Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O dia em que pisei em rastro de corno (final)

12 de junho de 2009, às 22:00h por Samarone Lima

Episódio 3 (final dramático)

Cacete no boteco. Papo de sindicalista trotkista na mesa

Nessa hora, lembrei que tinha o número do celular de Gustavo na minha agenda. O código era de Brasília. Eu tinha um cartão telefônico na carteira. Era a última tentativa de algo dar certo no dia.

Ele atendeu. A ligação estava chiando, deu para entender a linda frase:

“Estamos aqui num bar, para ver o jogo da seleção”.

Ele queria que eu fosse para lá, mas como ninguém sabia explicar o endereço, decidiram me pegar na livraria.

Sentei numa poltrona no corredor do shopping e fiquei esperando. Já começava a me preocupar de não ver sequer a seleção entrando em campo. Fiquei pensando se em alguma vida passada, ajudei a crucificar o Santo Cristo.

Fiquei vendo o povo passar, constatei que aumentou o número de descendentes de japonês, e vi um stand da Faber-Castell. Vou ali, comprar uma caneta tinteiro bem bonita, para ver se escrevo melhor.

Olhei a primeira e me arrependi: R$ 4.625,00.

Às 21h20 chegam Gustavo, minha prima e mais duas pessoas. Abraços rápidos, vamos correndo para o carro, buscar um boteco.

Qualquer pessoa normal faria o seguinte: pararia no primeiro boteco, perto de uma TV, pediria uma dúzia de Brahmas e assistiria o jogo.

A motorista, em que pese a gentileza e educação, resolveu que iríamos para o bar do Boitiga, do Gigio, eu sei lá, era um nome italiano.

Então, eu voltei ao maior engarrafamento dos últimos anos. Minha prima, adepta da tortura chinesa, ligou o rádio.

“Vai começar a partida no Arruda. A torcida está em festa, o cenário lindo, haja coração”, gritava o locutor. Nesse intervalo do grito, o carro andou 50 centímetros.

O bar era do outro lado da cidade, claro, porque pisei em rastro de corno dos grandes.

A situação toda era tão absurda, tão sem sentido, que comecei a rir. Deixei de lado tudo. Nada mais importava. Aquele momento em que o seu time está levando de 5 x 0 e falta um minuto para o fim do jogo. Não era desconsolado, era um certo grau de patetismo. Um jogo que aguardei com tanto carinho, no estádio do meu Santa, estava sendo uma corrida de obstáculos com obstáculos por segundo.

Paramos no bar, minha prima desceu, para ver se tinha TV.

“O Gigio disse que só tem TV no jogo do Parmeira”.

O mundo vai ser dominado pelos imbecis, é o que penso.

Voltamos ao engarrafamento.

“Estou com tanto azar, pisei num rastro de corno tão grande, que na hora que chegarmos ao bar, arriscado o gorducho Cabañas fazer um gol”.

Na hora que desci do carro, vi pela TV o gorducho comemorando: 1 x 0 Paraguai.

Briga da loira com o afro-descendente e o sindicalista trotskista – Peguei um ótimo lugar, a Brahma demorou dois dias para chegar, mas finalmente eu via a Seleção no Arruda. Aliviado, sentado, senti aquele alívio em todo o corpo.

Dez minutos depois, já terminando o primeiro tempo, irrompe uma briga dos diabos numa mesa ao lado. Não deu para ver quem começou, mas teve copo quebrado, gritos, cadeira voando. Fui olhar, minha prima ficou me puxando, mas deu para ver uma loira oxigenada voando em cima de um negão (perdão, afro-descendente-fortão-pacas). Ela tinha levado uma tapa. Ainda bem que chegou o intervalo e a briga não envolveu outras loiras e outros negões, porque era demais para meu cabeção.

Começa o segundo tempo. Chega minha outra prima, acompanhada de um cara, seu namorado. Os dois são do Sindicato dos Bancários de São Paulo, creio. No momento, estou numa mesa com um casal gay, um casal sindicalista, um pai de santo e uma amiga do pai de santo.

O sindicalista está mais bêbado que todos os meus amigos juntos. Começa a falar de “Lei da Mordaça do Serra”, do Kassab, vai passando para a situação do professor da rede pública, que a hora/aula é R$ 6,50, que o ticket-refeição é R$ 4,00, que isso, que aquilo. Minha preocupação social, neste exato momento, era somente o gol do empate, só o empate, nem que fosse um gol de costela.

