Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Confras

16 de dezembro de 2009, às 13:07h por Samarone Lima

Estamos na metade de dezembro e pelos meus cálculos, perdi 15 confraternizações, 15 amigos secretos (não sei se o plural confere com o novo acordo da Língua Portuguesa, que não sigo), 15 rachas nas despesas e  15 grandes amizades descobertas na 15a saideira.

Nem a Campanha da Fraternidade traz tanta fraternidade. Até domingo, tenho mais quatro agendadas, fora a superposição de confras. Hoje, a de Seu Vital, no Poço. Sexta, a do trabalho, que Dona Hilda vem organizando há seis ou sete meses, com rara obsessão, na rua da Glória. Já confirmei presença 122 vezes. Domingo, o impasse emocional – confra dos Caducos F.C, a partir das 10h, e do Blog do Santinha, no bar Mamulengo. Nunca fui essa resistência toda com farras, de forma que, depois da confra dos Caducos, devo me retirar, que meus amigos não saibam. Fiquei sabendo da confra dos amigos do Ateliê, no sábado, mas como não fui convidado, não posso dizer que faltei.

De todas, a minha predileta é a que fazemos em Seu Vital, no Poço. Todos os frequentadores do ano chegam de mansinho, durante a semana, pegam o nome do amigo secreto, e aguardam a farra, comandada geralmente pelo gorducho Naná. Marca-se para 19h33, mas só começa na vera mesmo lá pelas 21h31. A mesa fica enorme, na calçada, e geralmente o céu está estrelado. O vento é obliíquo e cheio de reverberos. Quando a gente dá sorte, Xiló, Gerrá e Alessandra mandam brasa no forró.

Há sempre inumeráveis suspeitas quanto ao amigo secreto. Gente que tira um papelito e arrisca a sorte em outro, para buscar alguém mais amigo. Acho justificável. Uma vez, desconfiaram bastante de mim, quando eu fiz o tricampeonato. Tirei Seu Vital em 2003, 2004 e 2005. Foi só afinidade eletiva mesmo. Ontem fiquei sabendo que não deu para pegar o tetra. Por precaução, trouxe uma imagem do Padre Cícero, diretamente do Juazeiro do Norte, onde estive recentemente. Não deu para benzer.

Cada confra tem sua cara. A dos Caducos é também divertida pacas. Terminada a pelada, guardamos as bolas, chuteiras, meiões, distribuimos os padrões que serão lavados durante a semana, conferimos o caixa, olhamos quem pagou a cota da festa de fim de ano (este ano, ficou em R$ 10,00 por cabeça) e começa a brincadeira. Se Manguaça e sua turma estiverem, a Pitú vem logo para a mesa. Se ele não estiver, ocorre o mesmo. A sede é grande. Como R$ 10,00 dá direito a beber e comer à vontade, dá uma sede danada nos meus colegas de futebol. Os aperitivos no bar de Seu Abdias são: Galinha a cabidela, peixe frito (a sardinha, a R$ 1,50 é uma delícia), galinha comum, charque, macaxeira e guisado. A carne de sol é supimpa.

Pouco depois, começam as conversas sobre gaia e cornura, os dois temas principais. Naná chega lá pelas 10h10 e a resenha aumenta, com piadas e tirações de onda. Pouco depois, o brega entra de sola. O ruim é só que Maysa adora um sol alto e só resta ao sujeito beber, e beber mais, para não se aperrear muito do juizo.

A confra do Blog do Santinha, onde escrevo (www.blogdosantinha.com) é uma das mais complicadas do Brasil. A troca de email começa em meados de novembro, e até o grupo se definir pelo local, são 25 email por dia, naquele sistema louco em que todos recebem, e se um cara responder, vai para todos. Acertar a agenda é um mistério, porque o pernambucano é um ser muito ocupado – com outras confraternizações, claro. Além disso, as preferências de bares são as mais loucas, e se um dono de bar for consultado e não der a devida atenção, cai nos ostracismo. Este ano, venceu o mas fácil para todos – o Mamulengo, no Recife Antigo, digo, Bairro do Recife, desculpe aí, Naire.

Eu mesmo sou um sujeito muito repetitivo e sem criatividade. Por mim, faziam todas as confras do ano em Seu Vital ou em Seu Azevedo, no Princesa Isabel. A desvantagem de Vital é que o tira-gosto é só queijo ou queijo com mortadela, ou mortadela com queijo, ou só mortadela. São quatro tipos, tem molho inglês em cima, mas a pessoa cansa. Ah, sim, tem amendoim torrado, não deixa de ser uma opção.

Não sei se meus amigos do Princesa Isabel fazem confra, creio que sim. Se fazem, por enquanto não fui comunicado. Neste caso, não terei que discutir com ninguém sobre o lugar.

Azar mesmo tem meu amigo Diazepan, que ficou dois anos sem o presente, no amigo secreto de Seu Vital. É ruim a pessoa chegar com um presente, esperar a pessoa que tirou seu nome e voltar para casa de mãos abanando. Ele voltou contrariado da confra. Como ele faz parte da Confraria dos Amigos do Poço, posso até dizer que ele voltou “confrariado”. Vou bem perder um trocadilho.

Vou por aqui. Ainda vou comprar o presente de Dayse, mulher de Diazepan, que tirei este ano. A sorte é que ele está muito ocupado em ganhar dinheiro, não tem tempo de ficar lendo meus textos, continua sendo surpresa. Vou ver se compro para ela uma caixa de Diazepan. Só assim ela aguenta ele. Vai ser Dayzeepan.

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