Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Confissões de um ex-batedor de livros

31 de outubro de 2009, às 22:24h por Samarone Lima

Quando cheguei ao Recife, naquela primavera de 1987, tinha 18 anos, o segundo grau incompleto, uma caixa de livros, algumas roupas e estava apenas tentando a sorte, como dizem por aí. Não sabia nem raiz quadrada, jamais tinha tocado num dominó, e corria o risco de passar pela vida sem conhecer o Arruda, estádio do clube que me esperou a vida inteira.

Fui morar na Estrada do Encanamento, numa fábrica de vidros, mas a história é longa demais, só sei que eu montava e desmontava estantes de vidro com uma enorme facilidade, sem quebrar nada, ao lado dos funcionários simples, que moravam em Casa Amarela, que se tornou meu bairro de coração.

Tudo no Recife era diferente de Fortaleza, de onde eu vinha. Os nomes das ruas, os gostos, os jeitos, as manhas. Parecia que eu estava em outro país. E o Recife foi para mim um deslumbramento, uma saudade que eu tinha e não sabia, um vazio que se completou nos primeiros dias. Nasci para o Recife. Reconheço a cidade somente passando as mãos pelas paredes, de olhos fechados, pelo cheiro, pelas conversas, pelas manhas e sentimentos. Não sei de onde vem isso, mas outro dia descobri que meu avô, falecido precocemente, era de Bezerros.  

Não sei como passei na Federal, no curso de Educação Artística, e fui a raspa do tacho na Católica, em Jornalismo. Às duras penas, consegui entrar na Casa do Estudante, e de 1988 a 1992, me abriguei no apartamento 312. Foram quatro anos de internato, por assim dizer. Eu só fazia ler, frequentar aulas, escrever, ler. Nada de Carnaval, festas, jogos do Santa  Cruz. Era ler, ler, ler, até dormir em cima dos livros. Eu sempre fui muito obcecado com algumas coisas. Uma delas é ler.

Como não recebia dinheiro de casa, era um sujeito liso. Menti muito, e consegui uma bolsa de 50% na Católica, que os padres não saibam. Também menti até dar dó nas assistentes sociais da Casa do Estudante, tanto é que deixei de ser penetra e virei residente na vera.

Mas voltemos aos livros. Desde os 13, quando esbarrei em “Papillon”, me tornei um leitor desesperado. Precisava de livros. De biblioteca não valia muito, porque só leio livro riscando, anotando, fazendo meu índice. Nesse momento da vida, eu era um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importante, essas coisas.

Foi quando iniciei minha profissão de batedor de livros. Ladrão é uma palavra muito pesada. Eu era um descuidista, e dos bons.

Meu início foi na Livro 7. Mas eu não era desses rabujados larápios de livros, cheios das gulodices, sem paciência, técnica, artimanhas. Não. Eram horas de observação, namoro, folheios. É preciso sentir o cheiro de um livro, ler alguns parágrafos, tocar bem, desvendar, antes da decisão de levar para casa. Depois de muita cera, misturar habilmente com o caderno e outro livro esfarrapado, que estava comigo, e finalmente sair.

Sair calmamente, sem temer aquele “senhor”, de algum vendedor que percebeu algo. Caminhar até a Conde da Boa Vista, esperar o famoso Cidade Universitária, entrar, pagar a passagem e finalmente abrir a conquista. Sim, voltar para casa sentindo aquela pequena alegria de ter um livro novo.

Foi assim que tudo começou. Depois, diversifiquei as atividades. O Recife, na época, era cheio de livrarias, e não tinham ainda criado esse famigerado sistema que buzina, quando o sujeito sai distraidamente com um livro que não é seu. Além disso, as câmeras, os seguranças que ficam passando atrás de você, doido para pegar na hora do bote.

Um dos grandes momentos da carreira, e não sei como isso aconteceu, foi quando saí de uma das livrarias com “O homem sem qualidades”, do Robert Musil. Meu deus, um tijolo enorme, grosso, de capa dura, como não parceberam?

Em São Paulo, conheci outro lendário batedor de livros, o senhor Gustavo de Castro, vulgo Jacaré. Um pós graduado. Homem fino, de levar livro em papel bíblia. Também pudera, o sujeito tinha as origens franciscanas, passou temporada longa em conventos. Mão levíssima, faro amplo, capaz de perceber um vendedor distraído até pela respiração do local. Certa feita, voltou do Rio de Janeiro com o Fernando Pessoa, edição portuguesa, confiscado em nome da revolução. Era um perigo sairmos juntos. As prateleiras tremiam.

