Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Perambulações, errâncias e incertezas

30 de novembro de 2009, às 19:09h por Samarone Lima

Não sei o que sentem os escritores em geral, mas tenho me divertido pacas com os lançamentos, especialmente os agendados pela minha editora, a Casa das Musas. Um dos livros, sobre futebol, foi organizado em São Paulo, exatamente no mesmo dia em que a seleção brasileira jogava no Arruda, no Recife. Perdi o jogo, claro, e para o lançamento fomos cinco pessoas. O bestão aqui, meu editor, Dom Gustavo, Érika, minha prima, e mais duas criaturas.

O lançamento de “Viagem ao Crepúsculo”, sexta-feira à noite, na Feira do Livro de Brasília, foi outro capítulo. A Feira do Livro de Brasília, para quem nunca foi, é um negócio tão ruim, mas tão ruim, que é feita num shopping. Pensem num amontoado de stands, nennhum debate, quilos e quilos de livros ruins. Nem sequer os palhacinhos do Detran os infelizes botam.

Pois bem. Chegamos lá meio dia, para ver o stand do Chico, livreiro das antigas em Brasília. Mal chegamos, com duas caixas de livro, ele disse:

“Tomem conta de tudo, que estou morrendo de fome e vou almoçar”.

E vupt! Saiu.

Para dois larápios de livros contumazes, obstinados por livros, foi algo inédito. Eu e Gustavo, sozinhos, com várias estantes de livros novinhos em folha, sem ninguém para recriminar uma eventual transferência de um ou dois volumes para nossas bolsas. Nada de seguranças, nem sinal das malditas portinhas que apitam. Acho que ficamos tão emocionados, que nenhum dos dois teve ímpetos malevolentes. Ficamos à sombra, feito passarinhos, e cuidamos do stand. Chico voltou uma hora depois, e jamais vai imaginar, na vida, o risco que correu.

De lá fomos para a Câmara dos Deputados, onde gravei uma entrevista no programa “Comitê de Imprensa”, comandado pelo excelente Paulo José (www2.camara.gov .br/tv)

Foi, digamos, a colher de chá do ano. Meia hora de uma conversa boa, com um sujeito que leu o livro e ficou fazendo aquelas perguntas que todo mundo quer fazer, a um jornalista que escreveu sobre Cuba. Como funcionam os meios de comunicação, como é a vida cotidiana, a repressão etc. Graças a essa entrevista, já recebi pedidos de livros de três estados. Até amanhã, alguém vai conseguir botar minha mãe na frente do computador, ela vai ver a entrevista na Internet e imediatamente vai me ligar, dizendo que ficou ótima.  Minha mãe é igualzinha a todas as outras, mas é a mais legal de todas.

Bem, o lançamento, à noite, foi aquele fracasso divertidíssimo. Oficialmente, nove livros vendidos. O Chico cobrou apenas 20% de consignação, o que foi ótimo. Além disso, encontrei meu primo Luís Júnior, que agora mora em Brasília e tem duas filhas. Uma vez tive uma briga feia com ele, porque fiquei jogando pedacinhos de chiclete nos cabelos dele. Ele tinha um ciúme dos diabos dos cabelos. Não sei que invenção foi aquela.

O Luís Júnior apareceu, conversamos pacas, ele comprou um exemplar e ajudou nas vendas. Depois veio o Clébio, torcedor do Santa Cruz que vai a todos os meus lançamentos em Brasília. Também foram o Cláudio Machado e um amigo gaúcho. Por último, aos 44 do segundo tempo, o velho e bom Laércio Portela. O Laércio deu uma bela força na divulgação, vários jornalistas receberam exemplares. A Feira é que é muito ruim mesmo, um negócio espantoso.

Com o dinheiro das vendas, fomos a um sambão, numa daquelas asas de Brasília, que nunca entendo direito. O único lugar que consigo me orientar em Brasília é Taguatinga, uma cidade normal, com esquina, supermercado ao lado de ótica, hotel ao lado de posto de gasolina, barraca de vender sanduíche, cachorro mijando no poste, loja de móvel usado, centro de candomblé, igreja católica, essas coisas que a gente vê quando a cidade é só uma cidade mesmo, não é invenção.

