Perambulações literárias
Samarone Lima
São 17h03, acabei tudo do trabalho, consigo um bigu até o Centro de Convenções. Vou levando na sacola um lote do meu livrinho de Cuba, para tentar descolar algum stand, ver como estão as vendas no Empório Pernambucano. Mais que isso, perambular, perambular, andar a esmo, sem mapas, aberto aos encontros. Encontro fácil o stand, Viagem ao Crepúsculo está num lugar bom, a Ligia tem sido muito atenciosa, até me ofereceu bolo de mandioca.
Encontro o Wellington, do Urros Masculinos. O cara é agitador dos bons, está organizando a Free Porto, festival paralelo à badalada Fliporto. Acertamos os detalhes do “lançamento” do meu livro, numa competição que acontecerá no Bairro do Recife. Cada autor vai arremesar seu livro o mais longe possível. Estou no páreo, porque em 2003, fiz isso com Clamor, na venda de Seu Vital.
Wellington me fala do Flash Mob, um lance de reunir uma galera simultaneamente, através de articulações na Internet. A concentração será no sábado, às 15h30, perto da praça de alimentação. Às 16h, vai tocar uma buzina, e todo mundo envolvido com a parada vai deitar no chão, e começar a recitar “No meio do caminho tinha uma pedra”. Vou hoje começar a decorar umas duas frases, para participar do meu primeiro Flash Mob da vida.
Olho as prateleiras. Fico de olho no Fernando Savater – “O Valor da Educação”. Caro pacas – R$ 39,90. Resolvo aguardar.
Saio a esmo, encontro o Felipe, vendedor da Livraria Poty. Ele está sempre andando de um canto para o outro, conversa mais que o homem da cobra. Vamos à Poty, que está cheia. Na Bienal, tudo está meio cheio, porque cada professor do Estado ganhou R$ 200,00 para comprar livros.
“Olha quem está aqui, o Samarone”, diz, falando com outro vendedor.
“Rapaz, o que perguntaram pelo teu livro novo”, diz o outro vendedor.
“Mas rapaz, vocês não têm meu telefone na agenda?”, pergunto.
Eles concordam. Perdi alguns leitores. Deixo cinco livros consignados. Agora já tem o Empório Pernambucano e a Poty.
Olho as prateleiras. Vejo o livro do Geneton Moraes, o dossiê sobre o Gabeira. Bela edição, de dar inveja. Um monte de livros dele na prateleira, livros anteriores, não essas miudezas minhas. Pesco uma frase do Gabeira que me parece ótima para o mundo de hoje:
“Já não existem grandes roteiros de transformação. Há pequenos sonhos”.
Concordo radicalmente com isso. Depois olho as prateleiras, vejo “História concisa da escrita”, do Charles Higounete, mas está sem o preço, detesto ficar perguntando o preço o tempo inteiro, vou perambular mais. Pocot, pocot, pocot.
Vou vendo a legião de livros de auto-ajuda. O que esses miseráveis estão vendendo, é uma baita auto-ajuda para a conta deles… Começo a tomar notas.
“A sabedoria da tartaruga – sem pressa e sem pausa”, de José Luís Trecheira, Editora Academia. Fico pensando como deve ser a vida de uma pessoa sem pressa e sem pausa.
Encontro Pereira, ex-garçom do Garraffus, que faliu outro dia e eu nem sabia. Parece que o rombo foi feio, chegou a R$ 120 mil, eu respirei aliviado em saber que não era mais o dono.
“Perdi 20 mil lá dentro”, disse Pereira, e fiquei desconfiado que o bar funcionava também como cassino clandestino, para o cara perder tanto dinheiro.
Vejo o Zelito Nunes, que está com um armazém cultural, o Cariri & Pajeú. Ali a turma nem vai beber cana, até dia 12 de outubro. Pensem num lugar que vai reunir coroinhas e franciscanos…
Passo pelo stand da “Edições Edificantes”, mas acho o nome um pouco redundante. Pouco depois, no stand da Pernambooks, uma mulher lia uma história para sua filha. Eu adoro ficar olhando essa iniciação ao mundo da leitura, que tem a mãe como grande incentivadora.
Na Pernambooks, procuro o responsável, para ver o lance da consignação. É o Lameck Araújo. O cara começou a brincar de esconde-esconde comigo. Não estava. Fui andar, esbarrei em Tarcísio, ex-Livro 7. Está com sua Livro Rápido, feliz pacas.
“Passei só para dar um abraço. Como estás?”
“Com muitos livros e muitos amigos”, responde.
Passo num stand e tanto – “Livros que curam”.
Vou cada vez mais impressionado com o bloco da auto-ajuda.
“Encontre Deus na cabana”, de Randal Rauser, Editora Planeta. Sem comentários.
Me recupero com dois quibes deliciosos a R$ 1,50 cada, e um café orgânico na medida, a R$ 1,00.
