Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Só ontem entendi Proust

26 de agosto de 2009, às 12:20h por Samarone Lima

Foi ontem. Eu estava numa mesa do Delta Café, no Bairro do Recife (ops, Naire), quando chegou meu cappucino médio. Noitinha à beira do Capibaribe, temperatura ideal, pouca gente. Um jazz sobrenatural, nem alto nem baixo, deixava tudo calmo e bom, sem as ignorâncias musicais de outros lugares menos favorecidos, em tempos tão ignorantes.

Ao lado, na mesa redonda, meu caderno vermelho de anotações, com o escudo do Santa Cruz. A cena ficou completa com minha a edição nova, pela Editora 34, de “A Divina Comédia”, de Dante. Eu nunca pensei que esse livro fosse tão lindo, arrebatador, sempre achei Dante um nome muito volumoso, clássico demais para minhas inglórias literárias. “Voltei-me ao mar de toda compreensão”.

Tem um leitor meu, petulante pacas, que diz nos comentários frequentes, que poesia não serve pra nada. Que pena, ele nunca ouviu falar em salvação pela palavra, em redenção pela beleza, em transcendência pelo belo…

Pois bem. Dei a primeira golada. O cappucino estava cremoso, perfeito, fiquei sorvendo cada gota, sentindo na língua o amargo-doce. Fechei os olhos, fiquei sentindo aquela felicidade na língua e nos ouvidos. O jazz era perfeit0. Uma sensação de paz, de harmonia tomou conta de mim. Ah, como é bom viver…

Estava assim, nesse êxtase estético, espiritual, quando a garçonete chegou de repente.

“Desculpe, senhor, o seu pedido veio errado”, disse, pegando a xícara com uma rapidez incrível.

Ainda reagi:

“Mas… errado em que, moça?”

“Está sem canela!”.

Ainda balbuciei algo, tentei dizer que a canela não fazia falta alguma, mas quando pensei em falar, a xícara já estava em cima do balcão.

Fiquei sem reação. Tudo mudou nessa fração de segundos.

Ela atendeu outro pedido, e fiquei órfão momentâneo de uma alegria que prometia voltar.

Dois minutos depois, ela retorna, com meu cappucino. Olhei. Estava perfeito, sem a marca da minha boca na beirada. Tinha uns laivos de canela.

“Fizemos outro, senhor”.

Proveio o novo cappucino como quem sente que despertou de um sonho. Era outra coisa, outro sabor, outra textura, aroma. Neste momento, a música parou. Entrou algo espacial, pensei que o Dr Smith chegaria naquele instante pela porta principal.

Chamei a garçonete.

“Moça, você pode trazer aquele primeiro cappucino, que estava delicioso?”

Ela sorriu sem graça, como aquelas aeromoças da Gol, quando entregam uma barra de cereal e fingem que estão dando um pedaço de salmão com verduras.

“Ah, senhor, desculpe, mas a moça já jogou fora…”

Foi neste momento que finalmente entendi aquela lembrança apaixonada do Proust pela sua madeleine, a riqueza de detalhes com que ele fala de um pequeno prazer, que teve há muitos anos, e sua busca interminável pelo tempo perdido.

A alegria do cappucino não voltou, tomei outro para tentar o reencontro, mas era tarde.

Viva Marcel Proust, ora bolas!

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Memórias de um caixeiro-viajante do próprio livro

24 de agosto de 2009, às 9:10h por Samarone Lima

Vou pedir um aumento à minha editora, a Casa das Musas, porque estou trabalhando pacas.

Como se trata de uma ONG, voltada para o desenvolvimento da leitura, a palavra “lucro” não tem essa luz neon toda. A distribuição de “Viagem ao Crepúsculo” é feita na raça, com a ajuda do autor. Quem me dera que fosse como na época do “Clamor”, publicado pela Objetiva, quando eu ficava só em casa, recebendo os relatórios de venda e os avisos de que teria que “ficar em um número fixo para entrevistas”. Agora sou caixeiro viajante, assessor de imprensa, vendedor, prestador de contas, entrevistado e flanelinha da minha própria obra.

