Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Pequenas malvadezas

29 de maio de 2009, às 12:27h por Samarone Lima

De São José do Belmonte

Ano passado, estive aqui com meu amigo Iramarai, em nossas caminhadas semestrais. Fizemos amizades aos montes, e duas amigas que não lembro o nome ficaram impressionadas com nossa disposição para andar. Seguir a pé até as Pedras do Reino, de fato, era uma empreitada e tanto.

Como em toda viagem, conhecemos gentes as mais diversas, conversamos nossas bromélias, rimos, anotamos telefone e email que dificilmente usamos, e seguimos.

As duas, Amiga Um e Amiga Dois, estavam na festa de Belmonte, ontem, mais alinhadas que meio fio. Fizeram uma festa quando me viram, perguntaram pelo meu amigo Iramarai.

Sim, vários meses depois, elas sabia o nome do camarada.

Fiz uma cara de triste.

“Sabe, ele teve um problema no coração no final do ano, foram dez dias de UTI…”

Amiga Dois botou a mão no peito, arregalou os olhos.

“Ele morreu?”

Fiz que sim com a cabeça. Iramarai passou dez dias na UTI, os exames deram um calo no pé direito, e o comentário do cardiologista:

“O seu caso é com o Dr Schol”.

Amiga Dois fez uma cara de choro.

“Eu não acredito, eu não acredito…”

Amiga um ficou preocupada mesmo foi com Amiga Dois.

Ainda botei mais drama na história.

“O pior é que agora tenho que caminhar sozinho”.

Amiga Dois ficou abalada, com os olhos marejados.

“Uma pessoa tão boa, tão nova, eu não acredito…”

Meu lado malvado estava a todo vapor, quando meu lado bonzinho sussurrou:

“Sama, rapaz, as amigas estão enfeitadas, vieram para  a festa, veja se corrige essa malvadeza a tempo…”

Parei uns três segundos, olhei para as duas. Estavam maquiadas, arrumadas, pareciam felizes com a festa que iria começar, certamente estavam com o dinheiro do rum na bolca. Então botei meu lado malvado para escanteio.

“Ele escapou fedendo, mas teve que parar de beber, fumar e contar aquelas mentiras”.

Amiga Dois respirou fundo. Estava quase tremendo.

“Pelo amor de Deus, isso não se faz”, disse Amiga Um.

Acho que vou parar com essas minhas brincadeirinha de mau gosto.

Vai que Iramarai morre? As amigas nem vão acreditar.

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O homem que nunca mente

27 de maio de 2009, às 13:28h por Samarone Lima

De São José do Belmonte, Sertão de Pernambuco

Devo ter algum ímã atraindo gente fora do padrão. Basta sentar num canto, puxar meu caderno ou livro, pedir um café, suco, cerveja ou rum, que aparece alguém incomum.

Ontem foi a vez de Matheus. Estava na mesa ao lado da minha, em um boteco meia sola aqui de Belmonte, tomando uma cerveja e comendo uma passarinha. Negro, baixo, bigode a la cantinflas, fumava dentro do bar, porque no interior do estado ainda não chegou essas novas leis, que proíbem tudo.

Bastou o primeiro gole na minha Brahma, que ele puxou assunto. Estava na mesa contígua, não lembro onde começou a conversa, acho que ele tinha acabado de fazer um bom trabalho, estava feliz, queria compartilhar. Gente chata eu conheço de longe, Matheus não tinha nada de chato, pouco depois estávamos compartilhando a mesma cerveja.

Meu amigo começou a falar que é um sujeito que não mente nunca. Nunca?

“Outro dia, estava na praia com uma namorada, tomando uma cerveja, minha mulher me ligou no celular. Atendi. Ela perguntou onde eu estava. Respondi que estava na praia, com a namorada, tomando uma cerveja. Ela disse que não gostava dessas brincadeiras, e desligou o telefone na minha cara”.

A moça que estava com ele na praia perguntou quem era.

“Era minha esposa, querendo saber onde eu estava”.

