Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Miró bota seu time em campo: A poesia

9 de agosto de 2009, às 13:19h por Samarone Lima

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Miró é um cara que não precisa de sobrenome. Miró. Quatro letras e um mundo. O mundo da poesia.

Encontrei o velho marujo esta semana. O velho “poeta urbano” fazia 49 anos. Estava no Bar Mamulengo, de bobeira, tomando sua cerveja na hora do almoço, que é para ficar pensando melhor. Puxei logo meu bloquinho, porque não é todo dia que a gente encontra poeta dando sopa, celebrando mais um ano, vestido de branco e com aquele sorrisão amplo, de janela, da alma. Miró é aquele tipo de sujeito que a gente se afeiçoa de graça, quer saber sempre o que anda fazendo. É um homem que se emociona conversando, se levanta para bater na porta, quando algo é do caralho.

O homem está querendo dar um chega pra lá nas biritas exageradas, essa coisa de poeta urtbano+pinga, que já levou muitos antes do tempo. Comemora a aprovação do projeto “90 minutos com Miró”, com a Secretaria da Juventude. Vai a escolas conversar com a galera jovem sobre literatura, poesia, “o que sou, de onde vim, o que gosto de ler”. Poesia na hora. Uma oficina cheia de vida, para fazer a galera se chegar aos livros.

“Eu precisava de um trabalho para sair mais da periferia, para não ficar na birita direto. Não posso ficar nessa parada de só ficar bebendo na Muribeca”, diz.

Não, o homem não vai entrar nesse papo light, de que não vai mais beber. Quer somente reduzir as paradas, curtir mais o que faz, que é poesia, os recitais do homem são um show. A exemplo de Zé Brown, do Faces do Subúrbio, Miró quer chegar junto da galera da periferia. “Minha idéia é levar poesia, mostrar para a galera que eles podem também”.

Depois completa .

“”Quero trabalho, núcleos, colégios, despertar o gosto da literatura com os jovens. É o mesmo Ariano faz, só que diferente. Quero mostrar como nasce um poeta, um poema. Quero fazer isso em presídios, uma poesia presa para quem está livre, para lugares onde não se encontra poesia”.

Em 90 minutos, tempo de uma partida de futebol, Miró seduz, emociona, convoca, abre caminhos, cutuca. Ninguém fica de bobeira  com esse cara recitando seus poemas, um ator que domina a cena, as palavras, as letras, o ritmo. Já tem poetas-seguidores que copiam o estilo inconfundível e teatral dele.

A história dele foi contada recentemente, no ótimo documentário “Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico”, dirigido por Wilson Freire, um cabra quente da produtora Cabra Quente, perdão pelo trocadilho infame. Para ver o documentário: (www.nacaocultural.pe.gov.br). É muito bom mesmo.

“Quero trabalhar, cara, quero trabalhar, trabalhar”, diz, batendo na mesa com a mão, coisa que faz quando se emociona, se empolga. O homem é um poço de sentimentos, se emociona com um poema, uma frase, com gestos, é uma força da natureza.

A poesia chegou para ele em 1985, quando tinha 25 anos. Trabalhava como servente na Sudene, fazia faxina na casa do artista plástico Mauricio Silva, comprava cigarro, uma coisa e outra. Começou a conhecer músicas que nunca ouvia, era um homem movido somente a Roberto Carlos. Pegou logo Milton Nascimento. Depois, ganhou um livro de Carlos Drummond de Andrade.

“Porra cara, pirei, cara. Endoidei. Como é que uma pessoa diz uma coisa dessa? Puta que o pariu, eu gritava dentro de casa. Minha mãe  começou a perguntar se eu estava louco. Eu lia os poemas e gritava dentro do quarto. Eu não sabia que uma pessoa no mundo podia dizer aquelas coisas”.

Na época, Miró estava na fossa, por conta de uma mina. Fossa já é foda, imaginem fossa com o cara descobrindo a poesia.

