Miró bota seu time em campo: A poesia
Samarone Lima

Miró é um cara que não precisa de sobrenome. Miró. Quatro letras e um mundo. O mundo da poesia.
Encontrei o velho marujo esta semana. O velho “poeta urbano” fazia 49 anos. Estava no Bar Mamulengo, de bobeira, tomando sua cerveja na hora do almoço, que é para ficar pensando melhor. Puxei logo meu bloquinho, porque não é todo dia que a gente encontra poeta dando sopa, celebrando mais um ano, vestido de branco e com aquele sorrisão amplo, de janela, da alma. Miró é aquele tipo de sujeito que a gente se afeiçoa de graça, quer saber sempre o que anda fazendo. É um homem que se emociona conversando, se levanta para bater na porta, quando algo é do caralho.
O homem está querendo dar um chega pra lá nas biritas exageradas, essa coisa de poeta urtbano+pinga, que já levou muitos antes do tempo. Comemora a aprovação do projeto “90 minutos com Miró”, com a Secretaria da Juventude. Vai a escolas conversar com a galera jovem sobre literatura, poesia, “o que sou, de onde vim, o que gosto de ler”. Poesia na hora. Uma oficina cheia de vida, para fazer a galera se chegar aos livros.
“Eu precisava de um trabalho para sair mais da periferia, para não ficar na birita direto. Não posso ficar nessa parada de só ficar bebendo na Muribeca”, diz.
Não, o homem não vai entrar nesse papo light, de que não vai mais beber. Quer somente reduzir as paradas, curtir mais o que faz, que é poesia, os recitais do homem são um show. A exemplo de Zé Brown, do Faces do Subúrbio, Miró quer chegar junto da galera da periferia. “Minha idéia é levar poesia, mostrar para a galera que eles podem também”.
Depois completa .
“”Quero trabalho, núcleos, colégios, despertar o gosto da literatura com os jovens. É o mesmo Ariano faz, só que diferente. Quero mostrar como nasce um poeta, um poema. Quero fazer isso em presídios, uma poesia presa para quem está livre, para lugares onde não se encontra poesia”.
Em 90 minutos, tempo de uma partida de futebol, Miró seduz, emociona, convoca, abre caminhos, cutuca. Ninguém fica de bobeira com esse cara recitando seus poemas, um ator que domina a cena, as palavras, as letras, o ritmo. Já tem poetas-seguidores que copiam o estilo inconfundível e teatral dele.
A história dele foi contada recentemente, no ótimo documentário “Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico”, dirigido por Wilson Freire, um cabra quente da produtora Cabra Quente, perdão pelo trocadilho infame. Para ver o documentário: (www.nacaocultural.pe.gov.br). É muito bom mesmo.
“Quero trabalhar, cara, quero trabalhar, trabalhar”, diz, batendo na mesa com a mão, coisa que faz quando se emociona, se empolga. O homem é um poço de sentimentos, se emociona com um poema, uma frase, com gestos, é uma força da natureza.
A poesia chegou para ele em 1985, quando tinha 25 anos. Trabalhava como servente na Sudene, fazia faxina na casa do artista plástico Mauricio Silva, comprava cigarro, uma coisa e outra. Começou a conhecer músicas que nunca ouvia, era um homem movido somente a Roberto Carlos. Pegou logo Milton Nascimento. Depois, ganhou um livro de Carlos Drummond de Andrade.
“Porra cara, pirei, cara. Endoidei. Como é que uma pessoa diz uma coisa dessa? Puta que o pariu, eu gritava dentro de casa. Minha mãe começou a perguntar se eu estava louco. Eu lia os poemas e gritava dentro do quarto. Eu não sabia que uma pessoa no mundo podia dizer aquelas coisas”.
Na época, Miró estava na fossa, por conta de uma mina. Fossa já é foda, imaginem fossa com o cara descobrindo a poesia.
“Ele dizia: Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo. Hoje beija, amanhã não beija. Hoje é domingo, segunda-feira. Ninguém sabe o que será. Sossegue, Carlos”.
Nascia ali o poeta Miró, que vai participar do concerto de abertura do Festival Literário “A Letra e a Voz”, dia 16 de agosto, no Teatro Santa Isabel. Ficou tão abalado, que nunca mais parou de ler e escrever. O autor de oito livros tem o dom da declamação. Arrebata platéias, mexe, emociona. Aprendeu isso com um professor de português, que botava a turma para ler em voz alta, e descobriu que ele tinha algo fundamental para a poesia – ritmo.
“Só vendo meus livros se eu falar. Se me deixarem falar, vendo 50 livros numa noite, num lugar com 15 pessoas”.
É a pura verdade.
Miró prepara mais um livro: “Confesso que também vivi”. São 50 cartas que escreveram para ele, ao longo dos últimos anos. “É uma biografia ao contrário”, diz o poeta, bebericando sua cervejinha. Claro que ainda está sem editora.
Ele mora com a mãe, dona Joaquina Cordeiro da Silva, de São Bento do Una. Tem 84 anos, mas não entende esse negócio de poesia do filho.
“Ela acha que não sou poeta. Uma vez ligaram para mim, queriam me dar uma força, pedi que comprasse 50 livros. Ela pediu. Perguntaram o que eu era. Ela cobriu o telefone e me perguntou – Meu filho, o que você é? Poeta, mãe, a senhora sabe que sou poeta. Poeta? Ah, tá…”
Miró acha que a mãe não entede a parada.
“Ela acha que poesia é amar os pássaros, as árvores. Para ela, o que eu faço, não é poesia. Nesse dia me doeu, mas… Ela tem todo o direito de saber que a poesia que eu faço não é poesia”.
Quando amanheceu o dia do seu aniversário, na Muribeca, três meninas foram acordá-lo.
“Miróóó… Parabéns”, gritaram.
Ele ganhou flores, cadernos e livros.
“Se você carregar um pouco de alegria, na canção da vida, já é uma coisa boa”, diz.
Vai, Miró, ser gauche na vida.
Para contratar o cara: poetamirodemuribeca@gmail.com
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