Ontem, no encerramento do Festival Literário “A Letra e a Voz”, tinha um encontro marcado com alguns leitores, que queriam discutir o livro. Agendamos no Mamulengo, no Bairro do Recife (conforme pedido da Naire), local do lançamento e de parte das vendas (a outra parte está na Livraria Cultura), às 16h. De manhã, lendo o jornal, descobri que a Prefeitura disponibilizou um stand para lançamentos no Festival. Ôx, é lá mesmo que vou deixar meus livros, foi o que pensei.

Joguei a pelada dominical, voltei mais cedo, nem passei em Seu Vital nem na casa de Naná. Peguei um lote bom do livro, botei numa sacola resistente e fui lá.

Moura já estava no bar. Moura sempre está no bar, já que é o dono. Olhei a estante. Dos 15 livros que deixei, ainda tinham 10. Não carecia reabastecer. Fui ao stand dos lançamentos, uma turma atenciosíssima me atendeu. Deixei 10 exemplares de “Viagem ao Crepúsculo”, anotaram tudo, voltei ao bar de Moura, feito um pangaré.

Lá pelas tantas, me ocorreu algo. Que tal ir à Livraria Cultura, ver como está a venda do lote de 20, que deixei dia 19?

Pocot, pocot, lá vou eu, no domingão lindo do Recife, um sol perfeito, céu azul, temperatura na medida para viver.

“A livraria só abre às 14h”, me disse um segurança.

Encontrei Geraldo de Fraga, autor do clássico “Histórias que Sangram”, recém-lançado. Geraldo tinha deixado alguns no stand. Fomos para Moura, Geraldo pediu uma cerveja, mas eu estava sem beber. Depois chegou Júlio Vila Nova e a conversa ficou boa. Depois chegou um sujeito, um coroa, e mostrou ao Júlio um solo de frevo numa gaita. Pensem numa coisa linda, um sujeito tocar um solo de frevo numa gaita, em plena manhã de domingo! De vez em quando, passava um conhecido. Enquanto isso, a feira de encerramento do Festival era montada.

Fiquei na dúvida se iria descolar o rango na casa de Emília e Pedoca, mas como eles não atenderam meus telefonemas, entendi que era melhor ficar na minha. Almocei em casa um grão de bico com umas verduras e legumes, porque agora acho grão a comida mais deliciosa do mundo. Perdi o Esporte Espetacular, que adoro, mas tudo bem, é preciso cuidar do livro, não adianta choramingar os gols não assistidos na TV.

Lá pelas 15h, voltei ao Recife. Resolvi levar mais um lote de livros. Nunca se sabe.

Moura estava lá. Fui ao stand de lançamento, os mesmos 10 permaneciam intocáveis. Fiquei esperando o pessoal do debate, Déa, Kika, Ricardo e mais convidados. Déa comprou seis livros, que já deixou o autor animadíssimo. Depois chegou a Fabiana, que sempre lê minhas coisas, e a Daniela, com aquele sorriso bom de sempre. Só eu, sentadinho em Moura, vendi nove livros. Uma leitora das antigas chegou com um exemplar de Estuário, para uma dedicatória. Que beleza, um livro de 2006, esgotado, reaparecer. Cheirei, olhei, matei saudades, assinei.

Depois o povo foi chegando, sentamos ao redor de duas mesas, e discutimos sobre o livro, os personagens, a Cuba que encontrei etc. Val e Edivalter, ou Vavá, que viajaram a Cuba em 1998, foram os que mais falaram. Tinham planejado ficar uma semana, mas só conseguiram ficar cinco dias. Imaginem.

“No quinto dia, a tristeza estava tão grande, que a gente veio embora”, disse ele.

A conversa foi ótima. Gerrá, que lembra muito os cubanos, com a pele amorenada e os cabelos curtíssimos, disse que viajou duas vezes para a capital, e ficou irritadíssimo, porque era sistematicamente confundido com cubano, e convidado a se retirar dos hotéis. Eu nem imaginava que Gerrá tinha passado por essas. Uma vez, quando entrou no ônibus da excursão, o motorista não queria deixá-lo entrar, e perguntou o que ele levava na bolsa. Já puto da vida com aquela perseguição ao mais brasileiro dos brasileiros, torcedor apaixonado do Santa Cruz e maltratado pelos próprios cubanos por parecer com cubano, Gerrá respondeu:

“Tenho uma bomba!”

A turma do deixa disso contornou a bronca.

Terminado o debate, fui ver a venda no stand dos lançamentos – zero.