“Ele dizia: Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo. Hoje beija, amanhã não beija. Hoje é domingo, segunda-feira. Ninguém sabe o que será. Sossegue, Carlos”.

Nascia ali o poeta Miró, que vai participar do concerto de abertura do Festival Literário “A Letra e a Voz”, dia 16 de agosto, no Teatro Santa Isabel. Ficou tão abalado, que nunca mais parou de ler e escrever. O autor de oito livros tem o dom da declamação. Arrebata platéias, mexe, emociona. Aprendeu isso com um professor de português, que botava a turma para ler em voz alta, e descobriu que ele tinha algo fundamental para a poesia – ritmo.

“Só vendo meus livros se eu falar. Se me deixarem falar, vendo 50 livros numa noite, num lugar com 15 pessoas”.

É a pura verdade.

Miró prepara mais um livro: “Confesso que também vivi”. São 50 cartas que escreveram para ele, ao longo dos últimos anos. “É uma biografia ao contrário”, diz o poeta, bebericando sua cervejinha. Claro que ainda está sem editora.

Ele mora com a mãe, dona Joaquina Cordeiro da Silva, de São Bento do Una. Tem 84 anos, mas não entende esse negócio de poesia do filho.

“Ela acha que não sou poeta. Uma vez ligaram para mim, queriam me dar uma força, pedi que comprasse 50 livros. Ela pediu. Perguntaram o que eu era. Ela cobriu o telefone e me perguntou – Meu filho, o que você é? Poeta, mãe, a senhora sabe que sou poeta. Poeta? Ah, tá…”

Miró  acha que a mãe não entede a parada.

“Ela acha que poesia é amar os pássaros, as árvores. Para ela, o que eu faço, não é poesia. Nesse dia me doeu, mas… Ela tem todo o direito de saber que a poesia que eu faço não é poesia”.

Quando amanheceu o dia do seu aniversário, na Muribeca, três meninas foram acordá-lo.

“Miróóó… Parabéns”, gritaram.

Ele ganhou flores, cadernos e livros.

“Se você carregar um pouco de alegria, na canção da vida, já é uma coisa boa”, diz.

Vai, Miró, ser gauche na vida.

Para contratar o cara: poetamirodemuribeca@gmail.com

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Uma noite inesquecível

6 de agosto de 2009, às 12:48h por Samarone Lima

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Já lancei alguns livros. “Zé” foi o primeiro, em 1998. Eu tinha 29 anos, morava em Sampa, foi bacana, teve até leitura dramatizada de alguns trechos, com três atores fabulosos. Deu tudo certo, mas errei no bar, que era meio chique, não sei onde eu estava com a cabeça. O mesmo livro foi lançado no Recife, no Espaço Pasárgada, onde hoje, por ironia, eu trabalho. Quem apresentou o livro foi o José Paulo Cavalcanti, ladeado pelo Fernando Lyra. Meu pai até foi para essa parada. Tia Flocely estava viva, tenho uma foto dela me abraçando aqui no mural. Eu usava cabelo curtíssimo e tinha o mau hábito de aparar a barba. Horrível.

Depois veio Clamor, em 2003. Eu era dono de bar (o lendário La Prensa), e foi legal, porque não precisaria me preocupar com o retorno para casa. Eu dormia no primeiro andar do recinto, e nessa época os bafômetros eram objetos de decoração dos polícia. Os amigos do Poço compareceram em massa e beberam em massa também. Quase o bar quebra com a presença de Naná, Davi, Walter etc.

Só teve lançamento mesmo no bar, porque a Objetiva trabalhava pra valer era na divulgação. Saiu uma penca de boas matérias sobre o livro.

Depois veio Estuário, em 2006, que entrou no folclore dos amigos. Fiz um  pequeno lote, pela Livro Rápido de Tarcisio, e quando cheguei com o lote na Bienal do Livro, tinha uma bela fila. Em cinco minutos, acabou tudo, e o povo foi chegando, para comprar mais.

“Acabou”, respondi, com essa cara de donzelo.