Já merendado, vou seguindo.
“Mulheres boazinhas não enriquecem”, de Louis P. Frankel, Editora Sextante.
No caminho, fico pensando entre meus miolos: será que não estou com preconceito? E se essas porcarias forem boas de verdade. Me acovardo, resolvo pegar “Um fim de semana para mudar a sua vida”, de Joan Anderson, da Editora Rocco. Surgem os primeiros tópicos:
“Reconheça que está perdida”;
“Dê à sua vida a atenção que ela merece”;
“Torne-se uma especialista nas coisas do eu e da alma”;
“Cuide de você”.
Ao final, várias sugestões brilhantes, que sugiro aos meus leitores:
“Nade despido”;
“Colecione elogios”.
Volto à Pernambooks. O Lameck acabou de sair de novo, o lazarento.
Compro dois livros de poesia lindos, da Biblioteca Nacional. Poesia Sempre Peru e Poesia Árabe Contemporânea. Edições lindas. Me custaram R$ 26,00. Minha auto-ajuda só pode ser literatura da melhor espécie. É minha cabana, meu encontro com Deus, minha natação despido, minha coleção de elogios nunca proferidos.
Um sujeito me encontra, me viu ontem no Lance Final, da TV Globo, quer começar a discutir a situação do Santa Cruz, mas aí eu acho demais.
Encontrei Raimundo Carrero, que está com livro novo, ele disse “vou bater pernas”, depois vi o poeta Pedro Américo, que lança outro sábado, 17h, no stand do Ateliê Editorial, junto com Jommard Muniz de Brito.
Volto à Pernambooks. O Lameck finalmente existe. Meia hora depois de falar sobre o Santa Cruz, fruto do programa do domingo, vamos ao lance da consignação. Falo do livro, explico os detalhes, ele fica empolgadíssimo, diz que é amigo do Derico, o sujeito que toca no programa Jô Onze e Meia, vamos ter que mandar um livro, ele vai telefonar para o cara, essas coisas todas, vou ter que pensar em mais uma edição, porque o programa tem uma audiência enorme, essas coisas que eu fico só olhando e achando engraçado. Fiquei meio alarmado, mas não estranho mais nada nesse mundo. Levarei os livros amanhã. Descubro que estou cansado. Hora de ir embora, Samarone.
À saída, tomo um café doce pacas a R$ 0,50. Saio bebendo, pensando na parada de ônibus, e já vou iniciando minha oração da carona. “Senhor, dai-me hoje um bigu/Dispensai o coletivo/Assim como dispensei/O carrinho novo sem IPI”, quando encontrei o Geyson Magno e o Eduardo, vulgo Dudu.
Pego uma carona até metade do caminho, no ar condicionado. O resto é de taxi, que fica barato, R$ 8,00.
Chego em casa, vou ler os poemas peruanos. Acertei em cheio. Vejam ai, meus leitores, uma auto-ajuda pra se lascar -o poeta Antonio Cisneiros (1924):
Para fazer amor
“Para fazer amor
deve evitar-se um sol muito forte sobre os olhos da jovem
tampouco é boa a sombra se o dorso do amante se queima para fazer amor.
Os pastos úmidos são melhores que os pastos amarelos
porém a areia grossa é ainda melhor.
Nem ao pé das colinas porque o chão é rochoso nem próximo das águas.
Pouco reino é a cama para este bom amor.
Limpos os corpos serão como uma grande pradaria:
que nenhum vale ou montanha reste oculto e os amantes
poderão tomar fôlego em todos os seus caminhos.
A escuridão não guarda o bom amor.
O céu deve ser azul e amável, limpo e redondo como um teto e então
a jovem não verá o Dedo de Deus.
Os corpos discretos porém nunca em repouso,
os pulmões abertos,
as frases curtas.
É difícil fazer amor, porém se aprende”.
Postado em Crônicas |
22 Comentários »




6 de outubro de 2009, às 6:31h
A trégua foi rápida…Ainda bem, rsrsrsrsrsr
Vai ficar uma lacuna nos dias sem crônicas.
Um abraço….
6 de outubro de 2009, às 7:26h
Que lindo poema..
6 de outubro de 2009, às 8:08h
adorei
6 de outubro de 2009, às 8:43h
Como disse Ana de Fátima: “a trégua foi rápida” achava que só depois da bienal iria ler alguma coisa.
6 de outubro de 2009, às 10:19h
“Miseráve”, desse jeito você acaba com a minha raça. Auto-ajuda o escambau! Para curar ou se lascar o poeta Antonio Cisneiros- Para fazer amor.
Beijo
Naire
6 de outubro de 2009, às 11:16h
e quando a gente vê o teu livro de poemas por lá? ano que vem?
6 de outubro de 2009, às 14:37h
Vou a bienal na próxima quinta. Deus é Pai.
