Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Virtude confessa (ou: Louvação aos amigos)

14 de maio de 2009, às 11:48h por Samarone Lima

Sou uma pessoa de sorte. Aos 40, recém-completados, tenho saúde, muitos livros, tem um bocado de coisas boas e lindas me acontecendo. Claro que há tristezas, aqueles dias atravessados, mas como diz o poeta, é preciso atravessá-los também, tratá-los como “incômodos de viagem”.

Tenho uma porção de defeitos, mas confesso uma virtude, talvez a maior e única  - a da amizade. Não importa a distância, o tempo, os contratempos. Sou cativo de amigos. Mais que isso, devoto. Tenho muitos. Minto. Tenho uma legião de grandes amigos. Pessoas que conheci, que entraram em minha vida, e ficaram para sempre. Pessoas que amo de verdade, que me fazem bem somente porque estão no mundo, nessa época em que vivo.

Acho isso uma coisa maravilhosa, uma dádiva, uma celebração, e até hoje tenho uma imensa dificuldade de entender o fato de pessoas ficarem intrigadas. Pior que isso – amigos que, por algum motivo, se desentenderam e nunca mais se falaram. Faltou alguém estender a mão e dizer “que bobabem, apenas nos exaltamos”.

Tenho amigos que adoro, e que vejo pouquíssimo, porque minha vida noturna já não é a mesma de outros tempos (ter sido dono de bar me estragou um bocado a carreira de boêmio). Vejo aqui, ali, nos instantes da vida, celebramos a amizade, renovamos, a conversa segue fluindo, como se tivéssemos nos encontrado na esquina anterior. Cabe aqui o velho Pedro Saldanha, com sua inteligência à parte, um humor que não brinca em serviço. Nesta linhagem, cabe o velho Zeca, vivendo na boemia do Rio de Janeiro.

Amigos que estão bem longe, e que não vejo há tempos, diria anos. Josmar Josino, o “Valente”, colega de redação em São Paulo. De longe, o melhor jornalista que já vi trabalhando, capaz de trabalhar numa pauta durante semanas a fio, até fazer uma denúncia que derrubava delegados e policiais corruptos.

Desde o primeiro dia na redação, ele perguntou de onde eu era, disse que era do Ceará, ele começou a fazer piadas, e ficamos unha e carne. Em qualquer circunstância, em vários momentos, era possível escutar sua voz cheia de gracejo:

“Calma valeeeente!”

Ontem liguei para o velho amigo, ele estava tomando banho, e a conversa seguiu normalmente, como se tivéssemos nos encontrado na tarde anterior. 

“Calma Valeennnte!” -, foi a primeira coisa que disse. Não sei qual o celular que ele usa, que deve ser à prova d´água.

Mas há amigos também que passam pela neblina do tempo. Amigos que eu não via há tempos, que reencontramos e não temos mais o que conversar. Seguiram outros caminhos, tiveram outras jornadas. Falam de coisas que não me interessam, acreditam nas formas de vida que fui deixando pelo caminho. É um pequeno sofrimento isso, ver que um grande amigo já não aquece o coração, já não diz ao sentimento, não traz gravetos para o fogo da convivência.

Alguns reencontros são pequenos sustos, mudei tanto que não reconheço o outro. Mas não faz mal, guaranal, sem lamentos, julgamentos. Apenas seguimos caminhos distintos, cada um tentando ser feliz ao seu jeito.

Engraçado isso. Enquanto vou escrevendo, vai me aparecendo a imagem de cada um, em diferentes momentos. Os amigos do Monte Castelo, em Fortaleza, da Casa do Estudante, da UFPE, da Católica, do Diário de Pernambuco, de São Paulo, do mestrado, das muitas viagens pela América Latina, os ex-alunos que se tornaram amigos de verdade (Bruno Fontes agora joga peladas comigo, aos domingos), os muitos amigos do Poço da Panela, o supremo amigo, que é Naná, que fala comigo pelo menos uma vez por dia, desde que o conheci, em 2000.

Descubro que minha mãe, Dona Ermira, passou para outro patamar. Tornou-se também uma grande amiga. Às vezes, conversamos muito, e sinto que algo ultrapassou a relação mãe-filho. Cresceu, ao longo dos anos, uma bela e enorme amizade. Ela fala dos seus problemas, conta a vida, falo dos meus, ela escuta. Nos últimos tempos, chegamos ao ponto de não darmos nenhum conselho um ao outro. Apenas falamos e escutamos.

