Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Frei Betto, a blogueira e uma Cuba imaginária

7 de dezembro de 2009, às 15:19h por Samarone Lima

Acabo de voltar de Salvador, onde lancei meu “Viagem ao Crépúsculo” (Editora Casa das Musas), livro sobre a vida cotidiana do povo cubano, fruto de uma viagem que fiz à ilha, entre o final de 2007 e janeiro de 2008. Poucos dias depois do meu retorno, quando escrevia os primeiros capítulos do livro, Fidel Castro renunciou do cargo de Comandante-em-Chefe, depois de 50 anos no cargo.

Mal desfaço as malas, e recebo uma cópia de um artigo de Frei Betto – “A blogueira Yoani e suas contradições”.

Frei Betto disseca à sua maneira um episódio recente, quando a blogueira foi jogada em um carro e golpeada. Para ele, houve um “suposto ataque” real (Yoani não mostrou publicamente, em seu blog, os hematomas), e passa ao ataque simbólico. Vai à biografia da blogueira, para mostrar que ela foi morar na Suiça e voltou a Cuba para escrever sobre o regime. Questiona o retorno, como se os laçoa familiares não interessassem, e passa a questionar a quantidade de acessos do nicho “Generación y” – 14 milhões de visitas/mês. Para detonar a fonte, questiona sobre “quem paga os tradutores no exterior”, sugerindo, claro, conexões nada lícitas com cubanos de fora.

“Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo de seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira. Nem sequer é vítima da segurança ou da Justiça cubanas. Por isso, inventou a história das agressões. Insiste para que suas mentiras se tornem realidades”.

Não, Frei Betto, Yoani não tem “todo o direito de criticar Cuba”.  Isso, em Cuba, ninguém tem. No mês que passei na casa dos cubanos, escutei relatos os mais sombrios sobre repressão, sobre o perigo de criticar o regime, sob o risco de ser preso. Não se sabe exatamente o número de presos políticos no país. Talvez 200, talvez 250. Frei Betto, que já foi preso político, sabe como é duro. 

Inúmeras vezes escutei o povo cubano se referir a “nós” e “eles”. Traduzindo: “Nós”, o povo cubano. “Eles”, a elite do Estado, que comanda o país desde 1959.

O que se lamenta, de um homem com a trajetória política de Frei Betto – com quem me iniciei na leitura contra a opressão em meu país, com “Batismo de Sangue” – , é que tenha perdido o rumo e a medida, e para sustentar seu sonho revolucionário, precise mentir, usando o pesadelo alheio – de quem pensa defender.

Betto diz que os cubanos têm “casa, comida, educação e atenção médica gratuitas e segurança, pois os índices de criminalidade ali são ínfimos comparados ao resto da América Latina”.

Queria saber onde Frei Betto se hospeda, quando vai a Cuba. Fiquei em diferentes casas de cubanos, que passam as piores privações, desde a hora em que acordam, até o anoitecer. Acompanhei um cubano em sua busca pela comida racionada, num dos lugares mais deprimentes que já vi, após viajar por mais de 15 países.

Basta andar alguns quarteirões em Havana, para se ter a dimensão da pobreza, da frustração, do grau de dificuldade  e carência que mergulhou o país, onde é impossível andar um quilômetro sem receber uma oferta de produtos do mercado negro, onde há profissões em alta, como consertadores de caneta, de isqueiro. Um professor universitário, dentro de um ônibus, escutou a língua portuguesa e perguntou a um amigo se poderia conseguir um dicionário para ele, pois não tinha um disponível em seu departamento. Nos finais de semana, este mesmo homem faz vinho clandestino para sobreviver.

Frei Betto não sabe, creio, que os jovens que moram no interior do país, não podem ficar em Havana, sob o risco de serem deportados, e que esses jovens, quase todos mulatos, se insistirem em voltar, ganharão um processo criminal. Os rejeitados em Havana são chamados popularmente de “palestinos”.

“O curioso é que ela jamais exibiu em seu blog as crianças de rua que perambulam por Havana, os mendigos jogados nas calçadas, as famílias de miseráveis debaixo dos viadutos… Nem ela nem os correspondentes estrangeiros, e nem mesmo os turistas que visitam a Ilha. Porque lá não existem”, prossegue Frei Betto, que constrói uma Cuba imaginária para dar conta de tanta ideologia.