Os amigos riram à beça. Depois, Ricardo Melo botou moral, levou para a Bagaço, e saiu uma nova edição, com 300 exemplares. Eu continuava dono de bar. Relancei no Garrafus. Vendeu bem, e deixei de ser vacilão. Deste episódio, lembro do Walmir Chagas, ou o “Véio Mangaba”. Ele chegou tarde, acompanhado de Charuto (ele sempre anda com Charuto do lado), bebeu uma cerveja, pegou o autógrafo no livro e foi embora, sem pagar nem uma coisa, nem outra.

Sobre os lançamentos de “A Cabeça do Futebol”, que ajudei a editar, não posso falar, porque daria outro livro – o “Livro dos lançamentos não lançados”.

Ontem, teve um capítulo novo e inesquecível. O lançamento do livro Viagem ao Crepúsculo, no Bar Mamulengo, no Recife Antigo.

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Faz tempo que não via tanta gente bacana no mesmo lugar. Pessoas de tamanho, largura, cor, profundidade os mais variados. Gente que eu não via há tempos, como Pabá, o velho amigo da Casa do Estudante. Ou meu primo Ulisses Viana, ou “Dr Ulisses”, já que o homem é juiz, mas eu o entendo mesmo como “Ulissinho”, desde a primeira vez que vim ao Recife, acho que em 1985. Ou as fieis amigas de longa jornada, como Andréa Ferraz, que estava em São Paulo, na defesa do meu mestrado, ou Emília Miranda, que ilumina todo lugar com aquele sorriso imenso. Como em todo bom encontro, tiramos uma foto dos três juntos.

Pelos meus cálculos, umas três gerações circularam pelo bar, à procura do livro. De velhos comunistas a ex-exilados, passando por adolescentes e a pequena Lulu, que quando era pequena, dizia que iria casar comigo, mas ontem achou uma péssima idéia. Velhos e novos leitores, muitos que eu não conhecia, outros que já fazem parte do meu grupo afetivo, como Kika e sua adorável família. Registro em ata a ausência do onipresente Naná, que estava trabalhando. A Confraria dos Amigos do Poço foi representada por Diaz Epan Nunes e Oswaldo Titio. O velho Inácio não entrou em campo, preocupado com a tosse do pequeno Bruno, falta justificada vale. Além disso, Inácio foi um dos principais leitores, tem agradecimento no livro, ele iria mais pela farra mesmo, melhor cuidar do Bruno, grande tricolor.

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O que tornou a noite inesquecível foi o clima. O encontro das pessoas, a conversa, ao som de uma ótima música cubana, alguns mojitos e outros birinaites. Estava lá, a queridíssima Edla Soares, nossa inesquecível secretária de Educação, ladeada pela valente Damaris e Costa, que comandam a Escola Municipal Nilo Pereira. Antecipei que hoje devemos fechar o aluguel de uma casa, para nossa Biblioteca Comunitária do Poço da Panela.

Alguns ex-alunos da Kabum! me deram a alegria de uma mesa jovem. Rayane segue firme na Escola Cícero Dias e agora cursa Psicologia. Outros ex-alunos, que agora fazem um barulho bom na Imprensa, como o Magro Valadares, Kaká etc. Flávia Suassuna, que deu o nome ao livro, chegou com seu filho, que tem um sorriso tão doce que a gente fica mole. Homero Fonseca, um dos primeiros leitores, chegou junto. Nem acreditei quando Bebeth chegou com o queridíssimo Cyro, foi um presente ver aqueles cabelos brancos repletos de uma sabedoria cósmica.

Ficaria aqui um dia inteiro listando pessoas, criaturas, lembrando cenas, palavras, confissões. Alguns já leram, me disseram coisas ao pé da orelha, frases animadoras. Outros olharam, cheiraram, levaram pra casa, vem a hora da primeira leitura, o mergulho no coração do povo cubano.

A noite completou com a chegada do Martin, que é um dos personagens principais do livro. Esqueceu de levar os charutos para vender, mas tudo bem. Conversamos. Pela graça divina, as coisas que relatei no livro condizem com o que vivemos naqueles dias intensos em Havana e Camaguey.