No fundo, amigo de verdade é aquele que faz bem só pelo fato de existir, de sabermos que ele está no mundo, e que o mundo é melhor com ele. São, principalmente, pessoas que escutam. Nem vou falar de Déa e Emília, elas sabem bem como é a pisadinha. 

Ao contrário do Rei Roberto Carlos, eu não quero ter um milhão de amigos. Quero os que tenho, os que fui cativando ao longo da vida, e os que vão chegar, mansamente.

Sim, porque amigo de verdade chega de mansinho, vai devagar. Limpa os pés no tapete, pede licença, não se esparrama assim fácil. Sempre detestei essas intimidades precoces, essa intimidade sem sumo. Há que se ver o mistério das aproximações lentas, da intimidade conquistada. Para chegar e abrir logo a geladeira da Emília, foram muitas primaveras. 

Como eu vinha dizendo, sou um sujeito de sorte. Não me lembro de nenhum amigo que tenha se intrigado de mim. Se aconteceu, foi por alguma bobagem que fiz, coisas da juventude, e vou logo pedindo desculpas.

Caramba, hoje sinceramente, estou falando mais que o homem da cobra. 

Para Mimos, que vai casar com Pedoca no sábado, e os dois são meus amigos pacas.

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Nos caminhos de Luzilá

11 de maio de 2009, às 9:28h por Samarone Lima

Conheci Luzilá há muitos anos, quando eu era um magricela estudante de Educação Artística, na UFPE, morava no apartamento 312 da Casa do Estudante, e escrevia poesias que não tinham futuro algum. Não sei como foi que esbarrei em Luzilá, que já estava começando a ficar famosa, porque tinha acabado de ganhar o Prêmio Nestlé de Literatura, pelo romance “Muito Além do Corpo”.

Eu cursava Educação Artística, mas vivia muito próximo do pessoal de Letras, participando de tudo que era seminário, debate, encontro etc. Era de uma timidez doentia, coisa que vim superando com o tempo, hoje me considero um tímido raçudo.

Uma vez entreguei um lote de poemas, Luzilá comentou, rabiscou, me deu dicas, não estragou minha carreira literária, e continuo enchendo meus cadernos de poesia, até que um dia resolva algo. 

Uns anos depois, nessas artimanhas do destino, ganhei uns bons trocados em São Paulo e resolvi dar um giro pela Europa. Bingo! Luzilá estava fazendo seu doutorado na França, com um apartamento alugado no quinziéme (era no quatorze, mas não sei como se escreve isso em francês). Aceitou minha estadia em seu reduto, e quando cheguei a Paris, resolvi fazer uma surpresa. Fui até perto do prédio, e liguei de uma livraria, pedindo para ela botar a cabeça do lado de fora da janela. Infelizmente, o bloco dela era o B, e não a vi da janela. Como cheguei de surpresa, encontrei a já famosa escritora, em Paris, com sonoros “bobs” nos cabelos.

Durante um mês, creio, Luzilá trabalhava na parte da manhã e tarde, eu batia pernas por Paris, voltava mais tarde, a gente almoçava e saía para caminhar. Ela, que teve sua vida atravessada pela França (casou até com um francês), sabia até onde o Balzac comia seu pãozinho francês (perdão pelo trocadilho infame). Me mostrava tudo, conversávamos muito, tudo ficava mais bonito com ela. Com seu filho, Jan Christoph, fiz uma amizade tão boa, tão divertida, que parecíamos donos de um circo ambulante. Nossas adivinhações e brincadeiras com trocadilhos nos deixava de barriga doendo, de tanto rir.

Foi um período delicioso, cheio de aventuras, e até uma TV achei no lixo e levei para a casa dela. Os franceses, se vocês não sabem, botam coisas fantásticas no lixo, uma vez peguei uma baita de uma jaqueta perto de um poste, só porque tinha um pequeno furo nas costas.

