Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Só ontem entendi Proust

26 de agosto de 2009, às 12:20h por Samarone Lima

Foi ontem. Eu estava numa mesa do Delta Café, no Bairro do Recife (ops, Naire), quando chegou meu cappucino médio. Noitinha à beira do Capibaribe, temperatura ideal, pouca gente. Um jazz sobrenatural, nem alto nem baixo, deixava tudo calmo e bom, sem as ignorâncias musicais de outros lugares menos favorecidos, em tempos tão ignorantes.

Ao lado, na mesa redonda, meu caderno vermelho de anotações, com o escudo do Santa Cruz. A cena ficou completa com minha a edição nova, pela Editora 34, de “A Divina Comédia”, de Dante. Eu nunca pensei que esse livro fosse tão lindo, arrebatador, sempre achei Dante um nome muito volumoso, clássico demais para minhas inglórias literárias. “Voltei-me ao mar de toda compreensão”.

Tem um leitor meu, petulante pacas, que diz nos comentários frequentes, que poesia não serve pra nada. Que pena, ele nunca ouviu falar em salvação pela palavra, em redenção pela beleza, em transcendência pelo belo…

Pois bem. Dei a primeira golada. O cappucino estava cremoso, perfeito, fiquei sorvendo cada gota, sentindo na língua o amargo-doce. Fechei os olhos, fiquei sentindo aquela felicidade na língua e nos ouvidos. O jazz era perfeit0. Uma sensação de paz, de harmonia tomou conta de mim. Ah, como é bom viver…

Estava assim, nesse êxtase estético, espiritual, quando a garçonete chegou de repente.

“Desculpe, senhor, o seu pedido veio errado”, disse, pegando a xícara com uma rapidez incrível.

Ainda reagi:

“Mas… errado em que, moça?”

“Está sem canela!”.

Ainda balbuciei algo, tentei dizer que a canela não fazia falta alguma, mas quando pensei em falar, a xícara já estava em cima do balcão.

Fiquei sem reação. Tudo mudou nessa fração de segundos.

Ela atendeu outro pedido, e fiquei órfão momentâneo de uma alegria que prometia voltar.

Dois minutos depois, ela retorna, com meu cappucino. Olhei. Estava perfeito, sem a marca da minha boca na beirada. Tinha uns laivos de canela.

“Fizemos outro, senhor”.

Proveio o novo cappucino como quem sente que despertou de um sonho. Era outra coisa, outro sabor, outra textura, aroma. Neste momento, a música parou. Entrou algo espacial, pensei que o Dr Smith chegaria naquele instante pela porta principal.

Chamei a garçonete.

“Moça, você pode trazer aquele primeiro cappucino, que estava delicioso?”

Ela sorriu sem graça, como aquelas aeromoças da Gol, quando entregam uma barra de cereal e fingem que estão dando um pedaço de salmão com verduras.

“Ah, senhor, desculpe, mas a moça já jogou fora…”

Foi neste momento que finalmente entendi aquela lembrança apaixonada do Proust pela sua madeleine, a riqueza de detalhes com que ele fala de um pequeno prazer, que teve há muitos anos, e sua busca interminável pelo tempo perdido.

A alegria do cappucino não voltou, tomei outro para tentar o reencontro, mas era tarde.

Viva Marcel Proust, ora bolas!

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