Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O goleiro do Nápoli de 1987 e os pecados capitais

21 de dezembro de 2009, às 5:21h por Samarone Lima

Tenho alguns amigos que me obrigam a usar meu caderninho de notas a cada encontro. Vai a escalação: Cézar Maia, Giba, Ivanzinho, João Freire, Magro Valadares e Barreto. As conversas nunca ajudam em nada a humanidade. Não se discute Copenhague, governos, segregações, escândalos, crimes. Os temas mais inesperados surgem do nada, e ganham uma proporção diluviana.

Não sei de onde saiu a lebre, a dúvida existencial-futebolística mais importante deste final de 2009. João Freire e Giba começaram uma acirrada discussão sobre o goleiro do Nápoli de 1987. Um dizia que era Dino Zoff, o outro retrucou com veemência, citando um camarada que não lembro o nome. Pelo que fiquei sabendo, isso já vinha de uma discussão anterior, sem acesso ao Google. Longas e intermináveis contendas em torno do goleiro do Nápoli de 1987.

Estava na piscina, conversando com Barreto, quando chegou João, indignado.

“Barreto, o goleiro do Nápoli de 1987 não foi Dino Zoff?”

Barreto concordou, creio, acho que para não ter dor de cabeça.

Depois de muito vai e volta, fiquei sabendo que o Nápoli, no ano de 1987, tinha Careca, Alemão e Maradona no time. Essa eu vou levar para o currículo futebolístico. No ano em que cheguei ao Recife, com mala e cuia, o Nápoli era campeão nacional, com dois jogadores brasileiros.

Em conversas deste tipo, recomendo jamais, em momento algum, citar o nome de Romário perto de Giba. Ele vai citar todos os clubes onde Romário jogou, as jogadas, e em poucos minutos, estará de pé, imitando algum drible do baixinho genial. Uma vez, durante um jogo, Giba ligou para um amigo.

“Você viu esse drible do Romário?”

Dizem que ele falava com lágrimas escorrendo naquela pele cor de neve, onde, segundo ele, “só entra Dove”.

Não sei de onde surgiu a frase “Eu vim de mim mesmo”, algo assim (estou ficando cada vez mais esquecido), e a conversa trilhou de Nápoli para a questão dos apóstolos. Surgiu o desafio - alguém que soubesse o nome de todos. Somos um bando de cristãos de meia tigela. Ninguém passava de quatro ou cinco. Pedro, André, Felipe, Tomé, Thiago. Giba acrescentou Judas Escariotes e Judas Tadeu. Ivanzinho fez uma cara de sacristão e disse que sabia todos, começou numa pisada ótima, mas só acrescentou Ezequiel, lucas e João. Durante quase uma hora os nomes ficaram pulando de boca em boca, mas só conseguimos chegar a 11 nomes. Paulo foi colocado e tirado umas dez vezes, de formas que não sei se ele é apóstolo ou não, sei que meu irmão se chama Paulo.

Não vou nem falar das frases que saíram para minha “Antologia do Instante”, livro mais aguardado dos últimos anos. Giba, como sempre, deixou umas quatro ou cinco. O Magro Valadares soltou uma tão cabeluda, que não posso transcrever. Sei que alguns adolescentes leem este blog. Ele também revelou seu método – “Como derrubar um mentiroso em cinco minutos”, mas não entendi direito.

Tem outra turma de amigos que segue na mesma pisada, só que tem mais contadores de histórias que frasistas. É a turma do Poço da Panela. Naná, Boy, Iramarai, Seu Walter, Davi etc. Ontem, em meio a esse vendaval de confraternizações, encontrei Iramarai, Naná e Boy. Iramarai, aquele que caminha comigo, planejou nossa próxima aventura e me apresentou seu irmão, Iramaiarany, que veio de São Paulo.

A família, por sinal, é uma festa das vogais: Iramaiarany, Iramário, Iratemar, Iramarai, Iramair, Iramima e finalmente o modesto Ira. Os pais dessa turma, obviamente, se chamam Amaro e Iranete, e tiveram 16 filhos. Quando encontro algum irmão de Iramarai, respondo logo:

“Olá, sou o Iramaracujá”.

Uma vez, o irmão dele ficou puto com essa gracinha. Acho que era o Iramário ou o Ira. Rarara seria a primeira vez que eu veria um Ira irado.

Já na confraternização do Blog do Santinha, Geó, com aquele farol baixo dele, veio me dizer que um amigo ligou, tarde da noite, para perguntar quais eram os pecados capitais. Acho que Geó estava de ressaca, porque a pessoa só recebe este tipo de ligação quando está numa profunda, intensa e triste ressaca, prometendo a si mesmo que só vai beber depois do Natal. Mas o bom é que essas conversas surgem na mesa desfiando a realidade. O óbvio leva dribles a cada conversa fiada entre bons amigos.

Não lembro o que Geó respondeu, acho que elé só sabia uns dois ou três, de formas que começo esta semana natalina com duas dúvidas existenciais da maior monta: O nome do arqueiro do Nápoli, campeão de 1987, e os pecados capitais.

Como não sou homem de ficar me rendendo ao Google, espero ajuda dos meus leitores.

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