Quando falta inspiração, é melhor partir para as lembranças
Samarone Lima
Iria escrever o mini-perfil do Sérgio Vaz, sujeito bacana pacas que conheci na Bienal, mas me faltou inspiração, e a Bienal também já acabou. Depois pensei em escrever sobre o debate devastador sobre meu livro, o Viagem ao Crepúsculo, mas todas as anotações que fiz com os 25 minutos do Marlos Duarte devastando meu trabalho, ficaram no carro de um amigo, apos uma viagem. Além disso, o cara tem todo o direito de malhar quem fala mal de Cuba, já que ele ama profundamente a revolução.
Hoje eu queria escrever mesmo, renovar esse Estuário, que às vezes me escraviza. Fui ao Parque 13 de Maio, tentar descolar alguma história no pós-almoço com dona Hilda, mas só vi alguns garis e uma gritaria desgraçada de umas aves querendo escapar da prisão, já que ali tem um pequeno zoológico. No Princesa Isabel, nada novo. Reclamam que não tenho ido lá, o que é verdade. Eu e minhas sazonalidades…
Então vou ao golpe baixo. Busco nos cadernos e arquivos algo que sirva. Encontrei esse texto que segue. Não tem data. Vai chegando a noitinha no Recife e deixo algo para meus leitores. Não é novo, mas é. É alguma coisa. Tem dia que o cara sofre, mas não sai nada. Escrever também cansa. Tem dia que é melhor partir para as lembranças.
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Errâncias
Saio pela Conde da Boa Vista debaixo de uma chuva desesperada, cada pingo arranca um pedaço do asfalto. Acompanha-me uma música de churrascaria, o tradicional órgão, no mesmo compasso da noite que me atrai. Venho para a decadência. A decadência me interessa muito mais que o luxo. Duas putas, uma com os peitos já sugados por seus muitos homens, dançam agarradas. Começa a tocar Bartô Galeno. Corpos cambaleiam, cabeças hesitam. Bêbados gritam “ó meu amado/por que brigamos? Ó minha amada/Não posso mais viver assim/perto de ti”.
O solitário sempre me interessa. A solidão me interessa mais que a decadência. Sentado, diante do copo de Vermout, ele pensa em algo. O olhar está voltado para algum ponto vazio. A música embebeda o tom da canção, e logo todos estão altos, nesta sexta-feira de ruas e corpos encharcados. “Volta meu amor/ Fica comigo, só mais uma vez”, geme o órgão, com o teclado imprestável. A mesma balada serve para todas as músicas, todos os sentimentos.
A chuva para. A Conde da Boa Vista está coberta por um espelho doce e recente, a água reflete luzes apressadas, de carros que chegam. Ônibus se acotovelam, à procura de um lugar na noite, ainda intranqüila. Não há elegância em nada que vejo, mas não há deselegância. Há somente a vida, que salta, que se desdobra, que multiplica seu viço e sua incerteza. São os homens e mulheres que fazem o Recife ser o que é. Uma cidade que pulsa ferida, calcinada pela própria existência.
Há algo de frágil neste bar onde estou. O álcool ilumina desesperos, acalma covardes, refaz a esperança dos moribundos, que tateiam seus nacos de vida. A fragilidade da existência que é apenas um toque de bengalas nos abismos das mesas e cadeiras.
Falta um bêbado que dance sozinho. Sempre, em algum lugar decadente, há um bêbado que dança sozinho. O garçom com cara de rato olha tudo, varrendo as mesas com olhos de vigilante. Sempre há um bêbado que chora. Há bêbados que contam toda sua vida em 15 segundos. É necessário ouvi-los. É necessário emprestar ouvidos a esses que querem apenas nos doar, por alguns segundos, suas próprias dores. O desdém é um pecado irrecuperável. Eu mandaria para o inferno quem escutasse minhas dores com um olhar evasivo. Seria capaz de matar, se, ao final da minha história de amor, algum sofrimento ainda latejando, alguém dissesse: “eu sei o que estás sentindo, já passei por isso”. Mataria a amizade, creio, o maior dos crimes.
