Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Diversos e dispersos

11 de novembro de 2009, às 15:15h por Samarone Lima

Tempo para crônica nova só amanhã mesmo.

Enquanto isso, vamos que vamos.

Hoje (quarta-feira), às 17h, reunião no bar de Deu Vital para discutir e encaminhar as dezenas de propostas para solucionar o roubo da Kombi de Naná. Quem quiser ajudar que se chegue.

Para evitar encher a paciência dos meus leitores sobre meu livro novo, resolvi abrir um blog específico: www.viagemaocrepusculo.blogspot.com

Lá, vou botar atualizações sobre lançamentos, críticas, fatos inusitados e coisas do livro. Esta semana, deram um pau na blogueira cubana, a Yoani Sánchez, que cito no livro. Que lástima.

Em meio a essas coisas todas, vou pensando em um tema para amanhã. Penso em falar sobre “Utilidade pública e auto-ajuda”. Pode ser também mais um lote da minha coleção de frases. Hoje uma amiga escutou de outra a seguinte pérola:

“Vou fazer uma leptospirose na barriga”.

Onde tem leptospirose havia o desejo de dizer lipoaspiração.

Mas as duas palavras começam com os termos croatas ”lep” e “lip”

Lembrei agora do “hip hip hurra”.

Melhor dançar um tango argentino ou dar uma olhadinha no caótico do Inácio, que está ggg – jóia, jóia, jóia.

www.caotico.com.br

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Domingo no Poço

7 de novembro de 2009, às 22:00h por Samarone Lima

Meu domingo invariavelmente começa às 5h da manhã, quando acordo, pego o par de chuteiras, o meião, calção, camisa, e sigo para o Poço da Panela. Às 6h começa a pelada dos Caducos F.C. Desde 2001, quando fui morar no Poço, jogo. Chama-se “Caducos”, porque quem joga tem geralmente mais de 30 anos. Mas nunca fomos excludentes. Peixe, por exemplo, tem 17 e joga. Renato, que tem 16, também faz suas firulas.

Meus amigos ficam horrorizados com uma pelada aos domingos, 6h da manhã. Acontece que basta você chegar às 6h20, para pegar o terceiro time. Isso dá uma tristeza dos diabos, ficar para o terceiro time. Claro que você ainda corre o risco de ficar dando uma de gandula, porque o campo de Seu Abdias fica ao lado do rio Capibaribe. Quando a bola sai, dizemos que foi para a maré. Na verdade, ela vai para o mangue. Quando a maré está cheia, pegar a bola vira uma tormenta.

Cada atleta paga R$ 1,00 por partida. O dinheiro serve para a gente pagar o aluguel do campo, que custa R$ 30,00 por mês. Há os mensalistas, que pagam R$ 5,00/mês. É o meu caso. No começo, eu era reserva do Mudo, que tinha uma boa saída com a bola, mas aos poucos fui impondo meu estilo duro mas sem pancadas, na base da raça. Dá uma alegria quando a gente faz o sorteio das pedras, e os caras dizem que a zaga está fechada, porque estou na defesa. Além disso, nosso time pode estar perdendo de 8 x 0 que acredito no empate. Meu grande jogo no Caducos foi quando estávamos perdendo de 6 x 1 e viramos para 7 x 6. O gol da vitória parecia final de campeonato. Em pelada não tem boquinha, a turma joga para ganhar.

Nossa pelada tem atletas com os nomes os mais diversos. Dinho Papeira, Peitão, Bode (goleiro), Calango (goleiro aposentado), Camorim (disparado o pior jogador da humanidade), Cioba, Manguaça (esse bebe bem), Batman, mas há gente como nome normal também, como Tião, Rui, Dai etc. Apesar de ter esse nome, nunca ganhei apelido. Me chamam de Samarone mesmo, ou Sama. Na hora da pelada, não dá para ficar chamando um cara com um nome que tem quatro sílabas. Vou perguntar à Flávia. Deve ser um proparoxítono.

Depois da pelada, a gente confereo caixa (geralmente eu e Batman), vê quanto temos acumulado, se é necessário comprar ou consertar alguma bola, enfim. Depois separamos R$ 2,30 para o refrigerante para quem ficou por último. Às 9h estão todos exaustos e felizes. Manguaça já começa a tomar uns quartinhos de Pitú com Tião, com galinha a cabidela. Nessa hora, começa a chegar a turma de Casa Amarela, que joga de 9h às 12h. Os caras são organizados pacas, levam até água mineral gelada.