Anos depois, retornei ao Recife, e sua casa, no Poço da Panela, cercada de plantas e flores, voltou a ser meu caminho fácil, de aconchego, bons papos, troca de idéias. Até os cachorros já me conhecem. Neste período de amizade fértil, vários outros livros foram nascendo, como o delicado e intenso “Humana, demasiado humana”, sobre Lou-Andreas Salomé, “Voltar a Palermo”, enfim. Luzilá se tornou, de fato, uma grande escritora.

Por mais uma dessas curvas deliciosas do destino, estou encarregado, junto à minha valorosa equipe do Espaço Pasárgada, de homenageá-la. Hoje, a partir das 18h, iniciamos o projeto “Luzilá vai a Pasárgada”. Até sexta-feira, teremos uma vasta programação (sempre começando à noitinha), para desvendar os caminhos da criação, a descoberta dos livros e da literatura, as vertentes de seus muitos trabalhos. Muita gente não sabe que foi por esta doce mulher, que os poemas de Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade foram traduzidos para o francês.

Semana passada, fomos à sua casa, buscar material, livros, originais. Eu, Rodrigo, Gabriela e Suco. Conversamos muito, ela contou coisas de sua vida, a viagem para Leningrado, na terceira classe de um trem que parecia de cinema, a visita à casa de Chopin, que havia sido destruída pelos nazistas, e reconstruída pedra a pedra pelos poloneses. Numa viagem de trem, ensinou toda a tripulação russa a cantar “Serenou e caiu”. Mexendo em suas caixas, buscando material, encontrei um envelope que mandei com uns 50 poemas meus, há uns dez anos, acompanhado de uma carta. Claro que trouxe comigo.

Convido todos os meus leitores que amam a literatura a visitar o Espaço Pasárgada, a partir de hoje. Em três lugares distintos, teremos uma mostra do universo de Luzilá. Em uma sala, seus livros, originais, reedições de livros etc. Em outro, suas entrevistas para TV, depoimentos. No terceiro, as músicas que fazem parte de seu universo.

Teremos uma semana com o som de Chopin, Lou-Salomé passeando pela nossas alamedas literárias, a fina prosa poética do mestre Lourival Holanda abrindo os caminhos, entre outras belezuras. Um grupo teatral fará a abertura, interpretando trechos de Muito Além do Corpo. Encerraremos a Semana com um sarau, na sexta-feira.

O Espaço Pasárgada fica na rua da União, 263. Mais informações sobre a programação:

literatura.fundarpe@gmail.com

Espero vocês.

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Salvações

7 de maio de 2009, às 2:31h por Samarone Lima

Outro dia fui para um debate desses envolvendo antropologia e história, cada convidado melhor que o outro, essas coisas que o Mário Hélio organiza. O Mário é um dos sujeitos mais inteligentes do Brasil, nosso Joaquim Nabuco.

Como sempre, tratei de chegar cedo, para sondar o cafezinho, pegar minha pasta, o indefectível crachá, descolar um bom lugar.

Lá pelas tantas, chegou o palestrante de uma das mesas. Vinha com uma mochila e foi tirando as coisas, notebook, armando sua lan house na mesa. Fiquei reparando, o sujeito era concentradíssimo, sério, diligente, pouco depois começou a navegar. Botou uma musiquinha, e como só tinha eu na sala, deu para escutar direitinho - era o Richard Clayderman. Os demais convidados foram chegando, a mesa foi formada, até que chegou a vez dele falar.

Eu tomei foi um susto de ser tão burro. Eu, claro.

O camarada começou a falar das maravilhas da Internet, de adolescentes da periferia que fazem filmes que são vistos por milhares, de avanços e ferramentas que estão mudando a cara da periferia, do caminho irreversível, que eu daria tudo para ter meu caderninho de anotações por aqui, ou de pedir uma cópia da fórmula mágica.

Lá pelas tantas, fui informado que no futuro, teremos mais crimes cometidos pela Internet, que na vida real.

Olhei para o lado, para o outro, dei minha farejada de lobo e quase uivei. Uai, e nós estamos no Recife ou na Suécia?

Fiquei com aquela psicose no pensamento, mas confesso que assisti ao restante da palestra já sem fé naquela promessa exuberante de futuro. Bastou terminar sua conferência, que o camarada voltou à sua lan house, ao seu mundo. Enquanto os demais palestrantes falavam coisas interessantíssimas, ele ficava mexendo no seu computador, alheio a tudo o que estava ao redor. Não interagia, não olhava para os demais colegas de mesa ou para o público.

