Perambulações, errâncias e incertezas
Samarone Lima
Não sei o que sentem os escritores em geral, mas tenho me divertido pacas com os lançamentos, especialmente os agendados pela minha editora, a Casa das Musas. Um dos livros, sobre futebol, foi organizado em São Paulo, exatamente no mesmo dia em que a seleção brasileira jogava no Arruda, no Recife. Perdi o jogo, claro, e para o lançamento fomos cinco pessoas. O bestão aqui, meu editor, Dom Gustavo, Érika, minha prima, e mais duas criaturas.
O lançamento de “Viagem ao Crepúsculo”, sexta-feira à noite, na Feira do Livro de Brasília, foi outro capítulo. A Feira do Livro de Brasília, para quem nunca foi, é um negócio tão ruim, mas tão ruim, que é feita num shopping. Pensem num amontoado de stands, nennhum debate, quilos e quilos de livros ruins. Nem sequer os palhacinhos do Detran os infelizes botam.
Pois bem. Chegamos lá meio dia, para ver o stand do Chico, livreiro das antigas em Brasília. Mal chegamos, com duas caixas de livro, ele disse:
“Tomem conta de tudo, que estou morrendo de fome e vou almoçar”.
E vupt! Saiu.
Para dois larápios de livros contumazes, obstinados por livros, foi algo inédito. Eu e Gustavo, sozinhos, com várias estantes de livros novinhos em folha, sem ninguém para recriminar uma eventual transferência de um ou dois volumes para nossas bolsas. Nada de seguranças, nem sinal das malditas portinhas que apitam. Acho que ficamos tão emocionados, que nenhum dos dois teve ímpetos malevolentes. Ficamos à sombra, feito passarinhos, e cuidamos do stand. Chico voltou uma hora depois, e jamais vai imaginar, na vida, o risco que correu.
De lá fomos para a Câmara dos Deputados, onde gravei uma entrevista no programa “Comitê de Imprensa”, comandado pelo excelente Paulo José (www2.camara.gov .br/tv)
Foi, digamos, a colher de chá do ano. Meia hora de uma conversa boa, com um sujeito que leu o livro e ficou fazendo aquelas perguntas que todo mundo quer fazer, a um jornalista que escreveu sobre Cuba. Como funcionam os meios de comunicação, como é a vida cotidiana, a repressão etc. Graças a essa entrevista, já recebi pedidos de livros de três estados. Até amanhã, alguém vai conseguir botar minha mãe na frente do computador, ela vai ver a entrevista na Internet e imediatamente vai me ligar, dizendo que ficou ótima. Minha mãe é igualzinha a todas as outras, mas é a mais legal de todas.
Bem, o lançamento, à noite, foi aquele fracasso divertidíssimo. Oficialmente, nove livros vendidos. O Chico cobrou apenas 20% de consignação, o que foi ótimo. Além disso, encontrei meu primo Luís Júnior, que agora mora em Brasília e tem duas filhas. Uma vez tive uma briga feia com ele, porque fiquei jogando pedacinhos de chiclete nos cabelos dele. Ele tinha um ciúme dos diabos dos cabelos. Não sei que invenção foi aquela.
O Luís Júnior apareceu, conversamos pacas, ele comprou um exemplar e ajudou nas vendas. Depois veio o Clébio, torcedor do Santa Cruz que vai a todos os meus lançamentos em Brasília. Também foram o Cláudio Machado e um amigo gaúcho. Por último, aos 44 do segundo tempo, o velho e bom Laércio Portela. O Laércio deu uma bela força na divulgação, vários jornalistas receberam exemplares. A Feira é que é muito ruim mesmo, um negócio espantoso.
Com o dinheiro das vendas, fomos a um sambão, numa daquelas asas de Brasília, que nunca entendo direito. O único lugar que consigo me orientar em Brasília é Taguatinga, uma cidade normal, com esquina, supermercado ao lado de ótica, hotel ao lado de posto de gasolina, barraca de vender sanduíche, cachorro mijando no poste, loja de móvel usado, centro de candomblé, igreja católica, essas coisas que a gente vê quando a cidade é só uma cidade mesmo, não é invenção.
