No Rio Vermelho
Samarone Lima
Estou no Rio Vermelho, aguardando as amigas que organizaram o lançamento do meu livro no “Mídia Louca”. Uma delas não conheço pessoalmente, a Ivette. Vai dar onze horas, é de bom tom beber uma cerveja gelada. O lançamento será somente à noite, de formas que poderei ainda desecansar.
Paro num lugar agradável, Sabor de Casa, esses nomes originalíssimos de bares e restaurantes. Peço uma cerva. A moça traz, pergunto se tem um copo menor.
“O que tem pequeno a boca é larga, a cerveja esquenta”, me responde a graçonete, pós graduada na Brahma.
Peguei meu caderno. A tarde promete. Lembrei do aviso afixado nas cadeiras da Ocean Air:
“Use o sinto enquanto permanecer sentado”.
Sinto muito, Ocean Air, mas falta um consultor da língua portuguesa nos avisos.
Mesmo com o deslize, duas coisas me agradam cada vez mais nessa companhia. Eles dão os avisos inúteis somente em português, e o comandante não tem aquela tara sexual de nos avisar, quando estamos distraídos, de dizer que estamos a 10 mil pés, e que a temperatura do lado de fora é menos 67 graus.
A cerveja desce bem. O vento sopra no meu focinho, não tem quase ninguém. Um vendedor de CD pirata vem me oferecer seu produto falando espanhol. É ruim, compadre, sou mais brasileiro que tu.
“Estou aprendendo muito com isso”, diz uma mulher, ao celular, ao passar por mim.
Resolvo ligar para Naná, meu amigão do Recife. Faltam cinco minutos para 11 horas.
“Estás onde, bicho?”
“Estou aqui com Seu Walter, no depósito dele. Estamos esperando dar 11 horas, para a gente começar a beber e a turma não dizer que estamos bebendo cedo demais. Só que está foda essa hora passar, parece que o relógio congelou”, respondeu o gordissimo.
Escuto um apito alto, desses de guarda, que controlam o trânsito quando não estão ocupados multando o povo, como acontece no Recife.
É o flanelinha. Usa uma touca do Bahia e apito, para controlar o movimento no estacionamento. Uma autoridade.
Daqui a pouco os clientes chegam. Um gorducho pega um prato com muita carne, puxa a mesa e começa a comer. Um cachorro chega e fica ao lado, só sentindo o cheiro da comida. O homem nem olha, não dá sequer um teco de carne. Isso é um miserável.
Tiro foto do cachorro, para minha coleçao “Cachorros do Mundo”.
Daqui a pouco, uma garçonete chega e começa a conversar com o cachorro.
“Olhe, eu não já te disse disse que é para você chegar aqui somente às três horas? Venha mais tarde viu, meu filho, que está tudo certo. Tá bom, meu bem? Então, até mais”.
O cachorro olha e fica sisudo, digamos, farejando a comida que vai passando. Depois bate um arrependimento e sai, devagar.
“Ele vem aqui sempre?”- pergunto.
“Todo dia bete o ponto”.
Pergunto o nome dele. Segundo a Mirtes, minha amigona de Fortaleza, tudo o que a gente gosta tem nome.
“Cinzenta. A gente batizou ela de cinzenta”.
Passa um sujeito com uma cara amassada, parece ter uma vocação para o sofrimento.
“Desde manhã que não como”, diz, pedindo dinheiro.
“Tenho não, velho”, respondo.
O flanelinha polícia chega.
“Sai fora, sai fora”.
Cara Amassada vai saindo.
Vejo a turma com seus pratos, as mesas vão enchendo. De vez em quando, escuto aquele barulhinho do saleiro. “Chec, chec, chec”. Tome sal na comida. Nem imaginam que aquilo faz um mal dos diabos para os rins, aprendi tudo isso na época da doença da minha tia e com as informações do doutor Rafael Pacífico. “Chec, chec, chec”
Olho ao longe. Passa um negão forte, musculoso, correndo num sol de rasgar. Usa só um calção de banho e tênis branco. Está suado dos pés ao dedão. Vai sem pressa. Eu bebo mais um gole e fico pensando na vida, não chego a conclusão nenhuma. Tomo minhas notas, depois as amigas chegam, conversamos muito, e saímos para comer em outro lugar, de formas que não consegui verificar in loco se Cinzenta de fato retornou às 15h, conforme o solicitado.
