A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca
Samarone Lima
O que eu gosto mesmo é de gente. A espécie humana, mesmo com seus vacilos, sua agressividade, sua doideira, mesmo com a impaciência, ou com sua “grosseria generalizada”, como diz a poeta Grão de Bico, tem tanta beleza que só me resta louvá-la.
Saio pelas ruas de São Paulo com o velho camarada Gustavo, e a nova amiga Luisa. Resolvemos dar uma volta pelos lugares da Santa Cecília que foram nossos lugares, naquele imenso verão, de 1997 a 2.000, quando dividimos dois apartamentos, muitos apertos, alegrias e tristezas. Cada vez mais que o tempo vai passando, este período vai se transformando em um dos melhores tempos de nossa jornada.
Chegamos à rua Imaculada Conceição, 180. Encontro Maria, a velha amiga de olhos tristes e meigos, dona de um mercadinho onde me abasteci tanto, durante tantos meses. Saí de São Paulo em 2000, e nove anos depois, Maria me reconhece de pronto, me dá um abraço, fala da vida. Seu irmão está agora na Faculdade. Maria conseguiu comprar seu apartamento, alugou, e agora mora no mesmo prédio onde morei, no número 270.
Olhamos, cheiramos, entramos no Mombaça, bar defronte ao velho apartamento, onde comemos e bebemos um par de vezes. Todos os funcionários eram de Mombaça, e ficamos nesta convivência sem nomes. Todos me chamavam de Mombaça (única vez que tive apelido na vida), e chamava a todos de Mombaça. Os velhos amigos já não estão, a equipe mudou, nesse interminável mundo das migrações, em nosso país.
Seguimos. O clima está frio, mas sem exageros. Olhamos as pessoas, as árvores, as casas. Em menos de 10 anos, uma cidade tem sua geografia reinventada. Passamos na Barão de Tatui, 326, o último apartamento que moramos.
“Li os originais de Clamor aqui”, lembra Gustavo, se referindo ao meu trabalho de mestrado, que posteriormente se transformou em livro.
Pegamos a Baronesa de Itú, que depois se transforma na Canuto do Val. O coração deu um sobressalto. Chegamos ao número 146, esquina com Fortunato. Edifício Elide. Ula-lahhh. Nosso amplo, generoso, nosso querido reduto, durante uns três anos. O período da vida em que mais viajei, que mais conheci mundos. O único período da vida em que pude, durante um ano, somente estudar, graças à generosa bolsa da Fundação Ford. Gustavo pesquisando sobre Ítalo Calvino, para seu doutorado, eu no mestrado. Os dias eram longos, silenciosos, de muita leitura, crescimento intelectual, espiritual, um horizonte surgia, e era bom.
Ali recebemos pessoas admiráveis, como Érika, Camila, Claudia, Daniel Raton. Ali vivemos um bom tempo da vida, e isso é bom de lembrar.
Olhamos para a esquina, do outro lado da rua. O bar de Manuel e Antônio. Sim, nosso apartamento tinha “vista para o bar”. Chegamos lá, Manuel nos viu logo, se aproximou do balcão, estendeu a mão para Luisa, fez de conta que não nos via. Ficamos esperando uns três minutos, até que ele nos olhou e estendeu as mãos. ~
“Jacaré”, disse, repetindo a palavra que sempre nos identificava, naquela época.
Súbito, os olhos do velho português encheram de lágrimas, ficaram vermelhos. A emoção do reencontro. Rimos, ele saiu do balcão para umas fotos, estava feliz. Ficamos lembrando algumas coisas. Manuel andou internado, o negócio no coração foi feio, mas escapou. Parou de fumar e ficou sem beber por dois anos, agora está de volta, a la Seu Vital, tomando umas nas intocas.
Ficamos ali um pouco, o sol bom da manhã, olhamos a paisagem, matamos saudades e seguimos. Depois, rumamos para a estação Santa Cecília, do metrô. Ah, quantas centenas de viagens… Uma bela exposição misturava fotografia e literatura, nas paredes laterais. Estavam todos lá: Bandeira, Drummond, Euclides da Cunha. Os passageiros chegam, se enchem de posia, lêem trechos de crônicas, romances, olham as fotos dos autores, e seguem para a vida cotidiana.
Seguimos para o Museu da Língua Portuguesa, um velho desejo que tenho. Rodamos todo o museu, é bacana pacas, mas não me emocionou. Bonito, tecnológico demais. Senti falta de livros, de papel, de originais de livros, de coisas mais palpáveis. Coisas minhas.
Ao final da visita, já à tardinha, um trecho do Monteiro Lobato parecia resumir tudo o que tinha sido vivido ao longo do dia.
“- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais”.
(Memórias de Emília, 1936).
Concordo inteiramente, Emília, inteiramente.
Postado em Crônicas |
15 Comentários »



