Virtude confessa (ou: Louvação aos amigos)
Samarone Lima
Sou uma pessoa de sorte. Aos 40, recém-completados, tenho saúde, muitos livros, tem um bocado de coisas boas e lindas me acontecendo. Claro que há tristezas, aqueles dias atravessados, mas como diz o poeta, é preciso atravessá-los também, tratá-los como “incômodos de viagem”.
Tenho uma porção de defeitos, mas confesso uma virtude, talvez a maior e única - a da amizade. Não importa a distância, o tempo, os contratempos. Sou cativo de amigos. Mais que isso, devoto. Tenho muitos. Minto. Tenho uma legião de grandes amigos. Pessoas que conheci, que entraram em minha vida, e ficaram para sempre. Pessoas que amo de verdade, que me fazem bem somente porque estão no mundo, nessa época em que vivo.
Acho isso uma coisa maravilhosa, uma dádiva, uma celebração, e até hoje tenho uma imensa dificuldade de entender o fato de pessoas ficarem intrigadas. Pior que isso – amigos que, por algum motivo, se desentenderam e nunca mais se falaram. Faltou alguém estender a mão e dizer “que bobabem, apenas nos exaltamos”.
Tenho amigos que adoro, e que vejo pouquíssimo, porque minha vida noturna já não é a mesma de outros tempos (ter sido dono de bar me estragou um bocado a carreira de boêmio). Vejo aqui, ali, nos instantes da vida, celebramos a amizade, renovamos, a conversa segue fluindo, como se tivéssemos nos encontrado na esquina anterior. Cabe aqui o velho Pedro Saldanha, com sua inteligência à parte, um humor que não brinca em serviço. Nesta linhagem, cabe o velho Zeca, vivendo na boemia do Rio de Janeiro.
Amigos que estão bem longe, e que não vejo há tempos, diria anos. Josmar Josino, o “Valente”, colega de redação em São Paulo. De longe, o melhor jornalista que já vi trabalhando, capaz de trabalhar numa pauta durante semanas a fio, até fazer uma denúncia que derrubava delegados e policiais corruptos.
Desde o primeiro dia na redação, ele perguntou de onde eu era, disse que era do Ceará, ele começou a fazer piadas, e ficamos unha e carne. Em qualquer circunstância, em vários momentos, era possível escutar sua voz cheia de gracejo:
“Calma valeeeente!”
Ontem liguei para o velho amigo, ele estava tomando banho, e a conversa seguiu normalmente, como se tivéssemos nos encontrado na tarde anterior.
“Calma Valeennnte!” -, foi a primeira coisa que disse. Não sei qual o celular que ele usa, que deve ser à prova d´água.
Mas há amigos também que passam pela neblina do tempo. Amigos que eu não via há tempos, que reencontramos e não temos mais o que conversar. Seguiram outros caminhos, tiveram outras jornadas. Falam de coisas que não me interessam, acreditam nas formas de vida que fui deixando pelo caminho. É um pequeno sofrimento isso, ver que um grande amigo já não aquece o coração, já não diz ao sentimento, não traz gravetos para o fogo da convivência.
Alguns reencontros são pequenos sustos, mudei tanto que não reconheço o outro. Mas não faz mal, guaranal, sem lamentos, julgamentos. Apenas seguimos caminhos distintos, cada um tentando ser feliz ao seu jeito.
Engraçado isso. Enquanto vou escrevendo, vai me aparecendo a imagem de cada um, em diferentes momentos. Os amigos do Monte Castelo, em Fortaleza, da Casa do Estudante, da UFPE, da Católica, do Diário de Pernambuco, de São Paulo, do mestrado, das muitas viagens pela América Latina, os ex-alunos que se tornaram amigos de verdade (Bruno Fontes agora joga peladas comigo, aos domingos), os muitos amigos do Poço da Panela, o supremo amigo, que é Naná, que fala comigo pelo menos uma vez por dia, desde que o conheci, em 2000.
Descubro que minha mãe, Dona Ermira, passou para outro patamar. Tornou-se também uma grande amiga. Às vezes, conversamos muito, e sinto que algo ultrapassou a relação mãe-filho. Cresceu, ao longo dos anos, uma bela e enorme amizade. Ela fala dos seus problemas, conta a vida, falo dos meus, ela escuta. Nos últimos tempos, chegamos ao ponto de não darmos nenhum conselho um ao outro. Apenas falamos e escutamos.
No fundo, amigo de verdade é aquele que faz bem só pelo fato de existir, de sabermos que ele está no mundo, e que o mundo é melhor com ele. São, principalmente, pessoas que escutam. Nem vou falar de Déa e Emília, elas sabem bem como é a pisadinha.
Ao contrário do Rei Roberto Carlos, eu não quero ter um milhão de amigos. Quero os que tenho, os que fui cativando ao longo da vida, e os que vão chegar, mansamente.