Em Cuba há miséria por todo lado, Frei Betto. As famílias de miseráveis se amontoam em casas-cortiços, os viadutos praticamente não existem e conheci mães que falam de seus filhos que estão com os dentes caindo, por falta de cálcio. Uma delas, que me hospedou, contou o inferno da prisão onde o filho está recolhido, onde outros 700 jovens compartilhavam o destino, muitos deles banguelas e descalços.

Mas há misérias piores. Cito duas: a falta absoluta de liberdade e o medo. O cubano só pode ler o jornal “Granma”, e “Juventud Rebeld”. A TV Cubana pertence ao estado, e o jornal reprisa diariamente louvações a uma revolução que vive seu crepúsculo. Em quase um mês, comprando jornais e assistindo TV todos os dias, jamais vi uma notícia de um crime, atropelamento, assalto. “Isso você jamais vai ver nos jornais”, me disse um Cubano, na noite de Natal, no mesmo bairro onde levou uma paulada na cabeça e teve tudo roubado. O cubano tem medo de falar o que sente e sabe que não pode falar. Presenciei, numa dessas filas de comida, um diálogo raivoso de dois cubanos, onde a pergunta quase inaudível era: “Quando vai acabar este inferno?”.

Dizer que “O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos dos seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar o fato de um país pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados no saudável e alegre Buena Vista Social Club”, Frei Betto, é finalmente tripudiar em cima de um cotidiano que beira ao desespero, dos quase 12 milhões de cubanos.

Talvez Frei Betto precise voltar a Cuba, o mais rápido possível. De preferêncfia ainda este ano. Precisa se hospedar na casa dos cubanos e ver de perto como funciona o mercado negro, que vai do leite em pó ao arroz, passando pelo acesso clandestino à Internet. Precisa caminhar pelas ruas de Havana, principalmente à noite, quando dezenas de quarteirões estão sem iluminação pública. Terá que responder aos pedidos de um “sabonete”, se for descoberto como turista. Escutará dos próprios cubanos simples, se fizer amizade, como funciona a azeitada máquina de repressão e delação.

Mas talvez amoleça um pouco o coração dele quando ficar na casa de alguém que vende produtos no mercado negro, como fiquei. Quando chegarem mulheres, donas de casas, fatigadas, desesperançadas, em busca de “um pouco de arroz”, ou “um pedaço de galinha”, já que a fome lá é grande. É uma fome de tudo.

Se ficar no meio do povo, como tanto defendeu na época dos movimentos populares, Frei Betto talvez não veja tanta “dignidade”, e perca a ilusão de que há um espelho no “saudável e alegre Buena Vista Social Club”. Isso chega a ser cômico, de tão caricato, e me lembra a absoluta subserviência de intelectuais a regimes e sistemas, à relevia da vida real e do sofrimento dopovo.

Quanto à blogueira em questão, Yoani Sánchez é uma magricela cubana, descendente de espanhóis, que tem conseguido, com seu minúsculo blog (www.desdecuba.com/generaciony) falar sobre a realidade de seu país. São pequenas postagens, carregados de ironia e comovente desesperança sobre a vida cotidiana em Cuba. Para conseguir usar a Internet dos hotéis, proibida aos cubanos, ela se aproveita da cor. É branca, e muitas vezes se passa por turista.

O livro dela, “De Cuba, com Carinho” (Editora Context0), é uma leitura fundamental para todos os que idealizam seus sonhos revolucionários às custas do pesadelo alheio.

Sugiro que Frei Betto o compre. Se comprar, que o leia. Se ler, que reflita. Se achar que ela, por criticar a vida sofrida em Cuba, é contrarrevolucionária ou “financiada por Miami”, eu também devo ser. No último capítulo de meu livro, falo sobre “Medo, Revolta e Delação”. Nada a ver com o “saudável e alegre Buena Vista Social Club”.

Postado em Crônicas | 45 Comentários »

45 Comentários

  1. Inácio França Disse:

    Botou pra fuder! Boa peleja, Sama véio. Vamo que Vamo.