O sambão foi bão pacas, perdão pelo trocadilho infame. Eu e Laércio botamos os papos em dia e enchemos os cornos. Quando a turma começou a cantar “Quando eu morrer/me enterre na Lapinha” com os dedinhos para cima, a gente cansou de tanto samba e fomos embora. No outro dia, conheci a Família Laércio. Juliana, grávida de sete meses, e os dois filhos. O menor é Santa Cruz de corpo e alma, e achei o menino uma lindeza. Laércio me disse a frase fundamental da viagem:

“Eu gosto mais do Santa Cruz do que de futebol”.

Isso é um santo homem.

A volta foi um horror. A webjet atrasou o vôo em uns 50 minutos. Nunca tanta confusão numa aeronave só. Um sujeito sentou na minha cadeira (fico sempre junto da porta de emergência, para o caso de acidentes a 10 mil pés). Sentei em outra, por pura preguiça. Um menino chorava na cadeira da frente. A aeromoça veio dizer que o casal e o menino não poderiam ficar ali, porque era saída de emergência. O pai retrucou, usando algum argumento barato.

“É o comandante. Ele não permite”.

Mudamos de lugar. O casal veio, eu e outro casal fomos para uma fileira para frente. Sentei na janela da porta de emergência. Uma moça com o marido, que também foi convidada a trocar de cadeira, me olhou e disse:

“Aqui atrás, a gente estava na janela”.

Grande merda, foi o que pensei, se cair a gente se esfarela tudo, com ou sem janela. Fui para o corredor. Cinco minutos depois, a desgraçada fechou a janela. Peguei meus livrinhos e caderno. Teria 2h30 de voo pela frente.

O casal passou a viagem inteira naqueles beijinhos de tchuco tchuco. Aqueles casais que chamam o outro de “benhê”. Um horror. Não conversavam nada que prestasse. Eram monossílabos e vaguidões. Perseveravam na água com açucar. Se ele tinha ligado para o irmão. Se a mãe iria buscar. Aqui-ali, aqueles beijos estalados, sem sentimento. Lá pelas tantas, ela disse que queria ter três filhos, mas o primeiro tinha que ser homem, para cuidar das outras duas filhas, que seriam meninas. Tudo nessa ordem, sem errância alguma, só porque ela queria. O nome da primeira filha, a infeliz, seria Jucimaria. O marido, que tinha o cabelo repartido no meio da cabeça, achou lindo.

Nessa hora, surgiu uma mini-turbulência e suei frio. Sempre acho, em turbulência, que alguma peça do avião está se espatifando, e vou ganhar meu epitáfio. Essa foi bem melhor. Logo agora, que meus livros começam a vender, pensei. Súbito, me apareceu o refrão do sambão. “Quando eu morrer/Me enterre na Lapinha”. Terá sido uma premonição?

Cheguei vivo. Peguei um táxi na frente do aeroporto, o taxista quis mandar uma bandeira 2.

“Amigo, não sou turista, sou do Recife mesmo, não precisa bandeira dois não, visse?”

Ele ficou sem graça, pediu desculpas, foi sem querer, botou na bandeira 1. Nisso, o celular começou a tocar. Eram meus amigos corais. O Santa ganhou de 4 x 3 do Central e foi campeão da Copa Pernambuco. Perdi o jogo por causa da Webjet.

Já era noite. Ficou ainda mais bonita. O vento do Recife batia no meu focinho. Lembrei do filho de Laércio, uma grande figura. Um dia iremos ao Arruda juntos. Isso é uma certeza.

Nota

Sexta-feira que vem, será a vez de lançar meu “Viagem” em Salvador. Vou aproveitar para conhecer o Paulo Bono, que manda bem no seu blog “espalitandodente” (www.espalitandodente.blogspot.com). Além disso, rever uma penca de gente maravilhosa, como Tenille e Yvete, que estão organizando a festa.

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TV Câmara e o “jornalismo sem perguntas”

29 de novembro de 2009, às 10:09h por Samarone Lima

Sigo minhas perambulações por conta do livro novo, mais tarde posto crônica nova sobre minhas aventuras em Brasília.

Quem quiser ver uma entrevista realmente bacana sobre o livro, é só dar uma olhada no site da Câmara dos Deputados www2.camara.gov.br/tv

O programa se chama “Comitê de Imprensa”.

Quem tiver TV Câmara em casa, informo que o mesmo será reapresentado neste domingo, às 6h, 10h30 e 23h30.

Na segunda-feira, às 7h e 11h.

Estou aqui terminando uma cronicazinha de viagem nova. Está na hora de acabar com essa folga toda.