À noite, no lançamento, conheci uma penca de baianos de primeira, fora os que já conhecia. A conversa era tão boa, que eu parecia estar no Poço da Panela. Tomamos uma boa carraspana. Até um cubano estava à mesa. Lamentei a ausência do grande amigo Fabão, por conta da doença grave de seu pai.
Aos que me receberam com tanto carinho, obrigado por tudo.
Ao Fabão, que perdeu seu pai na manhã seguinte, o meu abraço solidário. Nessas horas, nunca sei o que dizer, apenas consigo oferecer um abraço, o mais amigo.
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11 Comentários »




6 de dezembro de 2009, às 23:53h
Por falar em “sinto”, não sinto muita animação da tua parte nessas andanças crepusculares. Que me dizes?
Beijo
7 de dezembro de 2009, às 9:44h
Naire, então estou escrevendo ruim pacas. O que me diverti não está no gibi…
Sama
7 de dezembro de 2009, às 10:28h
Oi Samarone
Quero ver a foto de Cinzenta, pena o gorducho guloso não ter dado nem um pouquinho para ela.seria bom, ele engordaria menos e faria uma boa ação.Eu sempre divido o que como com quem está por perto, principalmente se for um animalzinho(você sabe da minha paixão pelos animais).Quanto ao sal,é melhor usar menos , com certeza.
Um grande abraço
Luisiana
7 de dezembro de 2009, às 10:33h
Sama,
Não estou falando em diversão, me refiro à repercussão do livro nesses lançamentos Brasil afora. Brasília tu detonasse e Salvador? Enfim, isso é apenas um sentimento, curiosidade. Nada mais do que isso. Quem sou eu para avaliar teus escritos, ora! Sou sua fã declarada, portanto, sou suspeita, pois.
Beijo
7 de dezembro de 2009, às 11:24h
Né por nada não, Naire, mas em relação ao lançamento de Brasília o de Salvador foi muuuiiittoo melhor…tinha até um cubano! mesmo eu dando esporro no sábado em um bando de gente que não apareceu. rsrsrsrs
bj
Y
7 de dezembro de 2009, às 11:51h
adorei
7 de dezembro de 2009, às 13:36h
A vontade que dá é pegar parágrafo por parágrafo e interagir com o escritor, porque é uma sensação de familiaridade tão grande que os textos aqui nos causam… Além das “comunalidades” nas ações e nas emoções.
Eu por exemplo, coleciono “Gatos do Mundo”, embore mantenha um diálogo “panvida”, converso com qualquer ser vivente, humanos, inumanos e até com o vento.
E fiquei a pensar, não será a Cinzenta uma parente da Baleia, a cachorra que tinha alma de gente, do Vidas Secas?
Ri-me a valer (com todo respeito),quando inventariei os tipos cubanos, batizados por ti, no Viagem. De modo que estar a ler-te no Estuário é como se ampliasses a nossa angular para esse teu mundo “infinitamente particular”, que de tão plural, divides conosco assim tão fraternalamente.
Mais uma daquelas crônicas tão lindas, que mudam o nosso dia.
Um abraço.
7 de dezembro de 2009, às 13:38h
Onde tem “fraternalamente”, leia-se: fraternalmente!
9 de dezembro de 2009, às 11:31h
Meu caro Sama, tardei para aparecer no lançamento na Mídia Louca mas não falhei e assim livrei-me dos esporros da Ivette, essa grande amiga, que me delicia habitulamente emviando-me os texto que você publica. Mas também pudera, fazer lançamento em dia de festa de Santa Bárbara, com o samba correndo solto em todo o centro histórico da cidade da bahia?!
Pena que não pude serguir junto com vocês até àquela festa de sua amiga que aconteceria lá nos oitões do São Francisco Além do Carmo.
Aquela bela baiana que me acompanhou até a Mídia Louca para conhecê-lo me deu outras ordens e eu como homem obediente, fui para a cama…
Ótimo conhecê-lo pessoalmente.
9 de dezembro de 2009, às 17:33h
Valeu te conhecer, Sama.
Volte sempre à boa terra.
grande abraço
11 de dezembro de 2009, às 1:45h
Querido Sama,
Também senti muito não estar presente. Coisas da vida. Por hora me basta esse abraço, tão amigo, que agora retribuo com o mesmo silêncio fraterno.