O sambão foi bão pacas, perdão pelo trocadilho infame. Eu e Laércio botamos os papos em dia e enchemos os cornos. Quando a turma começou a cantar “Quando eu morrer/me enterre na Lapinha” com os dedinhos para cima, a gente cansou de tanto samba e fomos embora. No outro dia, conheci a Família Laércio. Juliana, grávida de sete meses, e os dois filhos. O menor é Santa Cruz de corpo e alma, e achei o menino uma lindeza. Laércio me disse a frase fundamental da viagem:
“Eu gosto mais do Santa Cruz do que de futebol”.
Isso é um santo homem.
A volta foi um horror. A webjet atrasou o vôo em uns 50 minutos. Nunca tanta confusão numa aeronave só. Um sujeito sentou na minha cadeira (fico sempre junto da porta de emergência, para o caso de acidentes a 10 mil pés). Sentei em outra, por pura preguiça. Um menino chorava na cadeira da frente. A aeromoça veio dizer que o casal e o menino não poderiam ficar ali, porque era saída de emergência. O pai retrucou, usando algum argumento barato.
“É o comandante. Ele não permite”.
Mudamos de lugar. O casal veio, eu e outro casal fomos para uma fileira para frente. Sentei na janela da porta de emergência. Uma moça com o marido, que também foi convidada a trocar de cadeira, me olhou e disse:
“Aqui atrás, a gente estava na janela”.
Grande merda, foi o que pensei, se cair a gente se esfarela tudo, com ou sem janela. Fui para o corredor. Cinco minutos depois, a desgraçada fechou a janela. Peguei meus livrinhos e caderno. Teria 2h30 de voo pela frente.
O casal passou a viagem inteira naqueles beijinhos de tchuco tchuco. Aqueles casais que chamam o outro de “benhê”. Um horror. Não conversavam nada que prestasse. Eram monossílabos e vaguidões. Perseveravam na água com açucar. Se ele tinha ligado para o irmão. Se a mãe iria buscar. Aqui-ali, aqueles beijos estalados, sem sentimento. Lá pelas tantas, ela disse que queria ter três filhos, mas o primeiro tinha que ser homem, para cuidar das outras duas filhas, que seriam meninas. Tudo nessa ordem, sem errância alguma, só porque ela queria. O nome da primeira filha, a infeliz, seria Jucimaria. O marido, que tinha o cabelo repartido no meio da cabeça, achou lindo.
Nessa hora, surgiu uma mini-turbulência e suei frio. Sempre acho, em turbulência, que alguma peça do avião está se espatifando, e vou ganhar meu epitáfio. Essa foi bem melhor. Logo agora, que meus livros começam a vender, pensei. Súbito, me apareceu o refrão do sambão. “Quando eu morrer/Me enterre na Lapinha”. Terá sido uma premonição?
Cheguei vivo. Peguei um táxi na frente do aeroporto, o taxista quis mandar uma bandeira 2.
“Amigo, não sou turista, sou do Recife mesmo, não precisa bandeira dois não, visse?”
Ele ficou sem graça, pediu desculpas, foi sem querer, botou na bandeira 1. Nisso, o celular começou a tocar. Eram meus amigos corais. O Santa ganhou de 4 x 3 do Central e foi campeão da Copa Pernambuco. Perdi o jogo por causa da Webjet.
Já era noite. Ficou ainda mais bonita. O vento do Recife batia no meu focinho. Lembrei do filho de Laércio, uma grande figura. Um dia iremos ao Arruda juntos. Isso é uma certeza.
Nota
Sexta-feira que vem, será a vez de lançar meu “Viagem” em Salvador. Vou aproveitar para conhecer o Paulo Bono, que manda bem no seu blog “espalitandodente” (www.espalitandodente.blogspot.com). Além disso, rever uma penca de gente maravilhosa, como Tenille e Yvete, que estão organizando a festa.
Postado em Crônicas |
10 Comentários »



