Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Conversas com Bin Laden

3 de novembro de 2009, às 17:22h por Samarone Lima

Essa minha mania de conversar com todo mundo que se aproxima ainda vai me dar problemas.

Há umas três semanas, um guardador de carros aqui da rua da União, onde trabalho, um sujeito baixinho, cabelos brancos meio chafurdados pela vida, uns poucos e não amostráveis dentes, me jogou uma pergunta.

“Ela vem hoje?”

Eu não sabia quem era ela. Comigo, na Secretaria de Cultura, trabalham umas oito mulheres. De homem,  só eu e Josafá. Mas também não vou ser indiferente com perguntas tão simples. Como diz Iramarai, “comigo não tem subterfúgios”.

“Vem sim”, respondi.

Foi a senha para uma série de diálogos que não tem levado nenhum dos dois a lugar nenhum.

Basta eu me aproximar, que ele se levanta (é um sujeito que gosta muito de ficar sentado, olhando os carros), e vai direto ao assunto.

“Ela já chegou?”

“Ainda não vi hoje”.

“Mas vem?”

“Eu acho que talvez”.

Então ele senta e não reclama, não diz que está com saudades, que precisa falar com urgência. De vez em quando, usa um fone de ouvido. Não sei o que escuta.

Outro dia comentei o caso, algum camarada do pedaço me informou quem era a pessoa.

“É um baixinho, de cabelo estragado? É o Bin Laden. Vive por aqui mesmo”.

Sou agora essa pessoa que tem diálogos quase diários com Bin Laden. Vejam o perigo.

Antes do feriado, ele foi mais direto.

“Dá para ligar pra ela?”

Comecei a achar que “Ela” é dona Hilda, nossa herdeira de cangaceiros de Serra Talhada, a nossa Miss Simpatia.

“Elá está em Serra Talhada”, respondi, de primeira.

“Serra Talhada?”

“É”.

“Mas volta?”

“Voltar, acho que volta”.

Nessas horas, a dúvida pode causar inúmeros problemas.

Bin Laden coçou a cabeça. O cara tem cabelos pacas. Olha quem fala.

Hoje ele me avistou de longe.

“Já chegou?”

“Ainda não. Acho que só vem na quinta”.

“Que demora, né?”

Ele sempre coça a cabeça.

“E se ligar pra ela?”

“Ela volta”.

Agora sou esta pessoa com um problema existencial. Todos os dias, tenho que responder às perguntas do Bin Laden da rua da União. Como trabalho no Espaço Pasárgada, a ex-casa de Manuel Bandeira, tenho pensado que “Ela” pode ser a poesia, ou alguma musa de nosso camarada.

Como Dona Hilda chega na quinta-feira de Serra Talhada, vou consultá-la. Se não for ela a “ela” do Bin Laden, vai ficar sendo.

É muito chato ficar sem respostas para essas perguntas fundamentais da vida.

E a última coisa que quero neste mundo é arranjar arenga logo com o Bin Laden do pedaço.

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