Confissão
Samarone Lima
Durante muito tempo, relutei em me apresentar como escritor. Já tinha até livro publicado (“Zé”, em 1998), mas uma timidez difusa impedia. Achava sempre um negócio enorme, um perigo. A mesma coisa serve para poeta. Escrevo poesias desde os 13 anos, mas nunca sequer esbocei a possibilidade de me denominar poeta. Fico até vermelho quando conheço um sujeito que se denomina poeta. Para mim, poesia é uma das coisas mais sagradas do mundo, e um bom poeta é algo que encontro de vez em quando, quando um livro me pega de jeito – coisa que ultimamente não tem acontecido.
Agora não tem mais jeito. Não pelo recente livro sobre futebol, lançado pela Casa das Musas. Participei de quatro lançamentos, na sexta-feira vou para o quinto, perdão pelo trocadilho infame. É que olho para um lado, olho para o outro e vejo que eu vivo escrevendo. Não sou um escritor porque tenho livros publicados, mas porque vivo escrevendo em cadernos, neste blog, em cadernetinhas, em pedaços de papel. Eu diria que não sou propriamente um escritor, sou mesmo é um escravo. Escravo é alguém que está inteiramente sujeito a outrem ou a alguma coisa. Sou inteiramente sujeito à escrita. Minha dependência psíquica é total. Se não escrever de manhã, escrevo à tarde, se não conseguir, faço à noite. Preciso do gesto físico de pegar uma caneta e passar coisas para o papel. Viveria bem sem computador, mas sem cadernos, jamais. Tenho aqui uma estante cheia de diários. Escrevo obsessivamente. Às vezes, acho que é uma doença, mas acho melhor não ter cura.
Olho para trás e vejo como tem sido. Em 1992, aos 23 anos, eu já estava começando a levantar informações para o que seria meu primeiro livro. Seis anos depois, ele foi lançado. Foram milhares de horas entrevistando gente, procurando os caminhos da vida e da morte de um militante da Ação Popular (AP), José Carlos da Mata Machado. Foi graças a essas pesquisas, que descobri precocemente os valores de uma geração que bateu de frente com a ditadura. Esse presente eu ganhei da vida, e garanto, foi um dos presentes mais belos. Não foi propriamente a vida do Zé que descortinei, mas de uma geração que fez o que era possível, quando tudo parecia impossível.
Foi também um aprendizado. Nunca me ensinaram a escrever um livro. Quebrei a cabeça, fiz e refiz, perdi capítulos, morri mil vezes, até que um dia descobri algo precioso – o meu jeito de contar uma história. Foi como abrir goteiras no imaginário. Mesmo o texto mais jornalístico, precisa das goteiras da imaginação.
Depois veio o Clamor, e minha descoberta da América Latina. A esta pesquisa, devo o meu encontro com os países de língua espanhola. Devo meu encontro com outra geração, a posterior à do Zé, que decidiu abrir os braços da solidariedade para os irmãos vizinhos. Novamente, dezenas de entrevistas, leituras, o ofício da escrita, essa solidão absoluta até encontrar o tom, o jeito, as palavras, o fio condutor. Eu só consigo contar uma história quando descubro como vou contá-la. Pois me lembro de viagens pelo Chile, Uruguai, Argentina. Eu ficava sempre em albergues, e o povo com seus guias, mapas da cidade, máquinas fotográficas. Eu ficava escrevendo, muitas horas.
Escrevo isso porque há pouco terminei agorinha, coisa de meia hora atrás, a última revisão de “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre o cotidiano do povo cubano. Ao final, agora há pouco, enquanto as bombas e fogueiras juninas pipocam no Recife, vejo mesmo que não tem mais volta. Sou um escritor.
Porque um escritor, creio, não consegue se livrar de suas obsessões. Eu, quando começo um livro, fico mesmo um escravo, inteiramente sujeito a alguma coisa. No caso, ao texto.
O livro começou a ser escrito em Havana, no final de 2007, se estendeu para o começo de 2008, quando voltei cheio de cadernos, e fiquei 15 dias no Rio de Janeiro. O sujeito que vai para outro país, e volta com quatro cadernos cheios de anotações, só pode mesmo ser desajuizado.
Tudo isso foi acontecendo enquanto eu trabalhava, viajava, participava de projetos, reuniões. São poucos os escritores deste país que têm as condições ideais para trabalhar. O tempo que me sobra, o da escrita, porém, é o mais sagrado. É quando me sinto melhor, mais inteiro, despojado, livre.
Desde a primeira versão, o livro de Cuba me ocupou, consumiu, me fez criar uma dependência. Cada capítulo foi escrito, reescrito, revisado. Descubro que sou um tirano comigo. Até o final, acho que não está bom. Minha nova editora, e pequena e adorável Casa das Musas, deve estar já lamentando tanta demora. Fui a Brasília, fiz a última revisão no computador, pedi à editora Florence, a última versão impressa, e a trouxe ao Recife.
Então reli, mais duas vezes. A impressão que tenho, é que se não tiver a mão forte de um editor dizendo “chega!”, ficaria corrigindo até o fim da vida. Sempre tem coisa para melhorar.
É cansativo, o sujeito passa milhares de horas fazendo três coisas: escrevendo, lendo e relendo.
Mas é minha sina. Nasci para isso, não vou mais me desvencilhar, nem ficar com meias palavras. Sou um escritor. Dá um medo, mas é bom. Isso é uma confissão.
Tem uma hora que todo o meu esforço encontra o outro lado da história – o leitor. É a hora de a onça beber água.
“Viagem ao Crepúsculo” sai da gráfica em 15 dias, após um ano e meio de luta. Vem de novo, o frio na barriga. Melhor: Sei que basta o livro sair, e já estarei pensando no próximo. É assim, minha vida.
Postado em Crônicas |
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