  2. naire Disse:

    Esse é o Sama que gosto de ler!
    Parabéns pela coragem.
    Beijo

  3. Magna Disse:

    Gostaria que Frei Betto lesse isto.
    Beijo.
    Magna

  4. Ana de Fátima Disse:

    Samarone, antes de ler seu livro já tinha notícias que as coisas estavam ruins em Cuba. Mas, confesso que não sabia o tamanho da gravidade da situação.
    Outro dia, encontrei um amigo que foi a Cuba recentemente e que passou dois meses e voltou muito magro. Inclusive este fato deixou todo mundo surpreso com a situação que ele teima em negar. Então, falei do seu livro para ele. Perguntei se ele conhecia…………. A resposta foi que vc teria morado no submundo de Cuba.
    Sem pestanejar perguntei: Como vc explica existir submundo em Cuba?
    Ele ficou sem resposta ….Pensou e disse : é mesmo!!!. Precisamos conversar (mas, a conversa não aconteceu e acredito que não vai acontecer).
    Fico pensando, como ainda é complicado e difícil as pessoas entenderem que por mais diferença que Cuba fez em um determinado tempo, hoje parece sofrer de muitos males.
    A impressão que fica, infelizmente é que até sonhar é proibido.
    Mas como grande sonhadora não acredito ser possível arrancar do coração do povo a capacidade de desejar, de sonhar. Sem sonho não existe pulsão, reação……….
    Trabalhos como o seu, da Yoani Sánchez e de outras pessoas são de muita coragem e de uma importância sem medida.
    Abraços.

  5. Thiago Disse:

    Dá-lhe!

  6. Artur Rodrigues Disse:

    Isso ae, Samarone! Tem gente que ainda vive há três, quatro décadas atrás!

  7. ducaldo Disse:

    Arretou-se! Texto do carai!

    Acho impressionante – e decepcionante – o modo quase fanático com que pessoas tidas e havidas como intelectuais e, portanto, acima da média dos pobres mortais, se recusam a aceitar qualquer tipo de crítica, mesmo quando bem fundamentadas, em nome de um paraíso existente apenas nas suas cabeças.

    E nem se dão ao trabalho, com as prerrogativas que têm, de procurar saber se essa ou aquela situação é verdadeira. Respondem na qualidade porta-vozes oficiosos – ou oficiais, no caso de Frei Betto – com argumentação pífia e distorcida, beirando a novilíngua.

    Tem gente que ainda está descendo a sierra maestra de joelhos.

  8. joão lima Disse:

    Belo texto, Samarone. Penso o mesmo quando defendem Chávez e outros ladrões de liberdade. E, guardando as imensas diferenças, apesar de acreditar que o governo Lula é dos melhores que tivemos sempre, não consigo ver com bons olhos a cegueira crítica com o populismo e outros agravantes. Força, viva, viva.

  9. Luisiana Lamour Disse:

    Samarone
    Estou arrepiada de emoção e novamente às lágrimas pois revivi com esta crônica a leitura recente de seu livro.A velhinha a dizer que dormir com fome era muito triste, a moça que lhe hospedou a viver de vendas clandestinas,jovens, meu Deus,jovens sem dentes por falta de cálcio(leite só até os sete anos), pessoas a pedir shampoo, sabonete, ítens básicos de higiene,enfim , esta falta de direitos total.Falta de direito de escrever por não ter caneta!!!!Não poder entrar em um hotel,só turista entra, deve ser bom para Frei Betto ser turista!Isso é vida? Isso é ter dignidade?Qual é a ilha que Frei Betto fica? Será mesmo Cuba?Ou algum resort com nome de Cuba? Vi fotos postadas clandestinamente de idosos em Cuba em”intituições geriátricas ” completamente abandonados,imundos,sem roupas adequadas, caquéticos,com fome, tomando garapa por falta de comida… na pior das piores situações.Sugiro que Frei Betto as conheça, quem sabe não se interessa em ficar por lá ,Parabéns por este texto, ele deve ler, ele TEM que ler, não é possível tanta ideologia em detrimento da realidade, do total sofrimento de um povo.Ele deveria se hospedar como você se hospedou na casa de cubanos, aliás, ele só não, todos que ainda defendem o que não conhecem de Cuba.
    Parabéns mais uma vez pela força destas palavras!
    Luisiana

  10. chico guedes Disse:

    Bravo Samarone!
    Eu estive em Cuba faz 20 e poucos anos e alí já era clara a derrocada do sonho, só os cegos intencionais continuam insistindo nesse discurso perverso de defesa da gerontocracia repressora castrista. abraço potiguar.
    PS seu livro está à venda aqui em Natal?