Matheus, Matheus, tu ainda vai se dar mal numa dessas, foi o que pensei, mas o camarada parecia bem, sem culpas, sem problemas. Aos 30 anos, está no quinto casamento. Tem quatro filhos. São quatro do segundo casamento, um do quarto, ou algo assim, não me dei ao trabalho de anotar. Fica o registro – cinco casamentos, quatro filhos, quase um filho por casamento.

Outra feita, ele estava num motel, com uma namorada (não sei se era a mesma, pelo andar da carruagem, o Matheus casa e namora com uma facilidade incrível), a esposa ligou e perguntou onde ele estava.

“Estou num motel com a namorada”, respondeu.

“Eu não gosto dessas suas brincadeiras”, disse a esposa, desligando novamente o telefone.

No dia seguinte, ao chegar em casa, a mulher estava chateada.

“Olhe, você não fique mentindo para mim não, que eu sei que você estava no trabalho”.

Meu amigo ficou resignado. Iria dar muito trabalho explicar à mulher que estava falando a verdade, mostrar a nota do motel. Além disso, estava cansado e foi dormir.

Depois de bebericar sua cerva gelada, mordiscar a passarinha, completou:

“Aprendi isso com um louco que conheci há alguns anos. Ele nunca mentia. Comecei a fazer isso, e dá certo”.

Ele contou muitas histórias, outras verdades cabeludas, fiquei estupefacto. O que seria apenas uma cerveja, antes de almoçar e descansar, descambou para quatro, cada um pagando duas.

Fiquei imaginando como seria o mundo, se todo mundo falasse a verdade o tempo todo.

À noite, fui dar uma volta na cidade, ver uns aboios, vi de novo meu amigo. Estava bebericando, sob uma fina garoa, enquanto um grupo cantava uns aboios. Já estava com uma carinha de mamado, os olhos miúdos como o que. Me estendeu a mão e convidou para sentar, mas resolvi seguir minha perambulação. Ele estava com uma moça, creio que era uma nova aventura.

Matheus, o que não mente nunca, é incansável.

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“Pior é a pé”

26 de maio de 2009, às 9:27h por Samarone Lima

De São José do Belmonte, Sertão de Pernambuco

Estive aqui ano passado, com Iramarai. Fizemos a caminhada até as Pedras do Reino, em meio aos lamentos pelos nossos sapatos de terceira, uma fogueira no meio do nada, e a tensão com três homens, os donos da terra onde estávamos. A aventura terminou numa bela amizade, pratos de comida e aconchego, coisas dos sertanejos.

A cidade é a mesma, mas é outra, porque venho a trabalho. Até domingo, cuido das coisas de literatura. Esqueci de dizer que neste meio termo, Iramarai teve uns piripaques no coração, ficou dez dias na UTI, quase foi, mas escapou. Aproveitou para deixar de fumar, espero que não volte. Cortou a cana e agora beberica whisky, se bem que não é seguro tanta santidade.

Meus amigos que param de beber sempre mentem ou se arrependem. Naná parou três meses, mas voltou com aquela sede. Seu Vital continua tapeando bem, com a garrafinha debaixo do balcão.

Chegamos às 16h de ontem, exaustos, com fome, e fomos encaminhados à casa de “Mãe”, a mulher que vai fazer comida para todos do Festival Pernambuco Nação Cultural. Ela disse o nome, mas ninguém lembra. Batizei-a de “Dona Mãe”, e a comida é dessas de comer rezando, agradecendo. Aquela cozinheira caseira, que fica ao lado da mesa, rondando, para escutar as pessoas gemendo de felicidade.

Não citarei o bode cozido, as saladas ou o feijão, muito menos os musses e o doce de leite. Os sobrinhos, com aquele sorriso gentil. A casa, com uma mesa repleta de porta-retratos. Esses afetos do interior do nordeste, com suas casas de muro baixo e cadeiras à calçada. Até cães, aqui, são mais simpáticos, tirando Bam Bam, claro, que vive no Cabo.

Pelo andar da carruagem, uma grande esperança para a humanidade é que haja um movimento inverso – que as pessoas pensem de novo em morar nas cidades do interior.