Arretado o poema, Sama. E não acho que é uma “auto”, porém uma ajuda pra se lascar. Mas, como disse, Deus é Pai.
Beijos.
Magna
6 de outubro de 2009, às 15:22h
E tome mais Antonio Cisneros
NATUREZA MORTA EM INNSBRUCKER STRASSE
Eles são (por excelência) trintões e têm fé no futuro. Muita fé.
Pelos menos é o que se deduz por suas compras (caras e a crédito).
Casaco de camurça (natural), Mercedes esporte dourado.
Para cúmulo (de meus males) deram agora para ser eternos.
Correm todas as manhãs (sob as tílias) pela pista do parque
e ingerem coisas saudáveis. Quer dizer, legumes crus e sem sal,
arroz integral, águas minerais.
Depois de consumirem todo o oxigênio do bairro (o seu e o meu)
passam por minha porta (belos e bronzeados).
Olham-me (se é que me vêem) como a um
morto com o último cigarro entre os lábios.
ANTONIO CISNEROS
beijo grande!
Yves
6 de outubro de 2009, às 15:58h
Algum comentador tem mais um poema??? Adoro esses comentários poéticos! Obrigada Yvette. Vc tb Samaroni, pelas poesias.
6 de outubro de 2009, às 20:32h
Muito lindo esse poema!!!!Fez o meu dia ficar mais feliz! Abraço
7 de outubro de 2009, às 6:30h
Esses livros que curam têm bula?
7 de outubro de 2009, às 10:51h
ah, esses poemas
escritos por pena
daquela que me deixou.
ah, idolatria sangrenta
que lava minha pele
de cor morena.
ah, desejo infinito
da carne apodrecida
suja e encardida.
FABINA EU NÃO TE CONHEÇO, MAS TE OFEREÇO.
7 de outubro de 2009, às 11:37h
É. O ideal era que todo professor tivesse um salário suficiente para, pelo menos, 200 contos de livros por mês, não é? Mas já que ainda não é assim, deixa lotar a Bienal, ora pois!
7 de outubro de 2009, às 18:10h
para fabiana…
OUTRA MUERTE DEL NIÑO JESÚS
“Si yo supiera por dónde comenzar comenzaría con El
corazón en la mano.
Hija y madre de pescadores y agricultores, servidora del Niño.
Aquí de pie con el puño cerrado y Ias espinas de la tuna
más seca.
(Los canales de piedra hundiéndose en la arena como uma
rata entre las matorrales.)
Ni a quién quejarme ahora.
Hemos abandonado a nuestros muertos (puedo oírlos
crecer bajo el carbón).
El Niño me perdone.
Adiós plantita del ají, plantita de la ruda, plantita Del
rocoto.
Adiós luciérnagas, lagartos, alacranes.
Me recojo los cabellos y trato de dormir mientras escucho
las sombras en las dunas una última vez.
(Al desierto lo que era del desierto. Al mar lo que es del mar.”
ANTONIO CISNEROS
7 de outubro de 2009, às 23:21h
Eu sou professora de História da rede pública e não fui apenas ajudar a encher a bienal,fui comprar livros de boa qualidade.Apesar dos míseros 200 reais.Se não foi intencional eu peço desculpas, mas que comentariozinho infeliz hein? Deveria tê-lo engolido junto com o cafezinho de 0,50 centavos
8 de outubro de 2009, às 9:46h
Não encontrei infelicidade nenhuma neste comentário: “Na Bienal, tudo está meio cheio, porque cada professor do Estado ganhou R$ 200,00 para comprar livros.” Acho que sou burrinha mesmo! Porque li e reli…e nada de achar a infelicidade….
8 de outubro de 2009, às 10:14h
Já vi que tem gente que gosta de arrumar confusão onde não existe. Engolir o quê? Lamento Carmem, mas pelo que li, vc interpretou tudo errado. É uma pena. Que tal um café, bem doce?
8 de outubro de 2009, às 14:40h
Eita, que os meus leitores estão arengando.
Sama
Ps. Nesta quinta (que é hoje), estarei às 18h no auditório Carlos Pena Filho, discutindo “A voz do povo – Literatura e periferia”.
8 de outubro de 2009, às 17:10h
kkkkkkkkk. ARENGANDO!!!!!! Amei o termo. bj
8 de outubro de 2009, às 22:56h
Não arenga dois quando um não quer kkkkk.Só não vale cobrar honorários pela defesa.Ele como bom escritor deve ter entendido o que eu disse.Agora lugar do cafezinho eu aceito um chá, sem açucar.
12 de outubro de 2009, às 0:11h
Tive lá na Bienal hoje, e comprei teu livro na Poty. Ainda pego teu autógrafo nele.
13 de outubro de 2009, às 13:04h
Foi massa a flashmob, Sama! Fotos em breve!