Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Reflexões inúteis sobre os saquinhos de supermercado

30 de setembro de 2009, às 14:49h por Samarone Lima

Estava em Petrolina, num hotel meia boca que não tinha o controle remoto da TV, esperando algum jogo no canal da Sportv (nunca botarei um negócio desse em casa, é um perigo), quando entrou uma propaganda de uma Ong, uma dessas ONG / Multinacional, creio. A propaganda, bem feita pacas, descia a lenha nos saquinhos de plástico de supermercado, com imagens tocantes, numa delas os saquinhos viravam uma bola de futebol. Quem sofreu a falta de uma mísera bola de verdade sabe como é importante.

Pois o comercial dos sacos não me tocou nada, eu achei um saco foi, desculpem o trocadilho infame. Os saquinhos de supermercado agora parecem ser a salvação ou perdição da humanidade.

Outro dia fui entrando no Bompreço, um dos maiores supermercados daqui, e esbarrei num carrinho de supermercado (hoje estou repetitivo pacas), cheio de saco cheio até a tampa. Um cartaz dizia que eu gasto por ano 880 saquinhos de supermercando. Mais adiante, num stand, sacolinhas de pano para o sujeito comprar. O capital não brinca.

Pois eu acho um saco quando essa onda politicamente correta fica enchendo a paciência da gente até num quarto de hotel meia boca, em Petrolina, enquanto o sujeito espera os gols da Série B.

Primeiro, porque desde que me entendo por gente, os saquinhos de supermercado são usados para botar botar lixo, seja na cozinha ou no wc, sempre ficam pendurados sem trinco da porta da cozinha, do quarto da empregada (ops, é incorreto dizer empregada, O certo é “do quarto da secretária”). Nunca vi minha santa mãe, uma gloriosa Dona Ermira, juntar um moi de saquinhos e jogar em rios, córregos ou no mar, para atrapalhar a merenda das tartarugas ou uma desova dos peixes, na piracema.

Os saquinhos para embalar chuteiras também servem, quando o sujeito vai para uma pelada no domingo, que é o meu caso. É num saquinho de supermercadao que a gente coloca o tapawer que vai levar para o trabalho, ou à saída de um jantar bacana. É num saquinho que a gente enrola o rádio, em dia de jogo no estádio. Além disso, nunca contaram meus saquinhos anuais, para esfregar na cara os 880.

Confesso que estou fazendo minha parte faz tempo. Sempre levo minha sacola vazia às costas, e sempre dispenso um bom lote de saquinhos – até porque nunca confiei neles para colocar o vinho, o azeite, essas coisas da minha cesta básica. Sempre achei mais confortável levar o grosso das compras numa boa mochila, às costas, do que sair me arrastando com 15 sacos fazem em cada mão, como as criaturas média e larga idade, a ponto de levar um baque.

Mas a verdade é que vou começando a ficar desgostoso. Quanto mais gente vai usando os saquinhos de pano, quanto mais propaganda e esse jogo de culpa, mais tenho medo que daqui a alguns dias os supermercados tomem uma iniciativa de tirar os sacos plásticos, porque estamos acabando com o planeta aqui no Recife. Vai chegar aquele gerente cabuloso, com o celular pendurado no cinturão, e a informação em sol sustenido:

“Senhor, por questão de consciência ecológica, estamos vendendo os saquinhos. Dez é um real”.

Assim mesmo. Dez é um real.

Eu vou pensar e repetir comigo:

“Bem feito, bem feito, bem feito, Samarone, quem manda você ser um maria vai com as outras?”

Semana que vem, vou reclamar com dona Maria, que faz uma faxina lá de casa. Ela tem colocado dois saquinhos de plástico no balde da cozinha, destinado aos produtos orgânicos. Um estrago, um exagero, falta de consciência completa. Cada saquinho desse, já se sabe, é um tamanduá-bandeira é a menos futucando os formigueiros. Basta um saquinho, que é para sair pingando no corredor, na hora de colocar o lixo pra fora. Como dizem nos comerciais, o planeta agradece.

ps. não sei o que há com esse wordpress, que fica mudando as palavras, estou gastando mais tempo corrigindo os erros que escrevendo. Se ainda tiver texto errado ai, desculpem, não é analfabetismo, é algo no estuario.com que não sei explicar.