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Sem tempo, sem documento

27 de novembro de 2009, às 15:17h por Samarone Lima

Amados leitores, aconteceu a sobrecarga. Estou envolvido em algumas frentes de trabalho, como o lançamento do novo livro em Brasília e Salvador, análise de projetos do Funcultura, renovação da carteira de habilitação e ação na Secretaria de Cultura, onde sou assessor de imprensa.

Sempre encontro tempo para tudo, mas até domingo, estarei tomado por essas coisas todas da vida, e os textos que mais me deram dor de cabeça fora os que escrevi em lan-houses (não sei o plural de lan-house). Não vou cair nessa de novo.

Bem, resta-nos uma pequena licença-prêmio. Informo, porém, que meus caderninhos estão cheios de novas crônicas. Semana que vem, vocês terão uma overdose. Também tenho saudades dos meus leitores.

Samarone

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Conversas no bar

23 de novembro de 2009, às 15:18h por Samarone Lima

Na quarta-feira, 25, estarei no bar e restaurante “O Banquete”, na rua do Lima, para conversar com os leitores e amigos, e ler alguns trechos do “Viagem ao Crepúsculo”.

Será a partir das 19h. Algumas pessoas perguntaram também onde podem comprar, então informo que levarei um lote para vender na hora, feito caldo de cana.

A boa nova é que estamos caminhando bem com o livrinho, publicado pela pequena Editora Casa das Musas. Dia 27, faremos o lançamento em Brasília (Feira do Livro), e no dia 4 de dezembro, o lançamento será em Salvador.

Amanhã deixo o comercial de lado e publico crônica nova, ainda sem título, tema ou assunto. Aceito sugestões.

O restaurante “O Banquete” fica quase defronte à TV Jornal. A rua do Lima é aquele que vai dar na rua da Aurora. Como já fui dono de dois bares, vou abrir brevemente o terceiro, um bar redundante pacas, que vai funcionar na rua do Lima. Vai se chamar Bar do Samarone Lima. Rararara. O gerente será o Magro Valadares, que vai beber o bar inteiro em poucos dias.

Informo que sou pontual, e que comprando dois livros (lembrem dos amigos secretos e confras), darei um desconto supimpa.

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Yoga, primeiro dia

17 de novembro de 2009, às 13:45h por Samarone Lima

Sempre gostei de Yoga, apesar de ter feito um curso exaustivo, há dezenas de anos, talvez centenas, com um sujeito chato pacas, o tal De Rose, que ficava puto quando a gente dizia Yoga, com o “o” aberto, som de ó. Era Yôga, porque isso, porque aquilo, era a marca registrada dele.

No Recife, fiz uns dois anos, ali no Ubaia´s Center, mas começou minha louca vida de professor universitário, dono de bar e metido a escritor, a Yoga com som aberto foi cancelada por um tempo. Aliás, por muito tempo.

Ontem, foi o dia de voltar. Eu gosto dessas coisas. Adoro meu futebol dominical, mas gosto de Yoga, aprecio a meditação, essas coisas da lentidão. Já sei que o Magro Valadares vai gritar – “Mais freeesco”. Ossos do ofício.

Às 18h05 de ontem estava na Conde da Boa Vista. Objetivo – pegar um ônibus, descer na Praça do Entrocamento, caminhar rumo à rua das Graças, onde funciona a Sádhana Yoga.

Antes, preciso fazer um depósito de uma filmagem que um camarada fez pra mim, R$ 150,00. Pego dinheiro no Real, vou ao Banco do Brasil. Descubro que a recente reforma da avenida Conde da Boa Vista transformou o local em um ponto de assassinos. Nos dois lados, ônibus passam fazendo “ziu”, “ziu”. Na faixa de pedestre, você corre mais risco do que os caras do globo da morte, do circo Thiany. Quando o sinal abre, trate de correr, são 15 segundos, creio, e uma multidão indo e voltando. Qualquer dia, vão morrer 15 de uma vez, um para cada segundo.

Chego ao Banco do Brasil. A conta era no Itaú. Volto para onde estava, sobrevivo a mais um atropelamento e vejo o comércio pirata de DVDs. São milhares, a R$ 2,00. Finalmente deposito. Estou livre.

Às 18h15 estou dentro do Alto Santa Isabel, da Transcol, e lembro do amigo Lucimério, dono da empresa. Vou ver se consigo um passe fácil gratuito até o final de ano, a título de cortesia. Eu sempre falo da Transcol. Isso já está dando na cara – merchandising.

