Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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A palavra, abraço e retiro

22 de dezembro de 2009, às 9:39h por Samarone Lima

A amiga baiana Yvette me mandou esse texto adorável do Rubem Braga. É com ele que abraço meus leitores nesta semana de Natal e aproveito para dar uma sossegada.

Nos vemos semana que vem. Certamente botarei o pé na estrada com o camarada Iramarai. Então, terei o que contar de novo.

Saludos,

Samarone

**

A Palavra

“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito, como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticências de mágoas. Imprudente ofício é este, viver em voz alta.

Às vezes, também, a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa. 

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento e depois esqueci.

Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa no piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante a transmissão de jogo de futebol… mas o canário não cantava. Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven, e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro? 

Alguma coisa que eu disse distraído, talvez palavras de algum poeta antigo, foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa  muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças”.

Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988).

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O goleiro do Nápoli de 1987 e os pecados capitais

21 de dezembro de 2009, às 5:21h por Samarone Lima

Tenho alguns amigos que me obrigam a usar meu caderninho de notas a cada encontro. Vai a escalação: Cézar Maia, Giba, Ivanzinho, João Freire, Magro Valadares e Barreto. As conversas nunca ajudam em nada a humanidade. Não se discute Copenhague, governos, segregações, escândalos, crimes. Os temas mais inesperados surgem do nada, e ganham uma proporção diluviana.

Não sei de onde saiu a lebre, a dúvida existencial-futebolística mais importante deste final de 2009. João Freire e Giba começaram uma acirrada discussão sobre o goleiro do Nápoli de 1987. Um dizia que era Dino Zoff, o outro retrucou com veemência, citando um camarada que não lembro o nome. Pelo que fiquei sabendo, isso já vinha de uma discussão anterior, sem acesso ao Google. Longas e intermináveis contendas em torno do goleiro do Nápoli de 1987.

Estava na piscina, conversando com Barreto, quando chegou João, indignado.

“Barreto, o goleiro do Nápoli de 1987 não foi Dino Zoff?”

Barreto concordou, creio, acho que para não ter dor de cabeça.

Depois de muito vai e volta, fiquei sabendo que o Nápoli, no ano de 1987, tinha Careca, Alemão e Maradona no time. Essa eu vou levar para o currículo futebolístico. No ano em que cheguei ao Recife, com mala e cuia, o Nápoli era campeão nacional, com dois jogadores brasileiros.

Em conversas deste tipo, recomendo jamais, em momento algum, citar o nome de Romário perto de Giba. Ele vai citar todos os clubes onde Romário jogou, as jogadas, e em poucos minutos, estará de pé, imitando algum drible do baixinho genial. Uma vez, durante um jogo, Giba ligou para um amigo.

“Você viu esse drible do Romário?”

Dizem que ele falava com lágrimas escorrendo naquela pele cor de neve, onde, segundo ele, “só entra Dove”.

Não sei de onde surgiu a frase “Eu vim de mim mesmo”, algo assim (estou ficando cada vez mais esquecido), e a conversa trilhou de Nápoli para a questão dos apóstolos. Surgiu o desafio - alguém que soubesse o nome de todos. Somos um bando de cristãos de meia tigela. Ninguém passava de quatro ou cinco. Pedro, André, Felipe, Tomé, Thiago. Giba acrescentou Judas Escariotes e Judas Tadeu. Ivanzinho fez uma cara de sacristão e disse que sabia todos, começou numa pisada ótima, mas só acrescentou Ezequiel, lucas e João. Durante quase uma hora os nomes ficaram pulando de boca em boca, mas só conseguimos chegar a 11 nomes. Paulo foi colocado e tirado umas dez vezes, de formas que não sei se ele é apóstolo ou não, sei que meu irmão se chama Paulo.

Não vou nem falar das frases que saíram para minha “Antologia do Instante”, livro mais aguardado dos últimos anos. Giba, como sempre, deixou umas quatro ou cinco. O Magro Valadares soltou uma tão cabeluda, que não posso transcrever. Sei que alguns adolescentes leem este blog. Ele também revelou seu método – “Como derrubar um mentiroso em cinco minutos”, mas não entendi direito.

Tem outra turma de amigos que segue na mesma pisada, só que tem mais contadores de histórias que frasistas. É a turma do Poço da Panela. Naná, Boy, Iramarai, Seu Walter, Davi etc. Ontem, em meio a esse vendaval de confraternizações, encontrei Iramarai, Naná e Boy. Iramarai, aquele que caminha comigo, planejou nossa próxima aventura e me apresentou seu irmão, Iramaiarany, que veio de São Paulo.