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Mancadas, vacilos, traquinagens e inutilidades. Minha coleção de besteiras.

24 de setembro de 2009, às 16:51h por Samarone Lima

Acabei de receber um belo esporro do Magro Valadares.

“Fico puto quando entro e não tem nada. É como se eu fosse lesado. Quase eu ligava pra tu, para dar uma esculhambação”.

Disse a ele que estava numa crise criativa, me faltava um assunto, um tema para desenvolver, pedi ajuda, mas ele, o Magro, com aquela delicadeza peculiar, respondeu:

“Sei lá de tema, porra. Eu quero entrar e ter algo novo”.

Glub.

“Vou botar minha biografia comentada. As principais gafes e mancadas”.

“Manda. Vai ficar bom”.

Como a coleção é grande, terei que fazer um recorte. Lembro que uma vez, na redação do Diário Popular, uma amiga minha, Camila, vinha sofrendo com a doença do avô, figura queridíssima. Um belo dia, a Camila viajou. O avô piorou. Na segunda-feira, alguém me disse, na redação:

“Olha, o avô da Camila morreu, ela deve estar péssima”.

Segui para o cafezinho, o melhor lugar de qualquer redação. Quando dobrei o corredor, esbarro na Camila.

“Oi Camila, deu zebra com teu avô, né?” – foi o que comentei.

A Camila me olhou com os olhos marejados e disse:

“É”.

O Josmar (Calma Valente!), que estava ao meu lado, ficou branco. Esperou a Camila sair e comentou.

“Valente, como é que tu diz um negócio desses com a morte do avô da menina?”

Putz, que mancada, foi o que pensei. Mais uma para minha coleção. Fiquei sem graça mesmo, nem puxei mais assunto com a Camila. Fui remediar minha gafe no famoso Mutamba, bar que ficava ao lado da redação, o que de fato é uma coisa perigosíssima.

No dia seguinte, a Camila veio vestida com uma camisa listrada, igual a uma zebra.

“Valente, acho que a Camila está soltando uma indireta pra tu”, completou o Josmar.

Depois, a encontrei no Café.

“Botei essa camisa lembrando de tu, Sama”, disse a Camila. “Foi o jeito mais leve que alguém falou da morte do meu avô”.

Glub. A mancada que deu certo.

Outra vez eu estacionei no shopping, e vi uma mulher estacionar na vaga dos deficientes. Armado de minha tradicional mania de brigar pelas coisas miúdas, fui logo reclamando:

“Olher, a senhora não está vendo que a vaga é destinada aos deficientes, não vê que é proibido ocupar o lugar?”

A mulher abriu a porta e desceu. Estava com uma barriga de nove meses, a ponto de o menino nascer ali mesmo.

“É que estou grávida e era a única vaga disponível, e o senhor é muito grosso”.

Glub. Ainda tentei maquinar um argumento fajuto, de que gravidez não é deficiência, mas a emenda ficaria pior que o soneto, deixei pra lá.

Lembrei agora de outra. Era meu primeiro dia como repórter do Diário Popular, depois de um ano e meio na geladeira, só com frilas, sem descolar nada. Foi o Inácio quem me indicou para a vaga. Liguei para uma delegacia, comecei a falar com a delegada, lá pelas tantas, ela perguntou:

“Sim, mas você é de onde?”

Como eu pensei que ela estava reparando no meu sotaque, respondi na bucha:

“Do Ceará”.

“Não, meu filho, quero saber onde você trabalha…”

“”Ah, sim, sou do Diário Popular”.