Aqui em Belmonte, pense num povo cordial, calmo, sem aperreios. A feira na rua é todo dia, exceto no domingo. Depois de um lauto café da manhã, perambulei, olhando maravilhado os pregos, martelos, sinos de bode, roupas, forquilhas, baladeiras, bilas, bigornas, lanternas, peças para bicicletas, grampos, bilius, bolos, goma, feijão, estrovengas, cds piratas, arapiracas, tortilhas, brumáceas, aleatórias, verdejantes, cabulas, acelerador de partículas, acetatos, diamantinas, cabulêlês, bermudas, camisas de tecidos os mais diversos, tudo por preços normais, sem aliterações ou borboremas, preços tão em conta, que dá remorso pechinchar.

Uma bela toalha de mesa, feita de retalhos, uma obra de arte, me custou cinco reais. Um sino para pendurar na porta, que é uma memória afetiva em qualquer sertanejo, até Xico Sá tem um em seu duplex na Pompéia, sai por um e cinquenta. Mais tarde é que chega o restante da feira, vou ver se encontro um chapéu para o professor Davi, porque perdi seu Panamá outro dia, botei um chapéu Panamá e saí por aí, em pleno Carnaval, isso não pode dar certo.

Sigo coletando coisas para minha coleção de frases.

“Você pode não saber como chegar ao Taj Mahal, mas à Sinfarma fica fácil. É no centro de Arcoverde”, informa a rádio FM de Arcoverde.

Rodei ontem pela cidade (Belmonte), tomei umas num raro barzinho que tocava Chico Buarque, quando olhaste bem, nos olhos meus, e o teu olhar era de adeus, aquele drama todo, lembrei do amigo Iramarai, que agora está em outra caminhada. Um rum Cristal descia bem, até que chegou um homem chapado, desaprumado e infeliz, feio pacas, abriu a traseira de um carro que não identifiquei a marca e ano, botou um troço que falava de mulher com a roupinha apertada, uma dessas pragas nacionais,  sexuais-de-péssimo-gosto-e-um-acorde-só.

Fim da alegria. O bêbado não tinha nada de simpático, preferia mesmo beber cair e levantar. O dono do  som botou Chico Buarque para dormir, não dá para enfrentar essas cavalices, muito embora minha simpatia pelos cavalos e burros em geral.

Há pouco, após atravessar a feira olhando tudo, embevecido, esbarrei em uma Caravan branca, de ano incerto e não sabido. Ainda bem que não me arranhei, sob risco de pegar tétano. Olhei o vidro traseiro. Estava escrito:

“Pior é a pé”.

Não pude deixar de rir, a vida tem tantos presentes, meu Deus.

Há uma expectativa de que tenhamos uma bela rodada de dominó, ao crepúsculo, de preferência, debaixo de um pé de verdejante. Assim, a vida fica melhor, a gente não tem tempo de ficar sofrendo. Na mochila, trouxe o Bolaño e o Chandler, de formas que não posso reclamar.

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Antes e depois

22 de maio de 2009, às 8:02h por Samarone Lima

Não sei baixar vídeo, música, filme na Internet. Não me aproprio de nada deste mundo maravilhoso que está disponível, e que é gratuito, salvo engano. Invejo essa gente que procura suas músicas, organiza, faz CD. Minha burrice crônica às vezes me causa transtornos. Nunca consigo sequer botar uma imagem no meu Estuário, apesar das várias aulas que o Dimas Lins já me deu. Quando publico algo e sai errado, quem me salva é Inácio e Anízio, que Deus os tenha.

Esta semana, uma moça da TV Universitária me convidou para um debate no ótimo “Opinião Pernambuco”. O tema, salvo engano, é “outras formas de acesso à literatura”.

Como drogadito por literatura, viciado em folhas, dependente confesso do objeto livro, achei que seria inadequada minha presença, ao lado do Anco Márcio e da querida Nelly. Entrariam no mundo da Internet, foi o que pensei, e meu negócio é livro, desses que a gente pega na estante, olha, cheira, mata saudades, rabisca, fica nesse amor com eles. Eu agora ando numa felicidade imensa, porque descobri a literatura policial, e encontrei um livro novo do Roberto Bolaño – “Entre paréntesis”, publicado pela Anagrama. Graças ao bom Deus, leio em espanhol, porque a tradução para o português, sabe-se lá quando…

“Mas você não tem um blog de crônicas na Internet?”, ponderou a moça.