Deu para ver que estava na sua sua bolha.

Terminadas as explanações eu iria fazer umas perguntas duras de zagueiro, mas o Iramarai Vilela chegou de repente no auditório, e me chamou para um evento cívico, envolvendo Doutor Cyro, herdeiro do Leão Coroado, então deixei a discórdia para outro dia, eu já nem sou tão bom de briga assim, exceto nas peladas. Iria perguntar como a Internet poderia mudar tanto a vida social, econômica e cultural de uma juventude que não consegue ler a orelha de um livro.

“Apenas um em cada quatro jovens e adultos brasileiros consegue compreender totalmente as informações contidas em um texto e relacioná-las com outros dados”, informa o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL).

Não ei de onde fui buscar este assunto, quando eu iria escrever mesmo era sobre minha mãe, Dona Ermira, que daqui a uns dias será avó de novo, e domingo é o Dia das Mães.

Acho que é por causa desses sábios de laptop, que andam por ai, com seus data-shows, que explicam tudo da forma mais simples – computador para todo mundo + Internet = Salvação. 

Pois eu vou dizer uma coisa, e que o mago da rede não me leia. Para mim, mudança social, de mentalidade, passa por biblioteca, livro e leitura. O velho conto, a boa crônica, o romance, a poesia, o livro entrando na alma do sujeito, ele ficando sem vontade de dormir, sentindo aquela coceira no organismo, querendo mais, descobrindo outros mundos.

Acho que um menino da periferia do Recife está salvo não quando está numa lan house, futucando sites, vendo seu Orkut ou Twitter, mas quando descobre, por algum milagre dos encontros, algum professor diferente, algum projeto social não interrompido, que precisa começar a montar sua pequena biblioteca.

Nesta hora, uma pequena sombra da salvação toca seu ombro.

Já vi esse estremecimento de perto algumas vezes.  É um milagre a pessoa saber que não está mais sozinha no mundo.

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Encontro de poetas

5 de maio de 2009, às 1:30h por Samarone Lima

Não sei se já publiquei esta crônica, se já, me perdoem, é que ando esquecido pacas e ultimamente tenho misturado os arquivos das coisas publicadas e apenas rascunhadas com uma rara facilidade. Também me deu uma preguiça dos diabos procurar nos textos publicados, sair buscando mês a mês, eu acabo de virar um quarentão, posso ter lá minhas regalias e tonterias com mais sossego. 

Vamos fazer o seguinte. Quem leu, tem todos os motivos do mundo para buscar coisa melhor. Quem não leu, pode gastar seus preciosos minutos com minha coleção de encontros casuais. Outro dia, por sinal, um sujeito me abordou na rua, falou longamente de sua vida, contou loas e boas, até que  arrematou com uma frase e tanto:

“Eu agora estou morando em Flores, visse?”.

Dito isso, foi embora, sem me informar seu nome, a origem, e muito menos de onde nos conhecemos – Casa do Estudante, Federal, Católica, do mundo do jornalismo, de algum boteco – se é que já nos conhecemos algum dia. Só não tive a sorte mesmo foi de encontrar o santo arqueiro coral Birigui, que merecia uma estátua defronte ao Arruda pelas defesa que fez nos anos 80.

Vamos deixar de enrolação. Segue abaito a crônica ”Encontro de Poetas”.

“Estou sentado num banquinho, ao lado da estátua do poeta João Cabral de Melo Neto, na margem ocidental do rio Capibaribe. Não sei se é margem ocidental, mas achei bonito esse negócio de “margem ocidental”, fica assim mesmo. São 9h13 da manhã, tenho um encontro marcado com um advogado, vou tratar da amiga presa, mas ele não chegou. Nada como esperar ao lado de um poeta, mesmo que seja de cimento. João Cabral está com a perna cruzada, descansando, olhando o rio que corta o Recife.

O sol está manso, aproveito para pegar uma corzinha. Os ônibus passam a todo vapor. Uma mulher vende água mineral, atravessa a rua e gritando “olha a água, água é um real”. Está tudo quieto, o dia vai começando a entrar no ritmo, quando escuto um homem falar bem alto, ao meu lado:

“Isso aqui não tem o menor sentido”.