Não. O que o homem quer é sempre salvação. E salvação não vem do passado. Para salvar-se, é necessário deixar que a ciranda do amor e da morte circulem no mesmo coração. Querer salvar-se é o desejo mais nobre de qualquer desesperado. Me identifico com esses que não têm para onde ir, e se forem, não ficarão muito tempo. Com esses que confessam fraquezas e fracassos. Com essa estranha humanidade que a noite faz aflorar, feita de álcool, sorrisos, lágrimas, palavras entorpecidas e um breve cruzamento de vida e morte, passageiros de uma agonia precoce e antiga.
Por fim, antes de partir, escuto a frase da noite.
“Vim pedir a bênção de vocês, antes de dormir”.
Ninguém respondeu ao bêbado, mas ergui o copo e o saudei. Vai com Deus, filho.
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17 Comentários »




13 de outubro de 2009, às 19:29h
Lindo!!!!!
“O que o homem quer é sempre salvação. E salvação não vem do passado. Para salvar-se, é necessário deixar que a ciranda do amor e da morte circulem no mesmo coração. Querer salvar-se é o desejo mais nobre de qualquer desesperado”
13 de outubro de 2009, às 20:45h
Poderíamos comentar e ou fazer tantas perguntas, esse texto é muito provocador, instigante e sumamente reflexivo. Quiçá a solidão seja a rejeição da convivência com o fracasso, ou em alguns casos, o próprio fracasso? E o que seria o fracasso? Será que poderíamos responder essa pergunta à luz das transformações e conceitos históricos, sociológicos, antropológicos, econômicos e psicológicos? Quiçá a inércia diante do impossível? Olha, Samarone a temática solidão também me cativa, imagino mirabolantes histórias quando me deparo com um ser que diante das minhas referências, classifico-o como um solitário, passando ao largo de qualquer pensamento prepotente ou arrogante, ainda mais quando não conheço o ser em análise… Seria a solidão um constructo social, onde o sujeito é impelido, aliciado a se isolar das pessoas; a impossibilidade do convívio com as diferenças, com a diversidade; seria divergir em demasia de um projeto de sociedade, de comunidade; ou solidão é um gozo particular e individual, onde cada um elege sua rotina como bem lhe convêm e sem satisfazer a outrem já tacamos nele a placa de solitário? Essa solidão é real, é simbólica? Será que a solidão é o confronto entre os olhares (os nossos e as escolhas alheias)? Será que serei uma mulher solitária, por reservar momentos apenas para mim, para meus silêncios, quando quero escrever, para as minhas reflexões, minhas auto-análises, minhas leituras, meus descansos, meus ócios, meus espasmos, meus alumbramentos, minhas caminhadas… E afinal não somos nós com os nossos eus, os tanto de nós que “nunca estamos sós?” O assunto é amplo e dá uma tarde inteira.
Mas seu texto como sempre e já perdeu a graça em dizer, é lindo!
Abraço.
13 de outubro de 2009, às 21:30h
Maravilhoso texto, SAma. De tirar o fôlego.
“Me identifico com esses que não têm para onde ir, e se forem, não ficarão muito tempo” (Isso é sua cara mesmo!) rsss. Bj da sua fã tricolor.
13 de outubro de 2009, às 21:32h
“Querer salvar-se é o desejo mais nobre de qualquer desesperado”.
Eu quero me salvar, juro. Ainda bem que essa salvação não vem só dos livros. rssss. “Para salvar-se, é necessário deixar que a ciranda do amor e da morte circulem no mesmo coração”. Isso dá um meeedooo!
14 de outubro de 2009, às 7:35h
Olá, muito bom o texto!
