O dia em que pisei em rastro de corno (parte 2)
Samarone Lima
Episódio 2.
A tentativa do jovem cronista de chegar à livraria
Foram 40 minutos até a esteirinha passar com minhas bagagens. Descobri, neste instante, que sou um cara perturbado do juízo. Nas minhas coisas, levava uma camisa especial, do Santa Cruz, em homenagem ao jogo da seleção. Era um presente para o meu editor e algoz, Gustavo de Castro. Freud deve explicar, ou Emília.
O ônibus até a Praça da República sairia às 17h20. No máximo 18h30 eu estaria no Conjunto Nacional. Tudo tranqüilo, vou chegar de surpresa, vai ser ótimo, na primeira fala, vou logo desancar o Gustavo, chamá-lo de cruel, tirano etc. Olhei para o céu. Estava plúmbeo. Mais cinza que chaminé de padaria. Choviscando. Clima que nordestino adora.
A primeira surpresa foi constatar que o A voz operária, péssimo jornal de esquerda, continua a existir – e cada vez mais mal editado. Um sujeito me vendeu um exemplar, por R$ 3,00 e citou o cassete que a PM deu na turma da USP, no dia anterior.
Às 17h 20, quando meus amigos todos se reuniam na casa de Inácio França, no Recife, para encher os cornos e comer espetinhos, eu estava de pé, em São Paulo, num frio de rachar, lendo A voz operária e esperando um ônibus, que começou a demorar.
”Está um engarrafamento monstruoso”, me disse uma criatura que trabalhava na empresa de ônibus. “Todo mundo hoje chegou atrasado aqui”.
O ônibus chegou com um atraso de 1h. Às 18h30, o veículo se movimentava na velocidade de um camelo. Vou atrasar uns 40 minutos, pensei, nada demais para um lançamento de livro.
Às 19h47, desço na Praça da República, pego um táxi correndo para a Avenida Paulista. O taxista tinha acabado de acender o cigarro. Disse que ele podia seguir fumando, aquilo era o de menos para o dia.
O cara dirigia feito um foguete, mas só que o carro anda na horizontal. São Paulo tinha produzido, eu saberia depois, o maior engarrafamento da história: 292 km. Eu estava dentro dele.
No caminho, o cara me contou seu drama. Tinha levado um chute da patroa, exatamente naquele fatídico 10 de junho. A filha pegou uma ligação dele para a amante, e repassou para a mãe, um belo de um flagrante acompanhado de traição da filha também. O cara estava meio depré, mas eu confesso que não consegui dizer aquela frase horrível – “isso acontece”. Me custou R$ 24,00 escutar aquele drama.
Às 20h22 eu desci do táxi, pisei numa bela poça d´água, mas nem liguei. Entrei voando na Livraria Cultura e fui para o auditório. Entrei com três bolsas, parecia um doido, mas vi que estava cheinho, e estavam montando a mesa para os debates.
Isso é que é um sujeito de sorte, foi o que pensei. Chegar na hora exata em que estão chamando a mesa!
Desconfiei que algo estava errado porque nenhum dos convidados estava no livro que coordenei. Tinha aquele Marcelino Freire, mas ele não topou participar de nosso livro. Nada de Gustavo, Xico Sá ou Josmar. O coordenador da mesa pegou o microfone e anunciou:
”Bem, vamos agora ao nosso debate sobre homossexualidade e literatura”.
Não sei ao certo, era algo assim. Fiquei sabendo somente que estava no lugar errado. O relógio avançava rapidamente para 22h40.
Uma diligente moça da livraria consultou o terminal e me deu a informação que me deixou em estado de depressão completa.
”Senhor, o lançamento deste livro é na Livraria Cultura de Pinheiros, no Shopping Villa-Lobos”.
Não deu tempo curtir a deprê. Desci, peguei outro táxi. O sujeito estava com o rádio ligado. O Juca Kfouri, que está no livro, comentava os preparativos para o início da partida. Pelos meus cálculos, a essa altura do campeonato Jota Peruca, o Magro Valadares e Naná já estariam mamadinhos.
O taxista, Fábio, era pernambucano. Quando eu disse que tinha acabado de chegar do Recife, ele perguntou se eu não gostava de futebol. Engoli seco essa. O camarada sabia tudo do Santa Cruz. Enumerou todas as gestões, sabia quem roubou, quanto, onde e como. Elogiou o novo presidente, citou detalhes da reconstrução do Arruda que eu nem sabia. Lá pelas tantas, confessou. Chegou em São Paulo em 1975, casou, teve filhos, mas sempre com o Santinha no coração.
E como é que tu és tão atualizado?
”Na Internet. Vejo a Coralnet e o Blog do Santinha”.
Meu coração, que parecia um palheiro onde as galinhas ciscam, virou um algodão doce e se desmanchou. Disse a ele que era um dos editores. O sujeito perguntou meu nome, eu disse, ele completou:
”Ah, já li você foi muito”.
Diria que um taxista, a caminho da Marginal Pinheiros, me salvou. Um camarada que está longe do Recife há 35 anos, disse que na próxima postagem, iria mandar uma mensagem. Amigo, obrigado, você salvou um jovem cronista no dia em que ele pisou em rastro de corno.
Às 21h em ponto, cheguei à livraria Cultura de Pinheiros. Fui ao auditório. Tinha exemplares do livro em cima de uma mesa. Peguei no trinco, fui abrindo de leve. Pelo menos daria um aceno aos convidados, e diria que existo de fato.
As três portas estavam fechadas. Um vendedor resumiu a tragédia:
“O lançamento já terminou, e foi todo mundo embora”.
O ideal e o certo, na vera, era sentar e chorar um bocado, mas me faltava tempo e disposição. Tinha pelo menos uma obrigação moral – ver o jogo da Seleção, para ver os conhecidos em algum flagrante da TV. Ver o Arrudão lotado.
É o que passo a narrar no último episódio deste folhetim lítero-futebolístico.
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3 Comentários »




12 de junho de 2009, às 20:23h
Misericórdia, Sama! Você não só pisou em rastro de corno, deve ter jogado ainda uma baita pedra na cruz!
Já está aqui em terra firme? Se não está, vem com Deus! Se está, cuidado que amanhã é dia 13.
Beijo.
Magna
12 de junho de 2009, às 21:04h
Tem dias em que é melhor nem levantar da cama, quanto mais pegar um avião…
12 de junho de 2009, às 21:30h
Não é querendo atropelar o seu drama, mas eu ri demais até agora…. Que dia, hem?