Pior foi que o sindicalista começou a se exaltar. Me fazia perguntas absurdas, e eu dizia “claro”, “sim”, “concordo”. Se não me engano, ele perguntara se eu concordo com a Lei da Mordaça, se era a favor da pena de morte, se concordo com a roubalheira dos senadores.

O cara foi falando mais alto, estava visivelmente irritado comigo, quando Gustavo me contou uma frase genial do Sérgio Xavier, editor da Placar:

“Gaúcho tem trauma de volante”.

Ri aos montes, o Brasil empatou, e tudo ficou mais lindo. Pensei que era o segundo tempo, demorei para entender que ainda estava no show do intervalo.

Lindo nada, o sindicalista virou o chato de galocha, ficou enchendo meu saco, até que ele disse “Pátria ou morte”, o lema da Revolução Cubana, pensei em dizer que o lema mudou para “Economia ou Morte”, mas iria era piorar as coisas. Ele me perguntou mais uma coisa sobre economia e trabalhadores, algo com a palavra “operário”, desviei o olhar pela primeira vez da TV e disse, apontando para a TV:

“Ô amigo, eu era para estar ali, entende? Ali, na arquibancada. Tinha ingresso e tudo.”

Bêbado tem tudo a mesma cara, em qualquer lugar do mundo. Ele fez aquela cara de bêbado paulistano e completei.

“Mas eu não estou ali, então me deixa ver meu jogo em paz, tá bom? Na hora de jogo eu não penso em nada, só penso em ver o jogo”.

Ele ficou amuado, passou para os resmungos, e a partida seguiu. Pouco depois, veio o gol da virada do Nilmar, o moleque que adoro. Pensei na festa de todas as pessoas amadas, no Arrudão. As imagens me enchiam de alegria, e já não havia motivo para o desconsolo. O último obstáculo, o bêbado trotskista, fora vencido. Pior seria se o avião não tivesse aterrisado direitinho. Tenho certeza que no próximo amistoso do Santa, fariam um minuto de silêncio. Eu, mesmo morto, adoraria, mas deixo esse minuto de silêncio mais para frente.

Esqueci de dar uma informação. Por causa do dia caótico na cidade, com 69 acidentes, 110 carros quebrados, 293 km de engarrafamento, não teve o lançamento do livro. Quer dizer, teve, mas só com alguns dos autores. Eu não fiz falta nenhuma, poderia ter ficado tranquilamente no Recife, que seria perfeito.

Um heroico leitor foi ao evento, após ler uma notícia no jornal.

“Eu só vim porque moro atrás do shopping”, disse ao Gustavo.

É isso aí. Fim da novela em três episódios. Vou perambular por São Paulo e catar uns sebos.

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O dia em que pisei em rastro de corno (parte 2)

12 de junho de 2009, às 19:51h por Samarone Lima

Episódio 2.

A tentativa do jovem cronista de chegar à livraria

Foram 40 minutos até a esteirinha passar com minhas bagagens. Descobri, neste instante, que sou um cara perturbado do juízo. Nas minhas coisas, levava uma camisa especial, do Santa Cruz, em homenagem ao jogo da seleção. Era um presente para o meu editor e algoz, Gustavo de Castro. Freud deve explicar, ou Emília.

O ônibus até a Praça da República sairia às 17h20. No máximo 18h30 eu estaria no Conjunto Nacional. Tudo tranqüilo, vou chegar de surpresa, vai ser ótimo, na primeira fala, vou logo desancar o Gustavo, chamá-lo de cruel, tirano etc. Olhei para o céu. Estava plúmbeo. Mais cinza que chaminé de padaria. Choviscando. Clima que nordestino adora.

A primeira surpresa foi constatar que o A voz operária, péssimo jornal de esquerda, continua a existir – e cada vez mais mal editado. Um sujeito me vendeu um exemplar, por R$ 3,00 e citou o cassete que a PM deu na turma da USP, no dia anterior.

Às 17h 20, quando meus amigos todos se reuniam na casa de Inácio França, no Recife, para encher os cornos e comer espetinhos, eu estava de pé, em São Paulo, num frio de rachar, lendo A voz operária e esperando um ônibus, que começou a demorar.

”Está um engarrafamento monstruoso”, me disse uma criatura que trabalhava na empresa de ônibus. “Todo mundo hoje chegou atrasado aqui”.

O ônibus chegou com um atraso de 1h. Às 18h30, o veículo se movimentava na velocidade de um camelo. Vou atrasar uns 40 minutos, pensei, nada demais para um lançamento de livro.