Lá vou eu de novo à Cultura. Schlep, schlep (tenho mania de arrastar os pés, com minha sandália de couro). Chego lá, olho do outro lado, está Emília, a mesma que me negou o almoço. Me escondi atrás de uma prateleira, mas ela me viu e veio ao meu encontro.

“Vim comprar um livro teu para mãinha, que vai dar de presente ao médico dela, mas vendeu tudo”, disse.

Como assim, por exemplo?

Sim, os 20 exemplares que deixei dia 19, já tinham sido vendidos dia 23. Isso fora os outros 30 que tinham sido vendidos antes. Eu até perdoei Emília pela pirangagem do almoço.

Procurei o Leonardo, responsável pelas vendas consignadas, o cara não estava. Pensei: domingo, livraria cheia, o cara trabalhando pacas. Ele vai querer saber de receber livros consignados uma hora dessas?

“Emília, tenho um livro na minha bolsa, lá no Mamulengo”.

Pedoca, seu marido, estava por lá. Pela primeira vez no dia, voltei de carro para o Mamulengo, com ar-condicionado e tudo. Eles pararam, fui caminhando, atravessando stands, mas dei azar. Estava tendo uma apresentação de Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, e uma multidão ocupava tudo. É fogo, né Lirinha, na hora do meu aperto…

Fui por fora, cheguei. Peguei logo três exemplares, nunca se sabe.

Entreguei a Emilia, que me disse:

“Mãinha depois te paga, visse?”

Rapaz, o sujeito tem um almoço negado e ainda leva um fiado?

Fui dar mais uma olhada nas vendas do stand – cinco.

Quase comemorei como um gol. Cinco exemplares vendidos? João, o simpático vendedor e artista plástico, marcou impedimento.

“É que botei cinco aqui embaixo, porque tinha muito livro para ser vendido”.

Voltei para Moura devagar. No caminho, uma amiga comprou um, ao vivo. Alguns metros depois, a Mariana, do “Vozes Femininas”, comprou outro, fiado. Como ela estava com o marido, se um farrapar, cobro do outro, e vice-versa.

Cheguei em moura, a turma do debate estava numa mesinha. Ficamos num petit-comitê, conversando sobre várias coisas. O Recife Antigo, por sinal, é um lugar lindo, devia ter coisa lá todo domingo.

Quase esquecia dessa.

Teve uma hora que fiquei sentado, antes do debate, e vi um casal chegar. O cara pegou logo “Viagem ao Crepúsculo” e segurou. A moça pegou Clamor e segurou. Isso é que é um casal lindo, meu Deus. Todo estava perfeito, até que eles pagaram no Visa, tudo bem, recebo depois.

Eram 20h57, quando voltei pela última vez ao stand de lançamentos. Recebi os 10 livros intactos, ora bolas. A menos de 500 metros, na Livraria Cultura, tinha gente querendo comprar e faltava livro. Botei minha obra numa sacola e fui voltando.

Sem muita criatividade para beber, parei já à saída da Praça do Arsenal e comprei um saquinho de pipoca. Fiquei ali, comendo devagar aquela pipoca quentinha e olhando o povo se divertir. Botei a sacola no chão e fiquei de olho nela, porque sou distraído pacas. Só ali, tinha R$ 300,00 de livros.

Agora de manhã, lembrei de uma cena que Vavá contou, á mesa.

Ele estava caminhando, perambulando, pelas ruas de Havana, conheceu um sujeito formidável, fizeram amizades, a conversa estava boa, até que ele chamou o camarada para tomar um mojito com ele, uma bebida típica de Cuba, num bar ali perto, um lugar muito agradável da capital.

“Sinto muito, mas não posso entrar ali”, disse o cubano.

Vavá insistiu, chamou, mas não teve jeito. Era proibida a entrada de cubanos.

“Foi um dos mojitos mais amargos que tomei em minha vida”, disse Vavá.

Eu vivi isso bem de perto. Como diz o frevo de Capiba, “É de amargar”.

Vou ali, abastecer a Livraria Cultura.

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Até domingo, pois

21 de agosto de 2009, às 14:24h por Samarone Lima

Vou conversar com os leitores do “Viagem ao Crepúsculo” domingo, dia 23, às 16h, no Bar Mamulengo, Praça do Arsenal.

