Meu domingo invariavelmente começa às 5h da manhã, quando acordo, pego o par de chuteiras, o meião, calção, camisa, e sigo para o Poço da Panela. Às 6h começa a pelada dos Caducos F.C. Desde 2001, quando fui morar no Poço, jogo. Chama-se “Caducos”, porque quem joga tem geralmente mais de 30 anos. Mas nunca fomos excludentes. Peixe, por exemplo, tem 17 e joga. Renato, que tem 16, também faz suas firulas.
Meus amigos ficam horrorizados com uma pelada aos domingos, 6h da manhã. Acontece que basta você chegar às 6h20, para pegar o terceiro time. Isso dá uma tristeza dos diabos, ficar para o terceiro time. Claro que você ainda corre o risco de ficar dando uma de gandula, porque o campo de Seu Abdias fica ao lado do rio Capibaribe. Quando a bola sai, dizemos que foi para a maré. Na verdade, ela vai para o mangue. Quando a maré está cheia, pegar a bola vira uma tormenta.
Cada atleta paga R$ 1,00 por partida. O dinheiro serve para a gente pagar o aluguel do campo, que custa R$ 30,00 por mês. Há os mensalistas, que pagam R$ 5,00/mês. É o meu caso. No começo, eu era reserva do Mudo, que tinha uma boa saída com a bola, mas aos poucos fui impondo meu estilo duro mas sem pancadas, na base da raça. Dá uma alegria quando a gente faz o sorteio das pedras, e os caras dizem que a zaga está fechada, porque estou na defesa. Além disso, nosso time pode estar perdendo de 8 x 0 que acredito no empate. Meu grande jogo no Caducos foi quando estávamos perdendo de 6 x 1 e viramos para 7 x 6. O gol da vitória parecia final de campeonato. Em pelada não tem boquinha, a turma joga para ganhar.
Nossa pelada tem atletas com os nomes os mais diversos. Dinho Papeira, Peitão, Bode (goleiro), Calango (goleiro aposentado), Camorim (disparado o pior jogador da humanidade), Cioba, Manguaça (esse bebe bem), Batman, mas há gente como nome normal também, como Tião, Rui, Dai etc. Apesar de ter esse nome, nunca ganhei apelido. Me chamam de Samarone mesmo, ou Sama. Na hora da pelada, não dá para ficar chamando um cara com um nome que tem quatro sílabas. Vou perguntar à Flávia. Deve ser um proparoxítono.
Depois da pelada, a gente confereo caixa (geralmente eu e Batman), vê quanto temos acumulado, se é necessário comprar ou consertar alguma bola, enfim. Depois separamos R$ 2,30 para o refrigerante para quem ficou por último. Às 9h estão todos exaustos e felizes. Manguaça já começa a tomar uns quartinhos de Pitú com Tião, com galinha a cabidela. Nessa hora, começa a chegar a turma de Casa Amarela, que joga de 9h às 12h. Os caras são organizados pacas, levam até água mineral gelada.
Depois do jogo, é sagrado. Passo em Matuto, compro frutas e alguma verdura. Matuto me fala dos três meninos, que conheço desde pirraia, como estão na escola etc. Vou falando com todo mundo que encontro, até com as árvores falo, cumprimento os cachorros, passarinhos, não escapa nada. Sigo para a mercearia de Vital, ainda de chuteiras e suados dos pés ao calcanhar. Geralmente não levo pancadas, porque também não sou de bater.
Vital está por ali, limpando a moradia dos louros (Dudu, meu amigão, e Juca, um ser que detesta afagos). Santino faz a varrição do domingo. Peço uma água e depois um café. Se tiver, como uma ou duas bananas sem pagar. Chega Raimundinho, já bicado, pede um vale. Raimundinho, estás lá ou cá, pergunto. No meio do caminho, responde. Libero R$ 1,00. Vai ser mais cana.
Fico por ali, nessa verdejância, buscando nada, começando a pensar em patuscadas, quando me ocorre o banho na casa do gordinho Naná, que esta semana teve a Kombi roubada. Vou lá, passo defronte à minha ex-casa, onde mora agora o velho Léo. Naná abre a porta, digo Qual é a tua, Montanha, ele responde E aí, bicho, Teresa vai buscar uma toalha e segue jogando seu baralho pela Internet. Tomo banho, lavo calção, camisa, meião, vejo se Teresa esqueceu o sabonete da Natura, aproveito. Da última vez, tomei banho com umas ervas que eu vou dizer, saí fresquinho do chuveiro.