O ônibus não está cheio. Entro, olho meus comparsas de coletivo. Somente um sujeito lê algo. Aperto os olhos e vejo – é um livro.

Ao meu lado esquerdo, um casal jovem, ela grávida. Estão gozando no celular. Olham este tótem. Toca uma música horrível, de origem fácil de identificar – uma das 3.457 bandas brega de Pernambuco ou do Pará. Não olham para mais ninguém. Estão hipnotizados. Puxo meu livrinho, começo a ler, mas faz calor, melhor mesmo é reparar o povo, alguma condição atmosférica nova, uma clarabóia qualquer neste anoitecer recifense. Atrás do casal do celular, um jovem de cabelo raspado escuta música o celular também. Escuta mais alto. Não sei o que é isso. As pessoas de mal gosto fazem questão da supremacia, do domínio. Nunca vi um sujeito botar uma Billie Holliday, um Bach, um Paulinho da Viola, na maior altura. As pessoas de bom gosto são sempre mais discretas.

Uma senhora, no banco de trás, atende ao celular. Escuta algo e se irrita:

“Você está onde? Onde? Vá para a casa de sua avó agora, entendeu? Agora!”

Acho que o outro lado da linha entendeu. A mulher desligou.

O brega corre solto. O motorista vai cortando feito uma moto. “Ziu” “Ziu”. Passamos Conde da Boa Vista, vem o pior. Passar defronte ao Americano Batista, cruzar a Agamenom Magalhães e virar à direita, entrando na Rosa e Silva. Isso tudo compartilhado pelo desejo obsessivo de seguir o mesmo caminho, de milhares de pessoas em seus carros.  Milhares de impaciências em quatro rodas.

A cada parada, mais gente vai entrando. Uma mulher está com seu filho pequeno no colo, chega outra, começa a brincar com o menino. Tchuco tchuco tchuco. O menino começa a rir, as mulheres começam a começar, já viram irmãs. Tchuco tchuco, o pirraia já muda a cara do ônibus, eu já nem escuto mais o brega. Se fosse comigo, eu ficaria puto, porque detesto esse negócio de tchuco thuco.

Lá pelas tantas, cruzamos a Agamenom. Desço na parada do Clube Português, onde outrora fiz natação e sauna uma vez por semana. Sobe aquele cheiro inconfundível de batata frita na hora, vendido aos quilos pela cidade. Vou andando. Pocot, pocot, pocot. Sigo pela Rui Barbosa. Passo na frente da Casa dos Frios, penso em comprar um vinho mas reflito - poxa, no dia da primeira aula de Yoga, o cara já pensa em vinho? Deixo para depois.

Finalmente chego ao Sádhana. Toco a campainha. A moça atende.

“Vim para minha primeira aula”.

O portão abre. Um oásis no meio da correria da cidade. Um sino toca do alto de uma árvore, aqueles sinos de bambu, ao sabor do vento. Tudo simples, bom, uma casa agradável, cheia de plantas bonitas, bem cuidado. Pago o mês, a taxa, vou ao banheiro, troco de roupa, bebo água. Daqui a 15 minutos, estarei de volta à Yoga.

Estava lendo e querendo cochilar, quando a professora Maristela apareceu, dando um boa noite jovial.

“Vamos começar”.

Fomos para uma sala ampla, confortável, uma música deliciosa ao fundo. Antes de entrar, tem uma torneirinha, para o sujeito lavar os pés. Foi a minha sorte. Lavei, enxuguei (tem uma toalhinha para o serviço), antes de começar a aula.

Foi uma hora preciosa, que espero voltar sempre. Depois dos ásanas, respirações, do relaxamento, a pessoa sente tudo funcionando bem.

Encerramos com o tradicional “Namasté”. Só não teve o “Ommmmmm”. Acho que deve ser outra escola de yoga.

Fui saindo, fechei o portão. Estava bem sossegado, como fico depois de um bom jogo nos Caducos, aos domingos. O Recife já estava bem mais sossegado. Nisso passa um casal por mim.

“Mas tu és muito tabacudo mesmo, não escutasse o que eu te disse naquela hora?”, esbravejou a moça.

“Mas…” – tentou o rapaz.

“Só sendo muito tabacudo mesmo”, prosseguiu ela, irritadíssima, gesticulando bastante, uma moça sem modos, para meu gosto.

Mas isso já não me interessava para nada.

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