Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Sobras de viagem

28 de junho de 2009, às 14:34h por Samarone Lima

Estava em Brasília, no bar Rayuela, conversando com várias pessoas no lançamento do livro do Marcelo, quando uma criatura ao meu lado, na mesa, me olhou e disse:

“Ai, eu  não consigo ver você vendo futebol na TV, numa tarde de domingo…”

Eu quase respondi:

“Pois eu não consigo me ver sem futebol na TV, em todas as tardes de domingo”.

*

Uma amiga da mesa trabalhava numa empresa importante, se vestia bem pacas, até que um dia, subiu no elevador com duas crianças desconhecidas. Quando foi saindo, escutou uma criança falar para a outra:

“Quando eu crescer, quero ser igual a essa mulher: poderosa e solitária”.

Minha amiga foi para o quarto do hotel, chorar bem muito sua solidão.

**

Acabo de ganhar Veja, Placar e outras revistas de presentes. Estou no ônibus do Rio para Brasília. O sujeito ao meu lado lê tudo o que tem, até que fica sem nada. Lá pelas tantas, ofereço a Veja para ele ler. Daqui a pouco fico a ruminar comigo:

Que mal ele me fez para eu lhe oferecer drogas?

***

Essa é do Edmundo, e é sarcástica:

“Quem morre cedo, não tem tempo de gravar disco ruim”.

****

“Até para cair, o cara ajeita o cabelo”.

Comentário ácido de um torcedor do Fluminense, no Maracanã, sobre um lateral direito que parecia um modelo.

*****

“No jogo contra o Botafogo, as melhores jogadas foram os passes errados”.

(Do mesmo torcedor)

******

Tordedor 1 – Porra, o Parreira tinha que mudar o time.

Torcedor 2 – Sim, mas o Parreira nunca faz o que a gente quer.

*******

“Não sirvo pra mais nada”.

Primeira frase que escutei no Rio de Janeiro, em visita recente, dita por um cara que sofreu um acidente de moto.

********

“Há ausências que triunfam”.

(Canção com a impossível Chavela Vargas, bálsamo para o espírito)

**

Para os amantes do futebol.

Maior público pagante no Brasil:

Dia 31.08.1969. Brasil 1 x 0 Paraguai. Eliminatórias da Copa de 1970.

Pelé fez exatos 1.282 gols, e não vi nenhum ao vivo.

***

Essa me contou um dono de boteco, em São Paulo.

Disse que o pai tinha um filho que ficou muito rico, e que era esnobe. Certo dia, o pai falou que o tinha tratado bem, dado educação, e que não o deveria tratar daquela forma, tão esnobe. O filho olhou o pai e disse:

“Então bote no papel aí, veja quanto custou tudo, que passo um cheque agora. Dinheiro eu tenho de sobra”.

O pai respondeu:

“Você quer saber quanto me deve? Case e tenha um filho”.

***

Nota aos leitores:

É para uma pesquisa existencial-metafísica minha. Quem for comentar algo nesta pequena postagem, peço que por favor acrescente três sugestões de blogs e sites interessantes. Ivanzinho pode começar.

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Por amor aos livros, deixe o Senado, José Sarney!

25 de junho de 2009, às 12:43h por Samarone Lima

Leio comovido o texto do senador José Sarney na Folha de São Paulo, publicado dia 19 de junho. Se intitula “Ainda uma vez o livro”, assunto que me interessa de há tempos: o amor aos livros, e sua crença de que as tecnologias jamais irão torná-lo obsoleto.

Ah, como é lindo ter um senador da República citando Dom Quixote…

“Por milhares de livros que se possam acumular essas máquinas (fala de e-book e kindle), elas jamais acumularão os tantos livros que existem num livro. Quantos livros há no “Dom Quixote”, o cavaleiro da triste figura? São milhares, e cada frase é um livro”.

“Sempre precisaremos desse companheiro”, escreve o senador, sempre precisaremos do livro para nos levar, como dizia o poeta espanhol Manuel Machado, “da prosa ao sonho”.

Mas há um detalhe no texto que me intriga. No primeiro parágrafo, José Sarney diz o seguinte:

“Este espaço jamais pode ser usado para assuntos pessoais. Aqui, não tenho o Senado para atrapalhar-me, e sim o gosto de escrever. E nada melhor do que escrever sobre livro”.

