “Floceli”, só de “tia”. Os dois seriam anjos para aquela senhora que não teve filhos. Com a piora da saúde, nos últimos anos, passaram a cuidar da limpeza, alimentação, mantendo os equipamentos da diálise de tia – todos os dias.

Quando tia morreu, fiquei preocupado com Rosa. Foram 18 anos de trabalho initerrupto, sem feriado, folga, licença. Não podia e não queria. Não deixava tia ficar em depressão, puxava assunto, dizia para ela se animar, comprava uma coxinha (que tia adorava), e quando ela cismava de ter fastio, mandava ver nos aviões com comida.

“Tem que comer, Flocely, senão fica fraca”, dizia.

E tia, mesmo sem muita animação, comia.

Três dias depois da morte de tia, uma vizinha chegou com a cópia de um documento. Fora feito por Dona Floceli Ulisses, alguns meses antes de morrer. Rosa me chamou. Era algo sobre “um testamento”.

Fui ao cabo. Li o documento. Rosa e uma sobrinha de tia ficaram como “herdeiras universais”, de tudo o que aquela ex-diretora de escolas acumulara ao longo da vida. A sobrinha por questão de sangue, e Rosa, “por gratidão”.

Minha tia, aos 82 anos, débil, frágil, com seus ossinhos infantis, foi silenciosamente ao cartório do Cabo e fez seu testamento, deixando metade de tudo para Rosa, essa mulher que aprendi a admirar.

Eu, que já amava essa tia desde tempos muito remotos, achei que ela conseguiu deixar sua pequena mensagem mesmo já perto da morte. Lembrou de quem cuidou, de quem a animou, de quem a fez viver mais e melhor, de quem nunca a abandonou.

Lembro que uma vez Rosa me disse, sem muita enrolação:

“Floceli pode ficar sem um tostão, que vou cuidar dela até o fim da minha vida. É minha missão”. 

 Com o que vai receber, Rosa poderá ter uma vida boa, apesar de ter dito que trocaria tudo o que recebeu, pela presença de tia.

Gratidão. Tia Floceli deu uma dimensão ainda mais humana a esta palavra, pouco antes do fim.

Postado em Crônicas | 19 Comentários »

19 Comentários

  1. anônimo Disse:

    Gratidão…..Adorei!!!!

  2. Victor Disse:

    Coisa rara nos dias de hoje

  3. Luisiana Lamour Disse:

    Prezado Samarone
    Conheci tão pouco a Tia Floceli,e Rosa também, acredito que vi Rosa apenas 01 vez em consulta ou o contato foi por telefone.Do que li até agora neste relato, cheguei às lágrimas, pois sei bem o que dedicação e também a falta dela para com o idoso.Com certeza sua tia teve de Rosa a dedicação, amor,paciência que tanto necessitava, principalmente no decorrer da doença, a insuficiência renal que tanto maltrata.
    Que a Tia Floceli descanse em paz e que Rosa seja feliz por todo o amor e carinho que dedicou a ela.
    Um abraço
    Luisiana Lamour

  4. ana lisa Disse:

    Olá Sama
    Sem conhecer a “tia”ou mesmo vc fui as lágrimas também. Tenho medo sim da solidão, não de estar sozinha. A graditão da “tia” deve ter sido algo natural de alguém consciente da missão da Rosa.
    Muito interessante vc escrever sobre isso.

  5. GEYSON MONTE Disse:

    OI NOBRE SAMA,

    VOCÊ SABE QUE ESCREVENDO ESTA MATÉRIA ESTÁ ME CAUSANDO NOVAMENTE AQUELE ENTUSIASMO QUE TIVE LÁ NO PRINCESA ISABEL. A TIA FLOCELI DEIXA-NOS BOQUIABERTOS COM SEU GESTO. É COMO FOI ESCRITO ACIMA: “COISA RARA NOS DIAS DE HOJE”. DEVIA SER UMA GRANDE PESSOA!!!

    ABRAÇO FRATERNO,
    GEYSON MONTE

  6. Amanda Disse:

    Sou a paixonada por Tia Flocely sem ao menos ter conhecido.

    Beijos, Sama.

  7. Gerson Disse:

    Belíssimo texto, Sama. Quem dera todos fossem que nem nem tia Flocely…

  8. Magna Disse:

    Ah, Sama, mas eu não esperava nada diferente de tia. Gratidão é um sentimento que as almas boas têm de sobra, por se saberem acompanhados ao mesmo tempo que são companheiras.
    Fiquei muito feliz com esta crônica tua. Muito feliz e tocada de um sentimento que ainda não sei o nome, mas vou descobrir.
    Beijos.
    Magna
    Obs.:por que você tirou a parte que fala de Bambam? Essa “herança” aí tem pernas e vontade própria. Ah, e tem um rabo para apontar o caminho e o carinho. Fala dele, vai.

  9. Luisiana Lamour Disse:

    Oi Samarone
    Magna lembrou bem:fale de Bambam,este deve ser sempre lembrado, pois como disse a amiga”tem um rabo para apontar o caminho e o carinho”.Coloque foto dele, a gente vai ficar feliz e Tia Floceli também.
    Com ceteza você provocará latidos de alegria, não mais de tristeza!
    Luisiana

  10. capilé Disse:

    Que Deus a tenha…

  11. naire Disse:

    A herança maior ela deixou mesmo foi para os seus leitores que, como eu, se deliciam com as histórias contadas por você sobre a simplicidade e a dignidade dela.
    Beijo

  12. maria mercedez amaranta Disse:

    =) um sorriso pela beleza de tia Flocely.

  13. sirley Disse:

    muito lindo… o texto e o gesto!

  14. Illenia Disse:

    Amo a Rosa. E amo a Tia Flocely. Ainda bem que você nos apresentou.

  15. ana luíza Disse:

    sama,
    que emoção você narrando estes fatos. creio que essa convivência nos torna maior.
    beijo
    ana luíza

  16. Magna Santos Disse:

    Sama, retorno a esta crônica depois de tanto tempo (em decorrência de pesquisa para sobre velhice). E penso que o aprendido na convivência com tão importantes cabeças brancas, de algum modo, nos ajudam a saber melhor branquear nossos próprios cabelos. A vida é mesmo muito boa para quem busca o aprendizado e a beleza, aliás, creio que ambos andam juntos.
    Valeu voltar aqui.
    Beijo.
    Magna
    ps.:dia 24 de janeiro ficou marcado como o aniversário de tia. Que ela continue em paz e sob

  17. Magna Santos Disse:

    Sama, retorno a esta crônica depois de tanto tempo (em decorrência de pesquisa para sobre velhice). E penso que o aprendido na convivência com tão importantes cabeças brancas, de algum modo, nos ajudam a saber melhor branquear nossos próprios cabelos. A vida é mesmo muito boa para quem busca o aprendizado e a beleza, aliás, creio que ambos andam juntos.
    Valeu voltar aqui.
    Beijo.
    Magna
    ps.:dia 24 de janeiro ficou marcado como o aniversário de tia. Que ela continue em paz e soprando as velinhas onde estiver.

  18. 1800flowers coupon Disse:

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  19. sirenumscopuli Disse:

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