Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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O dia em que pisei em rastro de corno (novela tragicômica em três episódios)

12 de junho de 2009, às 12:23h por Samarone Lima

Episódio 1.

A viagem deste jovem cronista, do Recife para São Paulo, no dia do jogo da Seleção no Arruda

Todo mundo conhece essa: “O cara pisou em rastro de corno”. Pois pisei com os dois pés e esqueci de limpar os sapatos.

Vamos aos fatos, que começa com uma retrospectiva. Dia 10 de junho, dia do histórico jogo da Seleção Brasileira no Arruda, estádio do MEU Santa Cruz, fui escalado pelo meu editor, Gustavo de Castro e Silva (guardem bem esse nome), para participar de uma mesa-redonda em São Paulo. Motivo – sou um dos organizadores do livro “A cabeça do futebol”, já um recordista absoluto de vendas no Recife.

Dia 10 de junho, às 8h, eu estava no saguão do Aeroporto dos Guararapes, com mala e cuia. Perdi o vôo das 6h, por motivos etílicos, mas a diligente atendente da Gol (vejam a ironia, o nome da empresa me lembrava que logo mais, à noite, eu só poderia ver algum gol pela TV), conseguiu um fato inédito na aviação nacional. Remarcou a passagem para pouco depois, e cobrou singelos R$ 2,70. Ela deve ter bebido, e muito, mas a ressaca estava mesmo comigo, por causa do lançamento do citado livro no bar Mamulengo, na noite anterior.

Aguardei a chegada do novo vôo lendo jornais e olhando a TV. Só tinha um assunto em pauta – a chegada dos primeiros corpos do acidente da Air France. Achei um mau presságio, pensei em desistir, mas com o Gustavo não se brinca, o homem é um pai de santo famosíssimo, vai que ele me joga uma mandinga.

Entrei ressabiado no avião, que estava mais lotado que o CDU/Boa Viagem/Caxangá. Se bobear, daqui a uns dias eles vendem passagem mais barata, para o sujeito ir em pé, tomando Kisuco na hora do lanche. Ao meu lado, uma senhora de Timbaúba, voltava para Sampa, depois de ir ao enterro da mãe. Eu não pisei em rastro de corno, acho que pisei foi no corno mesmo, foi o que pensei. Só faltava um padre na janelinha, para fazer logo a extrema-unção.

Milagrosamente, o avião decolou (sempre acho um absurdo aquelas toneladas saírem do chão). Lá pelas tantas, quando eu começava a relaxar, tentava esquecer a festa que seria no Recife, o imbecil do comandante, o insensível, informou que estávamos sobrevoando a Bahia, que estávamos a 38 mil pés, que eram 11.500 metros acima do nível do mar.

Nessas horas tenho vontade de ir à cabine esganar o sujeito. Era a última coisa que eu queria, na vida, saber que estava a 11,5 km distante do solo. Todo mundo sabe que tenho um medo irreversível de altura, quero processar quem inventou aquela tortura que se chama “elevador panorâmico”. Engoli seco, soltei pragas contra Gustavo e descobri que eu sou um sujeito muito é besta mesmo.

Às 13h30 saiu o primeiro lanche. O pacote de bolachas salgadas. Pedi uma Brahma, só tinha “refrigerante e suco, senhor”. Com as bolachinhas, o informe infame (e o trocadilho também) para apertarmos o cinto, que entraríamos em uma “zona de turbulência”. Comecei a escrever bilhetes de despedida, caso meu corpo fosse resgatado. Pouco depois, abandonei os bilhetes e me agarrei à cadeira com o máximo desespero. Naquele momento, 123 homens não conseguiriam me despregar dali. Fiquei sem respirar durante os cinco minutos da turbulência, sabendo que não iria realizar um sonho antigo, de estar vivo no centenário do Santa Cruz, em 2014.

O pior era saber que minha morte daria mais matéria para os jornais e TVs

“Jornalista perdeu o vôo e poucas horas depois, viajou no avião que caiu no mar”.

A vantagem é que o Blog do Santinha iria bombar de acessos. Um texto caprichado do Inácio, rememorando nossa velha amizade, a final da Copa de 1994, em sua casa, Gerrá lembrando que nunca paguei a passagem de avião para aquele famoso Portuguesa x Santa, em São Paulo etc

O fato é que às 16h10 o piloto fez o gesto mais lindo da humanidade – desligou as duas turbinas e puxou o freio de mão. Eu era um sorriso de felicidade, do cabelo aos pés. O objetivo agora era singelo como caçar borboletas num cemitério clandestino – chegar à Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. O lançamento estava marcado para as 19h. Tempo eu tinha de sobra.

Clique e confira a segunda parte da novela “O dia em que pisei em rastro de corno”

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Magda Negromonte Disse:

    kkkkkkkkkkkkkkk

    Adorei a crônica, um texto leve e muito gosotso de ler…

    Morri de rir…

    Parabéns!!!!!

  2. Cláudia Disse:

    kkkkkkkkkkk!!!!! Ótimo texto! Ri demais!

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