Foi uma noite inesquecível mesmo. Irretocável. A chuva veio para lavar tudo. Nem tive tempo de reparar no eclipse. Acho que esse foi oculto, ra ra ra. Dessas noites que a gente bota no caderninho da memória e lembra com alegria. Se a editora quiser fazer outros lançamentos, terá que penar um pouco, para achar um lugar aconchegante como o Bar Mamulengo. Vou pedir para levar esse mesmo povo de ontem, para o clima ficar perfeito. A gente vai tudo num ônibus fretado para São Paulo ou Rio.

O livro continuará sendo vendido no Mamulengo, já que Moura ampliou a mini-livraria que já funcionava bem. Dizem que já chegou à Livraria Cultura, não sei. Hoje passo na Poty, para deixar em consignação com o Felipe. A Poty fica na Conde da Boa Vista, é uma excelente livraria.

Alguns agradecimentos:

Íntegra Assessoria (Ana e Flavinha)

Thiago Correia (Diário de Pernambuco)

João Alberto (Diário)

Roberta Jungman (Jornal do Commercio)

Schneider Carpeggiani (JC)

Alexandre Belém (JC, autor da foto mostrando a minha desarrumação, que causou piadas a noite inteira)

Samir Habou Hana (TVU)

Mônica Melo (Folha de Pernambuco)

Moura (Bar Mamulengo)

Tentarei postar uma foto, mas pode ser apenas uma lêndia, uma fricção.

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Última chamada

4 de agosto de 2009, às 18:03h por Samarone Lima

Aproveito as poucas horas livres até o lançamento de “Viagem ao Crepúsculo” para convidar os amigos e leitores para um encontro amanhã, às 19h, no Bar Mamulengo. Fica na Praça do Arsenal, Recife Antigo.

Sei que estou meio monotemático esta semana, mas caramba, estou trabalhando neste livro desde janeiro do ano passado!

Depois de um ano e seis meses, é hora de celebrar com os amigos este novo livro.

Já confirmaram presença: Emilia, César Maia, Naná, Davi, Boy, Bebeth e Flávia Suassuna.

Além disso: Júlio Vilanova, Mauro Cultura e Sérgio Buarque.

Bem, Sérgio tinha que ir, porque escreveu a orelha do livro.

E o Martin, um dos personagens principais do livro, chegou domingo passado de Cuba. Vai para o lançamento com uma caixa de charutos Cohiba, um dos melhores, para vender e levantar uma grana (R$ 25,00 a unidade). O charuto é bom pacas.

Então, amanhã teremos livro sobre cuba, música cubana, charuto cubano, uma entradinha cubana. Pena que não sei por onde anda o amigo Cubanacan. Ele iria adorar a festa.

Uma ternurinha para vocês.

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Deixem nossas árvores em paz!

4 de agosto de 2009, às 12:11h por Samarone Lima

Estou aqui, acertando os últimos detalhes para o lançamento do meu livro “Viagem ao Crepúsculo”, amanhã, quando recebo um telefonema dos meus amigos do Poço da Panela.

“Querem derrubar nossas árvores!”.

Pois bem. A Prefeitura do Recife quer construir uma praça num terreno que foi doado, e pretende começar assim – derrubando todas as árvores do entorno.  Meus amigos estão todos lá, protestando, tentando salvar pelo menos um belíssimo flamboyant.

De um lado, meus amigos, sob a batuta de Walter Barba, Clarissa etc. Luzilá já foi por lá também.

Peço à Prefeitura que encontre uma forma inteligente de fazer uma praça respeitando as árvores que tornam o Poço da Panela um lugar especial nesta cidade. Tão especial, que a comunidade se mobiliza para salvar árvores e pretende fazer uma biblioteca comunitária.

Como é que se derruba um flamboyant sem pensar ao menos duas vezes?

Não acredito que uma cidade se sustente sem árvores e livros.

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