Confissões de um ex-batedor de livros
Samarone Lima
Quando cheguei ao Recife, naquela primavera de 1987, tinha 18 anos, o segundo grau incompleto, uma caixa de livros, algumas roupas e estava apenas tentando a sorte, como dizem por aí. Não sabia nem raiz quadrada, jamais tinha tocado num dominó, e corria o risco de passar pela vida sem conhecer o Arruda, estádio do clube que me esperou a vida inteira.
Fui morar na Estrada do Encanamento, numa fábrica de vidros, mas a história é longa demais, só sei que eu montava e desmontava estantes de vidro com uma enorme facilidade, sem quebrar nada, ao lado dos funcionários simples, que moravam em Casa Amarela, que se tornou meu bairro de coração.
Tudo no Recife era diferente de Fortaleza, de onde eu vinha. Os nomes das ruas, os gostos, os jeitos, as manhas. Parecia que eu estava em outro país. E o Recife foi para mim um deslumbramento, uma saudade que eu tinha e não sabia, um vazio que se completou nos primeiros dias. Nasci para o Recife. Reconheço a cidade somente passando as mãos pelas paredes, de olhos fechados, pelo cheiro, pelas conversas, pelas manhas e sentimentos. Não sei de onde vem isso, mas outro dia descobri que meu avô, falecido precocemente, era de Bezerros.
Não sei como passei na Federal, no curso de Educação Artística, e fui a raspa do tacho na Católica, em Jornalismo. Às duras penas, consegui entrar na Casa do Estudante, e de 1988 a 1992, me abriguei no apartamento 312. Foram quatro anos de internato, por assim dizer. Eu só fazia ler, frequentar aulas, escrever, ler. Nada de Carnaval, festas, jogos do Santa Cruz. Era ler, ler, ler, até dormir em cima dos livros. Eu sempre fui muito obcecado com algumas coisas. Uma delas é ler.
Como não recebia dinheiro de casa, era um sujeito liso. Menti muito, e consegui uma bolsa de 50% na Católica, que os padres não saibam. Também menti até dar dó nas assistentes sociais da Casa do Estudante, tanto é que deixei de ser penetra e virei residente na vera.
Mas voltemos aos livros. Desde os 13, quando esbarrei em “Papillon”, me tornei um leitor desesperado. Precisava de livros. De biblioteca não valia muito, porque só leio livro riscando, anotando, fazendo meu índice. Nesse momento da vida, eu era um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importante, essas coisas.
Foi quando iniciei minha profissão de batedor de livros. Ladrão é uma palavra muito pesada. Eu era um descuidista, e dos bons.
Meu início foi na Livro 7. Mas eu não era desses rabujados larápios de livros, cheios das gulodices, sem paciência, técnica, artimanhas. Não. Eram horas de observação, namoro, folheios. É preciso sentir o cheiro de um livro, ler alguns parágrafos, tocar bem, desvendar, antes da decisão de levar para casa. Depois de muita cera, misturar habilmente com o caderno e outro livro esfarrapado, que estava comigo, e finalmente sair.
Sair calmamente, sem temer aquele “senhor”, de algum vendedor que percebeu algo. Caminhar até a Conde da Boa Vista, esperar o famoso Cidade Universitária, entrar, pagar a passagem e finalmente abrir a conquista. Sim, voltar para casa sentindo aquela pequena alegria de ter um livro novo.
Foi assim que tudo começou. Depois, diversifiquei as atividades. O Recife, na época, era cheio de livrarias, e não tinham ainda criado esse famigerado sistema que buzina, quando o sujeito sai distraidamente com um livro que não é seu. Além disso, as câmeras, os seguranças que ficam passando atrás de você, doido para pegar na hora do bote.
Um dos grandes momentos da carreira, e não sei como isso aconteceu, foi quando saí de uma das livrarias com “O homem sem qualidades”, do Robert Musil. Meu deus, um tijolo enorme, grosso, de capa dura, como não parceberam?
Em São Paulo, conheci outro lendário batedor de livros, o senhor Gustavo de Castro, vulgo Jacaré. Um pós graduado. Homem fino, de levar livro em papel bíblia. Também pudera, o sujeito tinha as origens franciscanas, passou temporada longa em conventos. Mão levíssima, faro amplo, capaz de perceber um vendedor distraído até pela respiração do local. Certa feita, voltou do Rio de Janeiro com o Fernando Pessoa, edição portuguesa, confiscado em nome da revolução. Era um perigo sairmos juntos. As prateleiras tremiam.
Uma vez, em Salvador, percorremos uma boa livraria, comentamos livros, especulamos, ele comentou um livrinho de poesia, citei um escritor egípcio, e ficou por isso mesmo. Quando entramos no ônibus rumo ao Rio Vermelho, nossa parte preferida na cidade, dei de presente o livro de poesias, ele me deu o egipcio. E não passamos pelo caixa. Então rimos muito. Percebi que era o momento de encerrar a carreira. Aquele negócio de encerrar a carreira no auge, sem máculas nem desconsolos.
Só uma vez fui pego. Tinha colocado “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende, no meio das minhas coisas, e fiquei perambulando pela Livro 7. O vendedor percebeu. Não fez alarde, nem nada. Sutilmente, tirou o livro e o devolveu à prateleira. Acho que isso era orientação de Tarcísio Pereira, esse santo homem dos livros. De fininho, dei o fora. Depois consegui o livro, teve uma época que gostei pacas da Isabel Allende, hoje acho uma literatura besta, que não me diz nada. Por sinal, já dei vários livros que tinha dela.
Quando ensinei literatura para a galera jovem, veio a outra onda. Tinham se passado 20 anos, desde a minha chegada ao Recife, e estava ensinando uma disciplina chamada “Oficina da Palavra”. Os jovens não tinham livros, comecei a dar de presente. Fui gostando disso, vendo a alegria deles ao receber o primeiro livro, início, quem sabe, de uma biblioteca particular, a primeira da família. Ao final dos trabalhos, tinha dado mais de 300 livros.
Foi quando percebi que livro tem que circular, que a gente não precisa de tantas estantes abarrotadas. Aos poucos, quero ficar somente com aqueles que preciso por perto, para viver melhor. Foi um aprendizado e tanto, esse de ver a alegria do outro ao receber um livro que leu e gostou.
Como não sou de ferro, após a aposentadoria, passei a atacar os amigos. Mas com um detalhe. Como agora sou autor, só pego livro que já publiquei. Quando vejo um livro meu na estante, zapt! – principalmente “Zé” e “Estuário”, que estão esgotados.
Até agora ninguém percebeu. Aos amigos, sugiro uma consulta rápida às estantes.
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