Aos 40, olho para um lado, olho para o outro, e descubro que sou um ser absolutamente redundante. Vou aos mesmos bares, frequento os mesmos cantos, faço os mesmos programas, as mesmas promessas, gosto sempre das mesmas conversas, dos mesmos amigos, e fica por isso mesmo. Acho que já me acostumei comigo.
Desde 2000, quando comecei a frequentar o Alto José do Pinho, minha cabeleireira se chama Eliete. Não tem jeito. Nosso santo bateu, ela sabe o jeito que eu gosto, sabe que não é para cortar muito, que não carece de mexer na barba, que isso, que aquilo. Resumindo, a criatura sabe das minhas manias e manhas.
Ao longo de quase uma década, arrisquei outros profissionais do ramo e tomei sovas fantásticas. Uma vez, a professora Lucidélia, perto do Natal, resolveu dar um trato no meu pelo, e fiquei parecendo uma mistura do Michael Jackson com Jackson do Pandeiro. O problema é que cochilei durante o corte, e quando acordei, ela tinha cortado apenas um lado. Me deu vontade de chorar com tanta feiura, mas era tarde, faltava ela acertar o outro lado.
Passei um mês escutando aquela frase fabulosa:
“Mas quem foi que fez isso no teu cabelo?”
O problema é que às vezes desencontro de Eliete (a mulher se muda quase todo mês), e o cabelo vai ficando uma moita. Domingo passado, depois de três desencontros, ela me atendeu, em sua casa nova. Como sempre, se espantou com o tamanho, disse que estava muito seco, e rapidinho uma moça estava passando shampoo, cremes etc. O marido de Eliete, apesar de rubronegro, é boa gente, me ofereceu umas doses de Pitucilina, e o tira-gosto foi galinha caipira.
Fiquei nesse bem-bom, Eliete cortou direitinho, deixou no ponto, paguei R$ 6,00 e fui tomar uma cerva em Seu Biu.
Então chegamos à redundância dos bares. No Recife, acho que tem uns 457 bares, porque a turma aqui bebe pacas. Pois bem, se fecharem todos eu nem ligo, contanto que preservem as seguintes relíquias:
Bar de Seu Vital (Poço da Panela);
Bar de Seu Abdias (Poço da Panela);
Caldinho do Biu (Alto José do Pinho);
Bar Princesa Isabel (Centro, junto ao parque 13 de Maio).
Não sei o que é. Trata-se do ambiente, do tratamento. Gosto de entrar num bar e ter alguém conhecido para estender a mão, conversar uma água. Gosto de ter uma mesa. Gosto de ter o privilégio de conhecer a cozinheira, de não passar vexame em caso de pendura. Nenhum desses que acabo de citar, trabalha com cartão de crédito.
Em Vital, sou amigo até dos reis (Walter, Davi, Diazepan, Naná e o próprio Vital, reis da troça “Os Barva”). Além disso, Seu Vital coloca meus livros para vender, cobrando 10% de taxa. Posso beber uma cerveja numa mesinha na calçada, sentindo a brisa do Poço da Panela, uma dessas coisas boas da vida. O Bar de Seu Abdias é lá dentro do Poço, à beira do rio, e vou menos, porque a turma bebe mais dia de domingo, depois da pelada. Sou meio esquisito, não tenho vontade de beber depois de jogar.
O Caldinho do Biu é onde tem o melhor peixe do Recife, fora os caldinhos e o feijão. O ruim é voltar dirigindo, porque é tudo ladeira, e lá embaixo pode ter os guardas com bafômetro. Seu Biu é muito boa gente, fora o Flávio, seu filho, com aquela voz de locutor, dizendo “tudo bem, Marone, tudo bem”.
No Princesa Isabel, tem a turma de sempre, parece até que o bar tem condôminos. Fico sentado, lendo, escrevendo, olhando a paisagem, e de vez em quando surge uma novidade. Edinho outro dia sustentou a tese de que esse negócio de estudar Inglês é uma furada.
“Basta o camarada saber esculhambar, agradecer ou pedir, em qualquer língua, que ele se vira. O resto vem por osmose”.
Quero saber qual o bar do Recife o sujeito pode se dar ao luxo de tomar uma cerveja de 600 ml por R$ 2,60, com o ventilador no três, e ainda escutar explicações filosóficas como essa de Edinho.
Na época da Livro 7, eu só vivia lá. Para mim, foi uma das maiores tragédias culturais do Recife, a quebra da velha livraria, que ajudou tanta gente.
Sou um sujeito que precisa de uma livraria para chamar de sua. Gosto de saber o nome dos vendedores, da conversa fiada, se vai para o próximo jogo do Santa. Tem a Poty, mas está cada vez pior andar naquela Conde da Boa Vista. Chego lá, o Felipe vem com aquela conversa que não vai nem volta, daqui a pouco o sujeito está com um livro formidável nas mãos. Na Poty, deixei já livros em consignação na maior tranquilidade, e torço para que eles se mudem logo para o local onde funcionava a Livraria Síntese, porque fica bem perto do Princesa Isabel.
Eu estava até avançando na Livraria Cultura, tinha um vendedor supimpa, um camarada culto e muito gente boa, que dava ótimas sugestões de leitura, mas fui lá ontem, ele tinha saído, acho que foi demitido. Eu fico pouco à vontade com gente eficiente demais, e os camaradas que trabalham na Cultura são eficientes demais, acho que estou atrapalhando.
Minhas redundâncias passam por todas as áreas da vida. Sou cativo do Mercado de Casa Amarela. O rapaz que conserta minha chuteira e eventuais rasgos nas bolsas, fica ao lado da igreja do Cabo de Santo Agostinho. Infelizmente, briguei com o cara que me vendia máquina de datilografia velha, no Cabo. Mas foi até bom, porque já estava com nove máquinas, e isso começa a virar transtorno mental, o que poderia me levar a um tratamento com a psicóloga Emília.
Sobre futebol, melhor não comentar. Deixei de ir ao Arruda com Naná, porque ele se atrasava muito, e eu sempre ficava nervoso com isso. Uma vez, quase briguei com Emilia por causa disso. A pessoa não pode ser normal, se age normalmente, em dia de jogo decisivo. Agora vou sozinho, paro sempre na mesma barraca, onde uma senhora gentil, de olhos tristes, vende 555 cigarros por minuto. Fico ali, olhando o movimento, reparando no movimento da torcida do Santa, até que resolvo entrar. Me benzo logo que passo a catraca.
Fico no mesmo canto no estádio, junto ao fosso, encostado naquele ferrinho, perto do meio campo. Tenho certeza absoluta que o bandeirinha escuta todos os impropérios destinados a ele e suas gerações passadas e futuras. Até hoje me dói não terem deixado a torcida invadir o campo, naquela gloriosa jornada de 2005, quando fomos campeões. Eu já estava pronto para dar o pulo. Iria recolher um pedaço da grama de lembrança.
Mas tem gente pior que eu. Tenho um amigo que vai para o ataque, quando o Santa está atacando, e vem para o lado da defesa, quando a pressão está grande. Ele diz que é capaz de tirar bolas perigosas, e cabeceia junto com nosso atacante.
Mas não vou nem falar o nome dele, porque o sujeito gosta mesmo é dos bares da moda e nem é redundante.
Eu gosto mesmo é das redundâncias e parábolas.