Às 19h47, desço na Praça da República, pego um táxi correndo para a Avenida Paulista. O taxista tinha acabado de acender o cigarro. Disse que ele podia seguir fumando, aquilo era o de menos para o dia.

O cara dirigia feito um foguete, mas só que o carro anda na horizontal. São Paulo tinha produzido, eu saberia depois, o maior engarrafamento da história: 292 km. Eu estava dentro dele.

No caminho, o cara me contou seu drama. Tinha levado um chute da patroa, exatamente naquele fatídico 10 de junho. A filha pegou uma ligação dele para a amante, e repassou para a mãe, um belo de um flagrante acompanhado de traição da filha também. O cara estava meio depré, mas eu confesso que não consegui dizer aquela frase horrível – “isso acontece”. Me custou R$ 24,00 escutar aquele drama.

Às 20h22 eu desci do táxi, pisei numa bela poça d´água, mas nem liguei. Entrei voando na Livraria Cultura e fui para o auditório. Entrei com três bolsas, parecia um doido, mas vi que estava cheinho, e estavam montando a mesa para os debates.

Isso é que é um sujeito de sorte, foi o que pensei. Chegar na hora exata em que estão chamando a mesa!

Desconfiei que algo estava errado porque nenhum dos convidados estava no livro que coordenei. Tinha aquele Marcelino Freire, mas ele não topou participar de nosso livro. Nada de Gustavo, Xico Sá ou Josmar. O coordenador da mesa pegou o microfone e anunciou:

”Bem, vamos agora ao nosso debate sobre homossexualidade e literatura”.

Não sei ao certo, era algo assim. Fiquei sabendo somente que estava no lugar errado. O relógio avançava rapidamente para 22h40.

Uma diligente moça da livraria consultou o terminal e me deu a informação que me deixou em estado de depressão completa.

”Senhor, o lançamento deste livro é na Livraria Cultura de Pinheiros, no Shopping Villa-Lobos”.

Não deu tempo curtir a deprê. Desci, peguei outro táxi. O sujeito estava com o rádio ligado. O Juca Kfouri, que está no livro, comentava os preparativos para o início da partida. Pelos meus cálculos, a essa altura do campeonato Jota Peruca, o Magro Valadares e Naná já estariam mamadinhos.

O taxista, Fábio, era pernambucano. Quando eu disse que tinha acabado de chegar do Recife, ele perguntou se eu não gostava de futebol. Engoli seco essa. O camarada sabia tudo do Santa Cruz. Enumerou todas as gestões, sabia quem roubou, quanto, onde e como. Elogiou o novo presidente, citou detalhes da reconstrução do Arruda que eu nem sabia. Lá pelas tantas, confessou. Chegou em São Paulo em 1975, casou, teve filhos, mas sempre com o Santinha no coração.

E como é que tu és tão atualizado?

”Na Internet. Vejo a Coralnet e o Blog do Santinha”.

Meu coração, que parecia um palheiro onde as galinhas ciscam, virou um algodão doce e se desmanchou. Disse a ele que era um dos editores. O sujeito perguntou meu nome, eu disse, ele completou:

”Ah, já li você foi muito”.

Diria que um taxista, a caminho da Marginal Pinheiros, me salvou. Um camarada que está longe do Recife há 35 anos, disse que na próxima postagem, iria mandar uma mensagem. Amigo, obrigado, você salvou um jovem cronista no dia em que ele pisou em rastro de corno.

Às 21h em ponto, cheguei à livraria Cultura de Pinheiros. Fui ao auditório. Tinha exemplares do livro em cima de uma mesa. Peguei no trinco, fui abrindo de leve. Pelo menos daria um aceno aos convidados, e diria que existo de fato.

As três portas estavam fechadas. Um vendedor resumiu a tragédia:

“O lançamento já terminou, e foi todo mundo embora”.

O ideal e o certo, na vera, era sentar e chorar um bocado, mas me faltava tempo e disposição. Tinha pelo menos uma obrigação moral – ver o jogo da Seleção, para ver os conhecidos em algum flagrante da TV. Ver o Arrudão lotado.

É o que passo a narrar no último episódio deste folhetim lítero-futebolístico.

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O dia em que pisei em rastro de corno (novela tragicômica em três episódios)

12 de junho de 2009, às 12:23h por Samarone Lima

Episódio 1.