A família, por sinal, é uma festa das vogais: Iramaiarany, Iramário, Iratemar, Iramarai, Iramair, Iramima e finalmente o modesto Ira. Os pais dessa turma, obviamente, se chamam Amaro e Iranete, e tiveram 16 filhos. Quando encontro algum irmão de Iramarai, respondo logo:

“Olá, sou o Iramaracujá”.

Uma vez, o irmão dele ficou puto com essa gracinha. Acho que era o Iramário ou o Ira. Rarara seria a primeira vez que eu veria um Ira irado.

Já na confraternização do Blog do Santinha, Geó, com aquele farol baixo dele, veio me dizer que um amigo ligou, tarde da noite, para perguntar quais eram os pecados capitais. Acho que Geó estava de ressaca, porque a pessoa só recebe este tipo de ligação quando está numa profunda, intensa e triste ressaca, prometendo a si mesmo que só vai beber depois do Natal. Mas o bom é que essas conversas surgem na mesa desfiando a realidade. O óbvio leva dribles a cada conversa fiada entre bons amigos.

Não lembro o que Geó respondeu, acho que elé só sabia uns dois ou três, de formas que começo esta semana natalina com duas dúvidas existenciais da maior monta: O nome do arqueiro do Nápoli, campeão de 1987, e os pecados capitais.

Como não sou homem de ficar me rendendo ao Google, espero ajuda dos meus leitores.

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Confras

16 de dezembro de 2009, às 13:07h por Samarone Lima

Estamos na metade de dezembro e pelos meus cálculos, perdi 15 confraternizações, 15 amigos secretos (não sei se o plural confere com o novo acordo da Língua Portuguesa, que não sigo), 15 rachas nas despesas e  15 grandes amizades descobertas na 15a saideira.

Nem a Campanha da Fraternidade traz tanta fraternidade. Até domingo, tenho mais quatro agendadas, fora a superposição de confras. Hoje, a de Seu Vital, no Poço. Sexta, a do trabalho, que Dona Hilda vem organizando há seis ou sete meses, com rara obsessão, na rua da Glória. Já confirmei presença 122 vezes. Domingo, o impasse emocional – confra dos Caducos F.C, a partir das 10h, e do Blog do Santinha, no bar Mamulengo. Nunca fui essa resistência toda com farras, de forma que, depois da confra dos Caducos, devo me retirar, que meus amigos não saibam. Fiquei sabendo da confra dos amigos do Ateliê, no sábado, mas como não fui convidado, não posso dizer que faltei.

De todas, a minha predileta é a que fazemos em Seu Vital, no Poço. Todos os frequentadores do ano chegam de mansinho, durante a semana, pegam o nome do amigo secreto, e aguardam a farra, comandada geralmente pelo gorducho Naná. Marca-se para 19h33, mas só começa na vera mesmo lá pelas 21h31. A mesa fica enorme, na calçada, e geralmente o céu está estrelado. O vento é obliíquo e cheio de reverberos. Quando a gente dá sorte, Xiló, Gerrá e Alessandra mandam brasa no forró.

Há sempre inumeráveis suspeitas quanto ao amigo secreto. Gente que tira um papelito e arrisca a sorte em outro, para buscar alguém mais amigo. Acho justificável. Uma vez, desconfiaram bastante de mim, quando eu fiz o tricampeonato. Tirei Seu Vital em 2003, 2004 e 2005. Foi só afinidade eletiva mesmo. Ontem fiquei sabendo que não deu para pegar o tetra. Por precaução, trouxe uma imagem do Padre Cícero, diretamente do Juazeiro do Norte, onde estive recentemente. Não deu para benzer.

Cada confra tem sua cara. A dos Caducos é também divertida pacas. Terminada a pelada, guardamos as bolas, chuteiras, meiões, distribuimos os padrões que serão lavados durante a semana, conferimos o caixa, olhamos quem pagou a cota da festa de fim de ano (este ano, ficou em R$ 10,00 por cabeça) e começa a brincadeira. Se Manguaça e sua turma estiverem, a Pitú vem logo para a mesa. Se ele não estiver, ocorre o mesmo. A sede é grande. Como R$ 10,00 dá direito a beber e comer à vontade, dá uma sede danada nos meus colegas de futebol. Os aperitivos no bar de Seu Abdias são: Galinha a cabidela, peixe frito (a sardinha, a R$ 1,50 é uma delícia), galinha comum, charque, macaxeira e guisado. A carne de sol é supimpa.

