Não sei baixar vídeo, música, filme na Internet. Não me aproprio de nada deste mundo maravilhoso que está disponível, e que é gratuito, salvo engano. Invejo essa gente que procura suas músicas, organiza, faz CD. Minha burrice crônica às vezes me causa transtornos. Nunca consigo sequer botar uma imagem no meu Estuário, apesar das várias aulas que o Dimas Lins já me deu. Quando publico algo e sai errado, quem me salva é Inácio e Anízio, que Deus os tenha.
Esta semana, uma moça da TV Universitária me convidou para um debate no ótimo “Opinião Pernambuco”. O tema, salvo engano, é “outras formas de acesso à literatura”.
Como drogadito por literatura, viciado em folhas, dependente confesso do objeto livro, achei que seria inadequada minha presença, ao lado do Anco Márcio e da querida Nelly. Entrariam no mundo da Internet, foi o que pensei, e meu negócio é livro, desses que a gente pega na estante, olha, cheira, mata saudades, rabisca, fica nesse amor com eles. Eu agora ando numa felicidade imensa, porque descobri a literatura policial, e encontrei um livro novo do Roberto Bolaño – “Entre paréntesis”, publicado pela Anagrama. Graças ao bom Deus, leio em espanhol, porque a tradução para o português, sabe-se lá quando…
“Mas você não tem um blog de crônicas na Internet?”, ponderou a moça.
Fiquei imediatamente sem graça e aceitei na hora o convite. Há uns três ou quatro anos, escrevo crônicas e as publico na Internet, e estava dando uma de queijudo. Claro que a Internet está ajudando muito o acesso à literatura, Pedro Bó.
Então aconteceu algo. Eu tinha visto um livro com a amiga Liz, num debate promovido pelo Centro de Cultura Luiz Freire, uma coisa linda intitulada “Alfabeto da Esperança: escritores pela educação”. Durante os debates, enquanto o queridíssimo Luciano Siqueira falava, pedi para ver, cheirei, vi os artigos, mas ela só tinha aquele exemplar, claro que nem pensou em me emprestar, porque eu nunca iria devolver.
Esta madrugada, fui em busca do livro. Cutuquei sites os mais diversos, até que cheguei ao site da Unesco (www.brasilia.unesco.org). Cliquei na biblioteca virtual, e estava lá o livro, lindo e belo, igualzinho ao de Liz, até a capa era a mesma.
Dotado de uma ousadia descomunal, cliquei em cima. Tinha uma orientação sobre como comprar, mas nunca comprei nada pela Internet, me deu calafrios. Pouco acima, algo do tipo “baixar em pdf”. Cliquei. O livro apareceu. Fiz meus malabarismos. Em cinco minutos, o livro inteiro estava no meu computador.
Iuuuupiiiiii. Deus é grande. Saravá! Agradeci aos meus guias todos e orixás.
Cheio da auto-estima, irei ao debate de hoje à noite já com esta experiência estética. Em pleno Século XXI, mais um cearense errante, radicado em Pernambuco, consegue dar um grande passo para sua própria humanidade. Irei ao debate com o sentimento do mundo, como disse bem o poeta, e com a sensação de ter descoberto outro mundo.
Amigos leitores, há um antes e um depois desta madrugada chuvosa no Recife. Sou um sujeito capaz de baixar um livro inteiro da Internet. Parece pouco para muitos, mas é muito para mim. Além disso, muito e pouco é uma questão relativa demais para esta manhã chuvosa.
De presente, vai um texto lindo, de um escritor filipino chamado Francisco Sionil José, publicado no livro que a Liz tem, mas que agora tenho também, e já nem morro tanto de inveja.
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PARA UM ESCRITOR JOVEM
De Francisco Sionil José (Filipinas)
Em uma crise moral como a que assola hoje o país, quando um punhado de congressistas trai a confiança de seu povo em obediência a seu líder poderoso, o que um filipino comum pode fazer? O que um escritor pode fazer?
O escritor alemão Stefan Heym, que atravessou o nazismo e o regime comunista da Alemanha Oriental, deu este conselho:
O dever do escritor é sobreviver.
– E se – perguntei – sobreviver significar aquiescer ou se entregar?
– Então – replicou ele – a sobrevivência também é um teste de sua força moral.
Será que nossos escritores de hoje possuem essa força? Ás vezes, quando jovens escritores me pedem conselho, é isto o que eu lhes digo:
A memória e o sentimento nunca bastam. É preciso que você domine a arte da escrita e da língua que conhece melhor – respeite a palavra e conheça as regras antes de quebrá-las.
Tendo dominado a palavra, use-a então como se criasse uma janela – polida, sem manchas, de modo a que se possa enxergar claramente através do cristal. Não cubra a soleira com babados ou belas cortinas, já que serão essas decorações que vão atrair e esconder a vista.
Reveja, revise, reescreva até doer, até a mão que segura a caneta ficar dormente, até cada frase poder ser lida com facilidade, cada palavra estar no lugar e você souber, então, que a janela foi feita.
