Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Quando bate o desespero

6 de julho de 2009, às 14:19h por Samarone Lima

A matéria foi publicada no Jornal do Commercio, sexta-feira passada, na capa dois. É curta, sem muitos detalhes, com o título chamativo:

“Fisioterapeuta furta loja e acaba presa”.

Leio intrigado. O primeiro parágrafo não me diz nada, apenas que Andréa Cristina de Andrade Teixeira foi inteceptada, na tarde da quinta-feira, pelos seguranças do Atacado dos Presentes, na Conde da Boa Vista. Ela tentava sair da loja com 20 objetos roubados. Somados, os produtos custavam R$ 323,53. A moça, que mora na Avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem,  foi autuada em flagrante por furto e encaminhada à Colônia Penal Feminina do Recife, mais conhecida como “Bompastor”. Já fui nessa prisão várias vezes. Prisão é sempre um lugar triste.

Então vem a surpresa. O delegado Marcos Pereira, responsável pelo flagrante, diz que a moça, de 24 anos, “é uma pessoa muito distinta, que tem uma família estruturada”.

O que terá acontecido? Minha curiosidade pelos dramas humanos às vezes vai aos extremos. Sempre que passa alguém por mim chorando, tenho ganas de parar, pedir que me conte seu problema, posso pagar uma cerveja, um chá, um café. Umas poucas palavras, nessas horas, servem muito, impedem o pior.

Então vem o complemento do delegado. Explica que a Cristina, em seu depoimento, disse ter recebido uma ligação telefônica. Era uma amiga, informando que estava com câncer, em estágio terminal.

“Ao saber que a amiga estava doente, ela disse que saiu de casa, sem rumo, e entrou no Atacado, onde furtou os objetos para distribuí-los depois”.

Cristina, em seu desespero, tentou levar: 

3 marcadores pequenos;

3 tesouras;

5 porta-retratos de vários modelos;

uma mochila (ítem mais caro, R$ 65,99);

um jogo de soquete;

uma sandália;

uma pistola elétrica;

um estilete;

um rádio;

um álbum de fotos.

“Ela primeiro futrou a mochila e começou a colocar todos os demais objetos dentro”, disse o delegado.

Com a frieza habitual, completou:

“Por mais que esteja preocupada com algo, não pode sair furtando as coisas”.

Amigo, a pessoa que recebe a notícia de que uma amiga está com câncer, em estágio terminal, não está preocupada, está mais para desesperada.

Foi o caso da Andréa Cristina.

Pena que o repórter não conseguiu conversar com a moça, que deve estar passando pelo brutal sofrimento da prisão, aos 24 anos. Ela deve ter muito o que dizer. Todo mundo que já viu o desespero de frente, sabe que furtar objetos em uma loja é o mínimo que um ser humano pode fazer.

Espero que ela consiga sair logo da prisão. Mais que isso – espero que ela consiga abraçar a amiga ainda viva.

Para Jorge Alberto. Ele sabe o motivo.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. J. Disse:

    peruca, devolve o meu relógio!

  2. J. Disse:

    sim, outra coisa. esse blog é massa. é de um amigo baiano. http://www.espalitandodente.blogspot.com/

  3. anonimo Disse:

    adorei

  4. anônimo Disse:

    São tantos dramas humanos. Os meninos e meninas de ruas roubam pelo desespero da fome e por aí vai….
    O nosso sistema penitenciário não presta.
    Não cuidamos das nossas crianças e adolescentes.
    Possivelmente esta moça conseguirá ter ajuda, mas tantos não conseguem.

    Abraços

  5. Tibério Disse:

    Realmente não somos ninguém p/ julgar os outros.

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