O Josmar Valente, que estava ao meu lado, estourou numa gargalhada. Em cinco minutos, a redação inteira sabia da história do “reporter do Ceará”.

À noitinha, já saindo da redação, entrei no elevador com uma gordinha, editora de Economia. Eu e ela sozinhos no elevador. Aquela cena clássica de tentar comentar algo. Ela começou a rir baixinho, depois não se aguentou, caiu na gargalhada. Eu sem entender nada. Lá pelas tantas ela confessou:

“Desculpe, mas você é o… o repórter do Ceará?”

Ora bolas.

Acabo de lembrar de outra. Minha primeira viagem de avião. Eu tinha uns 20 anos, creio, e foi um trabalho para o Núcleo de Estudos Indigenistas (NEI), da UFPE. Iria trabalhar com índios do Norte da Amazônia. Eu nunca tinha viajado de avião, um medo terrível. Na hora que a máquina aterrisa, vejo a turbia se mexendo. Uma peça está caindo, foi o que pensei. Peguei a máquina fotográfica e, num átimo, resolvi tirar uma foto:

“Vou tirar a última foto do avião, antes da explosão”.

Tratava-se de uma besteira de proporções bíblicas. Se o avião iria explodir, como é que a máquina de fotografia iria escapar?”

Tirei a foto e esperei a morte. Não lembro se rezei. Nessas horas, todo mundo reza ou chama pela mãe, ou diz “ai meu Deus”.

Depois um amigo que viajava comigo explicou que aquele movimento da turbina era normal, ajudava a frear o avião, antes de ele bater numa esquina ou atropelar alguém.

Vou ver se escrevo depois sobre minhas traquinagens. Outro dia, me hospedei em um albergue de Salvador com meu amigo, o Gustavo. Na hora de preencher o formulário, botamos nomes de escritores que gostamos: Roberto Juarroz e Antônio Porchia. O sujeito da recepção não pediu as identidades, e ficou por isso mesmo.

De traquinagem sou bom pacas. Posso não ter um intelecto muito bem amestrado, mas traquinagem é comigo mesmo. Gosto muito de esconder as coisas. Uma vez, numa das aulas de linguística do NEI, escondi a sandália da mestra, Adair Palácio, que saudade. Depois esqueci onde botei, ficamos um tempão procurando.

O que mais me dói, mesmo, é não conseguir enganar meus amigos ao telefone. Deve ser ótimo dar trote nos amigos. Posso fazer uma voz fininha, dizendo que a pessoa ganhou um prêmio, que escuto logo:

“Samarone, deixa de tua cornura”.

E meu recorde pessoal de andar numa calçada de olhos fechados é 44 passos. Mas tem que ser aquelas calçadas com os bilotinhos no chão, para sentir quando estou perdendo o rumo. Em calçada comum isso é perigoso.

Um dia fiquei jogando pedacinhos de chiclete nos cabelos do meu primo. Quando ele viu, ficou uma fera. Ele hoje é de um cargo alto no Banco do Brasil, em Brasília, tomara que já tenha esquecido.

E não sei porque cargas d´água uma vez inventei de levar um saca-rolha pra o colégio, acho que era o Salesiano, de Fortaleza. Comecei a furar a cadeira de baixo para cima. O colega ao lado achou legal, fez o mesmo. Quando já estávamos com nove carteiras furadas, o professor descobriu.

Fomos à coordenação.

“De quem foi essa idéia genial?”, perguntou o coordenador.

Ato contínuo, todos se viraram para mim.

“Só podia ser”, completou. “Só podia ser”.

Acho que peguei uns três dias de suspensão.

Aê, Magro, espero que tenha dado para o gasto.

Nota:

Quem quiser alugar ou comprar o Viagem ao Crepúsculo pela Internet, surgiu uma novidade em Pernambuco: www.aluguebooks.br30.com. O livro está à venda também no Bar Mamulengo, Livraria Cultura, Vozes e Universitária.