Pouco depois, começam as conversas sobre gaia e cornura, os dois temas principais. Naná chega lá pelas 10h10 e a resenha aumenta, com piadas e tirações de onda. Pouco depois, o brega entra de sola. O ruim é só que Maysa adora um sol alto e só resta ao sujeito beber, e beber mais, para não se aperrear muito do juizo.

A confra do Blog do Santinha, onde escrevo (www.blogdosantinha.com) é uma das mais complicadas do Brasil. A troca de email começa em meados de novembro, e até o grupo se definir pelo local, são 25 email por dia, naquele sistema louco em que todos recebem, e se um cara responder, vai para todos. Acertar a agenda é um mistério, porque o pernambucano é um ser muito ocupado – com outras confraternizações, claro. Além disso, as preferências de bares são as mais loucas, e se um dono de bar for consultado e não der a devida atenção, cai nos ostracismo. Este ano, venceu o mas fácil para todos – o Mamulengo, no Recife Antigo, digo, Bairro do Recife, desculpe aí, Naire.

Eu mesmo sou um sujeito muito repetitivo e sem criatividade. Por mim, faziam todas as confras do ano em Seu Vital ou em Seu Azevedo, no Princesa Isabel. A desvantagem de Vital é que o tira-gosto é só queijo ou queijo com mortadela, ou mortadela com queijo, ou só mortadela. São quatro tipos, tem molho inglês em cima, mas a pessoa cansa. Ah, sim, tem amendoim torrado, não deixa de ser uma opção.

Não sei se meus amigos do Princesa Isabel fazem confra, creio que sim. Se fazem, por enquanto não fui comunicado. Neste caso, não terei que discutir com ninguém sobre o lugar.

Azar mesmo tem meu amigo Diazepan, que ficou dois anos sem o presente, no amigo secreto de Seu Vital. É ruim a pessoa chegar com um presente, esperar a pessoa que tirou seu nome e voltar para casa de mãos abanando. Ele voltou contrariado da confra. Como ele faz parte da Confraria dos Amigos do Poço, posso até dizer que ele voltou “confrariado”. Vou bem perder um trocadilho.

Vou por aqui. Ainda vou comprar o presente de Dayse, mulher de Diazepan, que tirei este ano. A sorte é que ele está muito ocupado em ganhar dinheiro, não tem tempo de ficar lendo meus textos, continua sendo surpresa. Vou ver se compro para ela uma caixa de Diazepan. Só assim ela aguenta ele. Vai ser Dayzeepan.

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Personagens do Recife: Adão Pinheiro de Carvalho

13 de dezembro de 2009, às 16:51h por Samarone Lima

Tive o prazer de conhece-lo há cerca de 15 dias, ali no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente, barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Recife para um divertimento sadio, que é tomar umas cervejinhas e contemplar o povo se bulindo. 

O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”, como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima desculpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, voltemos ao assunto.

 Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamente, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao lado, pediu um quartinho[1] e dois pedaços de passarinha[2]. Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por detrás do Mercado, cemitério este que só tive oportunidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu túmulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha.

“O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo. Depois de um silêncio pesaroso, completou.

“Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não está no gibi”.

Na seqüência, deu uma bicada de com força naquela garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passarinha, oleosa como o quê.

Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho, (pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escritório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona isso tudo. De leão eu entendo melhor que os africanos”, completou, com um sorriso de convencimento.

Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinheiro me confessou que tinha como principal atividade, aos sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa Amarela. Achei esquisito, mas a espécie humana já não me surpreende.

“Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou ele, com uma cara meio triste e já anormal. Eu realmente nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pensei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida. Ao final do dia, volta para casa muito mais humilde”, completou.

Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigarro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e me disse assim em segredo.

“Professor, a vida é por um triz”.

Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério, conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os setores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos túmulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos, enfim. Sabia de muitas histórias.

“Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no almoço e estava envenenada. Os cinco morreram horas depois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho. Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse.

Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tempo que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com o mundo dos mortos, ele disse que o enterro mais triste de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que chamou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra.  Nenhum parente ou amigo fora ao velório.

“A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é morrer só, professor”.

Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu outro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome quando lembro disso”.

Ele percebeu meu interesse e se aproximou.

“Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar alguém. Mais de uma hora depois, ninguém”.

“E ai?”, perguntei.

“E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser enterrada sem um mísero olhar de compaixão?”

Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jésssica, que morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situação, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era um ato de solidariedade.

“Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de desligar o telefone.

Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era o irmão do morto. Adão não soube me explicar o motivo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tempo de dar uma passadinha na casa da amante. Adão pediu cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo solitário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu).

Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela primeira vez o rosto do morto e o achou triste. O que teria feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos. Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de repente alguém da família morrendo, e comentou com o coveiro:

“Ninguém merece morrer sozinho”.

“Ruim mesmo é viver sozinho, meu senhor”, respondeu Lalau.

Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha e mandou ver na sua garapa. Me contou que na época do enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais velho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro emprestado. “Coisas de família”, disse.

Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão.

“Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então achei que era justo reencontrar um irmão que estava perdendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o telefonema, mas também disse que vinha pensando em fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo ficou resolvido.

Depois de me contar sua história, Adão fez um silêncio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada, longe, com aqueles olhos perdidos.

“Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, ninguém merece morrer sozinho”.

Então, eu escrevi.

Notas recifenses: [1] Copo americano cheio de cachaça, com ou sem limão, a depender do cliente. No Recife, portanto, “um quartinho” não é um quarto pequeno; [2] “Passarinha” não é a esposa do passarinho, é um pedaço de carne de boi, uma parte interna de algum órgão que não sei o nome, mas bem escuro e salgado até doer…

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Frei Betto, a blogueira e uma Cuba imaginária

7 de dezembro de 2009, às 15:19h por Samarone Lima

Acabo de voltar de Salvador, onde lancei meu “Viagem ao Crépúsculo” (Editora Casa das Musas), livro sobre a vida cotidiana do povo cubano, fruto de uma viagem que fiz à ilha, entre o final de 2007 e janeiro de 2008. Poucos dias depois do meu retorno, quando escrevia os primeiros capítulos do livro, Fidel Castro renunciou do cargo de Comandante-em-Chefe, depois de 50 anos no cargo.

Mal desfaço as malas, e recebo uma cópia de um artigo de Frei Betto – “A blogueira Yoani e suas contradições”.

Frei Betto disseca à sua maneira um episódio recente, quando a blogueira foi jogada em um carro e golpeada. Para ele, houve um “suposto ataque” real (Yoani não mostrou publicamente, em seu blog, os hematomas), e passa ao ataque simbólico. Vai à biografia da blogueira, para mostrar que ela foi morar na Suiça e voltou a Cuba para escrever sobre o regime. Questiona o retorno, como se os laçoa familiares não interessassem, e passa a questionar a quantidade de acessos do nicho “Generación y” – 14 milhões de visitas/mês. Para detonar a fonte, questiona sobre “quem paga os tradutores no exterior”, sugerindo, claro, conexões nada lícitas com cubanos de fora.

“Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo de seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira. Nem sequer é vítima da segurança ou da Justiça cubanas. Por isso, inventou a história das agressões. Insiste para que suas mentiras se tornem realidades”.

Não, Frei Betto, Yoani não tem “todo o direito de criticar Cuba”.  Isso, em Cuba, ninguém tem. No mês que passei na casa dos cubanos, escutei relatos os mais sombrios sobre repressão, sobre o perigo de criticar o regime, sob o risco de ser preso. Não se sabe exatamente o número de presos políticos no país. Talvez 200, talvez 250. Frei Betto, que já foi preso político, sabe como é duro. 

Inúmeras vezes escutei o povo cubano se referir a “nós” e “eles”. Traduzindo: “Nós”, o povo cubano. “Eles”, a elite do Estado, que comanda o país desde 1959.

O que se lamenta, de um homem com a trajetória política de Frei Betto – com quem me iniciei na leitura contra a opressão em meu país, com “Batismo de Sangue” – , é que tenha perdido o rumo e a medida, e para sustentar seu sonho revolucionário, precise mentir, usando o pesadelo alheio – de quem pensa defender.

Betto diz que os cubanos têm “casa, comida, educação e atenção médica gratuitas e segurança, pois os índices de criminalidade ali são ínfimos comparados ao resto da América Latina”.

Queria saber onde Frei Betto se hospeda, quando vai a Cuba. Fiquei em diferentes casas de cubanos, que passam as piores privações, desde a hora em que acordam, até o anoitecer. Acompanhei um cubano em sua busca pela comida racionada, num dos lugares mais deprimentes que já vi, após viajar por mais de 15 países.

Basta andar alguns quarteirões em Havana, para se ter a dimensão da pobreza, da frustração, do grau de dificuldade  e carência que mergulhou o país, onde é impossível andar um quilômetro sem receber uma oferta de produtos do mercado negro, onde há profissões em alta, como consertadores de caneta, de isqueiro. Um professor universitário, dentro de um ônibus, escutou a língua portuguesa e perguntou a um amigo se poderia conseguir um dicionário para ele, pois não tinha um disponível em seu departamento. Nos finais de semana, este mesmo homem faz vinho clandestino para sobreviver.