Depois do jogo, é sagrado. Passo em Matuto, compro frutas e alguma verdura. Matuto me fala dos três meninos, que conheço desde pirraia, como estão na escola etc. Vou falando com todo mundo que encontro, até com as árvores falo, cumprimento os cachorros, passarinhos, não escapa nada. Sigo para a mercearia de Vital, ainda de chuteiras e suados dos pés ao calcanhar. Geralmente não levo pancadas, porque também não sou de bater.

Vital está por ali, limpando a moradia dos louros (Dudu, meu amigão, e Juca, um ser que detesta afagos). Santino faz a varrição do domingo. Peço uma água e depois um café. Se tiver, como uma ou duas bananas sem pagar. Chega Raimundinho, já bicado, pede um vale. Raimundinho, estás lá ou cá, pergunto. No meio do caminho, responde. Libero R$ 1,00. Vai ser mais cana.

Fico por ali, nessa verdejância, buscando nada, começando a pensar em patuscadas, quando me ocorre o banho na casa do gordinho Naná, que esta semana teve a Kombi roubada. Vou lá, passo defronte à minha ex-casa, onde mora agora o velho Léo. Naná abre a porta, digo Qual é a tua, Montanha, ele responde E aí, bicho, Teresa vai buscar uma toalha e segue jogando seu baralho pela Internet. Tomo banho, lavo calção, camisa, meião, vejo se Teresa esqueceu o sabonete da Natura, aproveito. Da última vez, tomei banho com umas ervas que eu vou dizer, saí fresquinho do chuveiro.

Naná prepara um suco, pão, queijo, frutas, café. Comemos juntos, conversando umas bromélias, nossos temas bestas, repassamos as coisas da semana, a expectativa da biblioteca do Poço, enfim. Teresa diz sempre para eu comer mais. Os dois cachorros, com sorte, ficam presos no quintal, porque os bichos latem pacas.

Depois, retorno a Vital. Um cafezinho para completar. A Liga de Dominó começa a chegar aos poucos, em gotinhas. Santino, depois Naná. Se for dia de jogo do Santa, vem Oswaldo Titio, a turma do Mais Querido.

Às vezes, acontece de voltar da pelada e Seu Vital ter saído para comprar coisas em Camaragibe, com o filho Ricardo, que tem um táxi. Na volta, ajudo a esvaziar o táxi, enquanto a conversa segue.

Seu Vital compra umas coisas para Dona Da Luz, que é aposentada e tem problemas nas pernas. Desde que morei lá, Dona Da Luz me chama de Meu Filho, e me beija na testa, quando me vê.

Pego as compras dela, vou visitar. Ela mora com um filho que ficou uns 20 anos internado na Casa de Saúde São José. Um belo dia, acharam que ele deveria ir para casa, e Dona Da Luz agora vive com ele, que do juízo não é nada bom. Por esses dias, passei defronte ao local que era a Casa de Saúde, era apenas um terreno baldio. Derrubaram tudo em segundos. Dizem que vai ser um Carrefour, e já fico com pena de quem mora naquela região. Como são rápidos para derrubar as coisas, esses caras do dinheiro…

A sorte é que o filho de Dona da Luz me quer bem. Pergunta sempre se tenho cigarro. Nunca tenho, mas ele me pergunta sempre. Emília diria que ele é um obsessivo compulsivo. Preta, a cadelinha, me recebe com o rabo balançando. Dona Da Luz está no sofá, agora com a mão tremendo um pouco, mas lúcida. Dei para ela um troço de andar, feito de alumínio, que comprei para minha tia e ela nunca usou. Dona Da Luz gostou do negócio, e tem usado.

Conversamos, recebo conselhos. Dona Da Luz pergunta se quero almoçar, mas é cedo. Quando eu morava no Poço, ela vivia me dando almoço de presente. Sempre fui bem tratado ali. Aliso o gato, Preta, beijo a testa de Da Luz e volto para Vital, que já deve estar com sua cerva aberta debaixo do balcão (que Dona Severina não me leia). No caminho, vejo os amigos todos do Poço, vou falando. Passo em Biu Coió. Os primeiros caneiros já estão mordendo a velha Pitú.

Passo na casa de Walter Barba, grito Barba, mas ele demora a responder. Naná chega, pergunta Qual é a tua, bicho. Daqui a pouco, uma mesa, a banca do dominó, as pedras. Chega Duda, o taxista mais cabuloso do Brasil, vem a Vovó Irene. Formam-se as primeiras duplas. Evito jogar em dupla com Vital, porque ele não suporta minhas pedras bêbadas. Eu não consigo entender uma vírgula de dominó, é um defeito que me aflige muito, ainda farei um curso introdutório, não sei onde a prefeitura está, que não faz curso profissionalizante de dominó.