Ou estou ficando louco, ou o senador tem um grave distúrbio de personalidade. É a terceira vez que assume aquela Casa. Se não está lendo e escrevendo, é porque o Senado deve dar muitas alegrias – ao bolso, aos familiares, ao estilo oligárquico de tratar as coisas da política no Brasil. Que eu saiba, ele não se candidatou à força, muito pelo contrário.

A última descoberta, que joga o nome do senador na nossa lama política, é a existência de ”atos secretos”, no Senado, desde 1995. O gestor dessa impressionante engenhoca burocrátic0-financeira (nomeações, aumentos de salários, hora-extra etc) era Agaciel Maia, que foi diretor de recursos humanos durante 14 anos. O homem foi indicado para o cargo por Sarney, esse amante dos livros e de Dom Quixote, em 1995. Agaciel só deixou o cargo depois que a Justiça descobriu que o camarada tinha uma casa avaliada em R$ 5 milhões.

Com R$ 5 milhões, Dom Sarney, muitas cidades nos grotões deste País teriam lindas bibliotecas, e formaríamos uma geração de novos leitores. Algum deles, com sorte, poderiam chegar a ler Dom Quixote.

Até agora, a comissão de sindicância apurou 623 atos secretos. Em qualquer país razoavelmente bem estruturado juridicamente, com um mínimo de mobilização cívica, todos os envolvidos já teriam sido demitidos, cassados, e os bens seriam confiscados.  Num país um pouquinho melhor, seriam presos, e o STF não daria habeas-corpus automático, eles teriam tempo de sobra para ler e escrever suas memórias de larápios. Num país menos mesquinho, o presidente do Senado não zombaria da opinião pública como faz agora mister Sarney.

Nos atos secretos, aparece uma penca de nomeações envolvendo a família Sarney, aquela que se julga dona do Maranhão. Não vou citar os nomes, para a postagem de hoje não ficar muito extensa. São muitos, e gostam de ótimos salários. Como nos bons folhetins, temos a figura do mordomo. Ele trabalha para a senhora Roseana Sarney, filha do senador, e recebe R$ 12 mil por mês, o salário de uma penca de professores de literatura.

Sei que o senador jamais subirá ao púlpito para renunciar. Seria esperar generosidade e coragem, de um homem que tranformou o Senado a extensão da cozinha e do banheiro de sua casa. Se ele diz que o Senado atrapalha sua vida de leitor e escritor, recorro ao argumento literário, o único que me resta:

Por amor aos livros, deixe o Senado, José Sarney!

Ps. no final do texto, ele deixa o email, à espera, creio, de interlocutores literários. Compartilho com meus leitores:

jose-sarney@uol.com.br

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Confissão

23 de junho de 2009, às 20:06h por Samarone Lima

Durante muito tempo, relutei em me apresentar como escritor. Já tinha até livro publicado (“Zé”, em 1998), mas uma timidez difusa impedia. Achava sempre um negócio enorme, um perigo. A mesma coisa serve para poeta. Escrevo poesias desde os 13 anos, mas nunca sequer esbocei a possibilidade de me denominar poeta. Fico até vermelho quando conheço um sujeito que se denomina poeta. Para mim, poesia é uma das coisas mais sagradas do mundo, e um bom poeta é algo que encontro de vez em quando, quando um livro me pega de jeito – coisa que ultimamente não tem acontecido.

Agora não tem mais jeito. Não pelo recente livro sobre futebol, lançado pela Casa das Musas. Participei de quatro lançamentos, na sexta-feira vou para o quinto, perdão pelo trocadilho infame. É que olho para um lado, olho para o outro e vejo que eu vivo escrevendo. Não sou um escritor porque tenho livros publicados, mas porque vivo escrevendo em cadernos, neste blog, em cadernetinhas, em pedaços de papel. Eu diria que não sou propriamente um escritor, sou mesmo é um escravo. Escravo é alguém que está inteiramente sujeito a outrem ou a alguma coisa. Sou inteiramente sujeito à escrita. Minha dependência psíquica é total. Se não escrever de manhã, escrevo à tarde, se não conseguir, faço à noite. Preciso do gesto físico de pegar uma caneta e passar coisas para o papel. Viveria bem sem computador, mas sem cadernos, jamais. Tenho aqui uma estante cheia de diários. Escrevo obsessivamente. Às vezes, acho que é uma doença, mas acho melhor não ter cura.