Frei Betto não sabe, creio, que os jovens que moram no interior do país, não podem ficar em Havana, sob o risco de serem deportados, e que esses jovens, quase todos mulatos, se insistirem em voltar, ganharão um processo criminal. Os rejeitados em Havana são chamados popularmente de “palestinos”.

“O curioso é que ela jamais exibiu em seu blog as crianças de rua que perambulam por Havana, os mendigos jogados nas calçadas, as famílias de miseráveis debaixo dos viadutos… Nem ela nem os correspondentes estrangeiros, e nem mesmo os turistas que visitam a Ilha. Porque lá não existem”, prossegue Frei Betto, que constrói uma Cuba imaginária para dar conta de tanta ideologia.

Em Cuba há miséria por todo lado, Frei Betto. As famílias de miseráveis se amontoam em casas-cortiços, os viadutos praticamente não existem e conheci mães que falam de seus filhos que estão com os dentes caindo, por falta de cálcio. Uma delas, que me hospedou, contou o inferno da prisão onde o filho está recolhido, onde outros 700 jovens compartilhavam o destino, muitos deles banguelas e descalços.

Mas há misérias piores. Cito duas: a falta absoluta de liberdade e o medo. O cubano só pode ler o jornal “Granma”, e “Juventud Rebeld”. A TV Cubana pertence ao estado, e o jornal reprisa diariamente louvações a uma revolução que vive seu crepúsculo. Em quase um mês, comprando jornais e assistindo TV todos os dias, jamais vi uma notícia de um crime, atropelamento, assalto. “Isso você jamais vai ver nos jornais”, me disse um Cubano, na noite de Natal, no mesmo bairro onde levou uma paulada na cabeça e teve tudo roubado. O cubano tem medo de falar o que sente e sabe que não pode falar. Presenciei, numa dessas filas de comida, um diálogo raivoso de dois cubanos, onde a pergunta quase inaudível era: “Quando vai acabar este inferno?”.

Dizer que “O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos dos seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar o fato de um país pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados no saudável e alegre Buena Vista Social Club”, Frei Betto, é finalmente tripudiar em cima de um cotidiano que beira ao desespero, dos quase 12 milhões de cubanos.

Talvez Frei Betto precise voltar a Cuba, o mais rápido possível. De preferêncfia ainda este ano. Precisa se hospedar na casa dos cubanos e ver de perto como funciona o mercado negro, que vai do leite em pó ao arroz, passando pelo acesso clandestino à Internet. Precisa caminhar pelas ruas de Havana, principalmente à noite, quando dezenas de quarteirões estão sem iluminação pública. Terá que responder aos pedidos de um “sabonete”, se for descoberto como turista. Escutará dos próprios cubanos simples, se fizer amizade, como funciona a azeitada máquina de repressão e delação.

Mas talvez amoleça um pouco o coração dele quando ficar na casa de alguém que vende produtos no mercado negro, como fiquei. Quando chegarem mulheres, donas de casas, fatigadas, desesperançadas, em busca de “um pouco de arroz”, ou “um pedaço de galinha”, já que a fome lá é grande. É uma fome de tudo.

Se ficar no meio do povo, como tanto defendeu na época dos movimentos populares, Frei Betto talvez não veja tanta “dignidade”, e perca a ilusão de que há um espelho no “saudável e alegre Buena Vista Social Club”. Isso chega a ser cômico, de tão caricato, e me lembra a absoluta subserviência de intelectuais a regimes e sistemas, à relevia da vida real e do sofrimento dopovo.

Quanto à blogueira em questão, Yoani Sánchez é uma magricela cubana, descendente de espanhóis, que tem conseguido, com seu minúsculo blog (www.desdecuba.com/generaciony) falar sobre a realidade de seu país. São pequenas postagens, carregados de ironia e comovente desesperança sobre a vida cotidiana em Cuba. Para conseguir usar a Internet dos hotéis, proibida aos cubanos, ela se aproveita da cor. É branca, e muitas vezes se passa por turista.

O livro dela, “De Cuba, com Carinho” (Editora Context0), é uma leitura fundamental para todos os que idealizam seus sonhos revolucionários às custas do pesadelo alheio.

Sugiro que Frei Betto o compre. Se comprar, que o leia. Se ler, que reflita. Se achar que ela, por criticar a vida sofrida em Cuba, é contrarrevolucionária ou “financiada por Miami”, eu também devo ser. No último capítulo de meu livro, falo sobre “Medo, Revolta e Delação”. Nada a ver com o “saudável e alegre Buena Vista Social Club”.

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