Tempos
Samarone Lima
O almoço com o velho amigo Inácio era só para botar os papos em dia mesmo, sem pauta definida, e acabamos num desses pequenos comércios de comida natural, no centro, que agora estão se multiplicando. Lá pelas tantas, surgiu o assunto de trabalho, e calhou que me pediram um lote de documentos para um novo trabalho, inclusive a famosa Carteira de Trabalho.
De todos os meus documentos, é o que menos tem carimbos, o que movimento menos. Não faço parte das estatísticas de emprego e desemprego há tempos, creio que desde que ensinei na Católica, nos movimentados anos de 2000 a 2002.
Inácio descobriu que nunca trabalhou mais de quatro anos no mesmo lugar. Eu nunca passei de dois anos e meio no mesmo lugar, salvo a Casa do Estudante (quatro anos). Mas aí não vale, porque não era trabalho, era sobrevivência. Não é que eu seja mau profissional, é que acontece uma das duas coisas – ou minha paciência se esgota, ou aparece uma proposta melhor.
Eu trabalho desde 1987. Se minha Carteira de Trabalho fosse assinada, eu já estaria com 22 anos de INSS, como diz a turma, e me aposentaria daqui a 13 anos, salvo engano, com 53 anos. Deus me livre!
Descubro que os dois períodos mais demorados foram em redação de jornal: Diário de Pernambuco (um ano como estagiário, depois um ano e meio como profissional) e Diário Popular, em São Paulo. Isso tem uma explicação. Na época dos dois diários, as redações eram divertidíssimas, e para eu trabalhar num canto, tem que ter um pouco de alegria. No restante dos trabalhos e dos anos, ou fui free-lancer, ou ganhei por projetos, ou assinava um recibo e pegava o cheque.
Férias, Fundo de Garantia e Décimo Terceiro eram coisas distantes, que os amigos me falavam e eu achava bonito. Me lembro do Diário Popular, a alegria de trabalhar um bom tempo, e depois ser informado das férias, com dinheiro na conta e tudo. Me mandei para o Peru, claro.
Mientras tanto, viajei muito. Escolhi um jeito de viver que deu menos segurança, menos garantias, raríssimos momentos sob a cobertura dos planos de saúde, mas andei pelo mundo e garanto que trabalhei em muitos projetos maravilhosos, que me encheram de alegria.
Um dos piores lugares da minha vida como profissional foi na revista Veja. Urgh. Nove meses que não me deixaram a menor saudade. Tinha uns camaradas legais, lembro do Rogério Gentille, do Ricardo Vilella, da Glenda, dos repórteres camaradas, mas a alta cúpula, pela mãe do guarda. É coisa para livro. Foi o lugar do mundo em que mais tive medo de ser jornalista. Eu poderia escrever um perfil do Inácio, dizendo loas e boas, falar do seu bom caráter, e no texto final, poderia aparecer um “trata-se de um canalha” no meio. Toc, toc, toc..
Sim, mas onde eu estava mesmo?
Ah, sei lá. Acho que eu queria falar sobre o tempo de cada um, mas me distraí. O tempo máximo do Inácio num trabalho tem sido quatro anos. Na mesa ao lado, uma amiga lamentava estar há seis no mesmo.
Eu tenho uma inveja momentânea dessas pessoas que estão há muito tempo no mesmo trabalho, na mesma casa, na mesma rua, no mesmo endereço. É uma inveja de vento, que dá e passa. Cada um é feliz de um jeito. Acho que o meu, há 40 anos tem sido assim, com novas paisagens e outras gentes.
Meu tempo não busca endereço. Não é melhor nem pior do que o de ninguém. É apenas o meu.
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Nota: comecei a verificar as sugestões de blogs e sites dos leitores. Algumas maravilhas que vou colocar como link no meu Estuário (com a ajuda do Anizio, pois tentei adicionar e não consegui):
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