Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A literatura que vem da periferia: Sacolinha (I) e Sérgio Vaz (II)

9 de outubro de 2009, às 5:17h por Samarone Lima
Sacolinha, na Bienal
Sacolinha, na Bienal

   Foto: Pedro Rodrigues (www.vetorcultural.com)

Conheci os manos ontem, quando coordenei uma mesa intitulada “A voz do povo – literatura e periferia”. Quero apresentar os dois caras, que tiveram histórias diferentes, mas o livro atuou como personagem principal. Vidas que tiveram um antes e um depois do encontro com esse objeto mágico, feito apenas de papel e sonhos.

Sacolinha é o apelido de Aldemiro Alves, 25 anos. Até os 19 anos, não gostava de ler. Hoje tem dois livros publicados: “Graduado em marginalidade” e “85 letras e um disparo”, que já vai na segunda edição. É o coordenador de literatura da prefeitura de Suzano, um município que destina 2% de seu orçamento para a cultura.

“Eu não lia até os 19 anos porque não gostava de ler, é que não me ensinaram a ler, não me disseram que eu podia gostar de ler. Quando comecei, tive uma overdose de leitura”, disse.

O cara trabalhava como cobrador, na estação do metrô de Itaquera, fazia aquelas longas viagens que todo paulistano conhece, saindo de casa de madrugada, e encarando o metrô. Para passar o tempo, Sacolinha resolveu ler. Começou pela carteira de trabalho. Pela primeira vez, a viagem de metrô ficou mais curta. Pouco depois, foi abordado pela PM. Estava sem a indentidade. O polícia queria arranjar encrenca. Sacolinha se ligou na leitura que tinha acabado de fazer e respondeu:

“Olha, está escrito aí na carteira de trabalho que ela serve como documento de identidade”.

O polícia ariscou. Foi à patrulha, falou com um sargento e voltou.

“É, você tem razão. Você tem informações, heim?”

Sacolinha pensa agora, em uma mesa da Bienal – ” se eu não tivesse informação, se não tivesse lido, o que poderia ter acontecido comigo?”

Aliviado com a dispensa dos tiras, pensou – “esse negócio de ler é bom”.

Separou um livro e começou a ler. Foi quando endoidou o cabeção e descobriu um mundo. Pausa, leitor. Essse momento mágico, o da descoberta dos livros, é um episódio fascinante na vida de muitas pessoas lindas que conheço. A vida fica colorida, se enche de personagens, histórias. O cara teve uma overdose de leitura. Como muitos jovens da periferia com quem trabalhei, Sacolinha escutou da mãe o famoso “você vai acabar ficando louco de tanto ler”.

O cara não ficou louco coisa nenhuma. Foi descobrindo a emancipação que a leitura proporcionava.

“Em 2003, eu já estava tendo um derrame, uma overdose de livros”.

Os papos cerveja+mulher+futebol já não serviam para o homem que devorava livros. Foi mudando os pensamentos, a forma de ver o mundo.

“Eu saía para a rua, para comentar “O crime do padre Amaro”, mas não tinha com quem conversar”, diz.

“Eu era o cara que brigava quando a porta do banco fechava comigo. Hoje, tiro a chave, tiro a bolsa, e se continuar apitando, faço um ofício para o banco e encerro a conta. O projeto de vida tem que ser muito maior que a briga na porta de uma agência bancária”.

Depois veio a escrita. Em 2005, lançou “Graduado em Marginalidade”, romance que esgotou em seis meses. No ano seguinte, veio “85 letras e um disparo”, relançado pela Global em 2007, e adotado como leitura em sete universidades.

Na prefeitura, Sacolinha coordena vários projetos lindos, de dar inveja a qualquer gestor, como o “Pavio Erótico”, sarau voltado para a literatura erótica. Tem também o “Fogueira, literatura e pipoca”, onde a turma discute um tema, uma vez por mês, em volta de uma fogueira. Outra coisa bacana é a Campanha de Incentivo às Bibliotecas Comunitárias, com arrecadação de livros, batendo de porta em porta. Depois, os livros são doados às bibliotecas, com a realização de sarau e debate. Na última sexta feira de cada mês, tem o projeto “Trocando Idéias”, para discutir um livro de um autor. O “Pavio de Cultura” acontece todo sábado. É um sarau em algum ponto da cidade. Média de 100 pessoas a cada encontro.

Como não sou besta nem nada, antes de coordenar a mesa fui pesquisar sobre Sacolinha. No blog dele (www.sacolagraduado.blogspot.com) há uma penca de coisas boas. Retiro uns trechos de “Crônica de um jovem salvo pela literatura”.

“Sou quem sou graças aos livros, se não fossem eles eu estaria a sete palmos debaixo da terra”.

“E hoje procuro mostrar a muitas pessoas o que um livro pode fazer na vida de alguém, eles salvaram a minha e continuam salvando”.

“A literatura salva. Esse é meu testemunho”.

“E toda vez que eu estou em algum lugar público e abro um livro, me sinto todo poderoso, como se eu tivesse o bem mais precioso do mundo; e tenho”.

Para mim, foi a mesa mais deliciosa e instigante da VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.

Mais tarde apresento a vocês uma jóia da natureza – Sérgio Vaz, da Cooperifa, que vem agitando e mudando a periferia de São Paulo com a maior das armas para salvar almas – a literatura.

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