Naná prepara um suco, pão, queijo, frutas, café. Comemos juntos, conversando umas bromélias, nossos temas bestas, repassamos as coisas da semana, a expectativa da biblioteca do Poço, enfim. Teresa diz sempre para eu comer mais. Os dois cachorros, com sorte, ficam presos no quintal, porque os bichos latem pacas.
Depois, retorno a Vital. Um cafezinho para completar. A Liga de Dominó começa a chegar aos poucos, em gotinhas. Santino, depois Naná. Se for dia de jogo do Santa, vem Oswaldo Titio, a turma do Mais Querido.
Às vezes, acontece de voltar da pelada e Seu Vital ter saído para comprar coisas em Camaragibe, com o filho Ricardo, que tem um táxi. Na volta, ajudo a esvaziar o táxi, enquanto a conversa segue.
Seu Vital compra umas coisas para Dona Da Luz, que é aposentada e tem problemas nas pernas. Desde que morei lá, Dona Da Luz me chama de Meu Filho, e me beija na testa, quando me vê.
Pego as compras dela, vou visitar. Ela mora com um filho que ficou uns 20 anos internado na Casa de Saúde São José. Um belo dia, acharam que ele deveria ir para casa, e Dona Da Luz agora vive com ele, que do juízo não é nada bom. Por esses dias, passei defronte ao local que era a Casa de Saúde, era apenas um terreno baldio. Derrubaram tudo em segundos. Dizem que vai ser um Carrefour, e já fico com pena de quem mora naquela região. Como são rápidos para derrubar as coisas, esses caras do dinheiro…
A sorte é que o filho de Dona da Luz me quer bem. Pergunta sempre se tenho cigarro. Nunca tenho, mas ele me pergunta sempre. Emília diria que ele é um obsessivo compulsivo. Preta, a cadelinha, me recebe com o rabo balançando. Dona Da Luz está no sofá, agora com a mão tremendo um pouco, mas lúcida. Dei para ela um troço de andar, feito de alumínio, que comprei para minha tia e ela nunca usou. Dona Da Luz gostou do negócio, e tem usado.
Conversamos, recebo conselhos. Dona Da Luz pergunta se quero almoçar, mas é cedo. Quando eu morava no Poço, ela vivia me dando almoço de presente. Sempre fui bem tratado ali. Aliso o gato, Preta, beijo a testa de Da Luz e volto para Vital, que já deve estar com sua cerva aberta debaixo do balcão (que Dona Severina não me leia). No caminho, vejo os amigos todos do Poço, vou falando. Passo em Biu Coió. Os primeiros caneiros já estão mordendo a velha Pitú.
Passo na casa de Walter Barba, grito Barba, mas ele demora a responder. Naná chega, pergunta Qual é a tua, bicho. Daqui a pouco, uma mesa, a banca do dominó, as pedras. Chega Duda, o taxista mais cabuloso do Brasil, vem a Vovó Irene. Formam-se as primeiras duplas. Evito jogar em dupla com Vital, porque ele não suporta minhas pedras bêbadas. Eu não consigo entender uma vírgula de dominó, é um defeito que me aflige muito, ainda farei um curso introdutório, não sei onde a prefeitura está, que não faz curso profissionalizante de dominó.
Lá pelo meio dia, hora de uma boa cerveja. Vão chegando outros amigos. Perco logo a primeira, livro a buchuda, e fico olhando. Pec. Pec. Pec. Chicote. Toquei. Pec. Pec. Mas rapaz, tinhas um ás de sena. Neste domingo, a conversa vai ser o roubo da Kombi de Naná. Vamos ver as providências, analisar a situação, pensar nas estratégias. Raimundinho vai voltar, pedindo mais um vale. Mas de novo, Raimundinho? Não libero.
Hora de botar a sacola com a chuteira, a roupa molhada, as compras no carro. Tenho que beber pouco, por causa da Lei Seca. Lá pelas tantas, Vital vai perguntar Tás Dirigindo, então é hora de parar. Vejo se ele vendeu algum Viagem ao Crepúsculo, acertamos o pagamento, digo até mais aos companheiros e vou embora. No caminho, é o momento de repassar os melhores lances da pelada, algum vacilo, quem sabe um gol de cabeça, no escanteio.
Abro os vidros e vou sentindo o vento do Recife no focinho.
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Conta de Naná para doações (ver post anterior)
Evaldo Gomes de Moura
Banco Itaú
Conta Poupança 22907-0
Agência 1594
CPF: 684.793.364-04
(eu tinha colocado o CPF errado)