O elefante azul (com final original)
Samarone Lima
Republico o final desta crônica, após as observações da querida leitora Magna, resgatando alguma poesia do texto original.
Magna, meus agradecimentos.
Samarone.
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O dia mais importante da minha infância era em algum momento no início de julho, no início dos anos 70, quando meu pai botava os três filhos no banco traseiro de um Fusca cinza (IZ-3059), no banco de trás, a esposa, dona Ermira, no banco da frente, e saía de Imperatriz, no Maranhão, para o Crato, no interior do Ceará. Não sei a distância, mas sei que a viagem era uma epopéia, um caso de heroísmo familiar, atravessando estradas empoeiradas, esburacadas ou cheias de lama, com destaque para o Fusca, um ser indomável, que parecia flutuar no lamaçal, e sempre deixava tudo para trás, até chegar ao destino final. Lembro que meu pai fumava Hollywood e nunca cansava. A gente, quando é pequeno, acha que o pai é incansável, mas às vezes é mesmo inalcançável.
Minha madrinha, Piinha (é assim mesmo, eu nunca soube o nome exato), me recebia com um sorriso maravilhado, sem contar que era ela linda mesmo, e eu ficava de olho na madrinha, mas era muito cedo. Sei que ela era casada com Paulo César, mas de Paulo César não lembro nem a voz.
Passávamos um mês no Crato, durante a “Exposição”, e tudo era bom e simples. Meu pai ia para Seu Almir, que era o bar de Seu Vital do Crato, e lá encontrava seus amigos boêmios, igualzinho ao que faço hoje, a mesma conversa fiada, só faltava o dominó. Minha mãe ficava com minhas tias, e a função era simples: os homens bebiam, as mulheres conversavam e faziam outras coisas. Eu tinha muitos primos no Crato, e estão todos espalhados pelo Brasil, cearense é uma raça que gosta de se espalhar pelo mundo.
Uma vez, quem vinha na frente era o meu tio César, que hoje mora em Imperatriz, e é casado com a tia Fátima, irmã do meu pai. Não sei porque tio César estava no lugar da minha mãe, mas são coisas da vida. Lá pelas tantas, o meu tio César apontou para uma árvore grande, numa estrada interminável, e disse que tinha visto um elefante azul no alto.
Olhei para a árvore e também vi o elefante.
“Também vi”, comentei com o tio, do banco de trás.
Meu pai me olhou e perguntou se eu tinha visto mesmo um elefante azul no alto de uma árvore.
“Vi sim, mas já passou, ele está lá atrás”, respondi.
Meu pai me deu um beliscão na barriga que doeu um bocado.
“Deixa de mentir”, disse, depois do beliscão.
Lembro que fiquei amuado, triste, e naquele momento, aos seis ou sete anos, desisti de ver qualquer coisa que não fosse real, palpável, contável e definitiva. Passei o resto da viagem triste, solitário e final. Ali, acabou uma parte da infância. É muito ruim quando a pessoa sabe exatamente quando acabou a infância – numa estrada Crato/Imperatriz, em 1976, no banco traseiro de um Fusca, após um beliscão.
Desconfio que meu pai me impediu de ver o que a imaginação mandava, e demorei muito tempo para me recuperar. Fiquei preso à realidade como um sonâmbulo no meio da noite.
Mas hoje, me deu uma saudade imensa daquele elefante azul, no alto de uma árvore, na metade dos anos 70.
Tenho uma dúvida secreta se vi realmente meu elefante, porque já estava meio escuro, mas é uma dúvida que não é suficiente para invalidar a lembrança.
Essa é uma vantagem de escrever. Posso falar sobre um elefante azul, que vi na infância, sem medo de levar um beliscão.
Escrever é também uma forma de exercitar o perdão.
Então, meu velho Zé Vicente, aceite meu elefante azul que já esqueci o beliscão.
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22 Comentários »




22 de julho de 2009, às 11:53h
OI NOBRE SAMA,
É POR ÊSSE E OUTROS MOTIVOS QUE TENHO O MAIOR AMOR PELO MEU FUSCÃO. JÁ VI E FIZ MUITA COISA COM ELE, SÓ NÃO CONSEGUI VER UM ELEFANTE AZUL!!! QUEM SABE, NÉ??? QUEM SABE.
ABRAÇÃO FRATERNO,
GEYSON MONTE
22 de julho de 2009, às 12:30h
O elefante azul.Adorei
22 de julho de 2009, às 15:01h
Eu também já tive um Fusca, e já fiz um itinerário parecidim: Santa Inês (MA) – Recife. Não vi “Elefante Azul”, mas jurei para a a minha mãe que eu vi a cegonha, com meu irmão pendurado no bico, quando eu perguntei quem tinha levado meu irmão (recém-nascido) lá pra casa, e ela respondeu que havia sido a cegonha, não levei beslicão, deve ser por isso que eu ainda hoje, eu dou por vistas, tanta coisa que voa, até vinil voador.
Abração!
22 de julho de 2009, às 21:19h
Poesia escrita em 15 segundos, tipo aqueles jogos de xadrez bem rapidos jogados no central park em NY. Ja viste Sama? Nao achas uma boa ideia?
Aqui vai a minha poesia de 15 segundos:
O ELEFANTE PARREIRO NA PAREDE
CANTOU O CANTO DO ASSOVIAR
SUBIU A ARVORE ROSADA
MAS NUNCA PAROU DE CANTAR
O ELEFANTE DA ALGIBREIRA
O ELEFANTE DO MEU ALGOZ
O ELEFANTE NAO FAZ NEM FEZ
MAS SAIU DO MEU MUNDO FEROZ
ta ai, em 15 segundos.
prova que poesia nao serve pra nada. Qualquer debil mental consegue fazer uma em 15 segundos.