Uma vez, em Salvador, percorremos uma boa livraria, comentamos livros, especulamos, ele comentou um livrinho de poesia, citei um escritor egípcio, e ficou por isso mesmo. Quando entramos no ônibus rumo ao Rio Vermelho, nossa parte preferida na cidade, dei de presente o livro de poesias, ele me deu o egipcio. E não passamos pelo caixa. Então rimos muito. Percebi que era o momento de encerrar a carreira. Aquele negócio de encerrar a carreira no auge, sem máculas nem desconsolos.

Só uma vez fui pego. Tinha colocado “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende, no meio das minhas coisas, e fiquei perambulando pela Livro 7. O vendedor percebeu. Não fez alarde, nem nada. Sutilmente, tirou o livro e o devolveu à prateleira. Acho que isso era orientação de Tarcísio Pereira, esse santo homem dos livros. De fininho, dei o fora. Depois consegui o livro, teve uma época que gostei pacas da Isabel Allende, hoje acho uma literatura besta, que não me diz nada. Por sinal, já dei vários livros que tinha dela.

Quando ensinei literatura para a galera jovem, veio a outra onda. Tinham se passado 20 anos, desde a minha chegada ao Recife, e estava ensinando uma disciplina chamada “Oficina da Palavra”. Os jovens não tinham livros, comecei a dar de presente. Fui gostando disso, vendo a alegria deles ao receber o primeiro livro, início, quem sabe, de uma biblioteca particular, a primeira da família. Ao final dos trabalhos, tinha dado mais de 300 livros.

Foi quando percebi que livro tem que circular, que a gente não precisa de tantas estantes abarrotadas. Aos poucos, quero ficar somente com aqueles que preciso por perto, para viver melhor. Foi um aprendizado e tanto, esse de ver a alegria do outro ao receber um livro que leu e gostou.

Como não sou de ferro, após a aposentadoria, passei a atacar os amigos. Mas com um detalhe. Como agora sou autor, só pego livro que já publiquei. Quando vejo um livro meu na estante, zapt! – principalmente “Zé” e “Estuário”, que estão esgotados.

Até agora ninguém percebeu. Aos amigos, sugiro uma consulta rápida às estantes.

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Primeira reimpressão e livro siamês

30 de outubro de 2009, às 11:45h por Samarone Lima

Fica pronta hoje à tarde a primeira reimpressão do meu “Viagem ao Crepúsculo”, lançado dia 5 de agosto, no Recife. Esse mini-post é só para comemorar com meus leitores.

Como o livro foi lançado por uma pequena editora de Brasília, a Casa das Musas, é motivo de muita alegria. De certa forma, conseguimos furar o esquema das grandes editoras com as grandes livrarias, onde prevalece a lista dos best-sellers. Vale lembrar que o livro vendeu praticamente a primeira edição (mil exemplares) no Recife. Aos poucos, está chegando em São Paulo. Dia 11/11 farei um lançamento em Salvador.

No caminho, ganhei um presente. Uma espécie de “livro-siamês”. Trata-se do belo e forte “De Cuba, com carinho”, da blogueira cubana Yoani Sánchez (Editora Contexto), que acaba de ser lançado. Ela fala de seu país na perspectiva que mais me encanta – a do cotidiano, da vida comum, das coisas mais simples, elementares, e tão difíceis para a população. Há muitas, mas muitas coisas em comum nos dois livros. Deixam a paixão ideológica de lado e abordam a vida no seu ponto essencial, que é o dia a dia. Não por acaso, os dois livros estão colocados lado a lado, em várias lojas da livraria Cultura.

Quem achava que eu tinha batido forte demais (chegaram até a dizer que o livro tinha sido feito “sob encomenda”), que só vi o lado ruim,  vai ter uma surpresa com esse novo livro. Uma blogueira cubana, impedida de ser lida em seu país, de sair para receber prêmios ou participar de encontros de blogueiros, fala de tudo o que vivem os cubanos, usando a primeira pessoa do singular. É forte, irônica, ousada. Mais que isso – perdeu o medo de falar. 

Vai apenas um aperitivo.

                                                   “Aniversário de nascimento ou morte?”

“Enquanto são preparados extensos dossiês sobre os cinquenta anos da Revolução Cubana, poucos se perguntam se o que se celebra é o aniversário de um ser vivo ou simplesmente o de algo que deixou de existir. As revoluções não duram meio século, advirto aos que me perguntam. Elas terminam por devorar a si mesmas e por se excretar em autoritarismo, controle e imobilidade. Expiram sempre que tentam se tornar eternas. Falecem por querer se manter sem mudanças”.