Fiquei imediatamente sem graça e aceitei na hora o convite. Há uns três ou quatro anos, escrevo crônicas e as publico na Internet, e estava dando uma de queijudo. Claro que a Internet está ajudando muito o acesso à literatura, Pedro Bó.

Então aconteceu algo. Eu tinha visto um livro com a amiga Liz, num debate promovido pelo Centro de Cultura Luiz Freire, uma coisa linda intitulada “Alfabeto da Esperança: escritores pela educação”. Durante os debates, enquanto o queridíssimo Luciano Siqueira falava, pedi para ver, cheirei, vi os artigos, mas ela só tinha aquele exemplar, claro que nem pensou em me emprestar, porque eu nunca iria devolver.

Esta madrugada, fui em busca do livro. Cutuquei sites os mais diversos, até que cheguei ao site da Unesco (www.brasilia.unesco.org). Cliquei na biblioteca virtual, e estava lá o livro, lindo e belo, igualzinho ao de Liz, até a capa era a mesma.

Dotado de uma ousadia descomunal, cliquei em cima. Tinha uma orientação sobre como comprar, mas nunca comprei nada pela Internet, me deu calafrios. Pouco acima, algo do tipo “baixar em pdf”. Cliquei. O livro apareceu. Fiz meus malabarismos. Em cinco minutos, o livro inteiro estava no meu computador.

Iuuuupiiiiii. Deus é grande. Saravá! Agradeci aos meus guias todos e orixás.

Cheio da auto-estima, irei ao debate de hoje à noite já com esta experiência estética. Em pleno Século XXI, mais um cearense errante, radicado em Pernambuco, consegue dar um grande passo para sua própria humanidade. Irei ao debate com o sentimento do mundo, como disse bem o poeta, e com a sensação de ter descoberto outro mundo.

Amigos leitores, há um antes e um depois desta madrugada chuvosa no Recife. Sou um sujeito capaz de baixar um livro inteiro da Internet. Parece pouco para muitos, mas é muito para mim. Além disso, muito e pouco é uma questão relativa demais para esta manhã chuvosa.

De presente, vai um texto lindo, de um escritor filipino chamado Francisco Sionil José, publicado no livro que a Liz tem, mas que agora tenho também, e já nem morro tanto de inveja.

**

PARA UM ESCRITOR JOVEM

De Francisco Sionil José (Filipinas)

Em uma crise moral como a que assola hoje o país, quando um punhado de congressistas trai a confiança de seu povo em obediência a seu líder poderoso, o que um filipino comum pode fazer? O que um escritor pode fazer?

O escritor alemão Stefan Heym, que atravessou o nazismo e o regime comunista da Alemanha Oriental, deu este conselho:

O dever do escritor é sobreviver.

– E se – perguntei – sobreviver significar aquiescer ou se entregar?

– Então – replicou ele – a sobrevivência também é um teste de sua força moral.

Será que nossos escritores de hoje possuem essa força? Ás vezes, quando jovens escritores me pedem conselho, é isto o que eu lhes digo:

A memória e o sentimento nunca bastam. É preciso que você domine a arte da escrita e da língua que conhece melhor – respeite a palavra e conheça as regras antes de quebrá-las.

Tendo dominado a palavra, use-a então como se criasse uma janela – polida, sem manchas, de modo a que se possa enxergar claramente através do cristal. Não cubra a soleira com babados ou belas cortinas, já que serão essas decorações que vão atrair e esconder a vista.

Reveja, revise, reescreva até doer, até a mão que segura a caneta ficar dormente, até cada frase poder ser lida com facilidade, cada palavra estar no lugar e você souber, então, que a janela foi feita.

