O Martin, um dos principais personagens do meu livro sobre Cuba (Viagem ao Crepúsculo), está no Recife, de férias. Foi ao lançamento, me ligou, queria encontrar para conversar, falar suas impressões. Como a gente virou amigo de verdade, um entardecer para trocar idéias, falar besteira, que amigo de verdade é aquele que a gente pode falar muita besteira e o papo não é cabeça. Amigo de verdade não fica conversando para salvar o mundo, mas para se salvar.
Cheguei à livraria à tardinha, fui perguntar se o livro tinha chegado.
“Chegou, mas ainda está lá em cima, mais tarde vai descer. Teve muitos pedidos”, informou a vendedora, a mais simpática, que esqueci de perguntar o nome.
O negócio está melhorando, foi o que pensei, o livro está na praça. Olhei uns lançamentos, nada me empolgou. Além disso, fui pego por uma grande tapeação esta semana, um livro do Rilke chamado “O Testamento”, publicado pela editora Globo. O cara escreveu um manuscrito e entregou ao seu editor, Anton Kippenberg, pedindo que a obra fosse guardada de forma confidencial. No prefácio, o senhor Helmut Galle diz que “apesar do segredo solicitado pelo poeta, a forma do manuscrito dá a impressão de que ele fora preparado para a publicação”.
Vou parar com essa mania de comprar livros sem ler os prefácios. Se tivesse lido esse, deixava lá mesmo, na prateleira, apesar desse meu amor por tudo do Rilke. Até o esboço de uma carta tem no livro!
O que ainda salva é que coleciono frases e tem umas coisas aqui-ali, como “peço indulgência àqueles que me amam”. Fora isso, uma verdadeira traição ao pedido do poeta, que pediu sigilo sobre seus escritos, um livro realmente abaixo do que se pensa de um “testamento” de Rilke. Melhor mesmo pegar o “Cartas a um jovem poeta”, que é baratinho, e se deliciar. Espero que Inácio, no seu Caótico (www.caotico.com.br), aborde o tema com mais profundidade.
Pois bem. Subi, o Martin já estava lá, tomando seu cappucino. Começamos um bom papo, ele comentando detalhes dos capítulos, falando que terminou de ler às seis da manhã, na Casa do Estudante, e foi comemorar tomando cana e escutando Luis Gonzaga, isso é que é leitor.
Lá pelas tantas, chega uma moça simpaticíssima, Patrícia Carvalho, que lê minhas coisas, pergunta pelo livro, informo que já está na livraria, e mais tarde “vai descer”.
Tem uma penca de gente boa circulando na livraria, porque Isaar França iria conversar sobre seu novo disco, “Copo de Espuma”. Léo, seu produtor, mora na minha antiga casa do Poço. Isaar foi minha vizinha uns três ou quatro anos, e lembro que um disco do Cumadre Fulorzinha chegou na casa dela no mesmo dia que Clamor chegou lá em casa. Estamos repetindo a dose. Ela lestava conversando sobre o novo CD, e eu aguardando a chegada do livro.
Meu Deus, como estou disperso hoje!
O Martin falou tudo sobre o livro, as impressões, os personagens, lembramos de partes da nossa viagem para Camaguey, fomos olhar a conversa de Isaar. Fiquei sabendo que o Marcelo Silveira, amigo da época do curso de Educação Artística, iria lançar um projeto novo, intitulado “Revista”. Caramba, o Recife é realmente uma cidade instigada.
Ficamos por ali, descemos, até que o Martin resolveu botar uma pressão. Perguntou a uma vendedora pelo livro, ela disse que iria descer depois. Perguntou a outra, ela disse que já tinha chegado. Como eu conheço a fera, se não botassem o livro nas mãos dele, iria ter uma confusão, o gerente iria aparecer, em cinco minutos os livros estariam na gôndola de entrada.
Vai pra lá, vem pra cá, chega o Martin com o livro na mão.
“Rapaz, eu não me canso de ler essa orelha”.
Realmente, acho a orelha, escrita pelo Sérgio Buarque, uma pérola. Precisa, contida e elegante, como ele.
O Martin bota o livro na gôndola principal, logo na entrada. Adoro fazer isso com escritores que gosto. Tiro eles do limbo, de alguma prateleira lá do fundo, e levo para as gôndolas de entrada. Os best-sellers ficam putos.
Saímos, fomos bestamente por ali, e bastou atravessar a rua, para encontrar um casal lindo, que é Beth da Matta e Rafael Cortes, o Rafa. Estavam numa mesa grandinha e tanto. As irmãs de Beth e dois argentinos, que estão fazendo um documentário sobre os presidentes da América Latina, com a irmã de Beth, Diva da Matta. Sentamos. Eram oito pessoas na mesa. Oba, vem um bom papo por ai, foi o que pensei.
