“Por favor, não se esqueçam de minha caneta”
Samarone Lima
Vou olhar as notícias da América Latina, a parte do mundo que mais me encanta, e tomo uma porrada. Ontem, aos 88 anos, morreu o poeta uruguaio Mário Benedetti. Enquanto seu corpo está sendo velado, no “Salón de los Pasos Perdidos” do Palácio Legislativo de Montevidéu. Até o velório tem que ter sua parcela de poesia. Tivesse eu dinheiro sobrando, pegaria o primeiro vôo somente para passar perto deste gigante da literatura, que me emocionou muitas vezes, e me fez amar cada vez mais este pequenito e intenso país vizinho, o Uruguai.
Lembro que descobri sua obra em 1995, quando fui para um fim de ano em Montevidéu, e seus livros ocupavam as principais prateleiras. O homem amado, idolatrado, um combatente das palavras, que teve que escapar para o exílio, durante a ditadura.
Leio as notícias, e fico ainda mais fiel a este homem. No Página 12, Silvana Friera, diz que a morte do autor de livros como “A Trégua” começou em 2006, quando morreu sua mulher, chamada Luz, com quem viveu toda a vida. “Desde então, o impulso vital do autor de mais de 80 livros de poemas, novelas, relatos, ensaios e teatros, assim como roteiros de cinema e crônicas de humor, foi se apagando”.
Imagino como deve ser difícil viver, no crepúsculo, sem a companheira de toda a vida, chamada de Luz.
“Lo mejor que me pudo haber pasado en la vida es que lo que escribo le haya tocado el corazón a esa gente, a ese pueblo, a ese hombre de a pie”, disse certa vez.
Em um de seus poemas, ele pediu que não esquecessem de colocar uma caneta junto, após sua morte. Se estivesse em Montevidéu, discretamene eu a colocaria, bem perto de sua mão. Imagino a solidão da morte sem uma caneta ao alcance da mão. Mais tarde, farei minha homenagem. Pegarei todos os livros que tenho dele e lerei até dormir.
Lembro agora do velho e bom Daniel Raton, que tinha num caderno vários poemas do Benedetti. Com seu interminável cigarro num canto da boa, ele me mostrou, em Buenos Aires, algumas das muitas belezas que eu iria reencontrar pela vida. Vai este pequeno presente para meus leitores, um poema que fala da morte.
Mas o Menos La Muerte
(Mário Benedetti)
La muerte es sólo un niño
de cara triste
un niño
sin motivo
sin miedo
sin fervor
un pobre niño viejo
que se parece
a Dios.
A veces
sin embargo
es tan sólo un silencio
sin pasado
sin molde
sin olor
un silencio en que ladran
los perros
esos perros
y uno se pregunta
quénes son.
A veces.
Otras veces
es una niebla espesa
que se mete en los ojos
que destruye la voz
y uno arrincona a uno definitivamente
bueno
defintivamente no
tan sólo hasta que uno
se siente
sin amor.
A veces.
Pero es raro.
Por lo común la muerte
es solamente un niño
de cara triste
un niño
que sale de la nohe
sin motivo
sin miedo
sin fervor
un pobre niño viejo
que deja caer su mano
sobre mi corazón.
Mario Benedetti, de «Inventario», Editorial Alfa, Montevideo, 1963
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11 Comentários »




18 de maio de 2009, às 14:03h
Soube da morte de Benedetti ontem à noite e desde então estou totalmente arrasada.
bj
18 de maio de 2009, às 14:14h
“cantamos porque o grito só não basta e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota”
(…)
“cantamos porque chove sobre o sulco e somos militantes desta vida e porque não podemos nem queremos deixar que a canção se torne cinzas”
Versos de Benedetti que inspiraram a minha militância nos tempos de movimento estudantil. E depois me inspiraram a vida.
18 de maio de 2009, às 21:21h
O meu poema para um poeta:
Poeta, o eterno lixo da humanidade
bando de desocupado,
atrevidos de perplexidade
Poeta nao estuda, nao produz nao trabalha.
Poeta faz da caneta a desculpa da navalha.
Poeta devia ser tudo uns liso
sem camisa, calcao ou cueca.
Puta que o pariu. Eu odeio poeta.
18 de maio de 2009, às 21:23h
Ta vendo como eh facil fazer poesia. Juro que escrevi a poesia acima agora, em tempo real. FAcil, de rima rica e ate inteligente. Poeta eh tudo lixo mesmo.
19 de maio de 2009, às 12:46h
Eu queria ter vindo antes. É que não tenho internet em casa e uso a do serviço; ontem foi corrido por aqui, e hoje, assim que foi possível, eu vim procurá-lo.
Você nem deve mais se lembrar de mim, mas eu sou a cuiabana que estava no sarau com Luzilá, você e tantos outros (poetas) na sexta-feira no Espaço Pasárgada. Estou encantada com a sua poesia sutil nas entrelinhas das suas palavras. Estou encantada com a sua simplicidade sofisticada que exalada do seu olhar, da sua altura, do seu abraço… Você é tão especial Samarone!
Deixei o endereço do meu blog… Quando puder, dê uma olhadinha. Seria uma honra pra mim! E, se me permitir lhe enviarei um conto que ganhei um concurso literário em Cuiabá sobre existencialismo.
Desculpe fugir do tema do post.
Vou a ele…
“O esquecimento está cheio de memória” Benedetti.
E eu nem preciso dizer que o Céu ganhou um Grande Poeta!
Daniella Paula
19 de maio de 2009, às 14:13h
Achei tão lindo!
José Saramago presta homenagem a Mario Benedetti
“A cabeça diz-nos que não há milagres, mas o coração insiste em crer que um milagre de vez em quando, além de não alterar a ordem do mundo, viria bem como compensação das inevitáveis tristezas da vida. No fundo, queríamos acreditar que a leitura dos poemas de Benedetti, posta a correr ao redor do mundo, faria recuar a morte que ameaçava. Mario perdeu a batalha, nós, os seus amigos, os seus leitores, também. Restará a memória, restarão os livros, mas, neste momento, memória e livros quase nos parecem somenos. A dor e o desgosto não adormecerão tão cedo. Havia Mario Benedetti e deixou de haver.”
19 de maio de 2009, às 17:35h
“Imagino como deve ser difícil viver, no crepúsculo, sem a companheira de toda a vida, chamada de Luz.”
Pense num nó danado que deu…
Você e suas tiradas poéticas ainda mata um de tanta beleza.
19 de maio de 2009, às 22:10h
Sábado de manhã, eu estava no supermercado EXTRA, av. domingos ferreira, BV e parei junto aos livros em oferta. Peguei uns livros, a edição indicava na capa R$ 9,90, achei ótimo preço. Entre eles estava SAMARONE LIMA CLAMOR.Comprei na hora.
2 de junho de 2009, às 17:04h
OI NOBRE SAMA,
BELA HOMENAGEM, SAMA!!! MUITO BELA E MERECIDA HOMENAGEM!!!
ABRAÇÃO FRATERNO,
GEYSON MONTE
15 de agosto de 2009, às 13:41h
[...] Benedetti, segundo Samarone Lima [...]
2 de março de 2010, às 0:28h
[...] Clique aqui para ler a homenagem de Samarone Lima a Benedetti Enviar por email – Imprimir Tags:América do Sul, América Latina, ditadura, literatura latino-americana, literatura uruguaia, Mario Benedetti, Pepe Mujica, Uruguai « Meus Lugares Escuros, na visão de Hugo Figueiredo [...]