Sim, porque amigo de verdade chega de mansinho, vai devagar. Limpa os pés no tapete, pede licença, não se esparrama assim fácil. Sempre detestei essas intimidades precoces, essa intimidade sem sumo. Há que se ver o mistério das aproximações lentas, da intimidade conquistada. Para chegar e abrir logo a geladeira da Emília, foram muitas primaveras.
Como eu vinha dizendo, sou um sujeito de sorte. Não me lembro de nenhum amigo que tenha se intrigado de mim. Se aconteceu, foi por alguma bobagem que fiz, coisas da juventude, e vou logo pedindo desculpas.
Caramba, hoje sinceramente, estou falando mais que o homem da cobra.
Para Mimos, que vai casar com Pedoca no sábado, e os dois são meus amigos pacas.
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11 Comentários »




14 de maio de 2009, às 14:51h
engraçado, não lembro de você chegando de mansinho lá em casa… talvez seja porque a inimidade vem de outras vidas.
14 de maio de 2009, às 15:10h
Sama, devolve aquela cueca que tu pegou emprestado da primeira vez que foi lá em casa.
14 de maio de 2009, às 16:16h
Mas tem aqueles “amigos”, normalmente novos, que você tem a maior admiração e assim do nada te derruba de com força. Levei um tombo desses na terça-feira e tô dolorida até agora. Mas hei de recuperar. Amém.
Fiquei muito emocionada com teu texto, principalmente porque ainda estou curtindo as dores do tombo. Baixei até hospital na terça à noite. Se é para cair eu caio mesmo.
Mas ainda não inventaram nada melhor que gente, né?
grande beijo!
Yvette
14 de maio de 2009, às 21:18h
Grande Sama,
Obrigado pelo texto escrito no blog do santinha a respeito do Sport. Ele so nos da a certeza de que somos infinitamente maiores que o tricolor do arruda. Afinal, a grande felicidade dos Nao-Sport nos ultimos 2 anos foi essa desclassificacao.
Forte abraco
Toni
PS: Se ainda duvidas da nossa magnitude, te digo que assisti ao jogo fatidico ao vivo pela TV em Washington nos EUA. Enquanto isso, os torcedores do santa cruz continuam de f.e.r.i.a.s……… Sport: de PE para o Mundo
15 de maio de 2009, às 11:43h
Ei, toni, VTNC. ja’ criei uma inimizade. hehe
Peruca, o cara mais cheio de inimigo por conta de di’vidas que eu conhe’co e’ voce^ rapaz. deixa de manha.
15 de maio de 2009, às 15:50h
Nossa você esta iluminado nesse texto. O engraçado, é que. Enquanto eu estava lá em casa, hoje, oras antes de ir para o batente. Meu primo, Leandro quando me viu assistindo os desenhos matinais que não são como antes, me disse: soube-se? Daniel morreu agorinha, anteontem ele levou uns tiros dos caras
.
Depois dessa bomba me veio a vaga lembrança de Daniel ainda moleque, mole e com a cara de moça recém parida. Ele apanhava de todos na rua, depois de um tempo passou a ser o mais temido.
Em nosso tempo atual, é quase raro ter amigos. Confesso também que sou muito sortudo por ter você, Gabi e pouco a pouco o Rodrigo, como amigos. E outros que se encontram comigo aos domingos para tomar umas cervejas e conversar bobagens.
Amigos são criaturas que compõe e completam por inteiro o curso do meu rio.
Obrigado por tudo: meu amigo.
15 de maio de 2009, às 21:31h
estou aqui pensando nos amigos q nao aquecem mais o coraçao… *lacrimeja*
16 de maio de 2009, às 10:21h
ESSE SAMARONE É UM MALA.
17 de maio de 2009, às 1:12h
Eita, que o Blog do Santinha é um sucesso, tá vendo? Tá cheio de rubro-negro visitando, na surdina, hehehe.
Do bom e velho Gibran:
“Pois na amizade, os pensamentos, os ideais e as expectativas nascem e são compartilhados, sem palavras, em silenciosa alegria.”
21 de maio de 2009, às 18:08h
Assim distante, carente e saudosas dos meus amigos, também acho que:”amigo de verdade é aquele que faz bem só pelo fato de existir, de sabermos que ele está no mundo, e que o mundo é melhor com ele. São, principalmente, pessoas que escutam”…
Vc mesmo sabe escutar como ninguém, amigo!
beijo grande no coração
25 de maio de 2009, às 8:25h
Pôxa Sama, fico meio triste de pensar em uma categoria de amigo que vc não citou, talvez até porque não as tenha mesmo.
Mas o danado é que, para mim, existe aquele tipo que realmente não interessa mais, aquele que, por algum motivo se revelou, ou que começamos a enxergar de outra forma e que, definitivamente, já não mais se presta a uma proximidade.
Será pequeneza minha? Será a decrepitude tomando de conta?
O isolacionismo típico das almas que vão juntando amarguras?
Lendo seu texto (não sem um pouco de atraso), fico com esta fortíssima impressão: É a decrepitude mesmo, enfim.
Sdçoes Tri Super fortes!