Ele acaba de ler uma placa, que fica ao lado da estátua, com uma pequena biografia do poeta e trechos do poema “O cão sem plumas”.

Levanto e me aproximo. Ele tem uns 50 anos, está indignado.

“Eu fico doente com essas pessoas reconhecidas que escrevem essas besteiras”.

A irritação do meu amigo tem uma fundamentação poética e metafísica. Alguns trechos do poema ele considera absolutamente sem sentido.

“Veja isso. Ele diz que o rio é um cão sem plumas. Agora olhe de me diga: O Capibaribe tem alguma coisa a ver com um cão sem plumas?”

“Não faz o menor sentido”, respondo, só para jogar lenha na fogueira. João Cabral e seus aficcionados que me perdoe.

“A água do copo de água. Me diga se isso não é uma besteira?”

Pego meu bloquinho de anotações. Acabo de ganhar a crônica do dia. Ainda nem perguntei o nome do homem, e já sei que deve ser um inquieto, que briga até com a poesia que não entende.

“Dos peixes de água”, diz, lendo o poema pela segunda vez, agora em voz alta. “Todo mundo sabe que o peixe só pode ser da água. Ele podia ao menos botar um peixe de água doce”.

Me olha com atenção e desabafa:

“Hoje, quem tem valor, não vale de nada. O que é deixa de ser é, e o que não é, passa a ser”.

O homem saiu da reles zanga poética para a filosofia, e isso me deixa animado. Me lembrei das aulas de Lógica, na universidade, que nunca me ajudaram muito a compreender o mundo.

“A água do copo de água”, segue. “Pelo amor de Deus…”

Eu nem tenho o trabalho de falar nada, porque ele não se conforma com o que lê.

“Ele botou o copo com água na geladeira, depois tirou e ficou o formato, só pode ser isso”, completa.

Achei essa metáfora muito boa. O formato do copo na geladeira. Algo que congelou e ficou só na forma, ou na memória. Vou ter que perguntar ao Gustavo, que agora é professor de Estética.

“Tenho minhas dissertações todas escritas no jornal. Eu me oponho à legalização da maconha, contra os jovens irem para a cadeia mais cedo”, diz.

Eu faço minha tarefa mais essencial: escutar.

Estou mesmo com sorte. Neste momento, vem passando o poeta performático Jommard Muniz de Brito, meu professor na UFPE, que sempre anda com poemas xerocados, para distribuir nos mais diferentes lugares da cidade. Faço uma saudação e digo que meu amigo está irritado com a poesia de João Cabral. Jommard lê todo o poema em voz alta, com aquela voz grossa e boa para recitais. Escutando bem, acho meio besta mesmo esse negócio da “água do copo de água”.

“Isso não é poesia, é um poema”, diz Jommard, e suspeito que levei um fora.

Meu amigo insiste: “E a poesia?”

“É a consciência crítica do poeta”.

Meu amigo: “Mas e a água do copo de água?”

Estamos neste colóquio, quando chega um homem magro, de boné puído, bigode a la Cantinflas. Usa roupa simples.

“É tudo poeta?”, pergunta.

A resposta de Jommard me deixa no céu:

“É uma poesia mais romântica – a fonte cor de rosa”.

São mais ou menos nove e meia da manhã, já somos quatro homens ao lado da estátua de João Cabral, discutindo os problemas da poesia e da criação. O primeiro, que abriu o diálogo, irritado com os versos de João Cabral, se chama Jade Barreto de Araújo, não terminou sequer a 6ª série e mora em Carpina. É motorista, e todo dia traz os alunos que estudam nas universidades do Recife. O que chegou é Luciano, que é pedreiro. Constrói casa, vende, constrói outra, vende, e vai tocando a vida. Fica escutando a discussão, e sai com esta:

“Pois quem gosta de poesia é poeta”.

“O que você acha de dizer que o rio Capibaribe é um cão sem plumas?, insiste Jade.

“Um cão sem plumas é um cachorro sem penas”, responde o pedreiro.

Ficamos em silêncio. Jommard dá explicações sobre a prosa e a poesia, chama atenção para metáforas, o que o poeta quer dizer, mas tem que ir embora. Ficamos os três, ao lado da estátua. Luciano diz que também gosta de compor umas coisinhas.