A viagem deste jovem cronista, do Recife para São Paulo, no dia do jogo da Seleção no Arruda

Todo mundo conhece essa: “O cara pisou em rastro de corno”. Pois pisei com os dois pés e esqueci de limpar os sapatos.

Vamos aos fatos, que começa com uma retrospectiva. Dia 10 de junho, dia do histórico jogo da Seleção Brasileira no Arruda, estádio do MEU Santa Cruz, fui escalado pelo meu editor, Gustavo de Castro e Silva (guardem bem esse nome), para participar de uma mesa-redonda em São Paulo. Motivo – sou um dos organizadores do livro “A cabeça do futebol”, já um recordista absoluto de vendas no Recife.

Dia 10 de junho, às 8h, eu estava no saguão do Aeroporto dos Guararapes, com mala e cuia. Perdi o vôo das 6h, por motivos etílicos, mas a diligente atendente da Gol (vejam a ironia, o nome da empresa me lembrava que logo mais, à noite, eu só poderia ver algum gol pela TV), conseguiu um fato inédito na aviação nacional. Remarcou a passagem para pouco depois, e cobrou singelos R$ 2,70. Ela deve ter bebido, e muito, mas a ressaca estava mesmo comigo, por causa do lançamento do citado livro no bar Mamulengo, na noite anterior.

Aguardei a chegada do novo vôo lendo jornais e olhando a TV. Só tinha um assunto em pauta – a chegada dos primeiros corpos do acidente da Air France. Achei um mau presságio, pensei em desistir, mas com o Gustavo não se brinca, o homem é um pai de santo famosíssimo, vai que ele me joga uma mandinga.

Entrei ressabiado no avião, que estava mais lotado que o CDU/Boa Viagem/Caxangá. Se bobear, daqui a uns dias eles vendem passagem mais barata, para o sujeito ir em pé, tomando Kisuco na hora do lanche. Ao meu lado, uma senhora de Timbaúba, voltava para Sampa, depois de ir ao enterro da mãe. Eu não pisei em rastro de corno, acho que pisei foi no corno mesmo, foi o que pensei. Só faltava um padre na janelinha, para fazer logo a extrema-unção.

Milagrosamente, o avião decolou (sempre acho um absurdo aquelas toneladas saírem do chão). Lá pelas tantas, quando eu começava a relaxar, tentava esquecer a festa que seria no Recife, o imbecil do comandante, o insensível, informou que estávamos sobrevoando a Bahia, que estávamos a 38 mil pés, que eram 11.500 metros acima do nível do mar.

Nessas horas tenho vontade de ir à cabine esganar o sujeito. Era a última coisa que eu queria, na vida, saber que estava a 11,5 km distante do solo. Todo mundo sabe que tenho um medo irreversível de altura, quero processar quem inventou aquela tortura que se chama “elevador panorâmico”. Engoli seco, soltei pragas contra Gustavo e descobri que eu sou um sujeito muito é besta mesmo.

Às 13h30 saiu o primeiro lanche. O pacote de bolachas salgadas. Pedi uma Brahma, só tinha “refrigerante e suco, senhor”. Com as bolachinhas, o informe infame (e o trocadilho também) para apertarmos o cinto, que entraríamos em uma “zona de turbulência”. Comecei a escrever bilhetes de despedida, caso meu corpo fosse resgatado. Pouco depois, abandonei os bilhetes e me agarrei à cadeira com o máximo desespero. Naquele momento, 123 homens não conseguiriam me despregar dali. Fiquei sem respirar durante os cinco minutos da turbulência, sabendo que não iria realizar um sonho antigo, de estar vivo no centenário do Santa Cruz, em 2014.

O pior era saber que minha morte daria mais matéria para os jornais e TVs

“Jornalista perdeu o vôo e poucas horas depois, viajou no avião que caiu no mar”.

A vantagem é que o Blog do Santinha iria bombar de acessos. Um texto caprichado do Inácio, rememorando nossa velha amizade, a final da Copa de 1994, em sua casa, Gerrá lembrando que nunca paguei a passagem de avião para aquele famoso Portuguesa x Santa, em São Paulo etc

O fato é que às 16h10 o piloto fez o gesto mais lindo da humanidade – desligou as duas turbinas e puxou o freio de mão. Eu era um sorriso de felicidade, do cabelo aos pés. O objetivo agora era singelo como caçar borboletas num cemitério clandestino – chegar à Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. O lançamento estava marcado para as 19h. Tempo eu tinha de sobra.

Clique e confira a segunda parte da novela “O dia em que pisei em rastro de corno”

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