Olho para trás e vejo como tem sido. Em 1992, aos 23 anos, eu já estava começando a levantar informações para o que seria meu primeiro livro. Seis anos depois, ele foi lançado. Foram milhares de horas entrevistando gente, procurando os caminhos da vida e da morte de um militante da Ação Popular (AP), José Carlos da Mata Machado. Foi graças a essas pesquisas, que descobri precocemente os valores de uma geração que bateu de frente com a ditadura. Esse presente eu ganhei da vida, e garanto, foi um dos presentes mais belos. Não foi propriamente a vida do Zé que descortinei, mas de uma geração que fez o que era possível, quando tudo parecia impossível.

Foi também um aprendizado. Nunca me ensinaram a escrever um livro. Quebrei a cabeça, fiz e refiz, perdi capítulos, morri mil vezes, até que um dia descobri algo precioso – o meu jeito de contar uma história. Foi como abrir goteiras no imaginário. Mesmo o texto mais jornalístico, precisa das goteiras da imaginação.

Depois veio o Clamor, e minha descoberta da América Latina. A esta pesquisa, devo o meu encontro com os países de língua espanhola. Devo meu encontro com outra geração, a posterior à do Zé, que decidiu abrir os braços da solidariedade para os irmãos vizinhos. Novamente, dezenas de entrevistas, leituras, o ofício da escrita, essa solidão absoluta até encontrar o tom, o jeito, as palavras, o fio condutor. Eu só consigo contar uma história quando descubro como vou contá-la. Pois me lembro de viagens pelo Chile, Uruguai, Argentina. Eu ficava sempre em albergues, e o povo com seus guias, mapas da cidade, máquinas fotográficas. Eu ficava escrevendo, muitas horas.

Escrevo isso porque há pouco terminei agorinha, coisa de meia hora atrás, a última revisão de “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre o cotidiano do povo cubano. Ao final, agora há pouco, enquanto as bombas e fogueiras juninas pipocam no Recife, vejo mesmo que não tem mais volta. Sou um escritor.

Porque um escritor, creio, não consegue se livrar de suas obsessões. Eu, quando começo um livro, fico mesmo um escravo, inteiramente sujeito a alguma coisa. No caso, ao texto.

O livro começou a ser escrito em Havana, no final de 2007, se estendeu para o começo de 2008, quando voltei cheio de cadernos, e fiquei 15 dias no Rio de Janeiro. O sujeito que vai para outro país, e volta com quatro cadernos cheios de anotações, só pode mesmo ser desajuizado.

Tudo isso foi acontecendo enquanto eu trabalhava, viajava, participava de projetos, reuniões. São poucos os escritores deste país que têm as condições ideais para trabalhar. O tempo que me sobra, o da escrita, porém, é o mais sagrado. É quando me sinto melhor, mais inteiro, despojado, livre.

Desde a primeira versão, o livro de Cuba me ocupou, consumiu, me fez criar uma dependência. Cada capítulo foi escrito, reescrito, revisado. Descubro que sou um tirano comigo. Até o final, acho que não está bom. Minha nova editora, e pequena e adorável Casa das Musas, deve estar já lamentando tanta demora. Fui a Brasília, fiz a última revisão no computador, pedi à editora Florence, a última versão impressa, e a trouxe ao Recife.

Então reli, mais duas vezes. A impressão que tenho, é que se não tiver a mão forte de um editor dizendo “chega!”, ficaria corrigindo até o fim da vida. Sempre tem coisa para melhorar.

É cansativo, o sujeito passa milhares de horas fazendo três coisas: escrevendo, lendo e relendo.

Mas é minha sina. Nasci para isso, não vou mais me desvencilhar, nem ficar com meias palavras. Sou um escritor. Dá um medo, mas é bom. Isso é uma confissão.

Tem uma hora que todo o meu esforço encontra o outro lado da história – o leitor. É a hora de a onça beber água.

“Viagem ao Crepúsculo” sai da gráfica em 15 dias, após um ano e meio de luta. Vem de novo, o frio na barriga. Melhor: Sei que basta o livro sair, e já estarei pensando no próximo. É assim, minha vida.