“Sou do alto Sertão, de Tabira. Gosto de cantar umas loas”.

Pedimos para ele cantar algo. Ele tem uma composição intitulada “O que me mata é a saudade do que fui no passado”.

Recita sua obra no formato do cordel. Saudade, sofrimento, amores, lembranças da família, da terra natal, esses temas universais. Termina, batemos palma. Do nada, olha pra mim e diz:

“Esse aí, de besta não tem nada”.

Penso em exigir explicações, mas a conversa tem outro rumo.

“Hoje não tenho um cruzeiro, por isso vivo comprando fiado”.

Pensei que era um pedido de dinheiro, mas era outra composição poética dele.

Jade aguarda nosso amigo recitar mais um trecho de sua obra, e volta à placa, onde está o poema cabralino.

“Uma fonte azul. Eu não entendo nada”.

Luciano: “Rapaz, eu não gostei disso não”.

Até eu começo a ficar invocado com o poema.

Luciano: “Lá onde a gente mora, se costuma dizer que quem faz de cachorro gente, fica de rabo na mão”.

Agradeço mil vezes por esta minha estranha obsessão de andar sempre com caderno e caneta nos bolsos.

“Fiz um verso escrito assim – tudo aqui passará”, emenda Luciano, agora já bem à vontade na conversa e deixando a timidez de lado.

Ele recita seu verso, e ao final me pergunta:

“Como é o nome do professor?”

Pergunto como ele sabe que sou professor.

“Essas sabedorias eu conheço de longe”.

Em desvantagem (estava só criticando), Jade diz que no Dia das Mães, fez um verso para elas.

“Mãe é como água de luz no deserto

Raio de luz em pleno Sertão”.

Com a vênia do poeta, “água de luz” é mais poético “água do copo de água”. O resto eu perdi, porque ele falou ligeiro demais. Luciano atacou com mais uma composição, e a manhã virou um imenso sarau popular.

Ao terminar, Luciano comentou:

“Aí ta certo. Agora, o que ele está falando aqui” – aponta para a placa com o poema de João Cabral – “é grego”.

“A pessoa tem pai e mãe, é rica”, emenda Luciano, que gosta de misturar assuntos e temas. Recita um poema para seus pais. Depois, informa que usa uma prótese no olho direito.

“Esse olho aqui não vê mais nem mulher bonita”.

“Uma poesia sem rima, não é poesia”, reclama Luciano.

“Raul Seixas se fazia de besta, mas sabia de tudo”, completa Jade.

Ficamos em silêncio. A mulher que vende água mineral segue gritando “olha a água, água mineral é um real”.

“A poesia deveria ter mais valor. Um professor deveria ganhar mais que um Ronaldinho Gaúcho”, diz Luciano.

Se é para não ter rumo mesmo na conversa, cito a estátua de Antônio Maria, que adoro, os dois não conhecem. Falo que ele é compositor, autor da famosa  ”Ninguém me ama/ninguém me quer”, uma fossa dos diabos. Jade começa a cantar, com uma voz afinada, melodiosa.

 ”…de fracasso em fracasso

A velhice chegando

E eu chegando ao fim”.

 Canta com esmero, do início ao fim, sem errar uma sílaba. Termina, batemos palma. Ele começa a cantar outra:

 ”Hoje amanheci lembrando do amor que eu te dei…”

Resolvemos seguir em direção à Conde da Boa Vista. Jade segue cantarolando melodioso, o dia fica imensamente bonito, azul, a manhã da segunda-feira muda completamente o sentido. Um vagabundo literário, um motorista e um pedreiro, fora o pouso rápido de um poeta e professor. Assim, o dia fica mais fácil.

Chegamos à ponte, há uma dificuldade natural na separação. Nos abraçamos com afeto. Jade me olha com apenas um dos olhos enxergando e me diz:

“Você é uma pessoa, viu?”

São 10h33. O advogado deve estar em alguma audiência, fica para outro dia. Resolvo passar na estátua de Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus, para um aceno breve.

No caminho, passo pela estátua de Joaquim Cardoso. A cidade está cheia de poetas, vivos e mortos”.

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