Você é um contador de histórias, um cantor – então aprenda ritmo, música, ressonância,
técnica narrativa, até entrarem em sua medula. Você pode aprender tudo isso escrevendo cartas, bilhetes, exercícios, diários. O pianista de concertos, a primeira bailarina – praticam todos os dias e se aquecem antes de ir para o palco.
Não se deixe desviar pelos últimos modismos literários, por ideologias em voga.
Certamente eles passarão como estações esquecidas e o que vai ficar são aquelas verdades – amor e morte, fé e paciência –, que você tornará permanentes na prosa. Olhe para sua arte com humildade e seja seu crítico mais severo. Não acredite nem uma vez naquele antiqüíssimo panegírico que diz que a pena é mais forte que a espada. Nunca! É sempre a força nua que triunfa e governa, contra a qual você terá de bradar sempre, até ficar rouco.
Cuidado, também, com os elogios cedo demais, pois podem destruir, e lembre-se mais uma vez de que só o tempo vai dizer se seu trabalho vai permanecer.
Escreva com todos os sentidos e ponha algumas de suas úlceras para trabalhar, pois o que escrever vai latejar de vida. Viva, seja observador, seja a eterna criança irradiando pasmo e admiração diante do mundo, reunindo memórias, pois elas serão recuperadas como diálogos, cor, enredo, ação.
Pergunte a si mesmo o que é literatura, quem é a sua platéia. A literatura é a mais nobre das artes e os escritores deveriam, portanto, ter porte nobre, afirmando em suas próprias vidas os princípios socráticos de virtude e excelência. Isto é difícil de alcançar; talvez baste lutar para ser capaz de olhar para cada homem direto nos olhos e dormir serenamente à noite, sem os pesadelos da consciência culpada.
Seja uma testemunha honesta de sua época e seja forte quando o insultarem por falar a verdade. Sua vocação também irá condená-lo à solidão, mas lembre-se – aquele que permanece de pé sozinho é o mais forte. Mesmo na mais avassaladora solidão, lembre-se de que está escrevendo não para os críticos, acadêmicos ou para outros escritores, mas sim para seu próprio povo que, em seu silêncio e pobreza, talvez não consiga expressar suas aspirações e angústias. Você é a voz deles, caso não os tenha abandonado e traído.
Seja qual for o sofrimento que lhe possa ser despejado às costas, nunca, nunca perca a equanimidade, o humor. Muito do que escreve será árido – assim mesmo, aprenda a rir de si mesmo primeiro, e de seus críticos e, é claro, das gracinhas dos mais desgraçados entre os seus concidadãos. Nutra em si mesmo um duradouro senso de urgência, de paixão – profunda e vulcânica – mas mantenha-a sempre sob controle e, com ela, aquela profunda melancolia tecida por nossa história, nossos líderes – não importa quão fulgurantes nossas fiestas e quão cintilantes os nossos sorrisos. Essa paixão, essa melancolia, devem vir à superfície como literatura se você for um artista. Como disse Lenin, toda arte é propaganda, mas lembre-se, nem toda propaganda é arte.
Faça com que escrever pareça difícil porque é difícil mesmo. Pior, pode nem permitir que você viva com conforto, e você venha a envelhecer como tantos de nós que tentaram sem sequer serem apreciados em seu próprio país. Basta olhar para todos os livros empilhados em balcões de ofertas – ninguém os compra, pois, embora tenhamos um romancista como herói nacional, não lemos romances.
Por que, então, você deve escrever? Faça-o porque há tanta hipocrisia e perversidade
dentro de nós e, quem sabe, você não consiga exorcizar um pouco delas. Faça-o porque muitos de nós perdemos nossa âncora e é na literatura que vive nossa história, onde podemos melhor nos conhecer para que nós mesmos, então, possamos viver e ser enraizados de novo em solo nativo. Faça-o porque é uma vocação que lhe dará tanto prazer, tão duradouro e tão profundo – transcendendo qualquer coisa que aqueles sibaritas e sensualistas ambicionam.
Eu lhe asseguro, este velho sabe.
O que, afinal, é literatura senão a dor recordada. Ao recordar, nós a adornamos com nossa imaginação, nosso engenho, enobrecendo-a, talvez, imbuindo-a de permanência; então ela passa a existir além de nossas vidas mesquinhas, um testamento de nossa humanidade para testemunho de todo o mundo. E, tendo testemunhado, é nossa esperança de que o que tivermos escrito irá evocar comparações, pois, no fim, é isso que reúne todos os homens.
Recado final: escreva onde puder fazê-lo melhor, no exílio, talvez, mas nunca, nunca deixe sua aldeia, sua cidade, suas origens. Entesoure-as no coração, santifique-as em sua mente, pois suas origens lhe dão sua alma, sua humanidade. Ao recordar com paixão, você estará escrevendo sobre um lugar em particular, sobre pessoas em particular, mas dará a eles também o que todos reconhecerão, a universalidade do homem e da arte em si.