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Como não lançar livros

17 de junho de 2009, às 10:29h por Samarone Lima

Às vezes é bom o cara se benzer ante de sair de casa, especialmente se for para ele lançar algum livro. Desde a semana passada fui escalado para participar de debates e lançamentos do livro “A cabeça do futebol”, editado pela Editora Casa das Musas, e no linguajar popular, não estou dando uma dentro. Poderei até escrever um tratado: como não lançar livros, em três lições.

Foram três lançamentos até agora (Recife, São Paulo e Rio). O quarto será sexta-feira (19.06), aqui em Brasília, onde estou.

Dei uma dentro no Bar Mamulengo, no Recife, semana passada. Foi tudo lindo. Amigos, três dos 27 autores do livro (é uma coletânea de textos com gente saindo pelo ladrão), alegria, biritas, animação. Vendemos uma penca de livros. Fiquei até com cãimbra na mão direita, de tantos livros que dediquei.

Em São Paulo, fiasco completo. Cheguei quando o lançamento já tinha acabado. Três autores foram, mas sequer os encontrei. Não deu quase ninguém, por causa do caos que tomou conta da cidade, com 293 km de engarragamento. Pense numa fila com 293 km de carros, e verás o tamanho da bronca. Além disso, o local era longe, bem longe.

O lançamento no Rio foi ontem, terça-feira, no Barra Shopping. Pensem num lugar longe. Fica uns dois dias depois.

Cheguei, perguntei ao vendedor onde era o lugar do lançamento, ele não sabia. Mau presságio. Depois, ele voltou e me apontou uma mesa. Não tinha um cartaz, um aviso, um exemplar do livro.

Fiquei por ali, comendo minhas pitombas, sem alarde. O negócio era às 19h.

Como nada aconteceu, até às 19h30, cheguei à concusão de que dera com os burros n´água. Procurei o mesmo vendedor, expliquei que tinha vindo do Recife especialmente para o lançamento, ele foi lá dentro, voltou e me informou:

“Senhor, é que o autor traria os livros para o lançamento”.

Ou seja, se em São Paulo tinha livros mas faltava gente, no Rio, não tinha livros nem gente.

Me despedi, peguei o ônibus de volta pra casa. Por que diabos não me avisaram que era para levar os livros, foi o que pensei.

Confesso que nem estou chateado nem nada. Graças a esses lançamentos, pude assistir São Paulo 1 x 1 Santo André, no Morumbi (no camarote da Revista Placar), e Fluminense 0 x 0 Grêmio, no Maracanã, com o velho e bom Zeca. Além disso, revi amigos, andei um bocado, comprei livros. Isso é bom para a cuca.

Cheguei hoje a Brasília, após 16 horas de viagem na Itapemirim. O lançamento aqui está marcado para sexta-feira próxima. Se tem algum amigo aqui na capital, por favor, compareça ao evento, nem que seja para bebericar um vinho, na Livraria Cultura do Casa Park.

Acabo de saber da primeira baixa: O Cláudio Machado, fulgurante integrante do Blog do Santinha, viajou. Minha esperança agora é Laércio Portela, se o presidente Lula o liberar.

Imperdível

Hoje à noite (sexta-feira), no Bar 01, será lançado o livro “Histórias que nos Sangram”, do ilustre Geraldo de Fraga. É a estréia literária do ex-roqueiro, com histórias de arrepiar. Um comparecimento em massa será importante, porque o lugar é fácil de chegar, o autor estará no local, e os livros já estão até autografados. Já fui informado que o quarteto de alexandria estará presente: Magro Valadares, Marcel Tito, Bruno Fontes e o próprio Geraldo.

Bar 01 (Rua Tomazina, S/N, Recife Antigo)

Fone do autor (para entrevistas, chat, programas na TV etc)

Geraldo de Fraga

(81) 8824 3762

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A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca

15 de junho de 2009, às 9:17h por Samarone Lima

O que eu gosto mesmo é de gente. A espécie humana, mesmo com seus vacilos, sua agressividade, sua doideira, mesmo com a impaciência, ou com sua “grosseria generalizada”, como diz a poeta Grão de Bico, tem tanta beleza que só me resta louvá-la.