Para quem não é do Recife, a Praça do Arsenal é no Recife Antigo. Para chegar ao Recife Antigo é só atravessar todas as pontes. Depois da última, é o lugar. Depois, tem o mar, e não pretendo discutir o livro em alto mar.

Aos não-leitores, informo que o livro será vendido no local.

Pelo menos três leitores já confirmaram a presença, de formas que já temos o quórum mínimo.

Até domingo, pois.

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Na luta com meu livro…

19 de agosto de 2009, às 12:42h por Samarone Lima

Amados leitores, já perdi a hora de postar crônica nova, mas estou agarrado com a divulgação do meu livro de Cuba, Viagem ao Crépúsculo, que hoje completa duas semanas de vida. A correria, portanto, está grande.

As vendas no Recife estão ótimas, já chegou à Livraria Cultura, estou trabalhando pra valer, mas infelizmente ainda não conseguimos furar o bloqueio do eixo literário do Centro e Sul do País. O livro ainda não está nas livrarias de lá.

Por aqui, vou fazendo as minhas. Hoje (quarta-feira), às 19h, estarei no adorável programa Opinião Pernambuco, sob o comando da também adorável Stella Maris. É na TVU, Canal 11. Comigo, à mesa, o velho e bom Inácio França. Tentarei cortar os cabelos, porque a foto que saiu comigo no Jornal do Commercio, foi de doer, todo mundo disse que fiquei horroroso, apesar de a estética não ser lá o meu forte…

Há a possibilidade de um bate-papo no bar Mamulengo, local do lançamento do livro, no domingo à tarde (23/08), por ocasião do encerramento do Festival Literário do Recife “A Letra e a Voz”.  Seria uma conversa informal com os leitores, principalmente os que já leram, e gostariam de compartilhar impressões e discutir com o autor, que no caso sou eu. Moura está vendo, estamos tentando ver se dá pé. A Adriana Moura, que me mandou um email lindo falando do livro, foi quem lançou a idéia, estou só repassando, caso alguém tenha interesse. O portador não merece pancad, já diz o ditado.

Um amigo confessou há pouco que leu duas vezes o livinho, e fiquei convencido pacas. Mas o meu grande trunfo literário é mesmo Iamarai. Ele leu os 28 ou 32 capítulos de Clamor em doses diárias, ao troninho, de manhã, no WC… No último capítulo, algué tirou o livro do lugar e ele ficou entalado. Fora isso, meu irmão o Tonho, que nunca foi chegado aos livros, eu “Zé”, meu primeiro livro, de uma tacada só, me contou a história de cabo a rabo, e isso conta.

Eu gosto de agarrar o leitor e só largar  dele no finalzinho.

Nota: Confirmado o bate-papo sobre o livro com os leitores, no Bar Mamulengo, Recife Antigo, na Praça do Arsenal.

Será domingo que vem (23), às 16h, horário de calor mais brando.

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Pois minha humanidade é outra

13 de agosto de 2009, às 9:07h por Samarone Lima

O Martin, um dos principais personagens do meu livro sobre Cuba (Viagem ao Crepúsculo), está no Recife, de férias. Foi ao lançamento, me ligou, queria encontrar para conversar, falar suas impressões. Como a gente virou amigo de verdade, um entardecer para trocar idéias, falar besteira, que amigo de verdade é aquele que a gente pode falar muita besteira e o papo não é cabeça. Amigo de verdade não fica conversando para salvar o mundo, mas para se salvar.

Cheguei à livraria à tardinha, fui perguntar se o livro tinha chegado.

“Chegou, mas ainda está lá em cima, mais tarde vai descer. Teve muitos pedidos”, informou a vendedora, a mais simpática, que esqueci de perguntar o nome.

O negócio está melhorando, foi o que pensei, o livro está na praça. Olhei uns lançamentos, nada me empolgou. Além disso, fui pego por uma grande tapeação esta semana, um livro do Rilke chamado “O Testamento”, publicado pela editora Globo. O cara escreveu um manuscrito e entregou ao seu editor, Anton Kippenberg, pedindo que a obra fosse guardada de forma confidencial. No prefácio, o senhor Helmut Galle diz que “apesar do segredo solicitado pelo poeta, a forma do manuscrito dá a impressão de que ele fora preparado para a publicação”.