  11. raul Disse:

    Segue link com o artigo, que parece datado, em questão.

    http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=43587

    Parabéns Samarone.

  12. Nivaldo Brayner Disse:

    Frei Beto X Beato Sama – Um belo embate.

    O danado é que quando eu vejo o Frei Beto afirmar nas suas últimas entrevistas que as invasões do MST são armações da elite, me convenço que os intelectuais da esquerda no Brasil precisam rever alguns velhos conceitos, hoje insustentáveis. A revolução cubana é um deles.

    Minha opinião nesse embate: o Sama está com argumentos muito mais lúcidos. Ganha Sama!

  13. Canto da Boca Disse:

    É dessa gente ousada assim como tu, que mete a mão na cumbuca de maribondo, que precisamos para as mudanças no/do mundo. A cegueira ideológica é tão perniciosa quanto o fanatismo, e infelizmente é assim que percebo o Frei Betto. O mundo muda numa velocidade estonteante, e num piscar de olhos, lá se passaram 50 anos, e lá se foram os sonhos de uma sociedade justa, equitataiva, feliz, igualitária, mais rica simbolicamente, materialmente… Infelizmente! Já se sabe das dificuldades do povo cubano há algum tempo, o ‘Viagem’ é mais um documento sério e contundente do que se passa na Ilha, o caso é que o livro do escritor Samarone, contrapõe-se aos escritos dos ‘mitos vivos’ (Cuba e Frei Betto). E fica então o sentimento de quem está ‘aprisionado’ em todos os seus direitos, na Ilha, e a imagem que todo o mundo apreendeu da revolução, de Fidel e de todo o contexto.
    Parabenizo-lhe, Samarone pelo livro, pelo texto e pela implicação diante da vida!

  14. Adalberio Disse:

    Samarone, sempre tive uma curiosidade em conhecer Cuba pelo que via falar sobre a ilha de Fidel e sobre o socialismo. Fiquei estarrecido pelo que você relata no livro sobre Cuba. Me lembro de você dando uma palestra na Faculdade Joaquim Nabuco junto com a Professora Ana Braga e onde tive o prazer de comprar o seu livro Clamor. Abraço

  15. Joana Disse:

    Parabéns Samarone, espero que o Frei Betto acorde rápido!
    Beijos

  16. Yvette Disse:

    Somente o fato de morar em um local que não pode sair nunca a não ser em raríssimas exceções para mim já é dos piores. Mesmo que eu não viaje nunca, gosto de saber que posso. Parabéns mais uma vez, Sama! Grande beijo. Y

  17. Thaís Disse:

    sama, tou terminando de ler viagem ao crepúsculo! sabe que esse foi o primeiro livro que eu não leio a última frase dele antes de começar, né? tá valendo a pena! haha

  18. Luca brevi Disse:

    Bem,falar mal de Cuba?Porquê?
    E porque não falar do embargo imposto à Cuba?Porque não falar que a tal blogueira Cubana tem apoio da CIA?Seu blogue é traduzido para 18 idiomas,quem paga?Que procurada pela BBC,disse ter ematomas pelo espancamento e nao os mostrou.

  19. Afonso Bezerra Disse:

    Tudo, menos dizer que o nobre Sama é comprado. Essa pegou pesado!!!

    É muita conspiração, e acredito que conspirar não faz parte do trabalho do Samá.

  20. Helder Barbosa Disse:

    Meu caro, em 1987, portanto a vinte e dois anos atrás estive lá em Cuba embalado por sonhos revolucionários mas ao contrário de muitos de nós, fugi dos contatos tradicionais com autoridades e brigadas à moda cubana e também procurei uma convivência mais próxima com a população cubana. Em pelo menos um caso, um músico cubano que tocava Jazz num buteco meio marginal, e que por isto mesmo atraiu minha atenção, foi admoestado em minha presença por andar com estrangeiros – eu e minha bela mulher baiana, que chamava a atenção por onde passava.