22 de julho de 2009, às 23:24h
Sama, ler esta crônica agora foi quase um atentado a minha saúde(preciso dormir, Deus do céu!). Pois bem, algo não ficou como antes. Lembrei da crônica. Há alguns escritos teus que guardo não na memória, mas no coração e vou aqui me meter no teu blog para acrescentar o que faltou nesta tua republicação. Sim, fui atrás da “1ªedição”(11 de janeiro de 2006). Explico: comentei esta tua crônica por email e não aqui; na ocasião, me trouxe lembranças fortes da minha própria infância.
Fica aí o que não republicaste e que, na minha reles opinião, fecha a crônica com a chave, não de ouro, mas do afeto resgatado, que é muito melhor:
“Essa é uma vantagem de escrever. Posso falar sobre um elefante azul, que vi na infância, sem medo de levar um beliscão.
Escrever é também uma forma de exercitar o perdão.
Então, meu velho Zé Vicente, aceite meu elefante azul que já esqueci o beliscão”.
Perdão se atualizo o que não vem mais ao caso no momento. Porém, continuo preferindo este término e, creio, teus leitores merecem conhecer (ou reler) a original.
Abração!
Magna
23 de julho de 2009, às 8:37h
meu pai também tinha um fusca.
era vinho. taxista. não lembro de nenhuma viagem longa nem de elefante algum.
e seu texto é bom demais.
sem falar que sou fã da cultura do dominó.
abraço
23 de julho de 2009, às 11:48h
Rapaz,
Esse Recife é pequeno mesmo.
Acabei de descobri que um daqueles amigos que tenho, torcedores do Santa, é seu amigo tb e joga bola com você. É o Danilo Souza. Mas conhecido como Danilo Bolseiro, um pequeno hobbit cabeludo, barbudo e gente boa.
Os outros amigos são o irmão dele, João, Zé Nivaldo (o pai) e Marcelo Rios.
abraço
23 de julho de 2009, às 11:48h
Sama, o texto é lindo.Um resgate da infância que vc faz muito bem
Magna, como leitora agradeço a sua boa lembrança.
Abraços. ana
23 de julho de 2009, às 14:11h
Oxe, e ainda por cima um bocado de leitores tricolores, melhor que isso soh o Santinha voltar ao menos para a segunda divisao, nera nao… Eu ando quilometros de distancia das noticias futebolisticas soh pra nao sofrer mais ainda com o meu Tricolor do Arruda, e jah me comprometi comigo mesma, em tirar uma fotografia na frente do Camp Nou, ele pode nao ir jogar lah contra o Barcelona e dar de goleada, mas eu levo meu timao do coracao e de todas as visceras, no peito e retrato esse amor por qualquer lugar que eu for.
P.S.
Tou com meu teclado desconfigurado «e tambem desconfigurada com os numeros de violencia no Recife«.
Abracao.
23 de julho de 2009, às 23:48h
Magna, por absoluta falta de tempo, peguei um texto antigo. Certamente, na hora da postagem, naquela época, dei uma melhorada, aparei, tentei melhorar. O final que você me lembrou é muito mais fiel e cheio de sentido.
Amanhã, logo cedo, farei o ajuste, porque agora estou exausto.
Agora, cá entre nós… que memória, heim?
Obrigado,
samarone
24 de julho de 2009, às 7:53h
Sama,
não tenho a 1ª edição do estuário, tenho a 2ª e essa crônica não estar nela, é uma pena, pois é muiro poética e concordo com Magna, o final publicado é mais bonito.
Abraços,
24 de julho de 2009, às 10:03h
Sama, é a memória do coração, pois a crônica foi importante para mim na ocasião. Lembrou-me um certo “dragão vermelho” que levou meu pai(sem volta) na minha infância(te falei isto por email,na época).
Sirley, eu tenho a 1ªedição e o elefante azul não está lá, portanto, não foi publicado como disse nosso distraído escritor.
Beijos.
Magna
24 de julho de 2009, às 16:14h
Perdão……Lindo!!!!!
24 de julho de 2009, às 16:34h
Vamos perdoar nossos pais…
Eles só querem proteger…
24 de julho de 2009, às 18:24h
Meus agradecimentos a você, Sama, por nos presentear com tanta poesia em um “simples” elefante azul.
Abração.
Magna
24 de julho de 2009, às 20:17h
Não me fale em Fusca, foi num desses onde tudo começou… tavez, venha daí a paixão do meu filho por esse bichinho de quatro rodas.
Amei!
Beijo
25 de julho de 2009, às 12:46h
Bem que o magro valadares diz: “Os comentários são melhores que tuas crônicas”.
Sama
27 de julho de 2009, às 2:30h
eu acredito no elefante azul e em voce…
27 de julho de 2009, às 12:51h
Levarei horas, talves dias ou anos para me recuperar deste elefante extraordinário! Que maravilha!
28 de julho de 2009, às 15:28h
Lembrando que no jogo do bicho o elefante é 12. Ai, meu palpite
30 de julho de 2009, às 18:48h
Show de bola…
31 de julho de 2009, às 16:25h
Companheiro,
Já fiz varias vezes o caminho Recife – Crato e não tive oportunidade de ver elefantes. Teu relato é importante para os cuidados que os pais devem ter para não castrar a imaginação.