Saio pelas ruas de São Paulo com o velho camarada Gustavo, e a nova amiga Luisa. Resolvemos dar uma volta pelos lugares da Santa Cecília que foram nossos lugares, naquele imenso verão, de 1997 a 2.000, quando dividimos dois apartamentos, muitos apertos, alegrias e tristezas. Cada vez mais que o tempo vai passando, este período vai se transformando em um dos melhores tempos de nossa jornada.

Chegamos à rua Imaculada Conceição, 180. Encontro Maria, a velha amiga de olhos tristes e meigos, dona de um mercadinho onde me abasteci tanto, durante tantos meses. Saí de São Paulo em 2000, e nove anos depois, Maria me reconhece de pronto, me dá um abraço, fala da vida. Seu irmão está agora na Faculdade. Maria conseguiu comprar seu apartamento, alugou, e agora mora no mesmo prédio onde morei, no número 270.

Olhamos, cheiramos, entramos no Mombaça, bar defronte ao velho apartamento, onde comemos e bebemos um par de vezes. Todos os funcionários eram de Mombaça, e ficamos nesta convivência sem nomes. Todos me chamavam de Mombaça (única vez que tive apelido na vida), e chamava a todos de Mombaça. Os velhos amigos já não estão, a equipe mudou, nesse interminável mundo das migrações, em nosso país.

Seguimos. O clima está frio, mas sem exageros. Olhamos as pessoas, as árvores, as casas. Em menos de 10 anos, uma cidade tem sua geografia reinventada. Passamos na Barão de Tatui, 326, o último apartamento que moramos.

“Li os originais de Clamor aqui”, lembra Gustavo, se referindo ao meu trabalho de mestrado, que posteriormente se transformou em livro.

Pegamos a Baronesa de Itú, que depois se transforma na Canuto do Val. O coração deu um sobressalto. Chegamos ao número 146, esquina com Fortunato. Edifício Elide. Ula-lahhh. Nosso amplo, generoso, nosso querido reduto, durante uns três anos. O período da vida em que mais viajei, que mais conheci mundos. O único período da vida em que pude, durante um ano, somente estudar, graças à generosa bolsa da Fundação Ford. Gustavo pesquisando sobre Ítalo Calvino, para seu doutorado, eu no mestrado. Os dias eram longos, silenciosos, de muita leitura, crescimento intelectual, espiritual, um horizonte surgia, e era bom.

Ali recebemos pessoas admiráveis, como Érika, Camila, Claudia, Daniel Raton. Ali vivemos um bom tempo da vida, e isso é bom de lembrar.

Olhamos para a esquina, do outro lado da rua. O bar de Manuel e Antônio. Sim, nosso apartamento tinha “vista para o bar”. Chegamos lá, Manuel nos viu logo, se aproximou do balcão, estendeu a mão para Luisa, fez de conta que não nos via. Ficamos esperando uns três minutos, até que ele nos olhou e estendeu as mãos. ~

“Jacaré”, disse, repetindo a palavra que sempre nos identificava, naquela época.

Súbito, os olhos do velho português encheram de lágrimas, ficaram vermelhos. A emoção do reencontro. Rimos, ele saiu do balcão para umas fotos, estava feliz. Ficamos lembrando algumas coisas. Manuel andou internado, o negócio no coração foi feio, mas escapou. Parou de fumar e ficou sem beber por dois anos, agora está de volta, a la Seu Vital, tomando umas nas intocas.

Ficamos ali um pouco, o sol bom da manhã, olhamos a paisagem, matamos saudades e seguimos. Depois, rumamos para a estação Santa Cecília, do metrô. Ah, quantas centenas de viagens… Uma bela exposição misturava fotografia e literatura, nas paredes laterais. Estavam todos lá: Bandeira, Drummond, Euclides da Cunha. Os passageiros chegam, se enchem de posia, lêem trechos de crônicas, romances, olham as fotos dos autores, e seguem para a vida cotidiana.

Seguimos para o Museu da Língua Portuguesa, um velho desejo que tenho. Rodamos todo o museu, é bacana pacas, mas não me emocionou. Bonito, tecnológico demais. Senti falta de livros, de papel, de originais de livros, de coisas mais palpáveis. Coisas minhas.

Ao final da visita, já à tardinha, um trecho do Monteiro Lobato parecia resumir tudo o que tinha sido vivido ao longo do dia.

“- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais”.

(Memórias de Emília, 1936).

Concordo inteiramente, Emília, inteiramente.

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