    E com muito pesar, percebo que depois de tanto tempo a situação não mudou muito.

    Só espero que o Frei Betto lhe ouça e como nós, entre em contato direto com a pupulação.

  21. Sirley Disse:

    Sama,
    belo e corajoso texto.
    não li o texto que Frei Beto escreveu, acredito que, se foi ele que escreveu, deve estar muito equivocado, mas torço que ele leia o teu livro e o de Yaoni e que possa olhar Cuba, se distanciado da figura do “amigo” Fidel (amigo dele), como ele consegue fazer ao escrever “A mosca azul”, falando sobre os bastidores do Governo Lula.
    Abraços,

  22. Antonio Lino Jr Disse:

    Nem Frei Beto, nem o castrismo, nem a blogueira em questão, que vc em muito contribui quando revela vozes de um cotidiano maquiado, inquestionável. Agora, penso que o maior desafio é libertar esse povo do processo de culpabilização patrocinado pelo imperialismo, em que pese o cerceamento totalitário castrista,mais comprometedor é o crepúsculo ideológico, vaticinado em ações impeditivas de solidariedade de outros povos ao que se passa em Cuba, por parte da camarilha americana.

  23. ro Disse:

    Samarone
    sempre admirei Frei Betto e fiquei indignada com o que ele escreveu. Mais uma vez, minha indignação vem por ver argumentos baseados em cima de pressupostos/ percepções, ao invés de se basear em fatos concretos. Nunca imaginei que Frei Betto pudesse emitir uma opinião assim.
    Acho que sua viagem a Cuba e consequente livro, trouxe a nós a Yaoni e , agora, centena, milhares de pessoas que buscam respostas para o mistério que cerca aquela ilha, onde persiste uma Ditadura há 50 anos !!!
    E, prá mim, Ditadura não precisa ser de direita ou esquerda. Qualquer ditadura cerceia a liberdade das pessoas pois centra-se na vontade de uma minoria. E, como já dizia uma amiga ” não consigo mais aceitar estas minorias que vivem no poder às custas das minorias”.

    Copiei abaixo o texto de Frei Betto, para quem tiver interesse de ler.

    “Blogueira Yoani e suas contradições
    09/12/2009

    Frei Betto

    O mundo soube que, a 7 de novembro último, a blogueira cubana Yoani Sánchez teria sido golpeada nas ruas de Havana. Segundo relato dela, “jogaram-me dentro de um carro… arranquei um papel que um deles levava e o levei à boca. Fui golpeada para devolver o documento. Dentro do carro estava Orlando (marido dela), imobilizado por uma chave de karatê… Golpearam-me nos rins e na cabeça para que eu devolvesse o papel… Nos largaram na rua… Uma mulher se aproximou: “O que aconteceu?” “Um sequestro”, respondi. (www.desdecuba.com/generaciony)

    Três dias depois do ocorrido nas ruas da Havana, Yoani Sánchez recebeu em sua casa a imprensa estrangeira. Fernando Ravsberg, da BBC, notou que, apesar de todas as torturas descritas por ela, “não havia hematomas, marcas ou cicatrizes” (BBC Mundo, 9/11/2009). O que foi confirmado pelas imagens da CNN. A France Press divulgou que ela “não foi ferida.”

    Na entrevista à BBC, Yoani Sánchez declarou que as marcas e hematomas haviam desaparecido (em apenas 48 horas), exceto as das nádegas, “que lamentavelmente não posso mostrar”. Ora, por que, no mesmo dia do suposto sequestro, não mostrou por seu blog, repleto de fotos, as que afirmou ter em outras partes do corpo?

    Havia divulgado que a agressão ocorreu à luz do dia, diante de um ponto de ônibus “cheio de gente.” Os correspondentes estrangeiros em Cuba não encontraram até hoje uma única testemunha. E o marido dela se recusou a falar à imprensa.

    O suposto ataque à blogueira cubana mereceu mais destaque na mídia que uma centena de assassinatos, desaparecimentos e atos de violência da ditadura hondurenha de Roberto Micheletti, desde 27 de junho.

    Yoani Sánchez nasceu em 1975, formou-se em filologia em 2000 e, dois anos depois, “diante do desencanto e a asfixia econômica em Cuba”, como registra no blog, mudou-se para a Suíça em companhia do filho Téo. Ali trabalhou em editoras e deu aulas de espanhol.