(…)

“Para Reinaldo, a morte foi em agosto de 1968, quando o nosso barbado líder aplaudiu a entrada dos tanques em Praga.  A minha mãe viu a Revolução agonizar enquanto ditavam a sentença de morte do general Arnaldo Uchoa. Março de 2003, com suas detenções e julgamentos sumários, foi o estertor final por alguns obstinados que acreditavam que ela ainda vivia”.

“Eu a conheci cadáver, posso dizer. No ano de 1975 em que nasci, a sovietização tinha apagado toda a espontaneidade e nada restava da rebeldia evocada pelos mais velhos. Não havia mais cabelos compridos nem euforia popular, mas sim expurgos, moral dúbia e delação. Os escapulários com os quais eles tinham descido da montanha já estavam proscritos e aqueles soldados da Sierra Maestra estavam viciados no poder”.

(…)

“Deixem que ela descanse em paz e vamos começar logo um novo ciclo: mais breve, menos retumbante, mais livre”.

(Yoani Sánchez, pag 164).

Ps. Para escrever, ela usa a internet dos hotéis, proibida aos cubanos. Como é muito branca, descendente de espanhóis, se passa por estrangeira. Só assim consegue postar.

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O poeta e advogada

29 de outubro de 2009, às 9:39h por Samarone Lima

Leio os jornais de hoje e lembro do Faces do Subúrbio. “Bombas, atropelamentos, assassinatos, esses são os fatos que não impressionam”.

Até que esbarro no Girassól do Garibaldi Otávio.

Ele tem 71 anos, e desde os 16, escreve poesias. Ainda bem moço, recebia elogios do grande Mauro Mota, de Gilberto Freyre e do insuperável cronista Renato Carneiro Campos. Hoje lança seu livro, “O girassol”, editado pela CEPE.

Vejo o texto do Marcelo Pereira – “Garibaldi Otávio abre finalmente as gavetas” – e fico a pensar. O que fez o jovem poeta, que já era citado precocemente por Mauro Mota como “o menino caladão, escondido nele mesmo”?  Por que esperar mais de cinco décadas, até deixar que 79 poemas viessem ao mundo?

Grande bobagem essa minha, a de querer compreender os poetas, de ficar perguntando bobagens sobre os mistérios da alma humana, especialmente dos poetas.

Até que uma informação me serve para entender tudo.

“Mas o ímpeto inicial foi cedendo espaço às obrigações de jornalista e militante político, a poesia ficando em segundo plano, até que ao se apaixonar pela advogada Ana Cavendish, surgiu o estímulo para a coletânea, com 79 poemas”, diz Marcelo Pereira.

O poeta encontrou alguém que abriu as gavetas, olhou aqueles papéis todos, deu um sopro e o encorajou ao mundo. Soprou pétala no coraçãodo homem-menino setentão. O menino caladão, escondido nele mesmo, veio ao mundo. Bendita Ana Cavendish.

Olho a foto do Garibaldi, que nas matérias, é citado com o encurtamento do nome – Gari. Tem um olhan manso, cabelos brancos, parece ser homem que fala sem alarde, embala concórdias e não se gaba de nada, apenas de ter vivido intensamente e de ter escrito seus poemas em silêncio, enquanto a vida seguia. Os poemas, creio, eram sua vigília.

Gari, neste caso, assemelha mais ao que vai colhendo as pétalas do girassol que plantou.

Na falta do livro em minhas mãos, colho o poema publicado no Jornal do Commercio de hoje.

“O duro olhar dos homens e dos touros

espreitam a mansa tarde com rancor.

Então a fúria explode. A mansa tarde explode a sua fúria numa flor.

No duro olhar dos homenas a flor é alfanje

com que vão decepar a cor da tarde.

No duro olhar dos touros a flor é sangue

que veste de escarlate a lâmina da espada”.

Lançamento hoje (29/10), às 19h, no Centro Cultural Banco Real.

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Os fundamentais atos desimportantes

26 de outubro de 2009, às 12:53h por Samarone Lima

Publicado originalmente a 16.01.2006.

Outro dia um grande amigo veio me falar sobre uma criança aqui do meu bairro, um menino meio arisco, muito na dele, aquele tipo de menino que a gente acha que é chato, mas que muitas vezes é só um tímido, um excessivo tímido, e muitas vezes sofre por isso. O meu amigo me disse que o menino começou a falar de uma bola de futebol que dei de presente ano passado, e foi falando com os olhos brilhando de felicidade, cheio de um afeto e uma ternura que eu nem imaginava.