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Cada um navega a seu tempo, já diz o bom Nelson

16 de setembro de 2009, às 16:34h por Samarone Lima

Estava cansado, sem inspiração para escrever, pensando em umas férias do Estuário, já que eu vivo escrevendo sem trégua, mas olhando os jornais de hoje descobri que tem gente que também gosta de andar devagar, então ganhei o texto de hoje, vou me safando como posso.

Está na página A-9 do Diário de Pernambuco, a matéria de Ana Paula Santos. Mostra o casal Lucidalva Silva dos Santos Mattos, cearense, e Nelson Mattos, Potiguar. Eles têm um barco, o “Avoante 1″, que vai disputar uma Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha. A competição pode ser linda, mas o nome é horrível – “Refeno”. Parece que refém come feno.

Para ganhar, o barco tem que percorrer 300 milhas náuticas (não sei quantos quilômetros isso dá), no menor tempo possivel. O recordista da prova é o barco “Adrenalina Pura”, da Bahia, que em 2007 percorreu a distância supracitada em 14h34min54s.

Também pudera, um barco intitulado “Adrenalina Pura” …

Pois bem, voltemos ao Avoante 1. Lucidalva e Nelson, ano passado, completaram o trajeto em 58 horas (não informaram os segundos e minutos). Gastaram 44 horas a mais que os baianos apressadinhos. Foram a penúltima embarcação a cruzar a linha de chegada, quando uma turma do “Pura Adrenalina” já estava cheia possivelmente dos aperitivos, comemorando o título. Pela demora, o Avoante 1 ganhou o Troféu Tartaruga, que é dado para uma embarcação que chega em penúltimo lugar.

Certas coisas eu não entendo. Na minha cabeça, o Troféu Tartaruga Deveria ser entregue para quem chega em último, mas como desconheço os métodos e regras do mundo náutico, o máximo que pilotei foi alguma canoa na época que viajei para a Amazônia, já faz tempo. Nem caiaque eu me equilibro bem, apesar de nadar com estilo os quatro estilos, me perdoem a redundância. Mas a regra é penúltimo em chegar, e o Avoante 1 chegou, é o que conta.

Este ano, o Refeno (eita negócio feio!) Já tem 107 barcos inscritos, entre, o Avoante 1, que vai buscar o bicampeonato da Lentidão.

Olhei há pouco uma foto tirada pelo Roberto Fernandes, do Diário. Lucidalva e Nelson parecem estar mesmo é curtindo a vida. Pensem num casal sem aperreio. Ele segura o leme (acho que é o leme, se não for, perdoem, é aquela direção gigante do barco), está sem chinelos, ela está com uma camisetinha curta, bem bronzeada e com aquele sorriso maroto da Monalisa.

“Sabemos o nosso potencial e cada um navega a seu tempo. O nosso é bem devagar”, diz Nelson.

Ah, meus amigos, pois vocês são do meu tempo. Essa pressa sem fim é que está estragando o mundo. Até em portão de colégio a turma quer brigar para sair primeiro. Se eu tivesse uma folguinha, iria até a Bacia do Cabanga Iate Clube, para pegar um bigu. Imagine ver o nervosismo dos competidores, uma agonia para uma partida, para chegar em 14 horas a Fernando de Noronha, quando dá para fazer isso tranquilamente em 58 horas, até 60, no caso de aparecer uma boa banguela.

Eu iria no Avoante 1, conversando umas besteiras, olhando a paisagem e sentindo aquela brisa boa.

“A minha disputa é mesmo com os mais lentos”, diz o velho marujo. Isso é que é uma frase importante neste começo de século.

Agorinha me chegou aos ouvidos aquela canção:

“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”.

Vou por aqui.