    Em 2004, abandonou o paraíso suíço para retornar a Cuba, que qualifica de “imensa prisão com muros ideológicos”. Afirma que o fez por motivos familiares. Quem lê o blog fica estarrecido com o inferno cubano descrito por ela. Apesar disso, voltou.

    Não poderia ter assegurado um futuro melhor ao filho na Suíça? Por que regressou contra a vontade da mãe? “Minha mãe se recusou a admitir que sua filha já não vivia na Suíça de leite e chocolate” (blog dela, 14/08/2007).

    Na verdade, o caso de Yoani Sánchez não é isolado. Inúmeros cubanos exilados retornam ao país após se defrontarem com as dificuldades de adaptação ao estrangeiro, os preconceitos contra mulatos e negros, a barreira do idioma, a falta de empregos. Sabem que, apesar das dificuldades pelas quais o país atravessa, em Cuba haverão de ter casa, comida, educação e atenção médica gratuitas, e segurança, pois os índices de criminalidade ali são ínfimos comparados ao resto da América Latina.

    O que Yoani Sánchez não revela em seu blog é que, na Suíça, implorou aos diplomatas cubanos o direito de retornar, pois não encontrara trabalho estável. E sabe que em Cuba ela pode dedicar tempo integral ao blog, pois é dos raros países do mundo em que desempregado não passa fome nem mora ao relento…

    O curioso é que ela jamais exibiu em seu blog as crianças de rua que perambulam por Havana, os mendigos jogados nas calçadas, as famílias miseráveis debaixo dos viadutos… Nem ela nem os correspondentes estrangeiros, e nem mesmo os turistas que visitam a Ilha. Porque lá não existem.

    Se há tanta falta de liberdade em Cuba, como Yoani Sánchez consegue, lá de dentro, emitir tamanhas críticas? Não se diz que em Cuba tudo é controlado, inclusive o acesso à internet?

    Detalhe: o nicho Generación Y de Sánchez é altamente sofisticado, com entradas para Facebook e Twitter. Recebe 14 milhões de visitas por mês e está disponível em 18 idiomas! Nem o Departamento de Estado do EUA dispõe de tanta variedade linguística. Quem paga os tradutores no exterior? Quem financia o alto custo do fluxo de 14 milhões de acessos?

    Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo do seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira. Nem sequer é vítima da segurança ou da Justiça cubanas. Por isso, inventou a história das agressões. Insiste para que suas mentiras se tornem realidades.

    A resistência de Cuba ao bloqueio usamericano, à queda da União Soviética, ao boicote de parte da mídia ocidental, incomoda, e muito. Sobretudo quando se sabe que voluntários cubanos estão em mais de 70 países atuando, sobretudo, como médicos e professores.

    O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos de seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar o fato de 11 milhões de habitantes de um país pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados no saudável e alegre Buena Vista Social Club”.

    ——————————————————————————–

    Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

    Fonte: Adital

  24. ro Disse:

    CORREÇÃO:
    “NÃO CONSIGO MAIS ACEITAR estas MINORIAS que vivem no poder às custas das MAIORIAS”.

  25. samarone Disse:

    Temos mais uma contribuição ao debate, no blog da Flavia Suassuna.
    http://www.fsuassuna.blogspot.com
    Boa leitura.
    Samarone

  26. Silvana Campos Disse:

    Oi Samarone, tudo bom? Você já encaminhou esse teu post pro Frei Betto pra ver o que ele responde?
    Talvez falte mesmo a ele fazer uma viagem a Cuba por estes tempos.

    Abraço!

    Silvana
    esquinadasil.blogspot.com

  27. naire Disse:

    Pra temperar o debate:
    Acho que cada um deve externar o que pensa. Frei Beto tem um olhar sobre a “ilha” e Sama, outro. Portanto, ambos devem ter suas razões para apoiar ou não a ditadura Castrista.
    E viva a liberdade de expressão!

  28. André Melo Disse:

    Bacana, Naire.