Vou parar com essa mania de comprar livros sem ler os prefácios. Se tivesse lido esse, deixava lá mesmo, na prateleira, apesar desse meu amor por tudo do Rilke. Até o esboço de uma carta tem no livro!

O que ainda salva é que coleciono frases e tem umas coisas aqui-ali, como “peço indulgência àqueles que me amam”. Fora isso, uma verdadeira traição ao pedido do poeta, que pediu sigilo sobre seus escritos, um livro realmente abaixo do que se pensa de um “testamento” de Rilke. Melhor mesmo pegar o “Cartas a um jovem poeta”, que é baratinho, e se deliciar. Espero que Inácio, no seu Caótico (www.caotico.com.br), aborde o tema com mais profundidade.

Pois bem. Subi, o Martin já estava lá, tomando seu cappucino. Começamos um bom papo, ele comentando detalhes dos capítulos, falando que terminou de ler às seis da manhã, na Casa do Estudante, e foi comemorar tomando cana e escutando Luis Gonzaga, isso é que é leitor.

Lá pelas tantas, chega uma moça simpaticíssima, Patrícia Carvalho, que lê minhas coisas, pergunta pelo livro, informo que já está na livraria, e mais tarde “vai descer”.

Tem uma penca de gente boa circulando na livraria, porque Isaar França iria conversar sobre seu novo disco, “Copo de Espuma”. Léo, seu produtor, mora na minha antiga casa do Poço. Isaar foi minha vizinha uns três ou quatro anos, e lembro que um disco do Cumadre Fulorzinha chegou na casa dela no mesmo dia que Clamor chegou lá em casa. Estamos repetindo a dose. Ela lestava conversando sobre o novo CD, e eu aguardando a chegada do livro.

Meu Deus, como estou disperso hoje!

O Martin falou tudo sobre o livro, as impressões, os personagens, lembramos de partes da nossa viagem para Camaguey, fomos olhar a conversa de Isaar. Fiquei sabendo que o Marcelo Silveira, amigo da época do curso de Educação Artística, iria lançar um projeto novo, intitulado “Revista”. Caramba, o Recife é realmente uma cidade instigada.

Ficamos por ali, descemos, até que o Martin resolveu botar  uma pressão. Perguntou a uma vendedora pelo livro, ela disse que iria descer depois. Perguntou a outra, ela disse que já tinha chegado. Como eu conheço a fera, se não botassem o livro nas mãos dele, iria ter uma confusão, o gerente iria aparecer, em cinco minutos os livros estariam na gôndola de entrada.

Vai pra lá, vem pra cá, chega o Martin com o livro na mão.

“Rapaz, eu não me canso de ler essa orelha”.

Realmente, acho a orelha, escrita pelo Sérgio Buarque, uma pérola. Precisa, contida e elegante, como ele.

O Martin bota o livro na gôndola principal, logo na entrada. Adoro fazer isso com escritores que gosto. Tiro eles do limbo, de alguma prateleira lá do fundo, e levo para as gôndolas de entrada. Os best-sellers ficam putos.

Saímos, fomos bestamente por ali, e bastou atravessar a rua, para encontrar um casal lindo, que é Beth da Matta e Rafael Cortes, o Rafa. Estavam numa mesa grandinha e tanto. As irmãs de Beth e dois argentinos, que estão fazendo um documentário sobre os presidentes da América Latina, com a irmã de Beth, Diva da Matta. Sentamos. Eram oito pessoas na mesa. Oba, vem um bom papo por ai, foi o que pensei.

Nessas reviravoltas da vida, a Diva, que andava pela América Latina, estava lendo meu livro. Recebeu emprestado do Marcos Galindo, meu amigo até o osso. O Marcos é primo de Beth, apesar de Beth parecer mesmo é irmã de Stella, esposa de Galindo. Dei um livro de presente ao Marcos, logo que recebi meu primeiro lote.

Então, o diretor do filme, o argentino, perguntou se Martin era “Fidelista”.

Martin, que não é besta nem nada, disse que era. Diretor Argentino então teve um acesso de fúria verbal, começou a cantar loas e boas sobre Fidel Castro, Hugo Chaves, Evo Morales. Os homens só não são santos porque não morreram. Não lembro se ele falou do Correia, do Equador. Disse que a Michelleti, do Chile, é de “centro-direita”. Pelo que entendi, se ela é de centro-direita, não presta.