Você é um contador de histórias, um cantor – então aprenda ritmo, música, ressonância,

técnica narrativa, até entrarem em sua medula. Você pode aprender tudo isso escrevendo cartas, bilhetes, exercícios, diários. O pianista de concertos, a primeira bailarina – praticam todos os dias e se aquecem antes de ir para o palco.

Não se deixe desviar pelos últimos modismos literários, por ideologias em voga.

Certamente eles passarão como estações esquecidas e o que vai ficar são aquelas verdades – amor e morte, fé e paciência –, que você tornará permanentes na prosa. Olhe para sua arte com humildade e seja seu crítico mais severo. Não acredite nem uma vez naquele antiqüíssimo panegírico que diz que a pena é mais forte que a espada. Nunca! É sempre a força nua que triunfa e governa, contra a qual você terá de bradar sempre, até ficar rouco.

Cuidado, também, com os elogios cedo demais, pois podem destruir, e lembre-se mais uma vez de que só o tempo vai dizer se seu trabalho vai permanecer.

Escreva com todos os sentidos e ponha algumas de suas úlceras para trabalhar, pois o que escrever vai latejar de vida. Viva, seja observador, seja a eterna criança irradiando pasmo e admiração diante do mundo, reunindo memórias, pois elas serão recuperadas como diálogos, cor, enredo, ação.

Pergunte a si mesmo o que é literatura, quem é a sua platéia. A literatura é a mais nobre das artes e os escritores deveriam, portanto, ter porte nobre, afirmando em suas próprias vidas os princípios socráticos de virtude e excelência. Isto é difícil de alcançar; talvez baste lutar para ser capaz de olhar para cada homem direto nos olhos e dormir serenamente à noite, sem os pesadelos da consciência culpada.

Seja uma testemunha honesta de sua época e seja forte quando o insultarem por falar a verdade. Sua vocação também irá condená-lo à solidão, mas lembre-se – aquele que permanece de pé sozinho é o mais forte. Mesmo na mais avassaladora solidão, lembre-se de que está escrevendo não para os críticos, acadêmicos ou para outros escritores, mas sim para seu próprio povo que, em seu silêncio e pobreza, talvez não consiga expressar suas aspirações e angústias. Você é a voz deles, caso não os tenha abandonado e traído.

Seja qual for o sofrimento que lhe possa ser despejado às costas, nunca, nunca perca a equanimidade, o humor. Muito do que escreve será árido – assim mesmo, aprenda a rir de si mesmo primeiro, e de seus críticos e, é claro, das gracinhas dos mais desgraçados entre os seus concidadãos. Nutra em si mesmo um duradouro senso de urgência, de paixão – profunda e vulcânica – mas mantenha-a sempre sob controle e, com ela, aquela profunda melancolia tecida por nossa história, nossos líderes – não importa quão fulgurantes nossas fiestas e quão cintilantes os nossos sorrisos. Essa paixão, essa melancolia, devem vir à superfície como literatura se você for um artista. Como disse Lenin, toda arte é propaganda, mas lembre-se, nem toda propaganda é arte.

Faça com que escrever pareça difícil porque é difícil mesmo. Pior, pode nem permitir que você viva com conforto, e você venha a envelhecer como tantos de nós que tentaram sem sequer serem apreciados em seu próprio país. Basta olhar para todos os livros empilhados em balcões de ofertas – ninguém os compra, pois, embora tenhamos um romancista como herói nacional, não lemos romances.

Por que, então, você deve escrever? Faça-o porque há tanta hipocrisia e perversidade

dentro de nós e, quem sabe, você não consiga exorcizar um pouco delas. Faça-o porque muitos de nós perdemos nossa âncora e é na literatura que vive nossa história, onde podemos melhor nos conhecer para que nós mesmos, então, possamos viver e ser enraizados de novo em solo nativo. Faça-o porque é uma vocação que lhe dará tanto prazer, tão duradouro e tão profundo – transcendendo qualquer coisa que aqueles sibaritas e sensualistas ambicionam.

Eu lhe asseguro, este velho sabe.