  29. Yvette Disse:

    Sama, dê uma olhada lá no http://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/ para prosseguir o debate.
    bj

  30. Adrianacleao Disse:

    Liberdade de expressão é fundamental, mas há limites para tudo! Distorcer fatos, por exemplo, não é liberdade de expressão, é mentira.Lutar por uma sociedade mais justa, mais fraterna e igualitária é, também, combater de frente os fatos distorcidos veiculados por aí.

  31. André Melo Disse:

    Adriana, quem está distorcendo os fatos: Samarone ou Frei Beto?
    Pelo que sei, tanto um, quanto o outro, em face de suas convicções, luta por uma sociedade mais justa, mais fraterna, igualitária… Acreditam, também, “combater de frente os fatos distorcidos veiculados por aí.”

    Grande abraço.

  32. anonimo Disse:

    estou contigo.Valeu…

  33. naire Disse:

    Bingo, André!

  34. Adrianacleao Disse:

    André Melo,
    por tudo que leio sobre Cuba, por tudo que ouvi de amigos e pelo que presenciei em Cuba, tenho certeza que Frei Betto está distorcendo os fatos sobre a vida do povo Cubano.
    Quanto a lutar por uma sociedade mais justa, acredito na acomodação de Frei Betto. Já Samarone, não sei, e não pensei em dizer que “Samarone” lute por uma sociedade mais justa, mais igualitária (eu não o conheço pra dizer isso).
    O que penso é que liberdade de expressão é liberdade de expressão, mas quando se fala em fatos, registros, a história é outra.
    Estamos discutindo aqui porque este foi o assunto lançado neste “blog”, mas Samarone não é o único que foi à Cuba, são vários os que foram à Cuba, são várias as desilusões… A falta de perpectiva é grande, a falta de amor do Estado Cubano pelo seu povo é grande.
    Porque José Saramago cortou relações com Fidel? Fuzilamento? Foi. Este é um fato.
    Então, ouvir de um homem como Frei Betto tudo que ele disse, dói, e como dói.

  35. Renan Cabral Disse:

    Golaço de Sama! (…e, frango de Frei Betto.) Betto parece estar esquecido de parte importante da tradição crítica a qual é filiado. Debate importante.

  36. anônimo Disse:

    estou contigo.Valeu… tb

  37. roberto Disse:

    estão claras as intenções deste Samarone.

  38. roberto Disse:

    “Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo do seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira.”

  39. Fatimalins Disse:

    Todo direito e DEVER!

  40. Anna Disse:

    Sama, meu filho, você sabe que ao ler seu livro comentei que “o sonho acabou”. Sou da geração de Frei Betto, vivi os fatos do Batismo de Sangue, convivi com quase todos os amigos de “Zé”, inclusive tive alguns encontros com ele, e, como a grande maioria dessa geração (não aquela parte dos que apoiaram o golpe de 64) tive informações maravilhosas sobre o “socialismo” de Cuba. E era com isso que a gente sonhava para o Brasil. Alguns, infelizmente, estacionaram na história e mantiveram os olhos fechados ao endurecimento desse regime que se dizia do povo. Sei que você é um grande escritor, sei que se quisesse poderia criar um livro de muito mais páginas do que esse, de tanta polêmica, mas não há porque duvidar que aquelas cenas descritas (as velhinhas que vinham buscar leite, as galinhas que chegavam supercongeladas, a dificuldade de usar Internet)sejam verdade. Esse debate foi muito interessante mas acho que Frei Betto deveria receber essa página inteira, inclusive com os comentários de seus leitores, para ver a necessidade que ele tem de revisar, urgentemente, seus conceitos e até os locais onde se hospeda quando vai a Cuba. Estou com você.
    Um cheiro de mãe.

  41. samarone Disse:

    Não se sabe exatamente o número de presos políticos em Cuba. Talvez 200, talvez 250.
    Só essa dúvida já me causa horror.Os intelectuais de esquerda que bancam isso não falam do tema.
    Samarone.

  42. gustavo pedrosa Disse:

    sama, amigo do jornalismo. estou morando em são paulo desde março e tenho feito uma divulgação forte do teu blog. parabéns por este artigo amigo. e possível comprar teu livro sobre cuba pela internet? qual o endereço?
    um abraço?