“Ele disse que foi o presente mais importante que ganhou na vida, principalmente porque não veio de ninguém da família, mas de um amigo, tu precisava ver o jeito dele falando, o carinho com que ele falava de ti”, disse meu amigo.

Então, mais que um menino de uns 11 anos aqui do bairro, tenho agora mais um amigo, e adoro a amizade dos pequenos, porque eles sabem das coisas, quando a gente vai crescendo é que vai desaprendendo das coisas da felicidade.

Eu não sabia que a bola teve tanta importância assim, especialmente porque foi um presente coletivo. Dei a bola para um pequeno grupo de meninos, e cada um deles tinha direito de ficar um dia da semana como o dono da bola, num revezamento que funcionou direitinho, sem brigas ou mágoas, até a bola furar, num chute de Moraes numa estaca, que deixou meu amigo tímido arrasado.

Mas para o menino tímido, o presente foi para ele. Um dia na semana, a bola era dele, inteiramente dele e somente dele. Lembro que comprei a bola logo depois de receber uma boa grana por um trabalho, e não custou muito, mas ela tinha algo extra: era uma bola oficial, não era aquelas fuleiras que furam batendo numa parede rugosa, que dão no Dia das Crianças, essa fajutice.

Desconfio que a gente muitas vezes nem imagina como uma besteirinha dessas, os pequenos atos desimportantes, acabam deixando marcas nas pessoas, e talvez esta seja uma das grandes belezas da vida: não é preciso muito para entrar no coração das pessoas e ficar lá, até dispositivo contrário, a famosa decepção.

Mas há uma diferença fundamental entre o júbilo, que nos faz entrar no coração das pessoas, e a decepção, quando a gente é retirado subitamente, muitas vezes sem aviso: para o júbilo, pequenas coisas, gestos mínimos, uma palavra, tudo isso serve. Para a decepção, só com coisas grandes. Ninguém se decepciona com alguém por besteira, é sempre algo grande, ou uma soma infinita de pequenas coisas, até a gota d’água. Não há nada mais lamentável que a decepção, e o amor acaba mesmo é quando a gente se decepciona, me disse outro dia uma sábia recifense.

Esses atos desimportantes, essas palavras sem muita pompa, esses presentes que chegam em silêncio são minha profissão de fé na vida e minha esperança mais secreta.

Os presentes mais importantes que recebi na vida foram coisas pequenas, que não custaram muito, ou foram coisas subjetivas, que não têm preço. Só alguns exemplos. Um álbum de fotografias, presente da Kika; o jantar que minha tia Flocely esquentava, antes de ir dormir, para quando eu voltasse da Universidade, já tarde da noite; algumas cartas de longe, por debaixo da porta; uma mensagem pelo celular, de um ex-aluno, falando da importância daquela disciplina que ensinei com muito gosto. As decepções, ah, deixemos as decepções no cantinho delas e sigamos a vida, mesmo que tateando sem bengala.

Uma vez, uma grande amiga estava em Paris, teria um encontro importante com uma editora, ela se arrumou muito, toda elegante, e quando foi entrar no metrô, levou uma baita de uma queda, sangrou o nariz. Aproveitou para chorar por várias outras dores e decepções que andavam guardadas, até pela morte do Ayrton Senna ela chorou.

Lá pelas tantas, alguém estendeu uma caixa de lenços de papel. Ela foi pegar um lenço, mas a pessoa insistiu, em silêncio, e ela ficou com a caixa de lenços. Nunca viu sequer o rosto da pessoa.

Que nunca nos falte uma caixa de lenços, nesses tropeços, ou alguém que te diga “como estás bonito hoje”, na hora em que você duvida de tantas coisas.

Perdão, mas hoje eu estou num lirismo total, de norte a sul na minha alma.

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Geneton e o “Viagem ao Crepúsculo”

23 de outubro de 2009, às 0:26h por Samarone Lima

Há duas semanas, participei do programa Lance Final, da TV Globo, com o jornalista Geneton Moraes Neto. Depois de vários debates sobre jogadores, a situação delicada do meu Santa Cruz, presenteei-o com meu novo livro, o “Viagem ao Crepúsculo”.

Há três dias, ele me ligou, pegou umas informações, conversamos um bocado, ele disse que iria publicar algo em seu blog, no site G1.

De fato, acaba de ser publicado um texto muito bacana sobre o livro, no momento em que acerto com a editora Casa das Musas a primeira reimpressão, de mais 1.000 exemplares. A primeira tiragem, está acabando, pela graça divina, e as orações de Dona Ermira, santa das vendas de livros por pequenas editoras, que é o meu caso.

Quem quiser ler o texto do Geneton segue o link:

Dossiê Geral, o blog das confissões

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