O que, afinal, é literatura senão a dor recordada. Ao recordar, nós a adornamos com nossa imaginação, nosso engenho, enobrecendo-a, talvez, imbuindo-a de permanência; então ela passa a existir além de nossas vidas mesquinhas, um testamento de nossa humanidade para testemunho de todo o mundo. E, tendo testemunhado, é nossa esperança de que o que tivermos escrito irá evocar comparações, pois, no fim, é isso que reúne todos os homens.

Recado final: escreva onde puder fazê-lo melhor, no exílio, talvez, mas nunca, nunca deixe sua aldeia, sua cidade, suas origens. Entesoure-as no coração, santifique-as em sua mente, pois suas origens lhe dão sua alma, sua humanidade. Ao recordar com paixão, você estará escrevendo sobre um lugar em particular, sobre pessoas em particular, mas dará a eles também o que todos reconhecerão, a universalidade do homem e da arte em si.

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“Por favor, não se esqueçam de minha caneta”

18 de maio de 2009, às 13:12h por Samarone Lima

Vou olhar as notícias da América Latina, a parte do mundo que mais me encanta, e tomo uma porrada. Ontem, aos 88 anos, morreu o poeta uruguaio Mário Benedetti. Enquanto seu corpo está sendo velado, no “Salón de los Pasos Perdidos” do Palácio Legislativo de Montevidéu. Até o velório tem que ter sua parcela de poesia.  Tivesse eu dinheiro sobrando, pegaria o primeiro vôo somente para passar perto deste gigante da literatura, que me emocionou muitas vezes, e me fez amar cada vez mais este pequenito e intenso país vizinho, o Uruguai.

Lembro que descobri sua obra em 1995, quando fui para um fim de ano em Montevidéu, e seus livros ocupavam as principais prateleiras. O homem amado, idolatrado, um combatente das palavras, que teve que escapar para o exílio, durante a ditadura.

Leio as notícias, e fico ainda mais fiel a este homem. No Página 12, Silvana Friera, diz que a morte do autor de livros como “A Trégua” começou em 2006, quando morreu sua mulher, chamada Luz, com quem viveu toda a vida. “Desde então, o impulso vital do autor de mais de 80 livros de poemas, novelas, relatos, ensaios e teatros, assim como roteiros de cinema e crônicas de humor, foi se apagando”.

Imagino como deve ser difícil viver, no crepúsculo, sem a companheira de toda a vida, chamada de Luz.

“Lo mejor que me pudo haber pasado en la vida es que lo que escribo le haya tocado el corazón a esa gente, a ese pueblo, a ese hombre de a pie”, disse certa vez.

Em um de seus poemas, ele pediu que não esquecessem de colocar uma caneta junto, após sua morte. Se estivesse em Montevidéu, discretamene eu a colocaria, bem perto de sua mão. Imagino a solidão da morte sem uma caneta ao alcance da mão. Mais tarde, farei minha homenagem. Pegarei todos os livros que tenho dele e lerei até dormir.

Lembro agora do velho e bom Daniel Raton, que tinha num caderno vários poemas do Benedetti. Com seu interminável cigarro num canto da boa, ele me mostrou, em Buenos Aires, algumas das muitas belezas que eu iria reencontrar pela vida.  Vai este pequeno presente para meus leitores, um poema que fala da morte.

Mas o Menos La Muerte

(Mário Benedetti)

La muerte es sólo un niño
de cara triste
un niño
sin motivo
sin miedo
sin fervor
un pobre niño viejo
que se parece
a Dios.

A veces
sin embargo
es tan sólo un silencio
sin pasado
sin molde
sin olor
un silencio en que ladran
los perros
esos perros
y uno se pregunta
quénes son.

A veces.

Otras veces
es una niebla espesa
que se mete en los ojos
que destruye la voz
y uno arrincona a uno definitivamente
bueno
defintivamente no
tan sólo hasta que uno
se siente
sin amor.

A veces.

Pero es raro.
Por lo común la muerte
es solamente un niño
de cara triste
un niño
que sale de la nohe
sin motivo
sin miedo
sin fervor
un pobre niño viejo
que deja caer su mano
sobre mi corazón.

Mario Benedetti, de «Inventario», Editorial Alfa, Montevideo, 1963

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