  43. Paulo Amorim Disse:

    Caro Samarone, parabens pelo seu trabalho, principalmente por ter a coragem de revelar em publico as mentiras de Fidel e seus asseclas. Desde minha infancia eu sonhava com um mundo melhor e a soluçao era o socialismo. Hoje,muito decepcionado vejo que fui enganado pela propaganda dos ditadores cubanos com o apoio de Frei Beto, que nesse momento
    deveria vir a público contestar, com provas, as verdades escritas por você.
    Em caso contrario, concluiremos que Frei Beto não tem passado, presente e futuro.
    Parabens bicho. Você é o cara.
    Paulo Amorim

  44. Angelo Renzo Disse:

    O único vivente que conheço e que passou três anos na Ilha da Fantasia, e voltou lustroso é Tilden Santiago, ex embaixador brasileiro em Cuba. É verdade! Ele voltou gordo a ponto de estourar. Vivia na boa vida de brasileiro petista e amigo do regime ditatorial de Fidel. Talvez vivesse de run, mulatas e charutos. Da boa comida paga com dinheiro do contribuinte brasileiro, com a boca risonha bem aberta e de olhos, ouvidos e coração… bem fechados.

  45. Angelo Renzo Disse:

    leiam e vejam como foram distribuidos os despojos após a eleição de lula. No caso a embaixada do Brasil em Cuba, as palavras de Tilden dão a entender que serviu de prêmio, de recompensa e não como missão. A boa vida de três anos em Cuba, absurdamente contrastante com a vida canina dos cubanos, se fez notar na bela(?) pança de Tilden no seu retorno ao Brasil. Falo de Tilden como pderia ser de qualquer outro. Seu (mau) exemplo é gritante. Onde os direitos humanos?
    Leia e reflita:

    “Carrego na lembrança, apontamentos para um livro de memórias que nunca escreverei.
    Pouco antes das eleições de 2002, já se celebrava a vitória nas ruas centrais de Varginha: “Brasil Urgente, Lula Presidente”! A passeata eleitoral chegava ao fim. Tínhamos um intervalo de uma hora para iniciar o comício. Caminhava como candidato ao Senado ao lado de Lula. Ele sussurrou aos meus ouvidos: “Vamos esperar o comício molhando desde já a palavra…”
    _ “Lula, estamos crescendo nas pesquisas de semana para semana. É certo que você será nosso presidente e se esse ritmo de crescimento nas pesquisas continuar, já me sinto Senador de Minas e de você. Se isso não acontecer, como poderei contribuir com nosso governo? No Jequitinhonha, na Amazônia, no Velho Chico, No Pantanal, no Nordeste, Onde?
    _“Vou mandar você para a Palestina, onde você já viveu na juventude. Vamos criar lá nossa Embaixada”
    _”Mas então você vai ter de me arranjar uma metralhadora, porque lá é bala voando para todo lado”
    _”Não! Vou enviá-lo como mensageiro da paz.” Pensou um pouco antes de me revelar sua sugestão, que mais tarde virou determinação:
    _”Vou te mandar para Cuba, já que você é metido à socialista”.
    Um mês mais tarde, logo após o primeiro turno, Lula veio vitorioso a Minas, para agradecer o apoio de Itamar Franco. No palácio da Liberdade, ele me pegou pelo braço e se dirigiu ao governador: “Itamar, estou com dúvida atroz: não sei se mando see ex-secretário do Meio Ambiente para a Palestina, ou para Cuba.”
    _”Manda para a Palestina, ele já viveu lá, sugeriu o governador. Mas Hélio Costa já vitorioso para o Senado, entrou na conversa: “Ele é latino-americano, seu lugar é na Ilha de Fidel.”
    Algumas semanas mais tarde, com a vitória definitiva de Lula, foi da boca do Senador e amigo Aloísio Mercadante, que recebi a notícia: “Não se iluda, mineirinho. O ministério do Meio Ambiente já é de Marina e a Embaixada de Cuba, dependendo do teste no Senado, será sua.”
    Na semana passada, encontrei Marina em Brasília. Relembramos este e outros momentos felizes dos 30 anos de PT. Serei sempre reconhecido ao Presidente Lula pelos anos que vivi em Cuba, como Embaixador do Brasil. E também ao eleitorado mineiro, pelos quase três milhões e meio de votos que motivaram o gesto companheiro e generoso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

Conversinhas

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