Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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O poeta e advogada

29 de outubro de 2009, às 9:39h por Samarone Lima

Leio os jornais de hoje e lembro do Faces do Subúrbio. “Bombas, atropelamentos, assassinatos, esses são os fatos que não impressionam”.

Até que esbarro no Girassól do Garibaldi Otávio.

Ele tem 71 anos, e desde os 16, escreve poesias. Ainda bem moço, recebia elogios do grande Mauro Mota, de Gilberto Freyre e do insuperável cronista Renato Carneiro Campos. Hoje lança seu livro, “O girassol”, editado pela CEPE.

Vejo o texto do Marcelo Pereira – “Garibaldi Otávio abre finalmente as gavetas” – e fico a pensar. O que fez o jovem poeta, que já era citado precocemente por Mauro Mota como “o menino caladão, escondido nele mesmo”?  Por que esperar mais de cinco décadas, até deixar que 79 poemas viessem ao mundo?

Grande bobagem essa minha, a de querer compreender os poetas, de ficar perguntando bobagens sobre os mistérios da alma humana, especialmente dos poetas.

Até que uma informação me serve para entender tudo.

“Mas o ímpeto inicial foi cedendo espaço às obrigações de jornalista e militante político, a poesia ficando em segundo plano, até que ao se apaixonar pela advogada Ana Cavendish, surgiu o estímulo para a coletânea, com 79 poemas”, diz Marcelo Pereira.

O poeta encontrou alguém que abriu as gavetas, olhou aqueles papéis todos, deu um sopro e o encorajou ao mundo. Soprou pétala no coraçãodo homem-menino setentão. O menino caladão, escondido nele mesmo, veio ao mundo. Bendita Ana Cavendish.

Olho a foto do Garibaldi, que nas matérias, é citado com o encurtamento do nome – Gari. Tem um olhan manso, cabelos brancos, parece ser homem que fala sem alarde, embala concórdias e não se gaba de nada, apenas de ter vivido intensamente e de ter escrito seus poemas em silêncio, enquanto a vida seguia. Os poemas, creio, eram sua vigília.

Gari, neste caso, assemelha mais ao que vai colhendo as pétalas do girassol que plantou.

Na falta do livro em minhas mãos, colho o poema publicado no Jornal do Commercio de hoje.

“O duro olhar dos homens e dos touros

espreitam a mansa tarde com rancor.

Então a fúria explode. A mansa tarde explode a sua fúria numa flor.

No duro olhar dos homenas a flor é alfanje

com que vão decepar a cor da tarde.

No duro olhar dos touros a flor é sangue

que veste de escarlate a lâmina da espada”.

Lançamento hoje (29/10), às 19h, no Centro Cultural Banco Real.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Luisiana Lamour Disse:

    Oi Samarone
    Estou lendo Viagem ao crepúsculo, e acredito que eu, assim como a maioria das pessoas, jamais vai esquecer este relato tão intenso da viagem vivida por você.Mas, exatamente nas páginas 112 e 113 eu parei e desabei, literalmente desabei no choro “e frio dá tanta fome…”.Lembrei de Tia Flocely, já pensou, aqueles olhinhos dela lendo isto?
    Sama, lido com idosos como você sabe e isto me doeu um bocado,é muito, muito dolorosos saber desta realidade de Cuba.Vi fotos de idosos na internet desnutridos, sofridos, acabados, de cortar o coração.Aliás, nunca acreditei que fosse a oitava maravilha descrita por visionários, pessoas que alimentam um sonho do que nada sabem.Sempre digo para as pessoas que elogiam Cuba , que deveriam conhecer para depois falar.Creio que depois de ler este livro, não preciso de viajar até lá para saber , aliás, nem quero,nunca quis ir até lá.Até porque me incomodaria bastante,estar em um local em que as próprias pessoas do lugar não pudessem estar a vontade, ir e vir com liberdade.
    Parabéns pelo livro e por você ter conseguido retratar tão bem esta triste realidade .
    Um abraço
    Luisiana

  2. Victor Disse:

    É complicado, é complicado. Nem tudo é tão preto-no-branco assim, mas ainda vou ler esse livro de Samarone.

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