Eu sou da produção do Programa Realidades (Rádio Universitária AM e FM) e gostaria de convidá-lo para comparecer ao nosso programa para falar sobre o seu livro “Viagem ao Crepúsculo”, seria muito enriquecedor para todos os ouvintes! Por favor, responda para o email: programarealidadesru@gmail.com. E para mais informações temos um blog em construção: http://www.blogprogramarealidades.blogspot.com.
Agradeço a atenção e espero uma resposta positiva!
Abraço!
14 de outubro de 2009, às 8:39h
Faltam-me adjetivos.
Uma das suas crônicas que me tocou com mais intensidade, desde que que me tornei leitor assíduo do Estuário.
Abçs.
14 de outubro de 2009, às 10:34h
Samarone,
O “Viagem ao Crepúsculo” não fala mal de Cuba. Aliás, seus relatos não permitem análise dessa natureza. Entendo-o como um “Diário” de viagem, onde você descreve relações mantidas com um grupo de pessoas, que, no meu conceito, são encontradas em qualquer lugar do mundo: as que, sob alegação de sobrevivência, tentam justificar seus atos,- (como diria?) -, nada “celestiais”.
É, grande, e admirado poeta, existem outras, e belas, “errâncias”, como a que acabo de “embarcar”.
14 de outubro de 2009, às 10:56h
A inspiração para o mais lindo de todos os textos virá sábado, vou testemunhar. Beijo
14 de outubro de 2009, às 15:24h
Esses comentários dos leitores são um presente para mim.
Obrigado.
Samarone.
15 de outubro de 2009, às 8:18h
NOBRE SAMA,
“Para salvar-se, é necessário deixar que a ciranda do amor e da morte circulem no mesmo coração.” NESSA VOCÊ BATEU PROFUNDO!!! MARAVILHOSO!!!
ABRAÇÃO FRATERNO,
GEYSON MONTE
16 de outubro de 2009, às 12:13h
Pois é Sama…
Só umas coisinhas, concordo com Geyson, a frase toca fundo.
quando não estiveres espirados, podes buscar a expiração do passado que são muito boas. (texto lindo!)
Sobre as criticas ao livro, não sei o que foi dito, mas só quaro acrescentar que não vejo criticas a Cuba, no viagem ao crepúsculo, vejo o relato etnografico de um povo cançado de um regime falido, para mim esse povo é que constitui CUBA (a nação).
abraços,
Sirley
16 de outubro de 2009, às 14:26h
Sama, mais uma vez, você e os seus textos da alma…
18 de outubro de 2009, às 20:24h
Depois de ontem, nada mais que você diga ou escreva será mais belo. Lindo, lindo, lindo!
Beijo na noiva e no noivo, também!
19 de outubro de 2009, às 18:55h
“falta um bêbado que dance sozinho…”
e a bailarina vai dançando a vida, ébria, como a pintura de uma noite que sente a falta de alguém na saudade de um bêbado bailando na solidão de todos nós…
20 de outubro de 2009, às 9:33h
Bonito demais Samarone e, me identifico perfeitamente com você quando fala que prefere a decadência ao luxo, a solidão à decadência.
Nunca soube me explicar exatamente o porquê destes desvios (ou retidão) da minha alma, em dissonância com praticamente o resto do mundo.
Qualquer forma meus parabéns, mais uma vez, pelas bodas e, passei aqui acho que só pra te dizer isto; nunca vi altar tão bonito em toda minha vida.
Chega deu vontade de fazer uma besteira..
Achei uma pena não poder ter ficado para ver o pantim por inteiro mas é que o Leo exige, inexoravelmente vez por outra, suas prerrogativas de tricolor sub fraldinha que ele é.
Grande abraço e vamo que vamo!
20 de outubro de 2009, às 15:19h
Vai escrever sobre o casamento não é, bicha louca??
22 de outubro de 2009, às 9:08h
Tá parecendo que não João Valadares….acho que ele deixou a incumbência (é assim que escreve?) com sua mãe e com o Inácio…rssrrsrs