Lá pelo meio dia, hora de uma boa cerveja. Vão chegando outros amigos. Perco logo a primeira, livro a buchuda, e fico olhando. Pec. Pec. Pec. Chicote. Toquei. Pec. Pec. Mas rapaz, tinhas um ás de sena. Neste domingo, a conversa vai ser o roubo da Kombi de Naná. Vamos ver as providências, analisar a situação, pensar nas estratégias. Raimundinho vai voltar, pedindo mais um vale. Mas de novo, Raimundinho? Não libero.

Hora de botar a sacola com a chuteira, a roupa molhada, as compras no carro. Tenho que beber pouco, por causa da Lei Seca. Lá pelas tantas, Vital vai perguntar Tás Dirigindo, então é hora de parar. Vejo se ele vendeu algum Viagem ao Crepúsculo, acertamos o pagamento, digo até mais aos companheiros e vou embora. No caminho, é o momento de repassar os melhores lances da pelada, algum vacilo, quem sabe um gol de cabeça, no escanteio. 

Abro os vidros e vou sentindo o vento do Recife no focinho.

***

Conta de Naná para doações (ver post anterior)

Evaldo Gomes de Moura

Banco Itaú

Conta Poupança 22907-0

Agência 1594

CPF: 684.793.364-04

(eu tinha colocado o CPF errado)

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As malvadezas dessa vida… (e uma conta extra)

4 de novembro de 2009, às 11:56h por Samarone Lima
O gordinho mais querido

O gordinho mais querido

Esse é o gordinho Naná, meu melhor amigo. Desde 2.ooo, quando voltei ao Recife, esbarramos um no outro e a amizade surgiu como um jardim sem dono. Quando fui morar no Poço, nossas idéias se combinaram. Torcemos pelo mesmo clube, o Santa Cruz, gostamos de coisas parecidas, de ações com a comunidade, adoramos o mesmo boteco, o de Seu Vital. Moramos na mesma rua, a Visconde de Araguaya, ao lado da igreja.

Naná sempre está de Komby. É seu ganha pão. Vive levando gente. Um dia, resolveu levar a criançada para a escola, e virou um belo projeto, que envolveu toda a comunidade. Tenho mais horas nos bancos daquela Komby do que muito motorista do Recife. É um privilégio ser amigo de Naná.

Muitas vezes tenho uma idéia, e quando vou falar, ele diz:

“Bicho, estou com uma idéia…”

É a mesma.

Quando morava no Poço, cansei de receber almoço pela janela. Perdi a conta dos cafés da manhã juntos, depois de levarmos a meninada ao Nilo Pereira, fazendo adivinhação e cantando a música do “Arubu tá com fome”, invenção de Maraí.

Naná tem uma pedagogia própria, que é a minha há muitos anos. A “Pedagogia da Cola”. Se um menino dá trabalho, ao invés de dar carões e coisas do tipo, ele acha que é preciso “colar”. Conversar, escutar, dar atenção. Sempre deu certo.

Nos falamos religiosamente todos os dias por telefone. Só para escutar a voz do outro. Quando ele liga, sempre respondo:

“Diz aí, Montanha, qual é a tua?”

Ele diz onde está e pergunta qual é a minha.

Sim, eu só o chamo de Montanha, desde que nos conhecemos. Ele parece mesmo uma montanha de coisas boas, de carinho, cuidado. Por onde passa, Naná deixa alegria e saudades. Uma das pessoas mais generosas que conheço. É sempre ele que chega e diz que alguém está precisando de ajuda. É sempre ele quem vê o lado bom das coisas.

Certa vez, Naná teve um grande acidente, ficou entre a vida e a morte, internado vários meses na Restauração. Foi um milagre ter sobrevivido. Uma vez ele me contou. Teresa, sua esposa, pensou que ele não escaparia.

“Depois disso, bicho, eu vivo cada dia como se fosse o último. Não tenho mais tempo de ficar pensando em coisa ruim. A vida é boa demais para a gente reclamar”.

Ontem de madrugada, roubaram a Komby do meu querido amigo. Essas malvadezas da vida. Se o ladrão conhecesse Naná, iria devolver na próxima madrugada, com um bilhetinho pedindo desculpas. Como disse há pouco meu amigo Magro Valadares, que já fez matéria com Naná, “podiam roubar a Komby de todo mundo nessa cidade, menos a de Naná”.

