Sonhos
Samarone Lima
Sou da teoria que a gente tem os amigos que merece. Neste quesito, sou um felizardo, porque é cada lapa…
Já conversei várias vezes sobre esse negócio de ganhar na Mega Sena. Antigamente, o sonho geral era de ganhar na Loteca, fazer os 13 pontos, acompanhanando os jogos do domingo pelo rádio. Agora é Mega. Tudo é mega. Ninguém quer sonhar de um tamanho razoável. É logo o Maracanã inteiro.
Meus amigos são meio fora dos padrões, e por isso gosto deles. Sondei alguns sobre a possibilidade de ganhar na Mega Sena. Giba, por exemplo, o Gilberto Lins e Silva, mais branco que todos os suecos do planeta, pegaria o dinheiro e tomaria uma providência fundamental – mandaria construir uma baita biblioteca em seu banheiro.
“É que eu leio tudo, Samarone. No troninho, se não tiver nada, fico lendo a parte de trás do shampoo, vendo a fórmula química, os componentes”.
Confesso que já fiz isso algumas vezes. É quando não resta opção nenhuma de leitura ao troninho. Já li também a composição química de creme rinse e daquele bagulho para chacoalhar entre os dentes e matar as bactérias todas. Não guardei nada. Sei apenas que estava lendo algo. O sonho da bibliteca gigante no banheiro é realmente muito bacana.
Gildázio, pelo amor de Deus, sonha em comprar um Gurgel. Alô, amigos leitores, quem tiver um Gurgel à venda, favor anunciar aqui, porque o Gildázio sonha com um.
Agora cá entre nós. Precisa o cara ganhar na Mega Sena para comprar um Gurgel?
O professor Davi tem um plano secreto. Depois que ganhar na Mega Sena, vai fazer uma lista dos principais amigos. Uns 15/20. Um contador vai fazer um levantamento de quanto cada um ganha por mês, quanto ganharia até a aposentadoria, vai pagar a indenização, FGTS, férias proporcionais etc. Todos vão ficar com tempo livre, não terão mais que acordar, vestir a roupa, ir ao trabalho. Terão somente que acompanhar Davi pelos mercados, botecos, arrumadinhos e caldinhos da cidade. Serão os amigos de farra até o fim dos tempos.
Ele vai comprar um microônibus para este fim, e um motorista que não beba, para o caso do bafômetro. Naná foi automaticamente excluído, porque já deu provas cabais (não sei de onde veio esse “provas cabais”) de que não está apto para o trabalho.
Seu Vital, pelo que sei, tem uma inveja imensa de quem sabe nadar, é bem capaz de se matricular num curso de natação no Sesc ou em Nikita. Deve ser lindo Seu Vital nadando um craw ou um borboleta.
Minha mãe sonha fazer um cruzeiro nesse navios a la Titanic, desses de uma semana, pode até ser pelo Brasil mesmo. Eu não ganhei na Mega Sena e dificilmente vou ganhar, porque tenho preguiça de jogar, e dou um boi inteiro para não pegar uma fila, mas acho que isso não é tão caro, vou ver se consigo esta parada ainda este ano.
Por falar em Giba, descobri outro dia que ele teve três amigos na época de escola que se chamavam Quéops, Quéfren e Miquerinos. Só Giba tem essas coisas. Na hora dessa lorota, depois de algumas doses, questionamos, porque Giba tem uma imaginação fértil e doentia.
“Era Quéops Borba da Silva, Quéfren Borba da Silva e Miquerinos Borba da Silva”.
Uma mentira assim, com todos os detalhes, redonda, simétrica, cheia de verdejâncias, se torna verdade, a gente não pode lutar contra.
“Estudei com o Quépos na segunda série”, completou Giba.
Depois de um silêncio, uma golada, arrematou.
“Juro por Deus”.
Todo mundo concordou. Pensei a algazarra na aula de história sobre o Egito.
Hoje estou com a conversa toda desaprumada, vou ver se amanhã encontro uma prosa melhor.
***
Nota aos leitores
O livro “Viagem ao Crepúsculo” (Editora Casa das Musas) está sendo vendido no Recife nos seguintes lugares:
Livraria Cultura (Paço da Alfândega);
Bar Mamulengo (Praça do Arsenal, Bairro do Recife);
Livraria Jaqueira (junto da Praça da Jaqueira);
Livraria Poty (Av. Conde da Boa Vista).
As leitores de outros estados interessados no livro, favor façam encomenda nas principais livrarias.
Qualquer dúvida existencial ou metafísica, mande um email para o autor: samalima@gmail.com
Informo que as vendas estão supimpa. Já foram mais de 250, somente no Recife, do dia 5 de agosto pra cá. O vendedor da Cultura disse que “está vendendo muito bem”. A frase caiu muito bem para uma segunda-feira.
Ah, meu sonho é ter uma cidade cheia de bibliotecas lindas, especialmente nos bairros mais pobres. Uma libertação literária do nosso povo.
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