Nessas reviravoltas da vida, a Diva, que andava pela América Latina, estava lendo meu livro. Recebeu emprestado do Marcos Galindo, meu amigo até o osso. O Marcos é primo de Beth, apesar de Beth parecer mesmo é irmã de Stella, esposa de Galindo. Dei um livro de presente ao Marcos, logo que recebi meu primeiro lote.
Então, o diretor do filme, o argentino, perguntou se Martin era “Fidelista”.
Martin, que não é besta nem nada, disse que era. Diretor Argentino então teve um acesso de fúria verbal, começou a cantar loas e boas sobre Fidel Castro, Hugo Chaves, Evo Morales. Os homens só não são santos porque não morreram. Não lembro se ele falou do Correia, do Equador. Disse que a Michelleti, do Chile, é de “centro-direita”. Pelo que entendi, se ela é de centro-direita, não presta.
Eu não tive tempo nem de dizer um ai, quando o cara começou a falar mais alto, batendo na mesa. Eu não sou nenhum santo, mas tenho comigo umas heranças. Eu acho que mesa não é lugar para se bater. É coisa minha. Mesa é para compartilhar coisas, conversar, derramar cerveja, quando o parangolé foi longe. O cara começou a bater, dizendo que Hugo Chaves teve 70% de aprovação, justificando algo, acho que era o cerco à Imprensa de lá. Então soltou a pérola:
“Tenho Fidel, Hugo Chaves e Evo Morales tatuados no meu coração”.
Olhei para o sujeito. Ele é jovem, diretor de um documentário, está viajando por toda a América Latina. Como pode, meu Deus, ser tão imbecil.
Eu dificilmente chamo uma pessoa de imbecil. Me perdoem, caros leitores, é o caso. Se ele tatuasse nos braços, nos ombros, na bunda, na perna, nas costas, tudo bem, mas… no coração!
Foi demais para minha humanidade, porque ela é outra. Minha humanidade está mais atenta é mesmo para o grupo de amigos do Poço da Panela, que semana passada salvaram um Flamboyant gigante, que seria arrancado inutilmente pela Prefeitura. Gostei mesmo foi da delicadeza da Diva, a irmã de Beth, a mesma linhagem educada, gentil, sutil.
Eu precisava sair dali rapidamente. Meus ouvidos aguentam somente uma carga de estupidez por dia. Beth, sempre ela, disse que iria à livraria, olhar o lançamento de Marcelo.
“Quero ir também”, disse logo, me despedindo da turma.
Saimos eu, Rafa e o clâ dos Da Matta.
Respirei fundo e fiquei pensando no documentário que o cara vai produzir.
Voltamos e o livro estava no mesmo lugar. Ficamos por ali, daqui a pouco chega o Martin. Nem ele aguentou Diretor Argentino.
Marcelo não apareceu. Vimos a nova obra dele. Fiquei sentado na mesa de autógrafos, em homenagem ao leitor desconhecido. Rafa queria ver o Sá Grama com o Naná Vasconcelos, no Santa Isabel, mas fiquei sabendo que a fila estava imensa, e estou ficando um velho para essas coisas. Antes de cair fora, combinei com Beth uns vinhos em sua casa, a mais tarde. Ela já desconfiava, claro, que eu não iria.
Saí caminhado com o Martin, atravessamos as pontes, lambendo a beleza noturna do Recife. Fomos conversando sobre a vida, os encontros, as pessoas. Na Rua da Imperatriz, dobrei à direita, ele seguiu.
Cheguei ao Princesa Isabel, os amigos estavam por lá. Ali sim, é outra humanidade. Robertilha veio todo animado. Tomei duas cervejas, anotei meio quilo de leseiras em meu caderno, Roberto já disse que “a mulher é a Marina”, e depois fui embora. Dia de quarta tem jogo na TV. Tenho que ir me acostumando, já que meu Santa Cruz só joga em janeiro.
Hoje de manhã, escrevendo este texto, dei uma olhadinha nos meus email. Um deles era inacreditável. A Patrícia, que tinha encontrado comigo e com o Martin, logo no começo de tudo, foi a que comprou o livro.
“Olá samarone, nos encontramos ontem no café da Cultura. Após falar contigo, desci e encontrei teu livro. O livro está localizado na entrada da livraria. Paguei e subi rapidinho para pegar aquela dedicatória prometida ao Clamor. Você e o Martintinham sumido. Não demorei nem 10 minutos”.
Não posso reproduzir o texto do email sem a autorização da Patricia. É lindo. Fala do livro, e fala de sí.
Ela é dessas pessoas que fazem parte desta minha outra humanidade, que não tatuam nada no coração, que não vociferam, não trazem chavões, que não querem vencer debates, bater nas mesas, apenas conversar, de preferência baixinho.
Sei que o coração dela deve bater todos os dias mais forte quando entram gestos miúdos mas irrevogáveis de respeito, ética, liberdade, beleza, perdão, esperança, essas coisas que fazem a vida florescer.
Para Patrícia Carvalho, 43 anos, advogada trabalhista, que presta assistência ao movimento sindical urbano, com afeto.