Nota:

Acabei de reler o texto que publiquei ontem. Fiz a revisão, mas não conferi a nova versão, por pura falta de paciência. Hoje, fui ver, tinha tinha uns 23 erros, uma coisa pavorosa. Graças a deus o bom Gylson percebeu. É o que dá o sujeito dizer que quer ir devagar, aquela lorota toda, e não ter paciência para revisar tudo com calma. O texto saiu num ritmo contrário ao do Avoante 1. Prova cabal que o ser humano é um poço de contradições. Confesso que estava também querendo usar a palavra “cabal” e não estava encaixando. Agora sim, posso começar  o dia. Voilá.

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Quando o que a gente escreve vira vida

10 de setembro de 2009, às 11:47h por Samarone Lima

Foi ontem à noitinha. Marquei um papo no Princesa Isabel com o Martin, meu amigo, que abriu os caminhos naquela Havana ainda desconhecida, entre o final de 2007 e o início de 2008. Ele, que mora lá há alguns anos, me apresentou os principais personagens do meu livro, o Viagem ao Crepúsculo, recém lançado. Eu tinha que apresentar um de meus bares, claro. Princesa Isabel, ao lado do trabalho, e Seu Vital, perto de todas as boas lembranças, lar seguro do meu velho amigo Naná.

Sábado, o Martin volta Cuba, para dar tratos ao curso de Medicina. Vai para o quito ano. Como amanhã viajo para Tabira, no Sertão do Pajeú, era última chance de acertarmos umas coisas. Ele me levaria uma caixa de charutos vazia, eu veria o que levar para Celeste, a personagem principal do livro. Celeste é o nome que dei a ela, já que não podia botar o nome real dos cubanos que conheci. Precisava de um nome bem bonito, achei Celeste a cara dela. Esse meu namoro com as palavras tem disso. Celeste. Relativo ao céu, ou que se avista. Ou está nele. Sei que Celeste não está propriamente no céu, mas na minha constelação, ela está.

Martin me deu a caixa vazia de charutos. Não se preocupem. Sou um colecionador de coisas sem muita vantagem. Máquina de datilografia tenho sete (vou receber outra esses dias, em troca de umas fotos que não são minhas), caixa de madeira tenho umas quatro, fotos da família tenho uma penca, fora os cadernos, cadernetas, caderninhos e umas cinco canetas-tinteiro pifadas.

Peguei a caixa de madeira, abri, cheirei, estava perfeita, quadradinha como eu imaginava. Pedi a Brahma que gosto e vi que Robertilha, digo, Gomes, não estava. O papo ficou por ali, naquelas besteiras fundamentais, nada de muito esforço com os assuntos, aperreio desnecessário. Na TV, aquele barrigudo chato e grosso do Datena mamava na desgraça alheia. Quanto pior a tragédia, mais ele baba. Não sei por que seu Azevedo gosta tanto daquela desgraça.

Até que chegou o Edinho.

Edinho é habitué do Princesa, o bom falante. Foi o único representante da velha guarda do Princesa que foi ao lançamento. Não sei o motivo, mas comprou dois exemplares e leu de cabo a rabo. Outro dia se pegou a me falar do livro com tantos detalhes, que parecia saber das históris melhor do que eu. Se encantou com Celeste. Minto. Não foi encanto. Ele se emocionou com ela. É impossível não se encantar com ela, mas alguns se emocionam.

Quando apresentei o Martin a Edinho, ele se emocionou. Abriu um sorriso largo, parecia ter encontrado um velho amigo. Novamente, passou a falar do livro, de Celeste. Emoção de verdade, de dar alegria a quem escreve. Os personagens que encontrei em Havana de repente estavam num boteco do centro do Recife, tomando uma Brahma comigo, enquanto a TV exibia um gorducho boçal, e sua coleção de crimes.

Depois seguimos com nossa Brahma, Edinho foi conversar outras lotoras. Numa hora, saiu para fumar na calçada. Conversei com ele, disse que estava vendo alguma ajuda para Celeste, que segue sua vida em Havana, vendendo coisas no mercado negro. Pensava em comprar umas roupas, uns colares, que ela é danada para vender coisas.

