Coisas de pernambucano
Samarone Lima
O pernambucano tem uns vícios que vou dizer. Ontem, voltando de Olinda, tinha um grupo de frevo se apresentando para uns turistas, no meio da rua. Eram 18h25, em plenos Quatro Cantos. O motorista da Kombi que nos trazia ficou parado, perplexo, sem querer ir embora nunca mais. O verme do frevo. Se deixassem, ele estacionava a Kombi ali mesmo, e cairia no passo.
Palavras, por aqui, mudam de sentido a cada conversa. Algumas já entraram no falar oficial, que é o popular.
Na pelada dominical, um chute mal dado, um passe ruim, e o grito, do lado de fora:
“Isso é uma miséria!”
Um comentário sobre algum infeliz, de quem não se gosta, tem uma resposta:
“Aquilo é uma miséria!”
Esses políticos que andam fazendo turismo às custas dos contribuintes, vão ganhar comentários do tipo:
“E os miserável ainda viajam de graça…”
Assim mesmo, no singular mesmo, que é uma forma de incluir todos e um.
Qualquer balbúrdia no trânsito, uma barbeiragem qualquer, e o taxista comenta logo:
“Um miserável desse diz que sabe dirigir”.
Em alguns momentos, “miséria” é trocado por “infeliz”.
“Aquilo é um infeliz”.
Em bom pernambuquês, a pessoa está chamando a outra de miserável.
Infeliz serve para todas as ocasiões.
“O infeliz do lateral não acertou um cruzamento”.
O cara pode nem ser infeliz, mas vira infeliz.
“Aquele nosso chefe é um infeliz”.
Outras variações:
“Fiquei numa fila infeliz”.
Triste também se usa muito.
“Isso é um triste”.
“Comi tanto que fiquei triste”.
Agora tem uma boa, que o Magro Valadares adora contar.
Depois de muita expectativa, minha namorada foi mostrar uma foto minha à família. Todos se aproximaram do computador, aquela expectativa, quem seria o felizardo. Informo que não sou nenhum AL Pacino.
Ela abriu lentamente o arquivo de fotos, e a imagem demorou um pouco a aparecer.
Ao ver a imagem, todos da família ficaram num silêncio devastador.
A irmã mais velha levou instintivamente a mão ao queixo e suspirou:
“Misericórdia…”
Ainda bem que não me chamou de infeliz.
Da minha coleção de frases: “Eu tive vários pequineses”.
(De um amigo de trabalho)
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11 Comentários »




30 de abril de 2009, às 14:37h
Misericóidia… tu sois um miseravi mermo. Pela mãe do guarda. Valei-me santantôin
30 de abril de 2009, às 16:24h
Não foi assim.
Foi assim:
“Miiisericóooordia…”
Não pode esquecer as reticências
30 de abril de 2009, às 18:30h
Essa é boa, um suspense infeliz seguido de um “miíisericóóóórdia…”.
Outro bom exemplo de pernambucanês é a expressão “Pronto!”. Às vezes ela tem um sentido conclusivo mesmo (depois de algum acerto, alguém diz “pronto” = tudo acertado). Outras vezes, porém, ela tem um sentido mais dramático, equivalente a um “agora lascou!”, que pode ser proferido como complemento. No entanto, dependendo da entonação, o “pronto!” até dispensa o “agora lascou”, e pode inclusive ter um peso semântico maior, sendo equivalente a “agora f*deu!”, por exemplo.
30 de abril de 2009, às 19:40h
Sama, dessa vez ri demais só imaginando a cena. Agora, depois do misericórdia o que foi que veio, hein?
Cadê Dona Ermira para saber de uma coisa dessa? Ela te prepararia logo um kit: viscaya e crediário novo. Será? Talvez não, acho que a preparação que ela faria seria um belo bolo pro próximo dia 03, né não? Os 40 merecem e tu também, com ou sem misericórdia.
Beijo.
Magna
1 de maio de 2009, às 8:02h
Essa do “misericórdia” eu já sabia. Ri muito quando me contaram. O amor é lindo e ás vezes cego, também. Brincadeira, você é uma charme.
Beijo
1 de maio de 2009, às 21:06h
adoro esse blog!
1 de maio de 2009, às 22:24h
Olá Samarone
Cadê Bam-Bam?
Luisiana
2 de maio de 2009, às 21:30h
Se a situação for miserávi mermo, se o infeliz for triste de ruim, pronto!!! A turma diz logo que é um Carniça!
3 de maio de 2009, às 13:34h
uahahahaha
minha prima, de 16, usa muito o mesericórdia rsrsrs uma debochada de marca maior. e minha irmã, mais carioca q tudo, incorporou o misericordia ao vocabulário. e com sotaque. rsrsrs
4 de maio de 2009, às 9:12h
PARABÉNS! FELIZ ANIVERSÁRIO!BEIJO.
“Talvez o mundo caiba na cozinha
onde falamos do filho.
O futuro é um rosto, um doce nome,
um sangue a caminho deste caminho.
Amor é dito de um modo estranho:
berço, lenço, cueiro.
Estas coisas comuns.
Estas palavras brancas.
O amor cresceu.
A primavera canta em meu lenço.”
Juan Gelman
4 de maio de 2009, às 9:54h
“ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente”
(de Van Gogh para Théo)