Eu não tive tempo nem de dizer um ai, quando o cara começou a falar mais alto, batendo na mesa. Eu não sou nenhum santo, mas tenho comigo umas heranças. Eu acho que mesa não é lugar para se bater. É coisa minha. Mesa é para compartilhar coisas, conversar, derramar cerveja, quando o parangolé foi longe. O cara começou a bater, dizendo que Hugo Chaves teve 70% de aprovação, justificando algo, acho que era o cerco à Imprensa de lá. Então soltou a pérola:

“Tenho Fidel, Hugo Chaves e Evo Morales  tatuados no meu coração”.

Olhei para o sujeito. Ele é jovem, diretor de um documentário, está viajando por toda a América Latina. Como pode, meu Deus, ser tão imbecil.

Eu dificilmente chamo uma pessoa de imbecil. Me perdoem, caros leitores, é o caso. Se ele tatuasse nos braços, nos ombros, na bunda, na perna, nas costas, tudo bem, mas… no coração!

Foi demais para minha humanidade, porque ela é outra. Minha humanidade está mais atenta é mesmo para o grupo de amigos do Poço da Panela, que semana passada salvaram um Flamboyant gigante, que seria arrancado inutilmente pela Prefeitura. Gostei mesmo foi da delicadeza da Diva, a irmã de Beth, a mesma linhagem educada, gentil, sutil.

Eu precisava sair dali rapidamente. Meus ouvidos aguentam somente uma carga de estupidez por dia. Beth, sempre ela, disse que iria à livraria, olhar o lançamento de Marcelo.

“Quero ir também”, disse logo, me despedindo da turma.

Saimos eu, Rafa e o clâ dos Da Matta.

Respirei fundo e fiquei pensando no documentário que o cara vai produzir.

Voltamos e o livro estava no mesmo lugar. Ficamos por ali, daqui a pouco chega o Martin. Nem ele aguentou Diretor Argentino.

Marcelo não apareceu. Vimos a nova obra dele. Fiquei sentado na mesa de autógrafos, em homenagem ao leitor desconhecido. Rafa queria ver o Sá Grama com o Naná Vasconcelos, no Santa Isabel, mas fiquei sabendo que a fila estava imensa, e estou ficando um velho para essas coisas. Antes de cair fora, combinei com Beth uns vinhos em sua casa, a mais tarde. Ela já desconfiava, claro, que eu não iria.

Saí caminhado com o Martin, atravessamos as pontes, lambendo a beleza noturna do Recife. Fomos conversando sobre a vida, os encontros, as pessoas. Na Rua da Imperatriz, dobrei à direita, ele seguiu.

Cheguei ao Princesa Isabel, os amigos estavam por lá. Ali sim, é outra humanidade. Robertilha veio todo animado. Tomei duas cervejas, anotei meio quilo de leseiras em meu caderno, Roberto já disse que “a mulher é a Marina”, e depois fui embora. Dia de quarta tem jogo na TV. Tenho que ir me acostumando, já que meu Santa Cruz só joga em janeiro.

Hoje de manhã, escrevendo este texto, dei uma olhadinha nos meus email. Um deles era inacreditável. A Patrícia, que tinha encontrado comigo e com o Martin, logo no começo de tudo, foi a que comprou o livro.

“Olá samarone, nos encontramos ontem no café da Cultura. Após falar contigo, desci e encontrei teu livro. O livro está localizado na entrada da livraria. Paguei e subi rapidinho para pegar aquela dedicatória prometida ao Clamor. Você e o Martintinham sumido. Não demorei nem 10 minutos”.

Não posso reproduzir o texto do email sem a autorização da Patricia. É lindo. Fala do livro, e fala de sí.

Ela é dessas pessoas que fazem parte desta minha outra humanidade, que não tatuam nada no coração, que não vociferam, não trazem chavões, que não querem vencer debates, bater nas mesas, apenas conversar, de preferência baixinho.

Sei que o coração dela deve bater todos os dias mais forte quando entram gestos miúdos mas irrevogáveis de respeito, ética, liberdade, beleza, perdão, esperança, essas coisas que fazem a vida florescer.

Para Patrícia Carvalho, 43 anos, advogada trabalhista, que presta assistência ao movimento sindical urbano, com afeto.

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