Edinho quase não falou nada. Meteu a mão no bolso e tirou uma nota de R$ 100,00. Fazia era tempo que eu não via aquela verdinha.

“Isso é para ajudar Celeste”, disse. “Essa mulher é sensacional”.

Voltei para a mesa, entreguei ao Martin, que arregalou os olhos.

A única coisa que me ocorreu foi isso. Há um momento precioso nisso de escrever, de contar histórias, de lutar com as palavras. 

É quando o que a gente escreve vira vida.

Para o Edinho, claro.

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O tio e o jerimum

7 de setembro de 2009, às 4:26h por Samarone Lima

Sem muita inspiração, neste domingo véspera de feriado, já chegando o 7 de Setembro, resta me lembrar que só desfilei uma vez, na época em que estudava no Colégio 7 de Setembro, em Fortaleza, me perdoem a redundância. Não sei por qual motivo, mas desfilei com o meu quimono do karatê, com a belíssima faixa branca, significando que o sujeito não sabe sequer o que é levar um sopapo direito.

Segui a carreira até a faixa laranja, mas achei que o karatê era um esporte que exigia muita precisão e dedicação, e precisão corporal não é o meu forte. Além disso, um pé no focinho, dado pelo adversário, pode doer pacas. Mas fica um registro histórico – ganhei um torneio com toda a turma, numa disputa interminável do Primeiro Katar. Eu sei poucas coisas na vida, mas o Primeiro Katar eu domino bem.

Cheguei a ser maratonista, mas a mudança de Fortaleza para o Recife esculhambou minha carreira esportiva, o Neto sabe disso, porque corria quilômetros na Leste-Oeste comigo. Hoje me contento com minhas duas ou três peladas semanais, principalmente a dos Caducos, aos domingos, de 6h às 9h.

No ano seguinte (falo do desfile), creio, fazia parte de uma turma que iria desfilar no mesmo 7 de Setembro, mas tentei surrupiar a corneta, deu errado, o professor ficou chateadíssimo comigo, claro, e fui banido do desfile. No final do ano fui gentilmente convidado a mudar de colégio, coisa que minha família, pela graça divina, nunca soube. De lá do 7 de Setembro, fui para o Positivo, onde nada era bom, a ponto de não lembrar de nenhum colega de classe. Terminei meus litígios estudantís no Colégio Rui Barbosa, que já nem existe mais. O professor (falo do caso da corneta), salvo engano, era o Peninha, e nunca consegui pedir desculpas, foi mal, Peninha. Um dia ainda vou escrever sobre minha vida estudantil, porque estudei numa penca de escolas, em vários estados.

Estava nesses delírios literários-afetivos sobre a nossa data cívica, quando lembrei do tio Ademar, o famoso Careca, irmão do meu pai, que passou uns dias no Recife. Meu próximo livro vai ser a história de tio Ademar, quem morou no Crato nos anos 1970, sabe quem foi a fera.

Encontrei tio Ademar, sua filha Júlia, que é minha prima, e os três filhos de Júlia. O encontro foi no TIP, a rodoviária do Recife, porque minha agenda não bateu com a do tio, uma pena. Rapaz, hoje minhas idéias estão todas desaprumadas, e quando ensinava na universidade, eu ficava cobrando coerência no texto dos alunos…

Depois que ele embarcou, Júlia me contou um episódio e tanto.

Certo dia, tio Ademar foi a um supermercado em Rio Doce e catou um pedaço de jerimum, para botar no feijão. Só a escolha do jerimun deve ter levado uns 45 minutos. Tio foi pagar, mas o camarada do caixa disse que aquele pedaço não estava bom. Pediu a um rapaz para pegar outro, mas ficou todo aperreado porque o funcionário começou a demorar.

Do alto de sua sabedoria milenar, Tio Ademar se escorou no balcão e disse:

“Ô mago, diga ao rapaz que não tem essa pressa toda não, porque esse jerimum é só para o almoço de amanhã”.

Isso sim, é que é um grande tio.

Até terça.

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