Perfil sentimental de Gomes, o garçom voluntário do Princesa
Samarone Lima
Gomes é um dos únicos garçons voluntários que conheço no Brasil. Na verdade, o único. Trabalha no bar Princesa Isabel desde 2.000, quando voltou de São Paulo, aposentado. Costumo chamá-lo de “Robertilha”, mas ele pediu para não botar na manchete. Ficaria muito chamativo.
“Um dia, saiu uma reportagem na TV, mostrando os caras que gostam de trabalhar de graça. No Brasil, inteiro, eram três. Comigo são quatro”, conta Robertilha, digo, Gomes, já no começo da entrevista.
Perguntei se ele tinha sofrido muito, com a morte do Michael Jackson.
“E então. Não tem quem supere ele”.
O nome da fera é José Gomes dos Santos, tem 59 anos. Formação industrial. Senai e Escola Técnica de São Bernardo do Campo. Inspetor de qualidade, ajustador de máquina, foi para São Paulo em 1978, na época em que Lula estava botando quente. Nosso amigo furou greve pacas. Motivo: era o chefe.
“Vi o Lula de perto, fazendo discurso. Ele era tão desenrolado, que agora é presidente”.
Gomes aponsentou-se aos 46 anos. Diz que começou muito cedo, aos 10 anos. Foi seminarista por um tempo.
“Sei a missa toda em latim”, diz.
Peço para ele dizer uns trechos.
“Adideum culetifica juventude mer”, diz.
A única doisa que entendi foi o final, que se refere à juventude. “Mer” deve ser “melhor”. Juventude melhor.
“A tradução eu não sei”, diz.
Continua:
“Dominus uobrisqui…”
Acho que essa ele inventou na hora. O mais importante é que ele desistiu de ser padre, mas guardou o livrinho da missa em latim. A ordem era a dos Carmelistas, em Triunfo, mas suspeito que nem a ordem está certa. Os Franciscanos é que dominaram Triunfo. A Igreja perdeu um padre arretado – não sabe a tradução do latim, e nem a ordem pertenceu.
Para encurtar a história, ele ficou 21 anos em São Paulo, trabalhou pacas, e voltou para o Recife. Se instalou na Rua do Riachuelo, ali pertinho, e voltou a frequentar o Pricesa Isabel, bar que existe há décadas.
“Eu bebia aqui novinho”.
A partir de 2.000, começou a ajudar Seu Azevedo e Dona Nice, os proprietários.
“Vim de livre arbítrio”, diz.
Às 5h, ele acorda vai ao bar, liga as freezer (não sei como é o plural de freeezer, me perdoem), volta para casa, deve cochilar mais. Volta às 10h, para o expediente. Lava as mesas, cadeiras, limpa o balcão, até que mais tarde Seu Azevedo chega com as compras.
Lá pelas tantas, começam a chegar os clientes. Gente que vai tomar uma para almoçar, ou simplesmene almoçar, ou simplesmente tomar uma. Gomes despacha, anota tudo, soma contas, recebe. Vai tratando de tomar os primeiros goles, que ninguém é de ferro.
“O que eu bebo e como, anoto tudo, como um cliente normal”.
À tarde, vai em casa cochilar. Dificilmente fica direto, mas acontece. Às vezes tem ataques de estrelismo, fica meio chato, mas é uma vez por mês. É bom nem ligar. No dia da entrevista, ele tinha tomado umas garapas, misturou as informações sobre datas de viagens, os períodos em São Paulo, meu trabalho ficou muito difícil. Fora o bafo.
“Eu adoro aqui. Melhor do que estar em casa”.
Como diria um grande amigo – é nada…
Aproveito que Gomes sai para comprar gelo e confirmo as informações com Seu Azevedo.
“Quando a gente viaja, ele é quem toma conta. O que ele faz aqui, não é por interesse não”.
Comento com Seu Azevedo:
“Tem dia que ele está meio chato, né?”
“É”.
Seu Aze3vedo é o dono do Princesa Isabel há 25 anos. Faz 74 anos em fevereiro de 2010.
“Aqui, tem as amizades para brincar, beber”.
Mas tem o bafômetro e a saúde. Ultimamente, Azevedo bebe somente na sexta.
“Tomo meu whisky com tônica. Depois, vou pra casa e durmo que é uma beleza…”
De vez em quando, aparece um interessado em comprar o Princesa.
“Às vezes tenho vontade de vender, mas quando aparece gente para comprar, fico todo arredio”.
Deus te ouça.
Os clientes mais antigos são Roberto e Itapetin, da Compesa. Anos de copo. Dona Nininha também trabalha há muitos anos na cozinha. Sugestão: nunca chegue com uma peninha na orelha. Dona Nininha tem pavor de qualquer tipo de penas, arriscado sair correndo.
Daqui a pouco Gomes volta, com dois sacos de gelo. Informa que prefere ser chamado de “Gomes de Azedo”. Se Dona Nice souber disso…
A sopa do final da tarde é muito boa, custa R$ 2,50 e vem acompanhada de um pão novo. Te miúdo, cozido, charque no feijão, essas coisas.
Pergunto o preço do whisky a Seu Azevedo, para informar aos meus leitores, mas Robertilha, perdão, Gomes, chega de repente e diz:
“Tás pobre, é, para ficar perguntando o preço das coisas?”
De vez em quando ele bebe com o cliente, mas separa sua parte. Fuma que só uma caipora. Desconfio que ele não contou tudo. Vou tentar mais uma entrevista, desta vez sem bebida.
ps. tentarei postar uma foto amanhã, de Gomes em ação.
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