Lembrando meus livros
Samarone Lima
Cheguei ao Recife em 1987, com uma caixa de livros pequena e uma mala. Em 1994, quando fui morar em São Paulo, já eram várias caixas, algumas foram pela transportadora. Depois de seis anos em São Paulo, cutucando sebos, aproveitando ofertas, viajando pelo mundo, especialmente a América Latina, cheguei ao sonho de ter minha biblioteca. Sonho não, ela era bem real e com várias estantes de ferro.
Uma vez, na Santa Cecília, eu e Gustavo fizemos a mudança numa carroça velha, puxada por burro ou cavalo velho, não sei direito. Era tanto livro, que num cruzamento, uma caixa rasgou, meus romancistas e poetas ficaram esparramados na via, atrapalhando o trânsito. Adorei aquilo, interromper o trânsito com literatura.
Quando fui voltar de São Paulo para o Recife, em 2.000, já tinham se passado 13 anos desde que eu chegara ao Recife, com a pequena caixa. Gustavo foi o encarregado de encaixotar tudo, porque vim antes, trabalhar como professor na Católica. Até hoje agradeço ao meu amigo, porque foi um trabalho gigantesco, eu já tinha uma acervo gigantesco.
Os caras da mudança, acostumados a levar sofás, geladeiras, estantes, praguejaram muito com o peso das caixas. Um deles, já cheio das bicadas, ralhou:
“Não sei pra que esse desgraçado lê tanto”.
Eu também não sei, meu amigo, é um vício.
Os livros chegaram intactos, porque sempre dei sorte com eles. Tenho um faro formidável para autores que não conhecia, e me orgulho de ter descoberto os argentinos e uruguaios no final dos anos 1990. Falo de Onetti, o grande Onetti, que leio saboreando cada linha, fora o Mário Benedetti, sem falar no Guelman, meu Deus, essa imensidão de poeta. No Uruguai e Argentina estão minhas fontes literárias mais primárias, fruto das identificações. Não vou citar os nomes, porque daria outra postagem.
Fora isso, meus livros nunca passaram por hecatombes. Chuvas, goteiras, cupins, bichos diversos. O santo protetor dos livros, que não sei o nome ainda, mas vou batizá-lo de São Gutemberg, põe a mão em cima, e fica tudo certo. Deve ser uma tragédia a pessoa passar por uma enchente, um incêndio, perder sua biblioteca, ver as páginas coladas, mudas, para nunca mais.
Nem sei mais quantos livros tenho. Meu Pib é todo relacionado com papel. O que me falta em casa, carro, bens, luxos os mais diversos, me sobra em livros. Às vezes me pego em devaneios, e fico olhando para eles, comprados em várias datas, com meus riscos, anotações, vejo que fizeram uma caminhada comigo. Pesam muito nas mudanças, mas como são leves quando estão em minhas mãos, quando leio para algum aluno…
Eu nem sei porque estou nesses devaneios todos, em plena tarde de sábado, quando o certo era estar num boteco, tomando umas com Pedoca e o Magro Valadares, que acabaram de me ligar.
É que tenho reencontrado muitos livros que me fizeram bem, que me deram alegrias, e agora, por força do meu ofício, tenho a missão intelectual e humana de ajudar a democratizar o acesso aos livros e leituras em Pernambuco.
Em muitas ações e projetos, lembro daquela pequena caixa de livros que veio comigo de Fortaleza, naquela primavera de 1987. Tudo o que eu tinha estava ali, e cada livro que encontrei, me fez caminhar mais e melhor. Um dia, passei também a escrever livros, e outras pessoas podem me ler.
Ontem, ao final de uma palestra, lembrei de uma coisa simples, besta, mas simbólica. Junto com uma pequena e valorosa equipe, sou responsável pela gestão do Espaço Pasárgada, a casa onde morou o poeta Manuel Bandeira, na rua da União.
Todos os dias, antes de sair para o trabalho, posso dizer:
“Vou-me embora pra Pasárgada”.
Lá, nem preciso ser amigo do rei.
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