Todos estamos mobilizados, divulgando (a placa é KGZ 3021), mas vai ser difícil. Levaram o veículo que estava estacionado numa ruela do Poço, defronte à casa dele. Tudo indica ter sido encomendada. Uma malvadeza encomendada.

Peço ajuda aos meus leitores. Até se aprumar, Naná vai ficar um tempo sem trabalho, e precisa tocar a vida. A coisa mais triste da vida é ver aquele gordinho sem aquele largo sorriso. Dói no coração. Eu mesmo vou fazer tudo para ajudá-lo. Se eu tivesse dinheiro nesta vida, o que eu faria mesmo era dar uma Komby novinha para ele, hoje mesmo.

Quem puder dar uma pequena ajuda, vai a conta:

Evaldo Gomes de Moura

Banco Itaú

Conta Poupança 22907-0

Agência 1594

CPF: 684.793.364-0

Andréa Ferraz e Marcelo Barreto estão fazendo um documentário com Naná. Tinham parado, por falta de tempo. Tomara que agora retomem. Naná merece.

Agradeço muito a quem ajudar.

PS. Quem quiser ajudar de outra forma, sem ser com dinheiro na conta, pode ligar para ele – 8773.3934. Ele vai abrir um largo sorriso, garanto.

Conta Banco do Brasil (atendendo a pedidos)

Agência 2365-5

Conta Poupança 6324448-9

Variação 01

Conta em nome de Maria Leopoldina Ferreira (Irmã da esposa de Naná).

Nota:

A Kombi foi financiada em 36 parcelas de R$ 548,00. Naná pagou somente a primeira. Faltam 35 parcelas. Uma venceu ontem.

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Conversas com Bin Laden

3 de novembro de 2009, às 17:22h por Samarone Lima

Essa minha mania de conversar com todo mundo que se aproxima ainda vai me dar problemas.

Há umas três semanas, um guardador de carros aqui da rua da União, onde trabalho, um sujeito baixinho, cabelos brancos meio chafurdados pela vida, uns poucos e não amostráveis dentes, me jogou uma pergunta.

“Ela vem hoje?”

Eu não sabia quem era ela. Comigo, na Secretaria de Cultura, trabalham umas oito mulheres. De homem,  só eu e Josafá. Mas também não vou ser indiferente com perguntas tão simples. Como diz Iramarai, “comigo não tem subterfúgios”.

“Vem sim”, respondi.

Foi a senha para uma série de diálogos que não tem levado nenhum dos dois a lugar nenhum.

Basta eu me aproximar, que ele se levanta (é um sujeito que gosta muito de ficar sentado, olhando os carros), e vai direto ao assunto.

“Ela já chegou?”

“Ainda não vi hoje”.

“Mas vem?”

“Eu acho que talvez”.

Então ele senta e não reclama, não diz que está com saudades, que precisa falar com urgência. De vez em quando, usa um fone de ouvido. Não sei o que escuta.

Outro dia comentei o caso, algum camarada do pedaço me informou quem era a pessoa.

“É um baixinho, de cabelo estragado? É o Bin Laden. Vive por aqui mesmo”.

Sou agora essa pessoa que tem diálogos quase diários com Bin Laden. Vejam o perigo.

Antes do feriado, ele foi mais direto.

“Dá para ligar pra ela?”

Comecei a achar que “Ela” é dona Hilda, nossa herdeira de cangaceiros de Serra Talhada, a nossa Miss Simpatia.

“Elá está em Serra Talhada”, respondi, de primeira.

“Serra Talhada?”

“É”.

“Mas volta?”

“Voltar, acho que volta”.

Nessas horas, a dúvida pode causar inúmeros problemas.

Bin Laden coçou a cabeça. O cara tem cabelos pacas. Olha quem fala.

Hoje ele me avistou de longe.

“Já chegou?”

“Ainda não. Acho que só vem na quinta”.

“Que demora, né?”

Ele sempre coça a cabeça.

“E se ligar pra ela?”

“Ela volta”.

Agora sou esta pessoa com um problema existencial. Todos os dias, tenho que responder às perguntas do Bin Laden da rua da União. Como trabalho no Espaço Pasárgada, a ex-casa de Manuel Bandeira, tenho pensado que “Ela” pode ser a poesia, ou alguma musa de nosso camarada.

Como Dona Hilda chega na quinta-feira de Serra Talhada, vou consultá-la. Se não for ela a “ela” do Bin Laden, vai ficar sendo.

É muito chato ficar sem respostas para essas perguntas fundamentais da vida.

E a última coisa que quero neste mundo é arranjar arenga logo com o Bin Laden do pedaço.

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